5. Centralidades Mediáticas
5.3. Comunidades Virtuais e Morfologia das Intranets
A existência de pelo menos uma comunidade em qualquer sistema social ou técnico é uma condição necessária para se verificar comunicação. Sem o efeito de ter algo em comum a pelos menos dois indivíduos ou duas entidades, não é viável a identificação de um código específico que permita a interacção comunicativa a esses indivíduos ou entidades. A comunidade é, portanto, um conceito essencial para a comunicação e para o mediatismo.
Do ponto de vista das técnicas de comunicação, pode existir uma comunidade apenas pelo facto de os seus membros partilharem o mesmo código. Ou seja, o código de comunicação pode ser o mínimo denominador comum de existência de uma comunidade e é suficiente para se verificar comunicação. Pode existir uma comunidade com muitas coisas em comum e sem partilhar um código de comunicação, mas não poderá haver comunicação sem um código em comum. Existindo este código comum, existe automaticamente comunidade, ainda que não se verifique a partilha de qualquer outra coisa.
Verificámos anteriormente que as comunidades podem ser formadas e mantidas na rede global, por exemplo, no âmbito das redes sociais. Estas comunidades, correntemente chamadas comunidades virtuais, possuem fundamentação não apenas social mas também técnica e mediática, como qualquer outra comunidade tradicional. No entanto, numa socialização formada e sustentada na rede global, o código de comunicação é não apenas o mínimo denominador comum mas também o máximo denominador comum. Ou seja, as hipóteses de socialização, neste caso, são previstas de acordo com a concepção inicial da lógica do programador e do código ou matriz de interacção.
Para que uma comunidade, designada como virtual, seja independente da dimensão mediática e se fundamente em partilhas que não se limitem à matriz e ao código interactivo, é necessário inteligibilizar as interacções e questionar a legitimidade
do próprio código, no sentido de determinar a comunidade de acordo com parâmetros específicos e pré-concebidos.
Nas comunidades estabelecidas em rede, comunidades virtuais, de acordo com a designação mais corrente, verifica-se, de facto, a formação de inteligências colectivas, as quais criam uma centralidade mediática própria. Essa centralidade tende a ser o produto do equilíbrio dialéctico entre a inteligibilização das interacções verificadas no interior da comunidade e a inteligibilização desenvolvida pelo sistema global, de acordo com a lógica do programador ou organizador do próprio sistema.
Perante estes elementos, além de tentar definir se todas as comunidades são reais e legítimas e se existem comunidades virtuais, no verdadeiro sentido do termo, teremos de procurar entender de que modo o estabelecimento destas comunidades influencia não apenas o desenvolvimento de padrões no interior da rede global, mas também a morfologia das intranets como redes unitárias dentro da rede global.
De acordo com Rheingold,231 as comunidades virtuais são agregações sociais
que surgem na rede global em circunstâncias específicas, nomeadamente quando se verificam condições para formar teias de relações pessoais em ambientes de natureza virtual, alterando de algum modo a identidade ou a personalidade dos membros participantes na referida rede.
Esta questão da identidade é essencial para definir a natureza das comunidades. Poderão identidades virtuais estabelecer comunidades de natureza tradicional ou apenas comunidades virtuais? Em paralelo com a questão da identidade, os conceitos de público e de privado constituem igualmente factores de condicionamento da formação de comunidades de uma forma geral. As próprias redes sociais estabelecem modos de selectividade e de compartimentação das relações em função de critérios específicos, os quais dependem do nível identitário que é possível definir para cada participante da rede privada, da intranet ou da comunidade virtual.
Originalmente, a rede global constitui um espaço público total em que o próprio terminal interactivo é definido pelo programador do sistema, também ele global. A fronteira entre o público e o privado era estabelecida unicamente pela identidade pessoal do utilizar, sendo tudo o restante gerido e coordenado de uma forma sistémica, de acordo com as identidades virtuais definidas para cada terminal ou para cada perfil de
231
utilizador. Do ponto de vista da técnica da comunicação, mais não seria necessário. Todavia, na perspectiva da cultura da comunicação, torna-se necessário inteligibilizar as interacções, compreendendo o seu funcionamento, assim como os limites e as potencialidades do sistema, de modo a estabelecer relações de equilíbrio com a comunidade.
As redes sociais, as comunidades virtuais e as intranets são, desta forma, centros mediáticos dinâmicos, temporários e voláteis, uma vez que dependem tanto dos indivíduos ou das entidades intervenientes, quanto da lógica central do programador do sistema global. A sua morfologia encontra-se, desta forma, em mutação constante, dependendo das relações de associação e de dissociação que permanentemente se estabelecem entre o meio interactivo global e cada um dos indivíduos em particular; cuja adesão a determinadas redes ou comunidades virtuais depende da sua própria relação sistema com os dispositivos mediáticos de que dispõem.
De um ponto de vista sistémico, uma comunidade virtual, fundamentada tecnicamente no conceito de intranet, pode ser observada como um espaço privado da Internet ou como uma mini Internet, dependendo da sua centralidade mediática em relação à rede global. Isto é, mais uma vez, unidade e centralidade mediáticas são duas faces da mesma questão e contribuem directamente para influenciar as dimensões e os modelos mediáticos; os quais, definitivamente, assumem relevância preponderante na determinação do paradigma mediático e sócio-comunicacional emergente como sistema de comunicação aplicável à chamada sociedade em rede.
Para Woolgar, « não devemos apoiar nem desacreditar o conceito de sociedade
virtual».232 Castells questiona: «no fundo, será que as comunidades virtuais são
verdadeiras comunidades?».233 O mesmo autor avança uma resposta: «sim e não. São
comunidades virtuais, mas não físicas, e não seguem os mesmos modelos de comunicação e interacção das comunidades físicas. São redes sociais interpessoais, na sua maioria baseadas em laços fracos».
Castells parece excluir o conceito de comunidade virtual da esfera da comunicação em sociedade, enquadrando-as na dimensão da comunicação interpessoal.
232
WOOLGAR, Steve. Virtual Society? Technology, Cyberbole, Reality, Oxford University Press, Oxford, 2002. (P. 9).
233
CASTELLS, Manuel. A Era da Informação: Economia, Sociedade e Cultura, Volume I – A Sociedade em Rede, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 2002. (P. 471).
De qualquer modo, torna-se preponderante identificar o nível de centralidade mediática de uma comunidade virtual para averiguar o seu grau de influência em termos de comunicação social ou de comunicação em sociedade. Efectivamente, uma comunidade virtual, uma rede social ou uma intranet em concreto, depende da dimensão da comunidade que lhe é relativa e, esta, determina o nível de centralidade mediática. Se a Internet for concebida como a intranet de uma comunidade global, haverá uma centralidade mediática superior a essa e, nesse caso, estaremos a referir-nos, de facto, a uma comunicação social, além de interpessoal?
Lévy lembra «que a palavra intranet designa a utilização de protocolos técnicos (TCP/IP) e serviços e de software típicos da Internet (Web, correio electrónico, fóruns, transferência de ficheiros, etc.) no interior de uma organização ou rede de
organizações».234 Com efeito, assim é. Porém, nesse caso, considerando uma
organização ou rede de organizações, como poderemos fazer uma distinção entre os conceitos de intranet e de Internet.
A definição de unidades mediáticas não será provavelmente suficiente para resolver esta questão, pelo que o conceito de centralidade mediática se torna fundamental para, no âmbito da sociedade pós mass-mediática e da chamada sociedade em rede, identificar a comunicação simplesmente interpessoal e a comunicação de natureza social.
Renninger, por outro lado, lembra que «as ligações dos participantes nas comunidades virtuais são afectivas e cognitivas, em vez de simplesmente espaciais e
temporais»,235 o que contribui para reafirmar a constituição de inteligências colectivas
como factor preponderante na formação de comunidades virtuais ou redes sociais. A inteligibilização da rede como sistema interactivo, e não apenas da rede como estrutura de interligação, revela-se determinante para analisar a questão das centralidades mediáticas, ou seja, da forma como a conjugação de informação com opinião constitui núcleos de influência, de conhecimento e de poder.
Para Guerreiro, «toda a tecnologia é social por excelência. Começa com uma
necessidade local e soluciona um obstáculo de desenvolvimento social
234
LÉVY, Pierre. Cibercultura, Instituto Piaget, Lisboa, 2000. (P. 139). 235
RENNINGER, Ann K.; SHUMAR, Wesley. Building Virtual Communities, Learning and Change in Cyberspace, Cambridge University Press, London, 2002. (P. 6).
universalizado».236 Esta concepção, partindo do particular para o geral, do local para o global, em termos de aplicação social da tecnologia, representa um modelo de comunicação em sociedade com múltiplas centralidades mediáticas, de acordo com as várias realidades locais e as especificidades das várias comunidades. Deixa, porém, em aberto a questão de saber se uma solução e uma centralidade comunicacional e mediática em particular poderão emergir como centralidade global, ou seja, como modelo para o sistema reticular como um todo.
De acordo com este autor, «a sociedade em rede será articulada pelo vínculo estabelecido pelas múltiplas comunidades virtuais que produzem o conhecimento e o
conteúdo digital».237 Esta articulação representa exactamente o sistema mediático que
opera sobre a rede como um todo. Poderemos, de facto, considerar vários sistemas mediáticos, correspondendo a diversas comunidades, com múltiplas centralidades mediáticas.
No entanto, a articulação entre esses sistemas ou essas comunidades pressupõe uma lógica sistémica sócio-comunicacional, a qual implica a existência de uma inteligibilização própria e um modelo de comunicação em sociedade definido em termos de domínio do conhecimento e do poder. Deste ponto de vista, o conhecimento do próprio sistema mediático, ou seja, dessa articulação entre comunidades, constitui por si mesmo uma centralidade não apenas mediática, mas também de conhecimento e de poder.
Segundo Lévy, «computadores em redes de computadores aparecem assim como a infra-estrutura física do novo universo informativo da virtualidade. Quanto mais se expandem mais aumentam a sua capacidade de cálculo, capacidade de memória e de transmissão, mais os mundos virtuais se multiplicam em quantidade e se desenvolvem
em variedade».238 Efectivamente, trata-se, no fundo, do princípio de formação das
chamadas inteligências colectivas, com base no qual se estabelecem não apenas centralidades mediáticas, mas também pólos de conhecimento e de poder, além das próprias inteligibilizações do sistema sócio-comunicacional.
236
GUERREIRO, Evandro Prestes, Cidade Digital: Info-inclusão Social e Tecnologia em Rede, Senac, São Paulo, 2006. (P. 170).
237
Idem (P. 132). 238
A morfologia das redes em geral e das chamadas intranets em particular, assim como das estruturas reticulares que suportam a formação de redes sociais ou comunidades virtuais, depende também da inteligibilização dos sistemas e das suas próprias centralidades, uma vez que, em última instância, são os dispositivos tecnológicos interactivos que, em interligação com os indivíduos, constituem formatos interactivos específicos.
A este nível, já praticamente nano-tecnológico, o padrão de interligação dos
dispositivos interactivos, independentemente de poderem ou não possuir
funcionalidades de interacção automática, constitui uma rede de influência e de poder sobre os indivíduos e as organizações sociais dos vários domínios e dos diversos
sectores, conforme analisa Shelley numa obra recente.239 A relação entre a comunicação
e o poder é preponderante não apenas na perspectiva tradicional, mas também na chamada sociedade em rede e na sociedade em rede sistémica.
Loader refere que «envolver-se no mundo da entreajuda e do apoio social on-
line significa entrar num espaço virtual que tem a qualidade de uma rede social
entrecruzada: um espaço não só pró e contra o Estado, mas simultaneamente um local
rico em vários outros tipos de ambivalência social».240 Com efeito, as comunidades
virtuais ou redes sociais, num processo de continuidade em relação às comunidades tradicionais, posicionam-se sistemicamente de forma a manter a independência e assegurar o equilíbrio relativamente aos indivíduos entre si e relativamente ao sistema social global. Os modelos de comunicação em sociedade e os meios ou dispositivos tecnológicos que lhes são subjacentes formatam-se ou são formatados de acordo com padrões que não ignoram estas relações de poder.
O percurso entre informação, opinião, influência e poder condiciona não apenas a formação das inteligências colectivas, mas também a constituição de centralidades mediáticas, de centros de difusão de dados, de informação, assim como de opinião. Segundo Mattelart, «a era da dita sociedade da informação é também da produção de estados mentais. É, pois, necessário pensar de modo diferente a questão da liberdade e
239
SHELLEY, Toby. Nanotechnology, Zed Books, London, 2006. 240
LOADER, Brian D. Apoio Comunitário Virtual? A Política Social e a Emergência do Apoio Social
Mediado por Computador, in Comunicação, Cultura e Tecnologias da Informação, Quimera Editores,
da democracia. A liberdade política não pode resumir-se ao direito de exercer a vontade.
Ela também reside no direito de controlar o processo de formação dessa vontade».241
Deste modo, na chamada sociedade em rede, ou sociedade virtual, tal como no paradigma mass mediático, a relação entre informação e opinião é determinante para a formação e a consistência das comunidades, virtuais ou não, e da reflexão ou inteligibilização do sistema sócio-comunicacional, também ele, virtualizado ou não.
Para o mesmo autor, «do homogéneo ao heterogéneo, do simples ao complexo, da concentração à diferenciação, a sociedade industrial encarna a sociedade orgânica. Uma sociedade/organismo cada vez mais coerente e integrada, em que as funções são cada vez mais definidas e as partes cada vez mais interdependentes. Nesta totalidade/sistema, a comunicação é uma componente básica dos dois aparelhos de
órgãos, o distribuidor e o regulador».242
Efectivamente, neste sistema total, nesta rede interactiva global, subsistem lógicas sócio-comunicacionais determinantes. A lógica do programador do sistema representa uma determinação codificadora inicial, potencialmente desactualizada no momento em que o utilizador coloca o sistema em interactividade consigo mesmo e com a sua realidade específica, neste caso, em interacção dialéctica com todas as restantes realidades interactivas.
Segundo Lévy, «podem distinguir-se três grandes categorias de dispositivos comunicacionais: um/todos, um/um, todos/todos. (...) O ciberespaço põe em funcionamento um dispositivo de comunicação original pois permite às comunidades constituírem progressivamente e de forma cooperante um contexto comum (dispositivo
todos/todos)».243 Estas três dimensões mediáticas e sócio-comunicacionais, enunciadas
por Lévy, são susceptíveis de gerar múltiplas centralidades mediáticas, assim como múltiplas comunidades virtuais ou redes sociais.
A chamada sociedade em rede é, no fundo, um dispositivo reticular global sobre o qual poderemos implantar os sistemas de comunicação que quisermos ou pudermos. Ainda assim, apenas o dispositivo todos/todos, referido por este autor, pode representar
241
MATTELART, Armand e Michèle. História das Teorias da Comunicação, Campo das Letras, Porto, 2002. (P. 156).
242
Idem (P. 14). 243
um modelo de comunicação social em concreto, passível de substituir o paradigma mass mediático e o paradigma da sociedade em rede, entendida como plataforma e não como sistema.
Ainda de acordo com estes autor, «um mundo virtual em sentido fraco é um universo de possíveis calculáveis a partir de um modelo digital. Interagindo com o mundo virtual, os utilizadores exploram-no e actualizam-no ao mesmo tempo. Quando as interacções têm o poder de enriquecer ou de modificar o modelo, o mundo virtual
torna-se vector de inteligência e de criações colectivas».244 É precisamente neste
momento, quando a lógica do utilizador enriquece e modifica o modelo, construído de acordo com a lógica inicial do programador, que se formam inteligências e criações colectivas geradoras de centralidade mediática e de transformação do modelo em verdadeiro sistema de comunicação.
«Se a tensão entre micro e macro percorre as sociologias interpretativas, também trabalha a economia política crítica da comunicação, que se interroga sobre a complexidade do laço que, na era das redes transfronteiriças, une ao espaço/mundo os
territórios particulares».245 Esta constatação reflecte, afinal, a essência da comunicação.
Ou seja, o cruzamento entre forma e conteúdo, entre geral e particular, entre objectivo e subjectivo, entre rede como plataforma e rede como sistema, entre lógica de programador e lógica de utilizador dos sistemas, entre rede social e inteligência colectiva, enfim, entre informação e opinião.
244 Idem (P. 80). 245
MATTELART, Armand e Michèle. História das Teorias da Comunicação, Campo das Letras, Porto, 2002. (P. 139).