CAPÍTULO III- DOCUMENTOS: A “VERSÃO OFICIAL” DA ADOÇÃO DAS
3.1 As Leis 10.639/2003 e 11.645/2008 como conquista e possibilidade de transformação
Em primeiro lugar, é necessário elucidar o que se pretende com o destaque “versão
oficial”. Compreendemos que os documentos disponíveis como as leis, resoluções, circulares,
entre outros, nos arquivos da universidade, se constituem como versões oficiais da realidade vivenciada pela comunidade acadêmica.
No que tange à adoção da política de cotas na Universidade Federal da Paraíba, podemos enunciar que são os documentos da Pró-reitoria de Graduação, do conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão e do Conselho Universitário que “contam” ou possibilitam, até então, o contato com o modo pelo qual essa política foi implantada no âmbito da UFPB.
Nesse sentido, precisamos refletir sobre esses documentos disponíveis, buscando apreender dentro dessa versão, como é descrito o processo, os atores e o modo pelo qual a adoção das cotas é legitimada pela UFPB.
Dentro desse contexto, é importante ressaltar Fonseca e Rocha, quando afirmam que;
Após a Conferencia de Durban em 2001, ainda que façamos ressalvas com relação à postura do Estado brasileiro como signatário das propostas, não podemos desconhecer a importância da sanção da Lei 10.639 no ano de 2003que alterando a
Lei 9394/96 torna obrigatória a inclusão da temática da “História e Cultura Afro- brasileira” e a criação da Secretaria Especial de Políticas da Igualdade Racial –
SEPPIR. (2010, p. 194)
Nesse aspecto temos ainda a Lei 11.645 de 2008, que altera a Lei 9394/96, modificada pela Lei 10.639/03, acrescentando a esta a temática indígena. Ambas contribuem no sentido de normatizar a obrigatoriedade de estabelecimento de práticas pedagógicas voltadas a discutir e abordar o caráter da diversidade na formação do povo brasileiro, sob um ponto de vista não mais eurocêntrico, mas que possa versar sobre a história e cultura de povos que por tanto tempo foram silenciados do nosso currículo oficial e dos debates no interior das instituições educativas.
Nesse aspecto, podemos falar do tratamento presente nessas Leis como extremamente necessário, uma vez que estas conseguem colocar à tona uma questão pertinente a ser debatida: a história e cultura de povos como os negros e os indígenas, favorecendo assim a reflexão e a discussão desse conteúdo no âmbito da educação básica e do ensino superior, o que de outra maneira possivelmente ficaria restrito às atividades isoladas de profissionais que vislumbrassem a importância da temática étnico-racial.
No que diz respeito às discussões na esfera do ensino superior, podemos evidenciar a experiência:
[...] optamos por construir, um grupo de discussão acadêmica, que se debruçasse sobre temáticas de Inclusão Social e Educação Étnico-Racial no curso de Pedagogia da UFPB. [...] como objetivo geral do grupo o caráter de implantar as efetivas contribuições decorrentes da promulgação da Lei Federal Nº 10.639/03, no curso de Pedagogia da Universidade Federal da Paraíba, instigando a capacitação docente e discente para a valorização da cultura africana e redução do preconceito racial. (ARAGÃO ET. AL. 2008, p. 243)
Dessa maneira, visualizamos as possibilidades de mudança do currículo oficial da educação básica e do ensino superior, contribuindo para a redução de representações negativas associadas à figura do negro, bem como dos preconceitos decorrentes dessas representações. Essas transformações curriculares são apresentadas quando mencionado que;
Essa intervenção almeja ser direcionada desde o Projeto /político-Pedagógico (PPP) do Curso, até medidas de acompanhamento e avaliação das concepções, posturas e práticas dos professores(as) e alunos (as) que serão os futuros docentes das series iniciais do ensino fundamenta, em nossa sociedade. (Op. Cit, p.247).
Estas intencionalidades coadunam com a preocupação de reorganização curricular nacional e com o que define o Art. 1º da Lei 11645/2008: “O art. 26-A da Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996 passa a vigorar com a seguinte redação: Nos estabelecimentos de ensino fundamental e de ensino médio, públicos e privados, torna-se obrigatório o estudo da história e cultura afro-brasileira e indígena”.
Dessa maneira percebemos a preocupação em se desmistificar ideias em torno do ensino oferecido na esfera da educação básica e do ensino superior, atendendo as demandas sociais que se fazem pertinentes à atualidade, das quais emerge a necessidade de combate a toda forma de discriminação, e mesmo àqueles preconceitos que são inerentes aos sujeitos sociais que não se identificam ou não conseguem construir uma identidade social frente à diversidade.
As referidas Leis constituem portanto, o esforço e o produto de uma luta que busca ser contrária a todo preconceito e discriminação existente na sociedade, apresentando a obrigatoriedade de se trabalhar numa perspectiva que visualize a grandeza da diversidade cultural brasileira, sem priorizar determinadas culturas e subalternizar outras, atendendo a necessidade de se debater sobre a participação de grupos na história da sociedade brasileira não mais sob um viés da exclusão, que reduz o papel de determinados grupos em detrimento de outros, caracterizando-os como de menor valor cultural.
Nesse intuito, são enaltecidos os papéis dos negros e índios como sujeitos ativos na construção da nossa sociedade, e sua contribuição em vários aspectos para a formação da nossa nacionalidade, como é ressaltado no Art. 1º, Lei 11645/2008, Parágrafo:
§ 1o O conteúdo programático a que se refere este artigo incluirá diversos aspectos da história e da cultura que caracterizam a formação da população brasileira, a partir desses dois grupos étnicos, tais como o estudo da história da África e dos africanos, a luta dos negros e dos povos indígenas no Brasil, a cultura negra e indígena brasileira e o negro e o índio na formação da sociedade nacional, resgatando as suas contribuições nas áreas social, econômica e política, pertinentes à história do Brasil.
Essa proposição, a ser apresentada no currículo oficial, assegura o acesso ao conhecimento da história de lutas e contribuições desses povos que colaboraram em grande medida para a construção do país, mas que, durante longo tempo ficaram restritos a uma
abordagem curricular superficial, uma vez que “[...] a maioria dos pedagogos (as) aprendiam
em sua formação inicial que deviam tratar da temática, associando-a as datas comemorativas, ou seja, relacionando-as ao ‘13 de maio’, quando muito, no ‘20 de novembro’.”(ARAGÃO Et. Al. 2008, p. 246)
É preciso dizer que, o currículo se modifica, portanto, a partir do estabelecimento dessas Leis, que asseguram um lugar de debate do negro e do índio na formação do povo brasileiro de maneira diferente do que lhe foi reservado ao longo da história. Salientando que,
“[...] depois das orientações e Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Antirracista
em todos os níveis de ensino, é que passaram a fazer parte do conteúdo adotado na
capacitação para profissionais da educação...”(Op. Cit, p. 245)
Essa mudança possibilita também a transformação de representações sobre estes grupos na atualidade. Pois permite a discussão e o combate a preconceitos na educação formal através de todo o currículo, em especial nas áreas de educação artística, literatura e história brasileira, supõe a construção de novos personagens sociais, com formas de pensar diferente, e, portanto, práticas também diversas.