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Imagens e representações: A ata da reunião que aprovou as cotas na

CAPÍTULO III- DOCUMENTOS: A “VERSÃO OFICIAL” DA ADOÇÃO DAS

3.3 Analisando os documentos encontrados no CONSEPE

3.3.2 Imagens e representações: A ata da reunião que aprovou as cotas na

A leitura do texto da ata da reunião extraordinária do CONSEPE, realizada em 30 de março de 2010, permite-nos estabelecer uma compreensão acerca das representações que estão envolvidas nesse processo de discussão. Precisamos destacar que esta é uma leitura da versão disponibilizada pela Ata da reunião que efetivamente aprovou as cotas, ou seja, discorremos acerca dos atores e suas falas destacados por este documento, uma vez que ele constitui-se como a versão que “oficialmente” conta como se desencadeou esse momento de decisão.

Primeiramente, observa-se que se faziam presentes, além dos membros deste conselho, representantes de entidades como o DCE (Diretório Central de estudantes), representantes do Movimento das Mulheres Negras, representantes da ASDEF (Associação de Deficientes e Familiares), da comissão dos Direitos Humanos, do SINTESPB (Sindicato dos Trabalhadores em Ensino Superior do Estado da Paraíba) e da UNE (União Nacional dos Estudantes).

Na oportunidade buscamos perceber as representações implícitas nos discursos sobre a política de ação afirmativa, mediante a Ata. É importante dizer que o próprio texto aqui analisado também congrega representações, uma vez que aquele que a redigiu também utilizou-se da seleção de informações contidas na discussão real vivenciada na reunião, priorizando aspectos das falas, ou destacando elementos que considerou pertinentes.

Nesse sentido, são percebidas posições no debate instaurado que, em sua maioria são favoráveis à efetivação do ingresso na universidade por meio da reserva de vagas, sendo de início posto em pauta pelo presidente do CONSEPE, a ponderação que indica a urgência da UFPB em assumir uma atitude frente a esta realidade de desigualdades social e educacional,

“[...] lembrando que o tema tem sido colocado em discussão com a sociedade e a comunidade

universitária há, pelo menos, quatro anos e que é chegado o momento de uma decisão por esse Conselho. (CONSEPE, 2010, p.1)

Havendo sido facultada a palavra aos demais membros do Conselho, são enunciadas algumas percepções a respeito da temática: dentre o representante do segmento discente, diretor do DCE, o representante do SINTESPB, o diretor da UNE, entre outros membros do CONSEPE que se pronunciaram, ou cederam sua fala a estes representantes mencionados, apresentam-se imagens da política de ação afirmativa na UFPB como “resgate de uma dívida

histórica” (CONSEPE, p. 1), “correção de uma injustiça histórica” (Op. Cit. p. 2), “passo histórico” (idem).

Ao mesmo tempo, a presença do Movimento de Mulheres Negras, espaço aberto através da concessão de fala do representante dos discentes, possibilitou o contato com dados reais que mostram o quadro de exclusão dos negros na academia enquanto docentes, bem como o panorama percentual de adesão a essas ações na esfera das universidades brasileiras:

Ela declarou que as universidades brasileiras já adotaram algumas ações afirmativas com recorte social, recorte étnico-racial, como forma de enfrentamento ao racismo e o acesso à universidade, passo fundamental para o exercício da democracia o pluralismo. Finalizou dizendo que menos de 1% dos docentes das universidades federais são negros. (CONSEPE, 2010, p. 3).

É interessante notar a relevância dessa defesa na medida em que percebemos que “A

vão circular de boca em boca ou pular de um veículo de comunicação a outro.” (JODELET,

2001, p. 20).

É nessa perspectiva que podemos identificar a pertinência da comunicação e discussão no âmbito da universidade, no interior dos grupos que correspondem às áreas abrangidas pelos centros acadêmicos, e sua ligação com a posição defendida no debate instaurado por ocasião desta reunião. Assim, entendemos as representações como “[...] sistemas de interpretação que regem nossa relação com o mundo e com os outros – orientam e organizam as condutas e as comunicações sociais. (JODELET, 2001, p. 22).

Nessa direção portanto, observamos o apelo à meritocracia como uma forma de representação do sistema de ingresso por cotas como um fator fortemente presente na esfera das discussões de alguns centros da academia. A exemplo do Centro de Tecnologia, que expressa o posicionamento do conselho de centro através da fala de seu representante, considerando injusto o acesso mediante as cotas, conforme a Ata: “é favorável as ações afirmativas que conduzam o justo acesso ao ensino superior pelo critério da meritocracia e não por sistema de cotas.

Também foi possível perceber o discurso das cotas como mecanismo que iria contribuir para a queda na qualidade da educação oferecida pela universidade, desconsiderando a exclusão a que já presenciamos na atualidade, pois afirma que;

“[...] a introdução do regime de cotas não representa solução para a desigualdade no

ensino.. a exclusão de estudantes melhores preparados no ensino privado devera levar à queda na qualidade dos cursos desta universidade. A solução deve vir de uma luta para melhoria do ensino fundamental para que os estudantes do setor público tenham acesso ao ensino superior. O conselheiro votou contrário a adoção do regime de cotas e que seu voto está fundamentado em reunião do centro onde o assunto foi discutido. (CONSEPE, 2010, p. 1).

Essa fala demonstra, sob um caráter menos explícito, a retomada do critério meritocrático, apoiando-se na ideia de melhoria da qualidade do ensino fundamental como alternativa cabível à solução do acesso ao ensino superior. Mas um aspecto que não fora citado é o caráter transitório pelo qual se orientam as políticas de ação afirmativa nas universidades brasileiras. Estas políticas preveem reserva de vagas ou sistema de bonificações (em algumas universidades), visando equilibrar a disparidade percebida nos dados quantitativos, no que diz respeito ao ingresso nos cursos de graduação das universidades públicas pelos grupos marginalizados, bem como promover uma mobilidade social a essa parcela, que em geral se encontra em cursos de menor prestígio social, quando inseridos no ensino superior.

Podemos, entretanto, pensar essas nuances nas representações acerca das políticas de ação afirmativa a partir do contexto social em que se inserem os sujeitos, como no caso da solicitação do representante da ASDEF, que sugeria o acréscimo na proposta de um “[...] dispositivo garantindo aos portadores de deficiência o acesso à UFPB pelo sistemas de cotas,

por serem, a exemplo de negros e índios, também discriminados na sociedade.” (CONSEPE,

2010, p. 2).

E assim, também considerar a relevância da linguagem e dos discursos como componentes da realidade, que corroboram para legitimar versões do real, entendendo a comunicação como primordial nos fenômenos representativos:

Primeiro, ela é o vetor da transmissão da linguagem, portadora em si mesma de representações. Em seguida, ela incide sobre os aspectos estruturais e formais do pensamento social, à medida que engaja processos de interação social, influencia, consenso ou dissenso e polêmica. finalmente, ela contribui para forjar representações que, apoiadas numa energética social, são pertinentes para a vida prática e afetiva dos grupos. Energética e pertinência sociais que explicam, juntamente com o poder performático das palavras e dos discursos, a força com a qual as representações instauram versões da realidade comuns e partilhadas. (JODELET, 2001, p.30).

Nesse âmbito, a comunicação constitui-se num papel de extrema relevância dentro do contexto das representações sociais, abrangendo a esfera da transmissão de linguagem, estruturante do pensamento social e responsável pela tessitura de representações, que estabelecem arquétipos da realidade, compartilhados por grupos e que determinam modos de agir, como nesse caso se posicionar através do voto.

Vimos, pela leitura desse documento, portanto, o qual representa o teor das discussões implementadas pelo CONSEPE, a fim de que se determinasse a posição da UFPB sobre a política de ação afirmativa que previa cotas sociais atreladas às cotas de recorte étnico, que predominaram as representações sobre cotas como reparações históricas e mecanismos de ajustamento social para com parcela da população que ainda nos dias atuais é excluída dos processos educacionais. Sobretudo quando se trata do acesso ao ensino superior e à inserção em cursos considerados de maior prestígio social ou que conduzem às carreiras com maior retorno econômico.

Contudo, há que se considerar também lacunas deixadas quanto ao contexto do centro que compreende que as cotas não representam solução para o panorama desigual no ensino, e que, como consequência dessa ação afirmativa através de cotas teríamos uma redução na qualidade do ensino superior, uma vez que a ata da reunião não explicita qual centro percebe tal situação. Ou quanto a posicionamentos apresentados sucintamente no documento.

Em linhas gerais, a “versão oficial” da adoção das cotas, ou o conteúdo presente nos

documentos que tratam sobre este tema na esfera da UFPB, nos oferece uma visualização na qual a Reitoria é percebida como o ponto de partida para as discussões realizadas em meio aos conselhos de centro e departamentos, e o processo em si não é detalhado, mas as discussões oportunizadas pelo registro em Ata da Reunião do CONSEPE, possibilita a percepção de um cenário de embates de grupos diversos em defesa de suas posições.

A partir desses documentos, portanto, podemos entender que a aprovação das cotas, em especial das cotas para a população negra na UFPB, se iniciou com a provocação de debates mediante a análise de uma proposta inicial da Pró-Reitoria de Graduação focalizados nos vários centros, teve como fato relevante a aprovação do Projeto UFPB-REUNI nesse mesmo período e culminou com a aprovação pelo CONSEPE, numa reunião extraordinária, na qual o debate se estabeleceu com a participação de vários segmentos, como os estudantes, representantes dos vários centros, sindicato, movimento de mulheres negras, entre outros.

Mas é preciso também considerar outras vozes nesse percurso, possibilitando o contato com uma versão que não está registrada nos documentos oficiais da universidade, mas que se encontra submersa nos discursos e nas memórias daqueles que efetivamente tiveram uma participação nesse processo. É necessário ir além dos documentos oficiais e perceber através dos sujeitos o processo em si, como ele se estabeleceu, o que discutiam, como foram sendo tomadas as decisões e o que foi preponderante no desencadeamento dessa aprovação. Versar sobre a adoção das cotas para a população negra na UFPB numa outra perspectiva, que ultrapassa a visão sintetizada dos documentos oficiais.

4. CAPÍTULO IV- PONTOS E CONTRAPONTOS: O DEBATE SOBRE COTAS