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AS LEIS E OS NOMES

No documento Os prenomes no Cartório de Itapuã (páginas 35-37)

3 O CARTÓRIO DE ITAPUÃ E O NOME CIVIL

3.2 Registro Civil no Brasil

3.2.1 AS LEIS E OS NOMES

Mesmo com a formalização legal, por parte do governo, da prática de atos de registros vitais, não há indícios de critérios específicos, levando em conta a função a ser exercida, para a escolha daqueles que ocupariam o cargo de Oficial do Registro Civil, pessoa responsável pela aceitação e inscrição do nome de forma oficial no Livro de Registro de Nascimentos.

Os indícios apontam claramente para a indicação por critérios políticos, sem que fosse relevante para a ocupação da função a formação do registrador ou suas habilidades de leitura e escrita, como se pode depreender do Decreto nº 9886, de 7 de março de 1888, assinado pela Princesa Imperial Regente:

Art. 7º Nas colonias estabelecidas em logares onde não estejam ainda creados os empregados de que trata o art. 2º, e que ficarem muito distantes delles, serão incumbidos dos livros do registro civil, sob a immediata direcção e inspecção dos Directores das mesmas colonias, os empregados que os Presidentes das Provincias designarem.[...] (BRASIL, 1888).

Conforme explicita o decreto, os presidentes das províncias é que designavam aqueles que seriam os registradores dos Cartórios de Registro Civil. No Brasil onde a educação sempre foi precária e pouco acessível – principalmente no período estudado – pode-se supor que as pessoas designadas para os cargos de oficiais de cartório nem sempre tinham formação acadêmica ou nível maior de letramento, daí pode-se perceber a presença da subjetividade e a ausência de critérios mais sistemáticos para a escrita e, também, para a aceitação de alguns nomes.

Um excelente exemplo de subjetividade por parte do registrador do Cartório de Itapuã é o termo de registro número 9, de 1898, em que o escrivão Manoel Lucio de Sousa registra Maria dos Praseres. Além de pôr sobrenome, o que ocorre em todo o livro em apenas vinte e quatro termos, ele ressalta: “...minha netta, filha de minha filha...” (Livro 01-A, fl.129. n. 9).

Apesar das preocupações formais da Igreja e do Estado com os atos de nascimento, casamento e óbito, jamais houve qualquer menção direta em ordenações, regulamentos ou leis, aos critérios para aceitação ou escrita de antropônimos, ficando implícito que um dos critérios para a aceitação de nomes que fugissem das origens mais comuns – latino-cristãos, germânicos e hebraicos, mais constantes no corpus analisado – era a subjetividade do oficial, que tinha a prerrogativa de aceitá-los ou não.

Esta subjetividade ficaria explícita em julho de 2007, através de um fato amplamente noticiado pela mídia. Ramos (2007) evidencia no Jornal A Tarde, de Salvador, que o senhor

Josuel Soares Queiroz, afrodescendente de Salvador, Bahia, dirigiu-se a um cartório de registro civil para registrar sua filha com o nome Iyami Ayodele, de origem iorubá, cujo significado é, de acordo com a reportagem, “minhas mães ancestrais” e “alegria da casa”, respectivamente. Teve o seu direito negado pelo oficial do registro civil, que se utilizou do único argumento que a lei lhe faculta: recusar-se a registrar nomes que possam expor seus donos ao ridículo, de acordo com o artigo 50 da Lei 6015 (BRASIL, 1973). Esta negação seria um dos indícios que justificam a ausência nomes africanos ou indígenas no corpus analisado.

Mas esta preocupação mais pontual com os antropônimos a serem adotados em registro só ocorreria no século seguinte, em 1973, quando foi promulgada a lei acima citada que iria tratar de diversos aspectos da vida civil e fazia menção diretamente, pela primeira vez, ao prenome. A Lei 6.015/73, de 31 de dezembro, dispõe sobre os registros públicos, por isso é denominada Lei dos Registros Públicos. Como assinala Ceneviva (1995), o Artigo 50 da referida lei aborda o assunto, inicialmente, de forma geral:

Art. 50. Todo nascimento que ocorrer no território nacional deverá ser dado a registro, no lugar em que tiver ocorrido o parto ou no lugar da residência dos pais, dentro do prazo de quinze dias, que será ampliado em até três meses para os lugares distantes mais de trinta quilômetros da sede do cartório (BRASIL, 1973).

Mas em outros artigos a referida lei faz menção direta ao prenome. A redação original do Art. 58 estabelecia o prenome como imutável, mas o parágrafo único do mesmo artigo permitia a retificação do prenome quando fosse evidente o erro gráfico e, também, a requerimento do interessado e mediante sentença do juiz, no caso de prenomes que causassem constrangimento ao seu portador:

Art. 58 O prenome será imutável. Parágrafo único. Quando, entretanto, for evidente o erro gráfico do prenome, admite-se a retificação, bem com a sua mudança mediante sentença do Juiz, a requerimento do interessado, no caso do parágrafo único do artigo 56, se o oficial não o houver impugnado (BRASIL,1973).

Este Artigo foi alterado pela Lei n° 9.708, de 18 de novembro de 1998, que diz que o prenome será definitivo, mas poderá ser substituído por apelidos públicos notórios, podendo mudar também em caso de fundada coação ou ameaça decorrente da colaboração para a apuração de crime.

O Artigo 58 Da Lei 6015 passou a ter a seguinte redação: "O prenome será definitivo, admitindo-se, todavia, a sua substituição por apelidos públicos notórios”.

Dando continuidade à prerrogativa de proteger o nome – e especificamente o prenome – esta lei tem outro item que merece ser destacado. Trata-se do Art. 55, no seu Parágrafo Único, que diz:

Os oficiais do registro civil não registrarão prenomes suscetíveis de expor ao ridículo os seus portadores. Quando os pais não se conformarem com a recusa do oficial, este submeterá por escrito o caso, independente da cobrança de quaisquer emolumentos, à decisão do Juiz competente (BRASIL, 1973). Como se vê, este parágrafo – de legislação vigente – não só confirma a intenção de proteger especificamente o prenome, mas também abre uma lacuna de subjetividade permissiva quando se refere à recusa em registrarem-se “prenomes suscetíveis de expor ao ridículo seus portadores” e deixa a cargo dos registradores a livre interpretação daquilo que podem considerar como prenomes que possam expor seus donos ao ridículo. Este parágrafo do Art. 55 apresenta-se como única referência a algum critério para escolha e aceitação do prenome a ser registrado.

No documento Os prenomes no Cartório de Itapuã (páginas 35-37)