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AS MEMÓRIAS DA ORGANIZAÇÃO E A RESPONSABILIDADE

No documento danielcunha (páginas 34-39)

2 AS ORGANIZAÇÕES COMO AGENTES SOCIAIS POR MEIO DE SUAS

2.4 AS MEMÓRIAS DA ORGANIZAÇÃO E A RESPONSABILIDADE

“Nossas intenções para o futuro estão baseadas no passado, sem memória nós não conseguimos vislumbrar nada, pois como saberíamos o que ver?”

As organizações modernas, finalmente, descobriram que sua imagem e identidade são construídas a partir de suas ações e, conseqüentemente, refletem as suas atitudes. Não é mais possível simplesmente existir. É preciso agir, posicionar- se e assumir as suas responsabilidades junto ao público interno e à comunidade. Tal como explana Paulo Nassar, “a sua história traduz a identidade da organização, para dentro e para fora dos muros que a cercam.” (NASSAR, 2004, p. 21)

Nos dias atuais, tornou-se primordial aliar os negócios à história. Contudo, via de regra, todo esforço empregado na investigação histórica tem sido mal ou pouco aproveitado. Normalmente, os trabalhos neste sentido resultam somente em livros e folhetos divulgados para o público em geral ou oferecidos como material promocional a clientes selecionados, ou ainda, os dados e fatos relevantes para a história da respectiva organização acabam sendo apenas disponibilizados na internet, com função meramente informativa. O uso do produto resultante do trabalho de pesquisa da história organizacional como um veículo de marketing é inteiramente legítimo, no entanto, perde-se uma excelente oportunidade de se abordar a questão de maneira bem mais ampla e aprofundada.

As organizações precisam rever sua trajetória, descobrir suas origens, enfim, saber valorizar as suas experiências passadas, tenham sido estas positivas ou não. Ao trilhar este caminho, mais do que uma estratégia de afirmação de marca ou de valores, a organização estará buscando reconhecer-se também numa posição de sujeito histórico, como parte ativa da sociedade. Esta inserção ocorre a partir do momento em que se compreende o valor da memória empresarial, ou institucional, que irá estreitar os laços da organização, tanto com a comunidade interna, quanto externa, despertando sentimentos de pertencimento.

Sobre a relevância estratégica de se conhecer e preservar a memória institucional, Nassar aponta, de forma sintetizada, os principais benefícios à organização:

a) Fortalece o sentimento de pertença das redes de relacionamentos com a sociedade, principalmente com os empregados e a comunidade;

b) É condição fundamental para a gestão do conhecimento; c) É condição fundamental para a boa reputação organizacional; d) Faz a mediação entre passado, presente e futuro;

e) Promove a preservação e a difusão do capital emocional, intelectual e do patrimônio técnico e informativo;

f) Preserva e difunde o patrimônio intangível da organização (cultura, identidade, marca,...). (NASSAR, 2007b)

Corroborando com os benefícios apresentados por Nassar, Karen Worcmam, historiadora e diretora do Instituto Museu da Pessoa, reforça a importância e indica o caminho para se trabalhar a memória da organização:

Trabalhar a memória empresarial não é simplesmente referir-se ao passado de uma empresa. Memória empresarial é, sobretudo, o uso que uma empresa faz de sua história. E dependerá da forma de perceber e valorizar sua própria história que as empresas podem aproveitar (ou perder) a oportunidade de utilizar essa ferramenta fundamental para adicionar mais valor à sua atividade. A história de uma empresa não deve ser pensada apenas como resgate do passado, mas como um marco referencial a partir do qual as pessoas redescobrem valores e experiências, reforçam vínculos presentes, criam empatia com a trajetória da organização e podem refletir sobre as expectativas dos planos futuros. (WORCMAM, apud NASSAR, 2007a, p. 90).

Para se aprofundar na temática da memória empresarial, não se pode deixar de analisar e compreender um conceito bastante moderno e ainda pouco observado e aplicado por grande parte das organizações, a responsabilidade histórica. Neste contexto é importante ressaltar a atuação da Aberje, Associação que vem tendo papel destacado ao patrocinar debates e publicações voltados ao assunto. Como atual diretor-presidente da Aberje, Paulo Nassar (2007a, p. 25), em seu recém lançado livro “Relações Públicas na construção da responsabilidade histórica e no resgate da memória institucional das organizações”, enfatiza que:

Um dos principais objetivos da entidade, nesse campo, é demonstrar a importância da história como processo de autoconhecimento das organizações, o que promoverá o entendimento de suas origens e sinalizará caminhos para o futuro, mas, principalmente, pontuará sua responsabilidade e registrará seu legado para a comunidade (DAMANTE, 2004, p. 28). Essa compreensão, pelos gestores de uma organização, de seu papel histórico na sociedade, dentro de seu segmento de negócios, dentro de sua

comunidade e para os seus integrantes, é o que se denomina responsabilidade histórica. Como os indivíduos são cidadãos sociais, as organizações são personagens históricos, mesmo sendo vistas, habitualmente, mais sob o aspecto econômico.

Ainda de acordo com Nassar (2003, p. 54):

A história empresarial transformada em comunicação – interna e externa – fortalece a identidade da empresa com a sociedade. A responsabilidade histórica é, ao lado, da responsabilidade social e ambiental, um elemento fundamental para a transcendência organizacional. O processo em que a empresa comunica aos seus públicos, ao mercado, suas boas credenciais.

O caminho da responsabilidade histórica adveio da inter-relação entre três campos, até então, geridos de forma independente nas organizações brasileiras, que são as relações públicas, comunicação organizacional e história organizacional. Estas áreas são responsáveis, quando contam com o aval da alta administração, por responder às diversas dimensões relacionais das organizações e, por conseguinte, precisam estar preparadas para atender às demandas da sociedade.

As organizações contemporâneas têm um grande desafio pela frente, buscar sua legitimidade perante a comunidade. No mundo moderno e globalizado a sociedade, mostra-se bastante consciente e atenta aos seus hábitos, promovendo uma nova lógica de produção e consumo muito mais responsável. Este novo comportamento, não só torna-se mais comum a cada dia como vem sendo cobrado, pela sociedade, que as organizações também desempenhem este papel. Novas regras de conduta estão sendo impostas e devem ser observadas pelas organizações que pretendem sobreviver aos novos tempos. Novamente citando Nassar (2007c):

O consumidor passa a impor às empresas, organizações e a si mesmo - como condição para estabelecer uma relação regular, saudável, duradoura e benéfica - questões de natureza econômica, social, ambiental, histórica e cultural, observadas ou percebidas nas atitudes das organizações, que, então, são cobradas pela coerência e responsabilizadas por seus atos. Chamam isto de sustentabilidade, um valor percebido pela sociedade, se dá por meio do equilíbrio entre quatro requisitos básicos presentes em qualquer empreendimento humano: ser ecologicamente correto; economicamente viável; socialmente justo; e culturalmente aceito. Mas para

que haja sustentabilidade e para que a organização obtenha êxito na sua legitimação perante a sociedade, é preciso recorrer à mãe de todas as responsabilidades, aquela que pariu a responsabilidade social empresarial e a própria sustentabilidade, ambas citadas por 10 entre 10 empresários. A convergência das responsabilidades empresariais se dá sob o guarda- chuva da Responsabilidade Histórica Empresarial, que reúne as responsabilidades comercial, legal, ambiental, cultural, social etc.

Portanto, conforme demonstra o autor, as organizações, na atualidade, precisam responder prontamente aos anseios da comunidade para se legitimarem perante esta. E o ponto de partida é assumir a sua história com os erros e acertos passados, presentes na memória institucional, que pautarão as suas ações futuras. Para tanto, é preciso compreender o moderno conceito de sustentabilidade apresentado acima, que propõe o equilíbrio entre as dimensões econômica, cultural, social e ambiental, o qual deverá balizar o planejamento estratégico das organizações.

Basicamente, é uma proposta plausível para as organizações poderem coexistir, mantendo as suas expectativas mercadológicas, com a sociedade e o meio ambiente. Desta forma, conquistarão a tão buscada fidelidade de seus consumidores e o respeito dos demais públicos, construindo uma imagem positiva para sua marca, além de uma reputação sólida.

No documento danielcunha (páginas 34-39)

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