Não existe a pretensão de se apresentar neste trabalho uma versão definitiva de uma história tão próspera e rica em detalhes quanto à do Banco Bradesco, renomada instituição, que tanto cresceu desde sua origem, alcançando a liderança do segmento bancário brasileiro. Entretanto, cabe acrescentar alguns detalhes, sutilezas que se perderam ao longo dos anos, mas que podem e devem ser resgatadas, como uma forma de se atuar com responsabilidade perante a sua história.
O Bradesco, originalmente Banco Brasileiro de Descontos, ao transformar, ou, simplesmente, omitir fatos de seu passado, estará agindo com incoerência em relação aos preceitos da boa governança corporativa, que pressupõe a ética e transparência como os seus pilares, características que norteiam a política de gestão da organização. Em função da vasta influência que sempre exerceu a figura expressiva de Amador Aguiar foi galgada à posição, que não lhe cabe, de fundador, de agente idealizador e executor da criação desta instituição.
Entretanto, apesar de sua incontestável atuação à frente da organização, de todas as honras que recebeu, com todo o mérito que lhe são devidos, o papel de fundador não lhe pertence, não lhe é devido por direito como se propaga. O fato de estar presente desde o início, não o torna maior em seu papel histórico, não lhe outorga tal título, não muda sua condição inicial. O banco originou-se de uma instituição consolidada, a qual já estava executando o projeto, em vias de ser concretizado, que objetivava transformar-se de Casa Bancária Almeida & Cia para Banco Brasileiro de Descontos, mais tarde denominado Bradesco, quando surge em cena a figura de Amador Aguiar. Este é um ponto importante deste projeto, pois Amador Aguiar desde o início de sua jornada, assumiu o personagem, calcado no mito do fundador, que incorporou um discurso e toda uma alegoria simbólica. Neste contexto mítico, por meio de rédeas firmes a organização construiu a sua cultura, formou o seu caráter, crenças e valores que a norteiam ainda hoje.
É importante destacar a atuação de Aguiar, pois ao entrar num ambiente de empresa familiar buscou o seu espaço e soube impor as suas verdades. Por força de seu carisma, espírito empreendedor e, porque não, grande ambição, galgou posições e fez valer a sua ideologia pessoal. Esta capacidade de liderança, mesmo antes de assumir a presidência do Banco, orientou suas crenças e valores, refletidos no inconsciente coletivo da organização. Assumiu-se o arquétipo, que possibilitou aparecer o mito na figura do herói.
A própria história de vida de Amador Aguiar é construída sob referenciais míticos. O jovem de origem humilde que vence na vida. Este é um mito norteador de toda política de recursos humanos da organização desde seu início. Todos devem “começar por baixo” e “todos podem chegar lá, vencer”. Mitos organizacionais que estão presentes e são somados aos diversos ritos. A exemplo do ritual de iniciação, da assinatura do certificado de compromisso, com todo referencial e carga simbólica que este reserva.
Esta pesquisa constatou que oficialmente não se divulga, não é feito um trabalho de conservação e exposição referente ao período da história do Bradesco anterior à presidência de Amador Aguiar. É importante destacar que Aguiar, após passar por diversos cargos dentro da estrutura organizacional, só assume a presidência do Bradesco em 1963, quando o banco já era, inclusive, líder de mercado. Portanto, outros líderes citados neste estudo, também desempenharam papel relevante na história da organização, inclusive tendo o mérito de reconhecer em Aguiar o potencial de grande gestor, dando-lhe poder e espaço para desenvolver e aplicar sua ideologia de trabalho.
Desde os primeiros anos de atividade da organização, existe um forte trabalho de associação da imagem do Bradesco à figura de Aguiar. Com freqüência os grandes veículos de comunicação, jornais e revistas de grande circulação, escrevem, eventualmente, matérias relacionadas ao Bradesco e à sua história onde sempre aparece a figura de Amador Aguiar como o grande estrategista e principal líder da organização ao longo de sua trajetória, o que de fato é incontestável. Todavia, denominá-lo fundador do Bradesco é uma criação, um desvio da realidade,
conforme se pode comprovar através de documentos, alguns apresentados nos anexos deste projeto de monografia. Ademais, certos veículos não apenas divulgam esta informação incorreta, como já apresentaram versões fantasiosas para tentar reproduzir parte da história do início desta instituição.
A Revista Isto É, descreveu a seguinte narrativa histórica, em matéria sobre a vida de Amador Aguiar:
Em 1943, o projeto de virar banqueiro começou a se concretizar quando, com amigos, adquiriu a Casa Bancária Almeida, um banco falido de Marília (SP). A instituição ganhou de imediato um novo nome: Banco Brasileiro de Descontos, o Bradesco. No dia da inauguração, a morte repentina do sócio escolhido para dirigir o novo negócio fez de Amador Aguiar o diretor- presidente. Além de plenos poderes, foi agraciado com um terço das ações do banco, que, por sinal, naquele momento, nada valiam. (REVISTA ISTO É, 2008)
Posteriormente, após apurar que as informações estavam equivocadas, publicou a errata a seguir:
Ao ser contratado como diretor-gerente da Casa Bancária Almeida, de Marília, Amador Aguiar recebeu 10% das ações e não um terço delas; na ocasião, a instituição já se chamava Bradesco e não estava falida; em 1951, Aguiar assumiu a superintendência e só se tornou presidente do Bradesco em 1969, em substituição a José da Cunha Jr., genro do fundador do banco, José Galdino de Almeida. (REVISTA ISTO É, 2008)
Fica evidente o completo descaso com que é tratado este período da história do Bradesco, divulga-se, sem compromisso com a realidade, uma série de informações errôneas, que posteriormente são retratadas, porém sem o mesmo destaque. Criou-se uma estratégia de reforço do mito, que faz uso recorrente de diversas mídias e diferentes canais de contato com os mais variados públicos, para se propagar uma narrativa histórica construída que omite alguns fatos relevantes e distorce outros tantos.
Foi observado no Museu Histórico do Bradesco, localizado na Cidade de Deus, sede da Matriz da organização, em Osasco, município de São Paulo, que tudo que é exposto no local tem uma relação direta com Amador Aguiar, ou seus
sucessores. Todo período anterior à sua presidência ou não é mostrado, ou aparece camuflado. Não se divulga, por exemplo, o nome dos primeiros diretores-presidente do Bradesco e nada relacionado às suas gestões. Como a foto da primeira assembléia de acionistas, que é mostrada sempre sem legendas e, portanto, não identifica figuras importantes retratadas na imagem, como o próprio Amador Aguiar, além de José Alfredo de Almeida, presidente nessa época, e José da Cunha Junior, segundo executivo a assumir a presidência da instituição, até o ano de 1963, quando, efetivamente, passou este cargo a Amador Aguiar.
Portanto, é importante evidenciar essa questão, pois este estudo trata da cultura organizacional do Banco Bradesco S.A. e de sua história, assim como dos valores atuais da organização, que se confundem com a própria história de vida desta figura emblemática, Amador Aguiar. Não é posta em duvida, sua relevância extrema e capacidade excepcional na conduta da empresa. Ao passo que continua sendo, ainda hoje, o mito por trás dos valores e princípios que dão o norte da cultura e política desta organização. Mesmo não sendo o primeiro e único, concedendo o devido crédito, foi o principal dirigente a conduzir esta instituição à posição de destaque que ocupa no mercado desde a década de 50, como o maior banco brasileiro.
Com o objetivo de se levantar as informações e dados necessários para um resgate mais preciso da história da Organização Bradesco, foram pesquisados diversos livros, em especial o livro editado pelo Museu da Pessoa, intitulado “Educar para o futuro – Fundação Bradesco 50 anos – 1956-2006”, obra construída a partir da memória individual e coletiva de funcionários e ex-funcionários da organização, através da metodologia de entrevista e depoimentos, que constituem a base da história oral, além publicações diversas e sites de internet, incluindo o site institucional do Banco Bradesco.
Portanto, o principal intuito deste projeto é resgatar e trazer a luz fragmentos de uma história de sucesso. A partir dos conceitos expostos, que foram fundamentais para se tentar compreender os múltiplos caminhos para construção e
gestão de uma organização, conhecida por sua solidez e capacidade de manter-se sempre a frente de seu tempo.
Como proposta, a exemplo de outras instituições que já tomaram este rumo, a Organização Bradesco, pode planejar e executar um trabalho de pesquisa e criação de um centro de memória. A memória, diferente da história, é viva, dinâmica, além de possuir a qualidade de reforçar o senso de pertinência, importante para o grupo social. Seria uma ótima oportunidade para potencializar um ativo simbólico e emocional, que reforçaria a identidade, refletiria a imagem e aumentaria a reputação da Organização Bradesco. E o melhor, a matéria-prima pode ser encontrada dentro de casa.
A história de uma instituição tão importante em âmbito nacional, como o Bradesco, é muito maior do que própria organização e não pertence só a ela, pertence a todos que de alguma forma se relacionaram e estiveram presentes em algum momento dessa trajetória. A área responsável pela comunicação, através das ferramentas de que dispõe e dos canais internos e externos que controla, pode e deve ter uma atuação responsável. O Bradesco sempre pautou a sua atuação com respeito aos seus públicos de interesse e à sociedade de modo geral.
Portanto, o Bradesco, ao fomentar um processo de preservação de sua memória e resgate de sua história, tem uma grande oportunidade para quebrar alguns paradigmas e se modernizar. Ademais, estará em sintonia com os preceitos de seu projeto de governança corporativa que prevê uma gestão pautada na ética e transparência. Desta forma, manterá forte sua cultura, preservando a sua identidade.
“O resgate da memória empresarial consolida os mitos, as lendas, os marcos fundadores e os heróis que fazem parte da trajetória de cada empresa. Quando a empresa não trabalha a sua memória ela corre o risco de perder um patrimônio, parte fundamental de sua identidade.”
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