3.2 A ESTRUTURA DE ATUACÃO DA EMBRAPA NOS PROJETOS DE
3.2.2 As Modalidades de Cooperação Internacional na Embrapa
Os projetos de Cooperação Internacional da Embrapa podem ser classificados de acordo com o número de participantes do projeto – bilateral e multilateral -, e de acordo com s assuntos e objetivos que apresentam – projetos de cooperação técnica, projetos de cooperação cientifica e tecnológica, e projetos de cooperação financeira. A seguir, será caracterizada cada uma destas modalidades.
Figura 3 - Organograma da estrutura e atividades da Secretaria de Relações Internacionais (SRI) da Embrapa.
3.2.2.1 A Cooperação Bilateral
A Cooperação Internacional na modalidade Bilateral refere-se àquelas entre Governos ou Instituições
As relações de cooperação técnica entre o Governo brasileiro e outros Governos se formalizam por intermédio de tratados internacionais denominados, geralmente, Acordos Básicos de Cooperação Técnica, ou Acordos de Cooperação para o Desenvolvimento. Com base em um Acordo, podem ser definidos, de forma conjunta entre o Brasil e o país parceiro, programas e projetos de cooperação técnica.145
Os projetos de Cooperação Internacional na Embrapa se caracterizavam, inicialmente, pelo seu caráter bilateral, estando o Brasil na posição de receptor de CTPD. A Cooperação bilateral recebida “envolve atividades com países desenvolvidos e é caracterizada como uma ferramenta promotora de mudanças por meio de transferência de tecnologia.”146 As atividades
de Cooperação Bilateral Recebida e também prestada da Embrapa têm sido realizadas desde então, e principalmente, pelos Laboratórios da Embrapa no Exterior, os Labex.147
A cooperação técnica recebida bilateral pode ser considerada um instrumento propulsor de mudanças estruturais, por ter como objetivo a transferência de tecnologia e absorção de conhecimentos que contribuam para o desenvolvimento socioeconômico do país. 148
Posteriormente, com a gradativa atuação do Brasil no âmbito da Cooperação Sul-Sul, o país obtém destaque como prestador de Cooperação Técnica Prestada Bilateral (CTPB), onde o número de projetos realizados entre países em desenvolvimento registrados pela ABC é bastante expressivo no setor agropecuário, sobretudo entre países da África e América do Sul. Estes projetos são realizados pela Embrapa, sob a coordenação da ABC, e financiados pelo PNUD e têm como objetivo
145 BRASIL. Ministério das Relações Exteriores. Agência Brasileira de Cooperação. Diretrizes para o
Desenvolvimento da Cooperação Técnica Internacional Multilateral e Bilateral. 2ª ed. Brasília: Agência Brasileira de Cooperação, 2004. p. 16
146 MAGALHÃES, Bonifácio Peixoto. Política Externa do Brasil em Agricultura: O papel da Embrapa na
Cooperação Técnica. 2008. 57 f. Monografia (Especialização) - Curso de Ix Curso de EspecializaÇÃo em Relações Internacionais, Relações Internacionais, Universidade de Brasília, Brasília, 2008. p 43 Disponível em: <http://bdm.unb.br/bitstream/10483/1076/1/2008_BonifácioPeixotoMagalhães.pdf>. Acesso em: 25 mar. 2015
147 Id.
148 AGÊNCIA BRASILEIRA DE COOPERAÇÃO, CGPD - Coordenação Geral de Cooperação Técnica
entre Países em Desenvolvimento. Disponível em: http://www.abc.gov.br/SobreAbc/Direcao/CGPD. Acesso: 20 set. 2015
[...] transferir tecnologia para o melhoramento genético de sementes, a melhoria de técnicas de cultivo e de manejo de animais, o aprimoramento do processo produtivo, com ênfase no treinamento de técnicos estrangeiros, que passam a multiplicar esse conhecimento para formar equipes capazes de atuar no fortalecimento das instituições agrícolas.149
Assim, a atuação da Embrapa na Cooperação Internacional no âmbito bilateral vai além dos projetos de cooperação científica com os países desenvolvidos através dos Laboratórios Virtuais no Exterior (Labex), expandido suas atividades para o âmbito da Cooperação Sul-Sul, bem como para a criação de instalações físicas da Embrapa no exterior.
150 De acordo com os dados da Embrapa de 2013, a empresa já contava com 78 acordos
bilaterais, com 56 países e 89 instituições.
3.2.2.2 A cooperação Multilateral e Agenda Triangular
A Cooperação Internacional Multilateral envolve a relação entre mais de dois países e/ou instituições. De acordo com a ABC,
A cooperação técnica multilateral é aquela desenvolvida entre o Brasil e organismos internacionais com mandato para atuar em programas e projetos de desenvolvimento social, econômico e ambiental. [...] A execução dos projetos e demais atividades de cooperação multilateral envolve o aporte de insumos técnicos e financeiros mobilizados pelos organismos internacionais e pelas instituições nacionais151
Este tipo de modalidade refere-se também a implementação de programas e projetos de cooperação entre o Brasil e organismos internacionais em benefício de países em desenvolvimento, enquadrados na “Agenda Triangular”, nos quais Brasil é provedor de Cooperação Técnica. A alternativa conhecida como cooperação triangular (ou triangulação), se trata da coordenação entre dois doadores – podendo um deles ser uma organização pública ou privada - que prestam cooperação para um terceiro Estado recebedor. 152
149 LOBO, L. de A. A internacionalização das empresas brasileiras: a nova geografia internacional e suas
implicações na política de internacionalização da Embrapa, a partir de 2003. 2010. 54 f. Monografia (Especialização) - Instituto de Ciência Política e de Relações Internacionais, Universidade de Brasília. p. 37
150 Id.
151AGÊNCIA BRASILEIRA DE COOPERAÇÃO.CGCM- Coordenação Geral de Cooperação Técnica
Multilateral. Disponível em: <http://www.abc.gov.br/SobreAbc/Direcao/CGPD.> Acesso: 20 set. 2015
152LOPES, Luara Landulpho Alves. A Cooperação Técnica entre Países em Desenvolvimento
(CTPD) da Agência Brasileira de Cooperação (ABC-MRE): O Brasil como doador.Dissertação (Mestrado) Programa de Pós Graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas,PUC-SP,2008. p. 18
A transferência de tecnologia na modalidade da cooperação técnica triangular é, portanto, financiada por terceiros, tais como o Banco Mundial (Bid), Banco Interamericano de Desenvolvimento (Bird) e a Fundação Merlinda e Bill Gates.153 De acordo com a ABC, são
três as fontes de recursos dos programas de Cooperação Técnica Multilateral (CTM): 1) recursos oriundos de organismos internacionais, agências governamentais estrangeiras ou setor privado; 2) fundos internacionais e contribuições de países doadores, sob a gestão de organismos internacionais; 3) recursos mobilizados pelas próprias instituições brasileiras.154
A cooperação triangular, portanto, envolve a conjunção de elementos da cooperação bilateral e da cooperação multilateral. No caso da cooperação sul-sul trilateral, instituições especializadas brasileiras atendem demandas por cooperação internacional em países em desenvolvimento, cujos temas são de interesse global, e que são apoiadas e financiadas por organismos internacionais – estes apoiam a transferência de tecnologia e dão suporte a adaptação destas às realidades do país receptor da cooperação técnica brasileira.155
No âmbito da Cooperação Científica Multilateral, a Embrapa atua através de acordos com instituições internacionais, como Centros Internacionais de Pesquisa do CGIAR - Consultative Group on International Agricultural Research), países do Mercosul - “El Programa Cooperativo para el Desarrollo Tecnológico Agroalimentario y Agroindustrial del Cono Sur” (Procisur) ou Países dos Trópicos Sul-americanos - Programa Cooperativo de Investigación, Desarrollo e Innovación Agrícola para los Trópicos Suramericanos (Procitrópicos).156
3.2.2.3 A Cooperação Cientifica
A Cooperação Científica Internacional se refere aos programas de cooperação internacional em pesquisa, desenvolvimento e inovação, e tem por objetivo promover a pesquisa científica para o uso de tecnologias inovadoras na agricultura, visando seu
153 IZIQUE, Claudia. O PAC da Embrapa: Inovação institucional deve consolidar a presença da empresa
na África, Europa e América Latina. Fapesp, São Paulo, v. 144, p.32-35, fev. 2008. Disponível em: <http://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2008/02/32-35-Embrapa-144.pdf>. Acesso em: 15 jul. 2015
154 BRASIL. Ministério das Relações Exteriores. Agência Brasileira de Cooperação. Diretrizes para o
Desenvolvimento da Cooperação Técnica Internacional Multilateral e Bilateral. 4ª ed. Brasília: Agência Brasileira de Cooperação, 2014.
155Id.
156EMPRESA BRASILEIRA DE PESQUISA AGROPECUÁRIA Cooperação Cientifica. Disponível em:
crescimento e modernização em prol do desenvolvimento nacional. A Cooperação Científica na Embrapa é realizada, principalmente, através dos Laboratórios Virtuais no Exterior, os Labex, anteriormente mencionados. As atividades de cooperação internacional em ciência e tecnologia com países desenvolvidos, a interação entre pesquisadores líderes em pesquisa agropecuária na promoção do conhecimento e da inovação tecnológica acerca do tema, bem como a aplicação – a longo prazo - destas tecnologias desenvolvidas nos cenários nacionais, permitem o processo de Cooperação Científica entre os países na promoção do desenvolvimento nacional.157
Projetos de cooperação científica e tecnológica: promovem a interação entre cientistas e laboratórios de pesquisa, a fim de compartilhar competências e experiências que possam aumentar o conhecimento. Os resultados obtidos, por causa da sua natureza, não são necessariamente aplicados em grande escala. Também visam à utilização prática dos conhecimentos disponíveis para a geração de produtos e o desenvolvimento de processos. Também atendem ao objetivo de garantir a autonomia futura do receptor no setor envolvido.158
A partir das parcerias cientificas que o Brasil estabelece com países desenvolvidos, são realizados programas de transferência de tecnologia e conhecimentos nos quais o pais é beneficiário. De acordo com a ABC, a cooperação técnica recebida “[..] pode ser considerada um instrumento propulsor de mudanças estruturais, por ter como objetivo a transferência de tecnologia e absorção de conhecimentos que contribuam para o desenvolvimento socioeconômico do país.”159. A Embrapa descreve o conceito de Intercâmbio de
Conhecimento, sendo esse propulsor do processo de TT:
É um processo interativo e dialógico que possibilita adaptar soluções tecnológicas já desenvolvidas a contextos específicos, a partir da troca entre saberes tradicionais ou conhecimentos tácitos e conhecimentos científicos. O enfoque interativo permite que tecnologias e conhecimentos já desenvolvidos sejam interpretados e adaptados, mediante realidades específicas e valores particulares.160
Desta maneira, a introdução de novas tecnologias ao sistema agropecuário desempenha papel essencial para a modernização do setor no pais. A inovação tecnológica
157FRANCO, Luiz Felipe de Oliveira. Perspectivas da cooperação internacional brasileira : o Labex e o desenvolvimento tecnológico agroindustrial. Planaltina: Faculdade de Planaltina, 2013. 18 p. Disponível em: <http://bdm.unb.br/handle/10483/7708>. Acesso em: 10 ago. 2015. p. 16
158 Id.
159 AGÊNCIA BRASILEIRA DE COOPERAÇÃO. CGCM – Coordenação Geral de Cooperação Técnica
Bilateral. Disponível em: http://www.abc.gov.br/SobreAbc/Direcao/CGPD. Acesso: 20 set. 2015
160 EMPRESA BRASILEIRA DE PESQUISA AGROPECUÁRIA. Transferência de Tecnologia. Disponível
vem a ser elemento chave no aumento da qualidade dos produtos brasileiros advindos do setor, somado ao aumento da produtividade e diminuição de custos. O sistema de pesquisa da Embrapa junto com os pesquisadores do Labex e instituições de pesquisa internacionais desempenham um papel estratégico neste processo ao [...] identificarem as demandas e direcionarem o fluxo de conhecimento científico para os assuntos de interesse da agricultura.161
A cooperação científica com países desenvolvidos, neste contexto, vem a ser uma ferramenta essencial na área de pesquisa e desenvolvimento de novas tecnologias, e a conexão para a introdução destas no sistema agropecuário nacional.
3.2.2.4 A Cooperação Técnica
A cooperação técnica busca resultados a curto prazo, através da transferência e aplicação de tecnologias já utilizadas nacionalmente para países em desenvolvimento. A atuação do Brasil na Cooperação Técnica se mostra um instrumento importante do governo brasileiro na sua política externa voltada para a Cooperação Sul-Sul, e seus projetos são realizados em conjunto com a Agência Brasileira de Cooperação (ABC), responsável pela negociação, coordenação, implementação e acompanhamento da cooperação brasileira com parceiros internacionais, como parte da política externa do Governo Federal.162
As ações práticas que norteiam a Cooperação Técnica Internacional são as seguintes: a) Transferência de tecnologias, conhecimentos e experiências de aplicação prática em processos de desenvolvimento; b) apoio à mobilização e ao desenvolvimento de capacidades técnicas locais, por meio de ações executadas em parceria com contrapartes externas; c) foco no desenvolvimento de capacidades institucionais e/ou de recursos humanos dos países beneficiários; d) busca por inovação (evitar iniciativas que não agreguem novos conhecimentos, ou que tenham viés assistencialista). 163
161FRANCO, Luiz Felipe de Oliveira. Perspectivas da cooperação internacional brasileira : o Labex e o desenvolvimento tecnológico agroindustrial. Planaltina: Faculdade de Planaltina, 2013. 18 p. Disponível em: <http://bdm.unb.br/handle/10483/7708>. Acesso em: 10 ago. 2015. p. 17
162 EMPRESA BRASILEIRA DE PESQUISA AGROPECUÁRIA Cooperação Técnica. Disponível em: https://www.embrapa.br/cooperacao-tecnica. Acesso: 20 set. 2015
163 BRASIL. ESCOLA DE ADMINISTRAÇÃO FAZENDÁRIA (ESAF). . Cooperação Técnica: Acordos
Internacionais (Regras, Procedimentos e Utilização de Sistemas). Brasília: Anais, 2009. Color. Disponível em: <http://www3.tesouro.gov.br/siafi/download/projetos_externos/Oficina2_caderno.pdf>. Acesso em: 20 set. 2015.
De acordo com o MRE:
A cooperação técnica sul-sul brasileira caracteriza-se pela transferência de conhecimentos, pela ênfase na capacitação de recursos humanos e pela concepção de projetos que reconheçam as especificidades de cada país. Realiza-se com base na solidariedade que marca o relacionamento do Brasil com outros países em desenvolvimento. A cooperação técnica brasileira é livre de condicionalidades e não prevê lucros. Responde a demandas de países em desenvolvimento que acreditam que nossas soluções podem servir de referência para suas políticas e práticas.
Segundo a ABC, a Cooperação Técnica Internacional no setor agrícola representou, entre os anos 2000 e 2014, 19% da Cooperação Sul-Sul no Brasil, caracterizando-se pelo setor que mais realiza projetos de CTPD no país.164 Os projetos de cooperação técnica no âmbito da
Cooperação Sul-Sul são realizados nas modalidades bilateral, e trilateral, sendo a primeira caracterizada pela participação do Brasil e um país em desenvolvimento, e a segunda envolvendo um terceiro país desenvolvido, ou um organismo internacional, como já supramencionado.
Na Embrapa, os projetos de CTPD se dividem em: a) estruturantes – são projetos de maior porte realizados em parceria com a ABC ou com outras agências internacionais para contribuir com os processos de produção agropecuária através de atividades de colaboração técnica nas áreas de desenvolvimento institucional, validação de tecnologias e capacitação. b) projetos pontuais: são projetos de apoio técnico de menor porte e de curta duração, “voltados principalmente para capacitação em agricultura tropical, remessa de material genético e validação de variedades e metodologias de pesquisas. c) plataformas de Inovação Agropecuária (Agricultural Innovation Marketplace): se trata de uma iniciativa internacional, envolvendo diversos parceiros com o propósito de ligar especialistas e instituições brasileiros, africanos, latino-americanos e caribenhos no desenvolvimento de projetos de pesquisa para o desenvolvimento.165
164 AGÊNCIA BRASILEIRA DE COOPERAÇÃO. Histórico da Cooperação Técnica Brasileira. Disponível
em: http://www.abc.gov.br/CooperacaoTecnica/Historico. Acesso: 20 set. 2015
165 EMPRESA BRASILEIRA DE PESQUISA AGROPECUÁRIA .Atuação Internacional. Disponível em: