A noção de sujeito é fundamental na AD, tanto que para perseguir sua evolução é preciso voltar-se à evolução da própria teoria. E acompanhar o desenvolvimento da teoria implica a realização de um movimento pendular, que vai da teoria para a análise e da análise novamente para a teoria, pois as duas se retroalimentam. Assim, a noção de sujeito está sempre correlacionada às demais, como mostra a Figura 4.
Figura 4: A noção de sujeito e suas correlações
Fonte: A autora.
Observamos que o sujeito está no centro dos conceitos, pois é interpelado ideologicamente a se inscrever numa formação discursiva, identificando-se à sua forma- sujeito histórica e, consequentemente, assumindo uma posição-sujeito em seu discurso.
Em Análise de Discurso interessa verificar os sentidos que carregam os enunciados. Tomar uma palavra como referente, por si só, não é suficiente. É preciso perseguir sua determinação discursiva, ou seja, seus diferentes significados para integrá- la a uma (ou mais) formação discursiva.
Conforme Pêcheux, “[...] toda prática discursiva está inscrita no complexo contraditório-desigual-sobredeterminado das formações discursivas dadas” (1995, p. 213, grifo do autor). Os sujeitos só se tornam sujeitos do discurso quando interpelados por formações discursivas, as quais representam na linguagem as formações ideológicas que lhes são correspondentes.
A interpelação do indivíduo em sujeito acontece pela identificação do sujeito com a formação discursiva que o domina. Essa identificação ocorre pelo viés da forma- sujeito. Sendo a forma-sujeito, inicialmente, considerada dotada de unicidade e a FD fechada e homogênea, Pêcheux desenvolve as modalidades de tomada de posição.
O desdobramento do sujeito entre o sujeito da enunciação e o “sujeito universal” ou da ciência produz efeitos paradoxais e pode assumir diferentes modalidades. A primeira é a da superposição que leva a que ocorra um recobrimento entre o sujeito da enunciação e o sujeito universal.
[...] Essa superposição caracteriza o discurso do “bom sujeito” que reflete espontaneamente o Sujeito (em outros termos: o interdiscurso determina a formação discursiva com a qual o sujeito, em seu discurso, se identifica, sendo que o sujeito sofre cegamente essa determinação, isto é, ele realiza seus efeitos “em plena liberdade”) (PÊCHEUX, 1995, p. 215, grifos do autor).
Essa primeira modalidade é a identificação plena do sujeito do discurso com a forma-sujeito da FD que o domina, por esse motivo foi chamada de discurso do “bom sujeito”.
O discurso do “mau sujeito” é a segunda modalidade de desdobramento e decorre do distanciamento, da separação entre o sujeito da enunciação e o sujeito universal. É o “[...] discurso no qual o sujeito da enunciação se volta contra o sujeito
do autor). Essa modalidade ocorre quando o sujeito do discurso, através de uma tomada de posição, se contrapõe à forma-sujeito da FD que o identifica. Assim, o sujeito passa a questionar os saberes da FD e não apenas os reduplica.
Considerar o desdobramento da forma-sujeito implica pensar em uma nova concepção de FD, cujas fronteiras são porosas ao ponto de permitir a entrada de saberes diferentes, inclusive de outras FD. Disso decorre uma FD heterogênea.
A “desidentificação” com a formação discursiva de origem é a terceira modalidade de desdobramento entre os sujeitos. Nessa o sujeito do discurso se desidentifica de uma FD e de sua respectiva forma-sujeito para se identificar e com outra FD e sua forma-sujeito. Segundo Pêcheux, “[...] esse efeito de desidentificação se realiza paradoxalmente por um processo subjetivo de apropriação dos conceitos
científicos e de identificação com as organizações políticas ‘de tipo novo’”(1995, p.
217, grifos do autor).
A desidentificação ocorre quando o sujeito do discurso já está identificado com outra FD e sua forma-sujeito de forma inconsciente. Aliás, a identificação e a desidentificação ocorrem somente através do funcionamento do inconsciente e da ideologia.
Conforme Indursky (2008, p. 15), a modalidade de desidentificação sinaliza que o sujeito não está condenado a se manter identificado com a mesma FD para sempre. Existe certo espaço de liberdade e movimentação.
Essa modalidade instaura não só o desdobramento, mas a fragmentação da forma-sujeito. A fragmentação é a capacidade de a forma-sujeito se dividir em diferentes posições-sujeito. E cada uma dessas posições-sujeito indica diferentes modos de se relacionar com a forma-sujeito e, por sua vez, com a ideologia, ou seja, o sujeito não se identifica mais com uma FD por sua forma-sujeito, pois essa não é única, e sim fragmentada em um número maior de posições-sujeito. A identificação com uma FD, segundo Indursky (2008, p. 19), se dá por meio de uma posição-sujeito dominante que integra sua forma-sujeito.
Assim, o “bom sujeito” não é o que se identifica plenamente com uma FD, reduplicando seus saberes, mas o que se identifica com a posição-sujeito dominante em relação às demais posições em que a forma-sujeito se fragmenta. O “bom sujeito” se caracteriza, segundo Indursky (2008, p. 19), em “efeito-sujeito”.
Consequentemente, o “mau-sujeito” pode ser representado por várias posições- sujeito e não apenas por uma. Como referido anteriormente, a AD funciona como um movimento pendular entre teoria e análise, que se retroalimentam. As outras posições- sujeito que convivem com a dominante se distanciamdos saberes desta e se constituem no “mau sujeito”. Essas duas noções – bom e mau sujeito – alteraram-se com o avanço do conceito de fragmentação da forma-sujeito. De acordo com Indursky,
se a forma-sujeito fragmentou-se, não é mais possível a um sujeito de discurso identificar-se diretamente com a forma-sujeito. Para com ela identificar-se, impõe-se que o sujeito do discurso se identifique inicialmente com o saber emanado de uma determinada posição-sujeito para, a partir deste lugar discursivo, identificar-se com a forma-sujeito e, através dela, com a formação discursiva que o afeta. A identificação continua ocorrendo, mas apenas com uma parcela dos saberes desta FD (2008, p. 19-20).
Desse modo, a desidentificação com uma FD ocorre de duas maneiras: pela identificação com outra forma-sujeito já existente; pela identificação com uma forma- sujeito de uma nova FD, que caracteriza o acontecimento discursivo.
As mudanças dentro do campo de saberes de uma FD e de sua forma-sujeito acompanharam o avanço dos estudos na AD, resultando em duas formas diferentes de desidentificação. Essa tanto pode ocorrer porque o sujeito do discurso se identifica com outra FD e sua forma-sujeito já existente numa determinada formação social quanto pode ocorrer quando o sujeito se identifica com uma nova FD recém-instaurada e sua respectiva forma-sujeito.
Cabe salientar que o surgimento de uma nova FD se dá quando saberes antes interditados irrompem numa formação social. Essa forma de desidentificação, chamada “acontecimento discursivo”, será o assunto da próxima seção; será também esmiuçado outro tipo de acontecimento que não se dá pela desidentificação: o acontecimento enunciativo. Ambos os acontecimentos serão confrontados com as noções de acontecimento histórico e jornalístico.