Se uma formação social é o modo como cada sociedade se organiza sob o funcionamento permanente da ideologia para compreender suas relações, é necessário revisitar a nascente desses conceitos, ou seja, o materialismo histórico. Analisar o modo de produção e reprodução da sociedade brasileira no período da campanha Diretas Já e como se dava o embate entre a infraestrutura (base econômica) e a superestrutura (aparelhos de Estado), é fundamental para se chegar às condições de produção da cobertura jornalística desse acontecimento na Rede Globo.
Na busca da interpretação de fenômenos econômicos e sociais, desenvolveu-se uma teoria denominada “materialismo histórico” ou “a ciência experimental da
história” (PÊCHEUX, 1995, p. 205, grifo do autor). Além do nível de discussão teórica,
é uma ciência que propõe a mobilização dos conceitos abordados na prática política (através de organizações, tais como os partidos políticos).
O precursor dos estudos sobre como os modos de produção interferem nas relações entre os sujeitos na configuração do espaço social e na própria história foi o
filósofo alemão Karl Marx, junto ao filósofo Friedrich Engels, cuja concepção foi revista por Althusser e, posteriormente, por Pêcheux.
O materialismo histórico trabalha com o conceito de modo de produção, cujas bases são as forças produtivas e as relações de produção. As forças produtivas são as condições materiais da produção (matéria-prima, técnicas de trabalho). Já as relações de produção consistem na organização dos trabalhadores para a produção. A tensão existente entre as forças produtivas e as relações de produção leva à mais-valia, ou seja, ao excedente produtivo produzido pela mão de obra dos trabalhadores. Eis a principal reflexão de Marx: a emancipação dos trabalhadores não como nova classe dominante, mas através do fim da exploração da mais-valia e da igualdade de direitos e deveres. Uma reflexão proposta por Marx (1996, p. 246):
Assim como a reprodução simples reproduz continuamente a própria relação capital, capitalistas de um lado, assalariados do outro, também a reprodução em escala ampliada ou a acumulação reproduz a relação capital em escala ampliada, mais capitalistas ou capitalistas maiores neste pólo, mais assalariados naquele.
Mais tarde, Althusser retoma os estudos marxistas para desenvolver a teoria dos aparelhos ideológicos de Estado (AIEs): “Designamos pelo nome de aparelhos ideológicos do Estado um certo número de realidades que apresentam-se ao observador imediato sob a forma de instituições distintas e especializadas” (1985, p. 68).
Os AIEs concorrem para um mesmo fim: a reprodução das relações de produção, ou seja, a relação dos indivíduos com os meios de produção e, por conseguinte, das relações de exploração capitalistas. E cada um dos AIE o faz de maneira própria e com contradições. Para melhor compreensão, Althusser salienta que
[...] se é verdade que os AIE representam a forma pela qual a ideologia da classe dominante deve necessariamente se realizar, e a forma com a qual a ideologia da classe dominada deve necessariamente medir-se e confrontar-se, as ideologias não “nascem” dos AIE mas das classes sociais em luta: de suas condições de existência, de suas práticas, de suas experiências de luta, etc. (1985, p. 107, grifos do autor).
Enquanto classe dominante deve reproduzir suas condições materiais, políticas e ideológicas para continuar existindo. Conforme Pêcheux,
[...] a objetividade material da instância ideológica é caracterizada pela estrutura de desigualdade-subordinação do “todo complexo com o dominante” das formações ideológicas de uma formação social dada, estrutura que não é senão a da contradição reprodução/transformação que constitui a luta ideológica de classes (1995, p. 144, grifo do autor).
Trazendo o materialismo histórico para a Análise de Discurso de filiação francesa, Pêcheux e Fuchs (1993b, p. 165) ressaltam que “[...] a região do materialismo histórico que nos diz respeito é a da superestrutura ideológica em sua ligação com o modo de produção que domina a formação social considerada”.
Os elementos materialistas do discurso são o processo sócio-histórico de constituição da metáfora, a distinção entre sujeito ideológico e sujeito universal e o esboço de uma teoria não subjetivista da subjetividade “como uma teoria das condições ideológicas da reprodução/transformação das relações de produção: a relação entre o
inconsciente (no sentido freudiano) e ideologia (no sentido marxista) [...]” (PÊCHEUX,
1995, p. 133, grifos do autor).
Nesse sentido, a ideologia é determinada pela instância econômica: da reprodução da base econômica e das relações de produção. De acordo com Pêcheux e Fuchs,
a modalidade particular do funcionamento da instância ideológica quanto à reprodução das relações de produção consiste no que se convencionou chamar interpelação, ou o assujeitamento do sujeito como sujeito ideológico, de tal modo que cada um seja conduzido, sem se dar conta, e tendo a impressão de estar exercendo sua livre vontade, a ocupar o seu lugar em uma outra das duas classes sociais antagonistas do modo de produção (ou naquela categoria, camada ou fração de classe ligada a uma delas) (1997, p. 165, grifos do autor).
É por esse motivo que a formação ideológica é concebida por Pêcheux e Fuchs (1993b) como uma força em confronto com outras, dentro do espaço da luta de classes, o que ocasiona a reprodução/transformação das relações de produção. Assim, “[...] os interesses teóricos do materialismo histórico e os interesses práticos (políticos) do movimento operário são, a rigor, indissociáveis” (PÊCHEUX, 1995, p. 203, grifos do autor).
Todavia, é pela linguagem que se revelam as formações ideológicas. Se os processos discursivos desencadeiam os efeitos de sentido, é na língua que esses efeitos se realizam. Desses efeitos, a contradição é um conceito fundamental em Análise do
Discurso. Ao contrário do estruturalismo, a AD leva em conta as relações sociais entre sujeitos sob a interpelação ideológica.
[...] esta mudança de terreno consiste em se desvencilhar da problemática
subjetivista centrada no indivíduo – fonte de gestos e de palavras, ponto de
vista sobre os objetos e sobre o mundo – e compreender que o tipo de concreto com que lidamos e em relação ao qual é preciso pensar, é precisamente o que o materialismo histórico designa pela expressão relações
sociais, que resulta de relações de classe características de uma formação
social dada (através do modo de produção que as domina, a hierarquia das práticas de que este modo de produção necessita, os aparelhos através dos quais se realizam estas práticas, as posições que lhes correspondem, e as representações ideológico-teóricas e ideológico-políticas que delas dependem (GADET; PÊCHEUX, 2011, p. 127, grifos dos autores).13
O fato é que língua e história formam uma trama só, onde os sentidos heterogêneos se formam e as ressignificações acontecem. De acordo com Gadet e Pêcheux (2004, p. 63), “[...] a língua é um sistema que não pode ser fechado, que existe fora de todo sujeito, o que não implica absolutamente que ela escape ao representável”.
Os discursos nunca são homogêneos. O que ocorre são os efeitos de homogeneidade ou de heterogeneidade, dependendo de como a língua é colocada em funcionamento, e do efeito de homogeneidade, o jornalismo compreende. A tentativa da imprensa (escrita, falada ou televisionada) é apresentar as informações de modo linear, pelo efeito de unicidade, de transparência da linguagem e, por conseguinte, de imparcialidade. Todavia, conforme Bucci, “acontece que a busca da verdade, virtude ancestral do jornalismo, é simplesmente incompatível com a lógica dos conglomerados comerciais da mídia dos nossos dias” (2004, p. 129).
Sendo um AIE, a mídia concorre para a estabilização dos sentidos para a reprodução das relações de produção existentes. Na época da campanha Diretas Já, a Rede Globo estava afinada com a ideologia dominante: a ideologia capitalista do governo militar. Entretanto, sabendo que os AIEs são espaços de contradição, em alguns a ideologia dominante passou a não funcionar da mesma forma (como a Igreja, que inicialmente havia apoiado o golpe militar e após lutou fortemente contra a ditadura), em outros exercia total controle.
13 Pêcheux faz uma crítica à abordagem de Benveniste sobre a enunciação, a qual denomina como “teoria
A heterogeneidade discursiva, cujo efeito foi mascarado pela Rede Globo, no
corpus desta pesquisa decorre das formações sociais, onde acontece a produção e a
reprodução dos sentidos, os quais serão abordados na próxima seção deste estudo.