2 UMA BREVE HISTÓRIA DA CIÊNCIA DO CLIMA E DE SUAS
2.3 O CLIMA COMO SISTEMA, A CLIMATOLOGIA COMO TEORIA
2.3.1 As mudanças do clima e as atividades humanas
James Fleming relata como a possibilidade da alteração do clima local pela agência humana já fazia parte de obras de alguns poucos pensadores Antiguidade clássica e no período Iluminista. Na Grécia antiga, Teofrasto, aluno de Aristóteles, percebeu mudanças microclimáticas em escala local após a drenagem de regiões alagadas e a derrubada de matas para atividades agrícolas. O aumento da incidência solar no solo era apontada como causa das mudanças após o desmatamento. Apesar disso, a maior parte dos escritos antigos e medievais sobre relações entre clima e humanos voltavam-se à influência climática nas atividades humanas e não o oposto (FLEMING, 2006, p. 228).
Filósofos iluministas no século XVIII, como Montesquieu, du Bos e Hume se dedicaram a pensar sobre as relações entre o clima, o homem, as artes da civilização e mudanças climáticas. Baseado em relatos da Antiguidade clássica, du Bos e Hume consideravam que o clima se alterava através dos tempos – o rio Tibre, por e consolidação das redes científicas. Edwards, como leitor de Bruno Latour, explora dificuldades e resistências nas cadeias de traduções nas redes, quando teoria, prática, infraestrutura ou qualquer tipo de associação não é capaz de fluir livremente. A obra de Edwards contém uma análise importante da teoria de redes dos science studies.
59 exemplo, congelava durante invernos mais severos na Roma antiga, mas não mais em sua época. O ápice e a queda das culturas e civilizações, em sua acepção iluminista, eram diretamente ou fortemente determinados pela qualidade do clima - bons ares e temperaturas adequadas ou climas desfavoráveis (1998, pp. 12–18).
Segundo Fleming, o filósofo David Hume apontava como causa para esse espantoso aquecimento histórico a lenta ampliação das zonas cultivadas no velho continente, com a derrubada das florestas europeias e a drenagem dos pântanos. Do outro lado do Atlântico, de acordo com anotações de Thomas Jefferson32, as colônias norte-americanas na região nordeste do atual território dos Estados Unidos haviam sofrido uma mudança climática veloz após a derrubada das antigas florestas. Para Hume, o desmatamento necessário à criação de novas áreas de plantio retirava as sombras das antigas florestas e permitia que os raios do sol penetrassem mais livremente na terra e criavam condições necessárias para o florescimento da civilização33.
Desta forma, o filósofo relacionava atividades humanas, mudança do clima e criação de climas favoráveis para sua concepção de projeto civilizatório. Fleming denota a importância moral na obras destes iluministas, ao pensarem nos impactos humanos ao clima local. Partindo de conceitos caros a esse período, como civilização, cultura e domínio da natureza, Hume, por exemplo, afirmava o caráter moralizante no ato humano de deixar de ser um mero objeto das necessidades da natureza e tornar-se livre agente de seu próprio destino, por meio do impacto direto na ocupação do território (FLEMING, 2006, p. 229).
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Fleming aponta o surgimento de uma relação direta entre o projeto de dominação da natureza pelo homem e a formação da ciência moderna. Para entender melhor o alcance dos impactos humanos no clima, Thomas Jefferson, por exemplo, defendia fortemente no início do século XIX a criação de um sistema federal norte-americano para realizar medições periódicas do clima, antes que ele se alterasse por completo com a derrubada das matas. Também defendeu a inclusão de considerações sobre os efeitos do clima nas populações nos censos oficiais do governo dos Estados Unidos (FLEMING, 2006, pp. 230–232).
33 Nem todas as visões sobre a relação entre desflorestamento e mudança climática local
eram positivas. Segundo Edwards (EDWARDS, 2010, p. 67), lendo o geógrafo alemão oitocentista Eduard Brückner, houve tentativas infrutíferas de políticas estatais na Prússia, Áustria, Itália e Rússia neste período, assim como políticas coloniais a fim de neutralizar as mudanças que o desmatamento e a drenagem de terras úmidas havia causado nos climas e ecossistemas locais, como a desertificação, seca, escassez de mananciais ou aquecimento das temperaturas, por meio da silvicultura, a conservação de matas e o reflorestamento.
60 Como ocorreu com a meteorologia, as práticas positivas tiveram impacto direto nas descrições do clima após o início do século XIX. Cientistas norte-americanos e europeus, como Alexander von Humbolt e Cleveland Abbe, defendiam uma climatologia rigorosamente científica e racional, baseada em medições empíricas, análise dos dados e teorizações matemáticas, contra modos de discurso ensaísticos e literários pouco racionais e, para eles, não-científicos (FLEMING, 1998).
O século XIX, como vimos no primeiro tópico deste capítulo, testemunhou a formação de diversas abordagens sobre o clima. A climatologia estatística, calculava diacronicamente médias de variáveis na longa duração, possibilitados pelas séries de observações e medições meteorológicas locais e sincrônicos. Entretanto, além desse tipo de estudos, formaram-se também abordagens científicas sobre o clima que buscavam criar teorias físicas, leis gerais e universais, explicações das causas e origens do comportamento dos fenômenos e não apenas sua descrição, com uma visão do clima como sistema terrestre, unificado e estatisticamente estável na longa duração34.
Após as grandes teorias de circulação planetária de Halley do século XVII e a definição do sol como o principal agente do clima, por meio do aquecimento diferenciado da superfície da Terra, mais tarde modificadas com a inclusão das leis gravitacionais e os efeitos da rotação, por Hadley, e as variações topográficas, que modificavam correntes, com as viagens exploratórias de Lyell e Humboldt, novas teorias físicas modernas, baseadas em estudos de dinâmica de calor, dinâmica dos fluidos e propriedade dos gases tomaram a si o papel de explicar as causas e o funcionamento do clima.