3 FORMAÇÃO DE REDES SOCIOTÉCNICAS DE MUDANÇAS
3.3 O EXPERIMENTO HUMANO DE LARGA ESCALA NA ATMOSFERA 79
Em 1956, Gilbert Plass, um dos criadores dos modelos computacionais de clima, foi um dos primeiros a afirmar, revisitando as hipóteses de Callendar (ver seção 2.3.3), que a humanidade, por meio da emissão de dióxido de carbono, estava realizando um “experimento de larga escala na atmosfera”, cujo resultado, o aumento da temperatura, seria percebido após muitas gerações (FLEMING, 1998, p. 122).
Roger Revelle, renomado físico norte-americano, em conjunto com Hans Suess50, escreveram em 1957, um ano após Plass, um artigo bastante citado em que analisam os níveis de carbono emitido pela queima de combustíveis fósseis durante o período industrial e sua comparação com o período pré-industrial, para dizer, de forma semelhante a Plass e a Callendar, que:
Deste modo, os seres humanos estão conduzindo no momento um experimento geofísico de larga escala de um tipo que não poderia ter acontecido no passado e nem pode ser reproduzido no futuro. Dentro de alguns séculos, nós retornaremos à atmosfera e aos oceanos o carbono concentrado organicamente capturado em rochas sedimentares por centenas de milhões de anos. Esse experimento, se adequadamente documentado, permitirá uma visão de longo alcance nos processos que
49 No original: “Science would be used to promote a particular vision of world order, but in
exchange scientists could better promote their own. Their involvement in government and governance would, in the long run, produce pressures to which governments would be forced to respond. Ozone depletion and climate change are major cases in point.”
50 O trabalho de Revelle e da maior parte dos cientistas atuais só foi possível devido à
80 determinam o tempo e o clima51 (REVELLE; SUESS, 1957, pp. 19–20).
Realizando uma discussão matemática sobre concentrações de carbono na atmosfera, oceano e biosfera, taxas de crescimento, absorção e decaimento, os autores concluem que:
Ao contemplar sobre o provável grande aumento na produção de CO2 pela queima de combustíveis fósseis nas
próximas décadas, nós concluímos que um aumento total de 20 a 40% no CO2 atmosférico pode ser antecipado. Isso deve
certamente ser o suficiente para permitir uma determinação dos efeitos, se houver, das mudanças do dióxido de carbono atmosférico no tempo e no clima ao redor da Terra.
Dados atuais da quantidade total de CO2 na atmosfera, das
taxas e mecanismos da troca de CO2 entre o mar e o ar e
entre o ar e os solos, e das possíveis flutuações do carbono orgânico marinho são insuficientes para fornecer uma base precisa para medições das mudanças futuras do CO2
atmosférico. Uma oportunidade existe durante o Ano Geofísico Internacional para se obter muitas dessas informações necessárias52 (REVELLE; SUESS, 1957, p. 26).
Por meio de financiamentos da ampla rede de pesquisa do Ano Geofísico Internacional, Harry Wexler do United States Weather Bureau, financiou a construção no Observatório de Mauna Loa no Havaí de um instrumento capaz fazer
51
No original: “Thus human beings are now carrying out a large scale geophysical experiment of a kind that could not have happened in the past nor be reproduced in the future. Within a few centuries we are returning to the atmosphere and oceans the concentrated organic carbon stored in sedimentary rocks over hundreds of millions of years. This experiment, if adequately documented, may yield a far-reaching insight into the processes determining weather and climate”.
52 No original: “In contemplating the probably large increase in CO
2 production by fossil
fuel combustion in coming decades we conclude that a total increase of 20 to 40% in atmospheric CO2 can be anticipated. This should certainly be adequate to allow a
determination of the effects, if any, of changes in atmospheric carbon dioxide on weather and climate throughout the earth.
Present data on the total amount of CO2 in the atmosphere, on the rates and mechanisms of
CO2 exchange between the sea and the air and between the air and the soils, and on possible
fluctuations in marine organic carbon, are insufficient to give and accurate base line for measurement of future changes in atmospheric CO2. An opportunity exists during the
81 análises de gases atmosféricos na escala infravermelha, com o intuito de manter uma série contínua de dados sobre a quantidade de CO2 na atmosfera. O químico
Charles Keeling, contratado por Revelle, conduziu as medições técnicas no Observatório próximo ao vulcão havaiano e também as medições de frascos com amostras de ar e de gelo coletados periodicamente no polo sul, no continente antártico, em missões científicas do AGI.
O historiador da meteorologia Adrian Howkins (2011) considera que a Antártica serviu de laboratório de proporções continentais para as pesquisas climáticas graças ao Ano Geofísico Internacional. A principal razão foi o desenvolvimento de técnicas de extração de blocos de gelo e a análise química laboratorial de seu material molecular e o financiamento internacional das missões. O gelo antártico tornou-se testemunha de climas passados, por meio da análise dos isótopos de átomos presos em bolhas de ar durante milhares de anos – diferentes temperaturas atmosféricas geram diferentes proporções de isótopos na composição atmosférica. Como longos blocos de gelo são extraídos, cada um deles contém uma história cronológica, congelada ao longo dos blocos na acumulação sucessiva de gelo, da composição atmosférica e da temperatura média global presas em bolhas de ar, ao longo de diferentes épocas.
A comparação das medidas locais de Mauna Loa e do polo sul com medições feitas em outros lugares do mundo resultou em um dos maiores ícones ambientais do século XX, a chamada curva de Keeling. A curva, medida continuamente desde 1958, mostra um contínuo crescimento da concentração do carbono atmosférico.53
Fleming explora de forma detalhada a fama de Revelle, que ocupou diversas posições chave na burocracia científica nacional e internacional e na administração pública. Para a mídia norte-americana e a comunidade científica dos Estados Unidos, Revelle é considerado o “profeta do aquecimento global” e “avô do efeito- estufa”, mesmo não tendo sido o primeiro a afirmar tais coisas (1998, p. 122-128).
Revelle soube tecer sua rede de aliados e se inserir em redes normalmente consideradas extra-científicas – como posições no governo e na máquina da
53
Fleming (1998) nos diz sobre outra curva, menos conhecida, desenhada por Callendar, que também mostra um crescimento contínuo do CO2 atmosférico de 290ppm em 1870 para
325ppm em meados dos anos 1950, se encaixa perfeitamente à curva de Keeling, que inicia nos 315ppm em 1958.
82 administração pública. Levou seus laboratórios e redes de pesquisa, e todos os não- humanos de que tratava, ao interesse de setores governamentais e agências financiadoras de pesquisa. Alistando os interesses de aliados no governo e nas redes internacionais de pesquisa, como parte do comitê organizador do Ano Geofísico Internacional, Revelle pôde financiar suas pesquisas e de seus colegas – foi ele quem autorizou o financiamento do Observatório de Mauna Loa e quem comparou os dados de Mauna Loa com aqueles obtidos no polo sul graças a um acordo com projetos do AGI. Segundo Latour (1983, 2000a), não é somente com resultados precisos que se fazem os grandes nomes da ciência.
O que a maior parte desses pesquisadores fazem é traduzir (LATOUR, 1983; CALLON, 1986) experimentos localmente localizados em laboratórios em projeções e análises globais. A absorção de radiação por gases, absorção de CO2
pela água marinha, por sedimentos e por plantas e estudos da duração das moléculas de CO2 no ar livre são traduzidos de experimentos locais para fenômenos globais, a
ponto de se tornarem o centro de uma nova narrativa de risco global.
Tradução é um deslocamento de escala e de localização. O CO2 nanoscópico
capturado em recipientes laboratoriais é traduzido, por meio de gráficos e artigos científicos e relatórios, em moléculas dispersas por toda a atmosfera, originárias de emissões industriais ou do desmatamento e com capacidade radiativa de aquecer o planeta de forma global. Medidas da concentração de CO2 atmosférico
possibilitadas por instrumentos em diferentes estações, no Havaí e na Antártica, são extrapolados e globalizadas em índices que correspondem à situação de toda a atmosfera. Temperaturas obtidas em diferentes estações meteorológicas são traduzidas, por meio de cálculos estatísticos e redes internacionais de compilações de dados, em índices de uma temperatura global.
São do início do século XIX as primeiras considerações científicas sobre a chamada temperatura terrestre ou global. Trata-se de uma medida bastante abstrata, pois não se refere a uma observação ou a uma medida realizada em dado tempo e dado local por um instrumento específico e sim ao produto de um conjunto de cálculos estatísticos que buscam deduzir uma única média para todo o globo num dado período. Como vimos anteriormente, Fourier e Arrhenius já faziam cálculos desse tipo. Os de Arrhenius são conhecidos até hoje por terem sido os primeiros a deduzirem a temperatura terrestre com e sem o cálculo do efeito-estufa.
83 A temperatura média global é uma medida que teve início na década de 1970 e é baseada em dados compilados pelos diferentes serviços meteorológicos nacionais, membros da OMI, desde pelo menos 185054. Instituições no Reino Unido e nos Estados Unidos passaram a fazer os cálculos da média mensal da temperatura global, dividindo o globo em uma grade com células com 5o de latitude e 5o de longitude de cada lado e calculando a média a partir das temperaturas médias mensais obtidas de forma padronizada em cada estação meteorológica encontrada nesta célula.
As médias são calculadas para o todo o globo a partir das médias da células. Para as células da grade que não possuem estações meteorológicas, calculam-se aproximações a partir de estações mais próximas – caso da Amazônia, do Saara, da Sibéria e de outros locais pouco habitados. As médias oceânicas são obtidas a partir de medições feitas em navios científicos ou voluntariamente em navios comerciais. Para estações meteorológicas muito próximas a cidades, são calculados e deduzidos os efeitos das ilhas de calor.
Tanto o cálculo feito no Reino Unido, pelo Met Office Hadley Center, do Escritório Meteorológico Britânico em conjunto ao Centro de Pesquisas Climáticas da Universidade de East Anglia, como o feito nos Estados Unidos, tanto pelo Instituto Goddard de Pesquisas Espaciais da Agência Espacial Norte-Americana (NASA), como pelo Centro Nacional de Dados Climáticos da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NCDC/NOAA), produzem valores a partir de meados do século XIX, como 1850 ou 1861 – época em que a rede de estações meteorológicas ainda era muito pouco espalhada pelo mundo e muito concentrados nos Estados Unidos e Europa ocidental, ou nas rotas comerciais dos oceanos setentrionais. Essas médias são utilizadas pelo OMM e pelo IPCC para calcular anomalias de temperatura, de aquecimento ou esfriamento. O período utilizado é a
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Fonte da seção sobre temperatura média global: http://data.giss.nasa.gov/gistemp/ Instituto Goddard de Estudos Espaciais da NASA, Agência Espacial Norte-americana; assim como a página da enciclopédia livre virtual Wikipedia http://en.wikipedia.org/wiki/Instrumental_temperature_record (acesso em dezembro de 2013).
84 média climatológica de trinta anos e atualmente se refere ao período de 1961- 199055.
Interessante notar como a ciência climática cresce lentamente de práticas realizadas em laboratórios urbanos, como as realizadas por Tyndall, a estudos desenvolvidos por meio da cooperação com colegas e redes internacionais, como os trabalhos de Arrhenius e Callendar, a experimentos envolvendo grandes projetos de pesquisa, cobrindo grandes territórios e com amplo financiamento, como o liderado por Revelle. Foram estes projetos internacionais de escala planetária que fizeram que os anos 1960 testemunhassem a criação da correlação entre as medidas históricas da temperatura e as medições das concentração de gases obtidos na Antártica e no Havaí – base fundamental das mudanças climáticas atualmente - (HOWKINS, 2011, p. 188). Uma das formas criadas neste período de expansão e consolidação da ciência climática, para ampliar o alcance das práticas científicas em experimentar e simular o chamado experimento humano na atmosfera foi por meio das simulações computacionais.