I – AS MULHERES NA CID ADE
1.2 As mulheres no papel e o papel das mulheres
Hoj e o movimento feminista parece decisiv o e vi torioso. A mulhe r ingressou no alto co mércio, nos departame ntos i ndustri ais, na s profissões liberai s e nos serviços p úblicos, e xercendo q uase todos os cargo s da a dministração e da política. Adquira a mul her f ortuna p elos seus p ró prios esf orços, seja e ngenheiro, ind ustrial, comerciante e fu ncio nário de cargo vitalício e a soci edade não terá ma is o pode r de martyriza l -a (sic) com os seus hipócritas e f errenhos preconceitos. Prossiga [nesse] ca minho, e a mulhe r reconquistará a sua completa emancipação social .86
Publicado no dia 19/10/1931, no jornal Folha do Pov o, esse artigo reproduziu um trecho do liv ro A victoria do feminismo, escrito pelo Doutor Adonias Lima. Como o próprio título sugere, entre outras cois as, s ua obra tratav a dos avanç os do mov imento feminista no Brasil, div ulgando possibilidades de relações diferentes entre mulheres e homens pouco expressas nos periódic os da capital cearense.
Para o Dr. Adonias , assim c omo para muitas feministas de primeira onda, o foco da ação das mulheres dev eria s er a luta pelos direitos sociais, políticos e econômicos, momento em que a
educ ação e o trabalho remunerado poderiam repres entar formas de ascensão e emanc ipação soc ial. Em um meio urbano e capitalista, a independência econômic a e a qualific ação profissional conseguidas pelas mulheres s eriam o princ ipal meio de transformar as relações, hierarquias e limitações em v oga. 87
Contudo, essa imagem utópica de transformação das condições das mulheres através de esforços próprios muitas v ezes esbarrava em prátic as diferenciadas, nas quais o trabalho, ao inv és de s ignificar independência e melhoria na qualidade de v ida delas, res ultav a em um aumento de ex ploração das mes mas.
Christine Dupont, ao esc rev er s obre o assunto na déc ada de 70, afir mou que, em diferentes localidades, o adv ento do sis tema capitalista industrial não signific ou mudanças quanto à e xploraç ão das mulheres.88 Nele persistiria a idéia de que o trabalho da mulher no seio familiar seria um atributo natural, sendo os trabalhos domésticos próprios da “n atureza f eminina”. Dessa forma, fosse na esfera domés tica, executando gratuitamente trabalhos de casa ou produzindo algo co m v alor de troca, fos se no labor externo, existindo remuneraç ão, sempre hav eria a exploração da mulher pelo marido.
No primeiro âmbito o marido se apropriaria daquilo produzido para v enda e luc ro, enquanto no segundo o salário da mulher s erv iria para pagar os trabalhos que ela deix ou de fazer em casa por se dedicar ao labor fora do lar. Assim, para essa feminista, ex istiria uma sobrepos ição de exploraç ões: ao sis tema patriarcal s e acrescentaria a exploração capitalista.
87 Nascido em 1887, em Pombal, Paraíba, o Dr. Adonias publicou diversas obras, das quais
temos a seguinte relação: Idolatria Leiga (1910), A mulher e sua cultura intelectual (1914), O terror da morte (1917), A victória do feminismo (1931) e O amor físico e a mulher (1949). A obra A victória do feminismo lhe rendeu inclusive uma homenagem divulgada no jornal O
Povo em 1932: “A Academia Cearense de Letras (A.C.L.) fará uma reunião no salão Juvenal Galeno para homenagear o seu ilustrado presidente, Adonias Lima, pela publicação de seu brilhante livro A vitória do feminismo. Será orador oficial da solenidade o fluente tribuno Eduardo Mota que fará o elogio ao homenageado, pondo em relação o valor de sua obra”. BPMP, Setor Hemeroteca, O Povo, 1932, p. ?.
88
DUPONT, Christine. O inimigo principal. In: DURAND, Emmanuèle et al (org.). Liberação da
mulher. Ano zero. Tradução: Sônia Roedel e Liliana Santos. Belo Horizonte: Interlivros, 1978.
Salv o as diferenças e os embates acerca dessa temática no âmbito dos es tudos feministas , interess ou-nos observar as interpretações elaboradas pelo Dr. Adonias Lima sobre a for ma de emancipação da mulher, na medida em que algumas experiênc ias aqui destacadas pareciam conv ergir com a sua propos ição. Ao apos tar em posturas e comportamentos diferenciados , esse médico, atrav és de seu es tudo, acabava endossando e legitimando deter minados modos de v ida, como os das profissionais liberais vistos há pouco.
Es sa defesa de uma maior participação das mulheres no espaço público se dava de forma ainda mais atenciosa. Além das conquistas do feminis mo e da perspectiv a econômica e profiss ional como v ia de ac esso a um melhor modo de v ida para as mulheres, era s ua preocupação refutar o pensamento que tinha por base a inferioridade das mulheres como um aspecto natural-biológico:
A resp eito da desiguald ade cere bral e ntre o h omem e a mulhe r [...]
Ainda hoje, pa ra mui ta gen te , a instruçã o sup erior da mulhe r, con stitui um perigo e alarma nte ameaça a e stabi lidad e mo ra l da f amília. A sua ignorância é a conselha da co mo vi rtu de e excele nte norma de co nduta! Po de se af irmar que, em igua ldade de co ndições f uncio nais do céreb ro, a mulher p ossui as mesmas p ossibilid ades, physica (sic), moral e inte lectual, que o h ome m [...].89
O problema em destaque não seria de ordem natural, não existiria uma natureza feminina inferior. Para o Dr. Adonias, a ques tão da pequena participação das mulheres no espaço público era de caráter soc ial e polític o, isto é, implic av a uma reflexão em torno dos motiv os e alcances das restriç ões às mulheres , elaboradas pelos homens , v isto que em niv elamento de oportunidades, elas seriam tão capazes como eles.
A importância dess e livro v inha no bojo de uma discus sã o no Brasil, na qual Direito e Medicina se coadunavam para o estabelecimento de diretrizes no or denamento da s ociedade. A
ciência, então v oz única e v erdadeira, era utilizada nes sa empreitada como argumento central para o c ontrole da sexualidade, foco do interes se s ocial. Era através da ciência que se justificav a a inferioridade feminina:
Se gundo a s con cepções médicas, se ria o f ato de possui r a cab eça mais vo lumosa na pa rte posterior e a f ronte mais e streita qu e a dos homens, o que conferia às mulhe res u m caráter marca do pela maior ativid ade das ‘f aculdades afetiva s’ em rela ção as f aculda des i ntelectuais, dado qu e serviria para justif icar, não só a b aixa p articipação fe mini na no campo das artes, das ciências e da vida pública de mod o geral, mas também a p eque na i ncidência de mulheres na s e statísticas de crimes de assassinato e ag re ssã o corpo ral .90
Es sa marcaç ão científica de fundamentos biológic os para afir mar u ma diferença sexual, na qual a mulher seria inferior ao homem foi preocupação e crítica de diferentes estudos no des envolv imento dos mov imentos feministas. Foi as sim, por exemplo, que pudemos perceber a publicação em 1949, do importante e singular trabalho de Simone de Beauv oir, O Segundo
Sexo, que tev e grande repercussão no surgimento do mov imento feminista francês e mes mo no mundo. Ao se preocupar com a subordinação das mulheres, Beauv oir focou, entre outros aspec tos, as análises biológic as sobre a reprodução a fim de refutar a idéia de que a diferenc iação sex ual implic aria uma div isão dos indiv íduos em machos e fêmeas com papéis sociais pré-definidos.
Contribuindo fundamentalmente para o desenvolv imento dos estudos de gênero na medida em que desnaturalizou as qualidades atribuídas aos corpos dos sujeitos, lançava atenção, sobretudo, a crítica da adjetiv ação negativ a da mul her:
[Os d ados bioló gicos não ] constituem um d estino imutável p ara [a mulhe r]. Não bastam pa ra def inir uma hi erarquia d os sexos [e] não a co ndenam a conservar para se mpre e ssa cond ição subo rdinada .
90
MARTINS JÚNIOR, Carlos. Normas sexuais e exclusão social: o Direito Penal e os padrões de honra e honestidade feminina no Brasil da Belle Époque. In: PERARO, Maria Adenir; MIRANDA BORGES, Fernando Tadeu de. (orgs.). Mulheres e famílias no Brasil. MT: Carlini & Caniato, 2005, p. 37-53, p. 40.
Se ri a ou sado ded uzir de tal ve rif i cação q ue o lug ar da mulhe r é no lar: mas há pessoas ousadas.91
Todav ia, ex istiam distanciamentos profundos de tempo, espaço e pensamento entre Beauv oir e o Dr. Adonias. Enquanto o trabalho dess a filós ofa, de merecido des taque nacional e internacional, lançav a as bases reflex iv as para as ques tões concernentes aos feministas de s egunda onda, onde o direito ao corpo era um dos princ ipais focos de luta, o estudo do Dr. Adonias apresentava as características de seu tempo e espaço. Embora foss e a fav or do que definiu como “a mor liv re ”, apos tando no fracasso da instituição do casamento, isso se dava com aspec tos singulares de tradic ionalismo c ristão. A moral dev eria ser preservada, sendo esta entendida como a união heterossexual, bas eada na fidelidade e estabili dade, no mito do amor romântico e materno:
O Dr. Adonias é pelo a mor livre [o] q ue não quer dize r p romiscuid ade ou regresso à liberdade primitiva dos sexo s; a o contrário, ela harmoniza perf eitamente os i mpulsos do a mor e o ideal da monogami a mode rn a [...]. Mantid a, pois, a f o rma mo nogâmica no regimento da u nião livre, está respe itado o prin cípio de perf eita moralid ade.92
As sim, a preocupação do estudo desse médico com a ascensão das mulheres aos direitos sociais , econômic os e polític os, e não c om os aspec tos c oncernentes aos s eus corpos, parecia ser a marca relev ante de um estudo que s e aproximav a das pers pectiv as dos mov imentos feminis tas de primeira onda. Mes mo co m suas limitações, delineav a discurs ivamente uma maneira diferente d e as mulheres fortalezenses se c omportarem na cidade. Eram elas instigadas à emancipação social por meio da independência profiss ional e econômica, ainda que tomando a bas e heterossexual como um aspecto natural.
91
BEAUVOIR, Simone de. O Segundo Sexo. 12° edição. Editora Nova Fronteira, 2002, p. 34 e 35.
Se tomar mos como base os trabalhos de Michel Foucault, ao inv és de percebermos o sexo no s entido de repressão, mais interess ante s eria obs erv ar os discursos em torno da sexualidade como formas de controle, isto é, téc nicas de poder alicerçadas em for mas de saber.93 A partir do século XVIII, psiquiatria, justiça
penal e medic ina apareceriam como produtores de div ers os dis cursos sobre o s exo, regulando a população e disciplinando os corpos dos indiv íduos.
Nesee sentido, o dis curso do Dr. Adonias, baseado na autoridade do saber médico, surgia como uma nov a forma de perceber e controlar o comporta mento dos homens e, sobretudo, das mulheres. Ao questionar uma inferioridade natural feminina, poderia s erv ir de moeda corrente nas relações sociais estabelecidas pelas mulheres, na medida em que elas dispunham daquele discurso como bas e para legitimarem s uas ações. Mesmo assim, acabav am tendo seus atos marcados por limites explíc itos presentes nesse mes mo discurso que delineav a uma feminilidade específica, ao estar balizada pelo princípio da “p erfeita moralida de”. É importante compreender mos que a concepção e a representaç ão realizadas pelo Dr. Adonias Lima não era m únic as quanto às relações estabelec idas entre mulheres e ho mens . No jornal, espaço de div ulgação de trechos do seu liv ro, s urgiam outras representações acerca do que signific av a ser mulher e homem para o período. Ness e sentido, atentamos para o termo representaç ão, tal como refletido por Roger Chartier , ao afir mar que dev emos
[Pe rceber] as classifica ções, divisões e d elimi taçõe s que o rganizam a ap reensão do mundo socia l co mo categ orias f undamentai s de percepção e de apreciação do real. Va ri áveis consoante as classes socia is ou os meios i ntelectuais, são prod uzida s pela s disposi ções estáv eis e p artilhad as, próprias d o g ru po. Sã o e stes esquemas i ntelectuais incorpo rados q ue criam as figu ra s às quais o p resen te p ode adq uirir sentid o, o outro tornar -se i nteligível e o esp aço ser d ecif rad o. As representações
93
FOUCAULT, Michel. História da Sexualidade II: o uso dos prazeres. 6 ed. Rio de Janeiro: Graal, 1984a.
d o mund o social a ssim construídas [...] são sempre d eterminadas pelos in teresses d e grupo que as f orjam [d aí a nece ssid ade do ] relacion ame nto dos discu rsos p roferidos com a posição de qu em os utiliza .94
Se por um lado regis trav am-se, em nív el nacional, av anç os no debate em torno dos direitos das mulheres e, mes mo em nív el loc al, a ascensão de algumas delas a espaços até então tidos como ex clusivos dos homens , por outro lado, o des env olvimento material da cidade de Fortaleza era acompanhado pela intensa tentativ a de manutenção de hábitos e costumes de outrora, expressos principalmente na qualific ação dos papéis sociais de acordo c om o sexo dos indiv íduos:
Fortaleza [e ra ] uma cida de mui to marcad a p or duas te mpo ra lidad es co nflitan tes. A primeira diz re speito à sua p rogressiva expansão e moderniza ção . A segunda corresp onde às condu tas e costume s de seu s habitantes q ue, no discurso dos d efensores da mode rn idade , n ão se coadunava m com a f ace ‘mod erna’ e ‘progressista’ da cidad e. [...] modernidade e tradição se apresentavam como pares op ostos. Se o primeiro é o lugar do efêmero, d o dese quilíbrio, dos prazeres mu ndano s, das novida des corruptoras dos e spíritos, o seg undo rep resen ta o eterno, a estabilidade, a con tinuid ade, é o q ue lig a o prese nte ao p assado e garante o futuro.95
O tradicionalismo que es tav a presente de for ma marcante nas representações expressas nos jornais recaía sobre as formar de as mulheres e os homens se relacionarem, detendo-se, sobretudo, nas pos turas das primeir as. Diferentemente daqueles comportamentos apontados pelo Dr. Adonias Lima, v ários eram os escritos que buscavam manter a div isão dos ofícios c om base em uma rígida separaç ão s exuada dos espaços, ao construírem o que era próprio do masculino e do feminino, remetendo-os aos homens e às mulheres respectivamente, além de perpetuarem de um modelo burguês familiar.
Desde os anúncios, aparentemente sem qualquer pretens ão ideológica, até as piadas que se apresentavam por meio de um
94 CHARTIER, Roger. A história cultural entre práticas e representações. Lisboa: Difel, 1998, p.
17.
caráter mais inofensiv o, posto que div ulgav am aquilo que era comum no meio social, encontramos disparidades entre os indiv íduos alicerç adas na diferença sexual.
Ness a perspectiv a, obs erv amos no Jornal Gazeta de
Notícias a propaganda de um refrigerador da marca General
Motors . No tempo da modernização fortalezense, os imperiosos e
modernos refrigeradores funcionados a queros ene eram div ulgados reproduzindo o tratamento conferido aos sujeitos no âmbito familiar:
Que deixou em casa/ Esposa ou escrava? Uma esp osa n aturalmente! [...] Uma esp osa que pro tege os seus fi lhos, [f a z] os pratos d o dia, diri ge a cri adage m e ainda o re cebe satisf eita quando, à tarde, retorna ao lar.
Po r isso tudo V.S. deve cercá-la do mai or conf orto, a livia ndo-a das p re ocup açõe s exau stivas e evitáv eis. Exami ne um ref rige rador Frigidaire e ficará surpreso com a s va ntagen s que ele ofe recerá à sua e sposa.96
Es se anúncio merece destaque por demonstrar c laramente o tipo de família idealizada e os atributos es perados da mulher no meio social. Como propaganda, deveria buscar o máximo de ressonância entre os leitores para que o seu intento, a v enda do refrigerador, fosse realizado com êxito. As sim, o propagandista acabava tocando em pontos comuns aos c itadinos para fazer v aler sua oferta.
Embora faç a referência à es posa, o anúncio fora dirigido ao marido. Respeitando a lógic a ex istente no próprio texto divulgado, o escritor referia-se ao homem como destinatário por ser ele o enc arregado do prov imento do lar e do labor externo. Continuando a argumentação em torno de um padrão familiar ideal, à mulher caberia o espaço doméstico de gerenc iamento dos empregados e cuidado dos filhos, tarefas mais tênues frente ao trabalho masculino, as quais lhe permitiriam, inc lusiv e, preparar uma recepç ão calorosa para o es poso cas o este compras se o produto .
A pergunta irônica no início do texto remetia ao séc ulo anterior quando hav ia o ex erc ício da escrav idão. Essa, de maneira
geral, condenada e não mais tomada em seu sentido positiv o, foi lembrada para fazer diferença frente à condição de esposa, mulher. A ironia estav a no fato de ter sido nec essário, logo de iníc io, tornar explícita a diferenc iação exis tente entre ambas: “Uma esposa natura lmen te! ” afirmav a o propagandista apressadamente, visto que pelos s imples arrolar das tarefas poderia haver uma associação direta à condição de esc rav a, com exc eção da tarefa de gerir a c riadagem, o que a aproximav a mais da condição das antigas senhoras donas de cativos .
A natural condição feminina era permeada por preocupações específicas do espaço de sua vivência: o lócus priv ado. Nessa representaç ão dev ia a mulher-esposa estar atenta ao marido, aos filhos , mas também aos aparelhos doméstic os e à criadagem. Aspec tos que seriam menos i mportantes que os do mundo público, do trabalho dos homens, os quais, contudo, serviam para o cronis ta tentar v ender objetos de uso domés tico, fazendo associações diretas ao que era valorizado na cas a, pois se tratava do “[...] melhor presente a oferece r à su a e sposa, a maior proteção a asseg urar à sua f amília”.97
Na tentativ a de fazer v aler ao máx imo a propaganda e chamar a atenç ão dos leitores do jornal, o texto v inha ainda acompanhado de uma grav ura que repres entava muito bem a div isão dos espaços c om base nas premiss as sexuais .98 Uma
senhora e sua filha ac enavam da porta de casa para o marido-pai, que com sua maleta ia ao trabalho. Todos felizes e sorridentes , configurando a família homogênea e as relações sociais idealizadas e harmonios as que tornav am a mulher rec lusa no espaço da c asa. Uma imagem que, muitas vezes , era tão distante das prátic as por nós observ adas.
Mes mo aquelas mulheres que se aproximav am des se padrão ideal de organização familiar poderiam apresentar queixas e se
97 BPMP, Setor Hemeroteca, Gazeta de Notícias, 20/06/1937, p. 9. 98
Infelizmente não foi possível reproduzir essa imagem por conta do desaparecimento do jornal em questão no decorrer da pesquisa.
mostrarem insatis feitas. Foi nesse sentido, cons tatando frustrações c onstantes e indefinidas , que Betty Friedan des envolv eu suas pesquisas e estudos , publicando em 1963, A
Mís tica Feminina. Ao recolher depoimentos de mulheres norte-
americanas de classe média que c orrespondiam ao ideal de “rain ha do lar”, isto é, senhoras c asadas e mães que pos suíam, entre outras cois as, lindas cozinhas (com refrigeradores modernos) , além de segurança econômica, Friedan busc ava entender que mal as afligia. Para ela, a insatisfação das mulheres adv inha jus tamente de suas completas realizações c omo donas de casa. A mistificação em torno de uma “f eminilida de” ocultav a a ideologia que tentav a naturalizar a cons trução do papel tradicional da mulher.
Retornando ao jornal Folha do Pov o encontramos uma coluna de aspec tos lúdicos que constantemente fazia referênc ias às mulheres . O tom joc oso c om que elas eram tratadas acabava por demons trar, mediante a busc a do riso, os elementos que poderiam enaltecer ou ridicularizar as mulheres na c idade de Fortaleza. A brincadeira inocente, estabelec ida entre escritor e leitor, fazia referênc ia aos as pectos que circulavam naquele meio social, buscando ressoar ao máximo em s eu público alv o, tal como chamou atenção J oana Maria Pedro em análise dos periódicos:
[...] o escritor, o a rti culista de jornal, ao e screv er, ao seleciona r os textos, por mai s que sej a guiado po r