Leitores diligentes muitas vezes apreciam escritores e palestrantes que conseguem capturar uma posição complexa numa única polida gema de declaração. Tais aforismos (como eles são chamados) são especialmente reveladores quando se tornam públicos pela primeira vez.
Infelizmente, uma vez que um aforismo foi largamente disseminado, ele corre o perigo de ficar domesticado - qual cachorrinho treinado que é arrastado para fora quando as circunstâncias requerem. Para muitos crentes, é isso o que as bem-aventuranças se tornaram (literalmente, as bênçãos, um termo derivado da primeira palavra de cada versículo). Nós estamos tão familiarizados com elas que as palavras podem deslizar piedosamente por nossas línguas sem nos perturbar. Contudo, cada uma das bem-aventuranças é um aforismo revolucionário e juntas elas podem, quando
compreendidas de maneira apropriada, derrubar totalmente o secularismo e transformar radicalmente o cristianismo insípido.
A primeira (5:3) insiste que as pessoas realmente “bem- -aventuradas” - aquelas que tem a aprovação de Deus - são aquelas que são os “humildes de espírito”. Aqueles que são de tal forma aprovados por Deus que herdam o Seu Reino não são uma elite espiritual, os moralmente influentes, os místicos piedosos - mas os destituídos espiritualmente. Aqueles que gozam do Reino não são esses que conseguem demonstrar o maior crescimento espiritual ou as maiores credenciais, e sim, aqueles que reconhecem a falência espiritual. O Reino não é para a pessoa que faz uma profissão
de fé como se tal coisa fosse fazer um favor a Deus, porém para a pessoa que reconhece constantemente a condição empobrecida da sua vida, e se achega a Deus por nenhuma outra razão senão a necessidade.
A última bem-aventurança na série (5:10) não é menos surpreendente. O reino dos céus é prometido, como uma função da bênção e da aprovação de Deus, não ao testemunho bem sucedido, a coluna de retidão, o líder cristão itinerante - mas aos “que são perseguidos por causa da justiça...”. A
conduta dessa pessoa é tão justa que o mundo não consegue suportá-la.
O retrato não é de um santarrão, mas de um crente marcado por integridade - integridade no comércio, na fala,
em transações pessoais, no preenchimento do imposto de renda, na oferta de valor por dinheiro, nos relacionamentos com o sexo oposto, integridade em todos os lugares e em todos os momentos. O mundo normalmente prefere uma aparência de integridade ou integridade em áreas selecio nadas. Quando o mundo encontra a coisa verdadeira, ele reage com indignação.
De certo modo isso sempre foi assim. Mesmo no Velho Testamento, Deus Se dirigia às pessoas justas dos dias de Isaías nestes termos: “Ouvi-me, vós que conheceis a justiça, vós, povo, em cujo coração está a minha lei; não temais o opróbrio dos homens, nem vos turbeis pelas suas injúrias (Isaías 51:7).
Na verdade, esta bem-aventurança é tão importante que ela é expandida nos próximos dois versículos (Mateus 5:11,
vós - para tornar o desafio mais direto). Agora fica claro que a perseguição de 5:10 iria incluir insultos e difamação.
Mesmo sendo sempre verdadeiro que pessoas genuina mente justas não ganham competições de popularidade, existe uma ferroada extra neste caso. No versículo 10, Jesus disse que a razão para a perseguição é “por causa da justiça”. Além disso, Ele explicou que a perseguição viria “por minha causa” (5:11). Noutras palavras, a justiça que está em vista é aquela que surge de uma pessoa ser discípula de Jesus.
Existe uma outra implicação que é um tanto surpreen dente: os discípulos de Jesus que são perseguidos se associam aos profetas do passado que foram perseguidos (5:12). Assim como os profetas viveram em lealdade a Deus e pagaram um preço social, nós devemos viver em lealdade a Jesus e pagar um preço social. Mas isso significa que nós somos semelhantes aos profetas, e que Jesus é idêntico a Deus. Isso significa que quanto mais meditamos nesta bem-aventurança, mais ela se torna não apenas um desafio porém uma alegação messiânica velada.
Ainda assim é um desafio - plenamente em linha com outras passagens do Novo Testamento que previnem o seguidor de Jesus a esperar oposição e isso quase faz da oposição um emblema da fé genuína e do discipulado (veja Lucas 6:26; João 15:18-16:4; Atos 14:22; 2 Timóteo 3:12; 1 Pedro 4:13,14). A crença fácil pode ser aceitável ao mundo e à filosofia popular tal como o “poder do pensamento positivo”, fraseado por clichês evangélicos, e pode ganhar a aclamação mundana, entretanto os verdadeiros discípulos de Jesus sofrerão alguma oposição. Por outro lado eles, somente
eles, descobrirão que “deles é o reino dos céus” (5:10).
Essa benção é a mesma daquela prometida na primeira
bem-aventurança (5:3). Todas as restantes são diferentes (5:4- 9). Começar e terminar uma seção de escrita com o mesmo tema e até as mesmas palavras é um recurso estilístico que os críticos literários chamam de inclusão, um tipo de invólu cro literário. Neste caso isso significa que todas as normas estabelecidas nas bem-aventuranças têm a ver com herdar o reino dos céus. Elas são, por assim dizer, as normas do reino.
Não é possível passar por todas elas em detalhe neste pequeno capítulo, mas talvez possamos saborear um versí culo. O versículo 6 promete as bênçãos de Deus sobre aqueles que “têm fome e sede de justiça”. Fome e sede representam os desejos mais profundos (veja também Salmo 42:2). Certamente a fome mais profunda é a fome pela Palavra de Deus (veja Amós 8:11-14). Os discípulos de Jesus desejam veementemente a justiça, não apenas para que eles possam fazer inteiramente a vontade de Deus, mas para que também possam ver a justiça em todos os lugares. (Em Mateus, a palavra justiça nunca toma o significado de justiça imputada
como acontece freqüentemente nos escritos do apóstolo Paulo). Toda a injustiça os aflige e os torna ansiosos pelo novo céu e pela nova terra, o lar da justiça (veja 2 Pedro 3:13). A benção de Deus sobre eles é enchê-los da justiça em certa medida agora, mas sem limite um dia.
Claramente, os valores estabelecidos nas bem-aventu ranças são fundamentalmente diferentes daqueles das áreas centrais da vida moderna, da educação, do desenvolvimento
tecnológico, ou do poderio militar. A coisa surpreendente é que muitas pessoas, devido estarem vagamente familiarizadas com esses valores, na verdade pensam que estão mais ou menos vivenciando-os. A familiaridade barata roubou desses aforismos a sua força. Mas a reflexão renovada sobre eles não apenas acentua sua estatura moral transcendente, porém nos obriga a examinarmo-nos para descobrir se somos herdeiros do Reino (veja 2 Coríntios 13:5).
Por certo aqueles que vivem por tais normas não podem fazê-lo em segredo. Sua religião não é de experiência privada apenas, mas também de integridade, humildade, pureza e
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miscr\còxà\2Lpúblicas. E por isso que os próximos versículos
partem imediatamente para considerar o testemunho do Reino (Mateus 5:12-16).
O tema de testemunho é exposto em duas metáforas. A primeira retrata os seguidores de Jesus como sal (5:13-16).
No antigo Oriente Médio, embora o sal fosse usado para muitas coisas, ele era usado principalmente como um preservativo. Naqueles dias anteriores às geladeiras, salgar a carne era a melhor maneira de preservá-la. Grande parte desse sal vinha de charcos de sal e semelhantes e, portanto, tinham muitas impurezas. Se tal sal fosse lixiviado um pouco, a porcentagem de impurezas poderia tornar-se tão alta que o sal não teria nenhuma eficiência. Assim também os seguidores de Jesus devem retardar a deterioração num mundo que marcha constantemente em direção a corrupção. Mas se eles forem lixiviados, removendo o que é peculiar acerca deles, eles ficam inúteis, Eles certamente não estancam o mal do mundo se eles perderem sua obediência, lealdade,
e poder peculiares. Na verdade, com o tempo eles são simplesmente esmagados debaixo dos pés.
Ou colocando isso de outra maneira (5:15,16), assim como uma cidade sobre um monte, iluminada à noite por mil lâmpadas fracas de óleo de oliva, não pode ser escondida, assim também um verdadeiro discípulo de Jesus não pode ser escondido. Tais pessoas irão se sobressair. De qualquer forma, assim como é ridículo acender uma lâmpada e depois escondê-la sob uma tigela de medição, assim também é impensável esconder a luz do crente. O exato propósito da
lâmpada é irradiar luz num lugar escuro; e o exato propósito
dos seguidores de Jesus é irradiar a luz de Jesus, da revelação bíblica, da integridade moral, do evangelho do Reino, num mundo tenebroso.