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AS OPERAÇÕES FUNCIONALISTAS E O USO DO JOGO

No documento O JOGO COMO LINGUAGEM: (páginas 69-72)

5 A CONCEPÇÃO FUNCIONAL DO JOGO

5.1 AS OPERAÇÕES FUNCIONALISTAS E O USO DO JOGO

Em termos de estudos da linguagem, assumimos a função comunicativa da língua, fundamentada e representada como enfoque central pelos estudos funcionalistas. São entendidas, na visão funcionalista, as formas comunicativas como propriedades fundamentais resultantes de uma combinação de motivações e regularidades, que organizam interativamente a sua gramática, e que, portanto, partem da experiência discursiva. Assim, postulamos que as características totalizadoras da experiência corporal de interagir dentro de um encontro motor podem definir, em grande parte, a gramática de um jogo. Os jogadores, por meio de mecanismos estratégicos, nas suas condutas motrizes buscam exatamente o efeito da maneira de jogar para estruturar o jogo. Assim, esta maneira deve motivar as condições de uso.

A maneira de um grupo social jogar indica, efetivamente, os elos que a motricidade dos jogadores estabelece com a estrutura do jogo. Os indicadores externos, entre eles a capacidade física dos que jogam, permitem caracterizar o modo estratégico de um grupo social interagir e os diferentes estados motores dos jogadores. Desse modo, é possível identificar e explicar as conexões que os

jogadores estabelecem entre a lógica formal e o contexto, ou seja, os estados interiores e as motivações exteriores numa partida. Mais especificamente, é possível vincular as estruturas motivadoras dos que jogam com o próprio jogo, por intermédio do princípio da iconicidade. Ao postularmos a elaboração de uma concepção funcionalista de jogo, admitimos que a predominância da iconicidade do jogo estimula a emergência de outra leitura e interpretação das práticas corporais codificadas, ou seja, os jogos coletivos.

O ponto que merece destaque é que o nosso estudo fornecerá a evidência dessa base motriz, icônica, motivada e pragmática no sistema dos jogos. Esse princípio entra em conflito com as propostas eminentemente formalistas, que estabelecem, no sistema-jogo, o ponto de partida para a organização dos sentidos motores em seu contexto estrutural.

Desse modo, buscamos conceber as produções motrizes dos sujeitos que jogam não mais na versão descritiva do jogo como um conjunto de regras, e sim em um novo paradigma de orientação funcional da linguagem, com foco na tensão entre o concebido e o vivido, no efeito pragmático das ações motrizes nos jogos e nas opções individuais de cada ator social (jogador) que sustenta o jogo.

A concepção funcionalista do jogo pode também ser definida a partir das evidências icônicas do jogo, pois o jogo não deixa de ser um evento aberto, instável, imprevisível, e não a projeção lógica de uma estrutura já estabilizada no tempo por um determinado grupo social, tal como a proposta da praxiologia formalista preconiza. Assim, afirmamos que o efeito da constituição de um jogo singulariza a motricidade do jogador. Este propõe, cria, repete, marca e enfatiza de forma regular ou imprevisível sua motricidade, que se faz pragmaticamente para que o jogo aconteça.

O que se caracteriza como constituinte de um jogo são as ações menos convencionais dos jogadores, que escapam da arbitrariedade e denotam contradição, ruptura ou transformação. De certa forma, é o próprio sujeito que desautoriza a visão estabilizada do jogo, o que nos faz buscar as razões dessa motivação, maleabilidade e flexibilidade.

Nessa visão mais motivada, postulamos que a constituição de um jogo está funcionalmente associada a um princípio de iconicidade motriz, formulado por ações que se repetem, transformando o formalismo do jogo. A historicidade das ações motrizes de outros que precederam o modelo de jogo formal deve ser levada em

conta, fortalecida na constituição jogo. Asseveramos que as relações motrizes dentro de cada situação motriz são carregadas de história e usos, pois as relações semânticas sincrônicas contidas nos jogos contêm um componente diacrônico que não podemos deixar de reconhecer.

Nesse sentido, entendemos que toda ação motriz mantém vínculos com outras ações (internas ou externas) pertencentes à mesma formação motriz do jogo, de modo que podemos requerer uma rede polissêmica de sentidos motores nos jogos. Isso faz com que organizemos um corpus das ações motrizes, baseado em um processo histórico, com a realização da pesquisa diacrônica do mesmo, uma vez que a ação motriz de um jogador mantém uma relação corporal com outras ações pré-construídas, produzidas em outras circunstâncias, anteriores a essas e, muitas vezes, dependentes dessas.

Podemos ter confronto nas regras, nos códigos e nas expectativas arbitrárias na estrutura dos jogos. Nos casos em que um jogador mostra poder de transformação das situações motrizes, ele resgata ações que fizeram parte da sua história de jogador, ou não comunga com outros sentidos atribuídos à forma de jogar de uma certa comunidade não-formal. Nesse sentido, a motricidade do jogador será funcional e confrontará os conteúdos dominantes, caracterizando-se pela forma surpreendente, resultante de uma postura criadora, questionadora da realidade formal posta.

Desse modo, a abordagem mais globalizante do jogo evita generalizações reducionistas, permitindo-nos mais facilmente observar as simetrias e regularidades no comportamento dos sujeitos jogadores nos jogos. O desvelamento dessas simetrias e regularidades nos permite fazer previsões funcionais e obter algum controle da situação motriz, para reconhecer as possíveis adaptações e a própria gramática do jogo. A percepção das regularidades nos jogos é socialmente compartilhada entre os jogadores e pode ser percebida na história e no espaço dos jogos.

Segundo Votre (1995), o espaço icônico nem sempre se manifesta transparente, em virtude da própria dinâmica arbitrária das línguas naturais. Entretanto, a linguagem, como o jogo, não deixa de ser um fenômeno aberto que interage com o social e que se constrói permanentemente no cotidiano. O olhar sincrônico de uma situação motriz pode, muitas vezes, diminuir ou mesmo obscurecer a propriedade icônica de auto-estruturação do jogo, ligando o jogo

apenas aos mecanismos arbitrários e estáveis na sua estruturação interna.

Por isso, a abordagem funcionalista do jogo, aqui defendida, revela -se válida para distinguir o sentido diacrônico do jogo, até então tratado de maneira meramente sincrônica pela Praxiologia Motriz de Parlebas, mais interessada nas bases interna e lógica do jogo do que nos processos de continuidade, variabilidade e mudança que partem da motricidade dos que jogam e derivam de outros campos semânticos – do lúdico para o esportivo, como um processo iconicamente motivado:

mais lúdico --->mais esportivo motricidade > tempo > estrutura ou convenção

Assim, busca-se uma abordagem de análise do jogo que evidencie favoravelmente a realidade fundadora dos jogos e suas motivações. Defendemos que o jogo é gerado na interação de certos grupos sociais que o compreendem como uma ferramenta interativa. Nesse sentido, a motivação que gera o jogo emerge da experiência humana, que se manifesta na organização socialmente compartilhada de um grupo social. Sustentamos então que o sistema jogo é gerado na experiência motriz do sujeito jogador, no contexto físico-social, influenciando a estrutura, operando regularidades.

No documento O JOGO COMO LINGUAGEM: (páginas 69-72)