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OUTRAS ABORDAGENS QUE CONSIDERAM O USO E O

No documento O JOGO COMO LINGUAGEM: (páginas 32-35)

Dos conceitos que foram apresentados, podemos afirmar que encontramos evidências de um tipo de lingüística formal que oferece os conceitos e modelos que fundamentam a análise das línguas. Entretanto, esses conceitos não se esgotam na análise dos elementos internos da língua em termos de princípios formais do sistema lingüístico, mas se anunciam para outras abordagens que consideram o uso lingüístico e o contexto interativo de uma língua particular.

Na presente pesquisa consideramos os diversos desdobramentos pragmáticos dos estudos da linguagem e suas possibilidades de abordar a linguagem para melhor compreender o complexo fenômeno lingüís tico.

A análise da linguagem em uso não confere à língua uma posição central nas explicações lingüísticas. Para a pragmática, certos enunciados têm a propriedade de implicar outros. Desse modo, busca-se explicar como os interlocutores são capazes de entender uma dada expressão, ou seja, como podem inferir mais do que as expressões significam e por que um falante prefere dizer alguma coisa de maneira indireta, e não de maneira direta. Em outras palavras, a pragmática pode mostrar como se fazem inferências necessárias para chegar ao sentido dos enunciados.

Os estudos pragmáticos têm como objetivo analisar a relação existente entre a linguagem e a exterioridade, consistindo esta última nas condições de produção do discurso: o falante, o ouvinte, os interlocutores, o contexto da comunicação e o contexto cultural. A pragmática acabou por introduzir nos estudos da linguagem a noção de contexto e de situação social e cultural. As ações discursivas não são apenas transmissoras de informação, mas possuem sentido entre os interlocutores. O que é dito resulta da relação de sentidos estabelecida por eles num contexto social, que é cultural e histórico.

Portanto, os estudos pragmáticos produzem um deslocamento em direção às ciências sociais, à antropologia e à psicologia social, observando a linguagem produzida pelo sujeito numa situação específica, devendo quem analisa procurar

mostrar o seu processo de produção. Em vista disso, eles propõem que sejam integrados conhecimentos lingüísticos, sociolingüísticos e educacionais.

Com relação à dicotomia diacronia versus sincronia, a concepção pragmática de linguagem adota uma perspectiva pancrônica, em que as propriedades funcionais que dela decorrem podem ser observadas tanto num corte sincrônico quanto nos processos de mudança que se percebem na trajetória diacrônica da língua. Desse modo, a linguagem, como um processo pancrônico, envolve a percepção das mudanças, variações, história e tempo, que podem ser interpretadas por meio de uma concepção lingüistica capaz de observar os velhos e novos sentidos da linguagem.

Num âmbito mais pragmático, pode-se incluir o discurso individual (a fala) como gerador do sistema lingüistico a partir de seu caráter social. Este sistema se desenvolve como um instrumento maleável, em constante transformação a partir dos propósitos comunicativos dos falantes, pois sua estrutura sistematiza-se em circunstâncias efetivas de interação verbal. Desse modo, o sistema lingüístico está sempre interagindo com o discurso. Este pode ser codificado como a gênese do sistema, e, apesar de ser compreendido como um ato individual, também organiza o sistema, que, por sua vez, sustenta o discurso.

Dentro da visão pragmática da linguagem, a motivação que rege a língua é admitida, tendo em vista que a noção sígnica é muito complexa. Essa visão apóia-se exatamente na não-arbitrariedade do signo lingüístico e na concepção de que o valor do signo depende do mundo exterior, da realidade física e da conceptualização dessa realidade pelo sujeito. Para a visão pragmática da linguagem, a língua não pode ser vista de forma isolada, ou seja, fora do contexto de uso.

A significação lingüística existe em função dos propósitos dos interlocutores comunicarem algo e do reconhecimento dessa intenção. Há princípios gerais que fazem com que os interlocutores possam reconhecer a intenção do locutor e chegar ao sentido do que ele diz. Por isso, o objeto de estudo da pragmática é a relação entre a estrutura da linguagem e seu contexto de uso. O estudo do uso é necessário, pois há enunciados comunicativos cujas interpretações só podem ocorrer na situação concreta de uso da fala, a partir da análise das circunstancias discursivas em que são enunciadas.

Para a lingüística de orientação mais pragmática não é suficiente apenas observar e classificar os dados, é necessária uma teoria explicativa que preceda os

dados e que possa explicar não só as frases realizadas, mas também o que potencialmente foi produzido entre os interlocutores. Defende-se a idéia de que um fenômeno lingüístico pode ser explicado por meio de processos diacrônicos recorrentes, que têm motivação funcional. Desse modo, a linguagem pode ser vista como um instrumento cuja forma se adapta às funções, que são, em última instância, interativas.

Uma outra proposta para a explicação do fato lingüístico é apresentada pela visão de gramática utilizada em pesquisas voltadas para a análise funcional da língua. A gramática que se fundamenta nos princípios do funcionalismo não separa o sistema lingüístico das funções que seus elementos preenchem. A gramática funcional considera as estratégias do uso regular e sistemático das expressões lingüísticas na interação verbal, e inclui na análise da estrutura gramatical toda a situação comunicativa: o propósito do evento da fala, os fenômenos de variabilidade e mudança da língua, os participantes e o contexto discursivo.

Uma perspectiva mais pragmática de gramática normativa concebe a gramática e a linguagem em função do uso, ou seja, reconhece o usuário pelo seu conhecimento lingüistico, perceptual e social da língua, pois ele é capaz de produzir e interpretar lingüisticamente um grande número de situações comunicativas, derivar conhecimentos da língua a partir de expressões já apropriadas, perceber o ambiente gramatical, derivar seu conhecimento a partir de suas percepções e reconhecer uma situação comunicativa particular a fim de atingir êxito nas suas interações.

Uma das tarefas desse tipo de gramática é revelar as motivações que regem sua estrutura. Sendo assim, o padrão de construção gramatical parte de fenômenos associados aos processos de regularização do uso da língua. Essa construção manifesta o aspecto não-estático da gramática, demonstrando que a língua está em constante mudança, em conseqüência tanto do modo como os falantes constroem e formulam expressões lingüísticas quanto do modo como os interlocutores processam e interpretam as expressões lingüísticas. Nessa concepção, a gramática é um contínuo fazer-se, o que permite a uma determinada teoria de estudos da linguagem falar de estrutura lingüística moldável.

No modelo de gramática funcional reconhece-se que, do ponto de vista sincrônico, a gramática é o conjunto de regularidades decorrentes de pressões de uso. Assim, no processo de regularização de uma língua tudo começa com o uso, com a repetição das novas formas da língua, que passa a exercer uma certa

pressão, tal que o começo, que era fortuito, se converte em norma, passando a fazer parte da gramática.

O pressuposto maior da concepção pragmática da linguagem é que o uso das expressões lingüísticas é submetido às condições reais de produção da língua. Nesse sentido, o que se verifica é o estabelecimento de uma norma funcional entre os usuários, baseadas na sua inserção social e cultural. As estruturas das expressões lingüísticas são configurações de propósitos comunicativos entre os usuários, cada qual tendo uma significação na língua.

No documento O JOGO COMO LINGUAGEM: (páginas 32-35)