Capítulo 7: Considerações finais Apêndices:
4 O MODELO NANOSSINTÁTICO
4.5 AS OPERAÇÕES SINTÁTICAS: PRINCÍPIOS E RESTRIÇÕES
LUGAR ...
O resultado, como podemos observar, é o paradigma abb : ABB. A essência do Princípio *ABA é, portanto, a previsão de que, se um item lexical de uma determinada língua for usado para lexicalizar uma estrutura intermediária da hierarquia, ele igualmente será preferido para a lexicalização das estruturas mais baixas quando em competição com itens que lexicalizam estruturas mais altas. Nas palavras de Pantcheva:
A generalização *ABA defende que não é atestado entre as línguas naturais que uma estrutura [X [Y [Z]]] seja lexicalizada usando-se o item A, [Y [Z ]] seja lexicalizada se B, e [Z] seja lexicalizada usando-se A novamente.119 (PANTCHEVA, 2011, p. 223)
Em suas teses, tanto Caha (2009), quanto Pantcheva (2011) não encontram indícios de itens lexicais que carreguem uma estrutura SRota-SAlvo à exclusão de SFonte, ou itens que lexicalizem SFonte-SLugar à exclusão de Salvo, comprovando empiricamente sua hipótese. No PB, do mesmo modo, não encontrei nenhum item que viole tal restrição. Infelizmente, a apresentação de tal análise foge ao escopo desta discussão. Portanto, por questão de tempo e espaço, continuarei a apresentação da teoria nanossintática, passando a expor, brevemente, seus princípios e restrições.
4.5 AS OPERAÇÕES SINTÁTICAS: PRINCÍPIOS E RESTRIÇÕES
Nas seções anteriores, explorei a ideia de que o módulo sintático-conceitual constrói suas árvores a partir de traços primitivos mais finos, obedecendo a princípios sintáticos simples e amplamente aceitos dentro do quadro cartográfico e gerativo, nomeadamente, Mergir externo e Inserção/Combinação. Vimos, igualmente, que a Nanossintaxe se distingue de outras teorias gerativas ao postular que o processo de
119 “The *ABA generalization states that it is not attested among languages that a structure [X [Y [Z]]]
is lexicalized by using A, [Y [Z ]] is lexicalized by using B, and [Z ] is lexicalized by using A again.” – T.A.
b
inserção é regulado pelo acesso cíclico ao léxico. Ao mesmo tempo, os itens que compõem o léxico não carregam somente os traços primitivos que permitiriam sua seleção para inserção, mas possuem igualmente uma estrutura já formada a partir de tais primitivos. Deste modo, não é só o tipo de traço, mas também a forma da estrutura estocada no Léxico que controlam as possibilidades de lexicalização das estruturas criadas pela sintaxe.
Até o momento, como tenho tratado de sentenças e itens lexicais do inglês e de línguas latinas, temos encontrado estruturas de superfície lineares correspondentes às estruturas sintáticas, observando assim o princípio universal da ordem especificador-núcleo-complemento (KAYNE, 1994; e CINQUE, 1999, 2000, 2009 apud PANTCHEVA, 2011). Neste sentido, tenho assumido o Axioma de Correspondência Linear120, como proposto por Pantcheva (2011). Baseando-se na proposta de Kayne (1994), a autora incorpora, à máxima acima, a visão de que itens lexicais também podem lexicalizar nós não-terminais:
(264) Axioma de Correspondência Linear (PANTCHEVA, 2011, p. 135):
Se um X não-terminal C-comanda assimetricamente um Y não- terminal, então qualquer item que lexicalizar X precederá qualquer que seja o item que lexicalizar Y.121
Paralelamente, também é vastamente observado que as mais diversas línguas lexicalizam os sintagmas que formam a hierarquia aqui defendida das formas mais diversas. O aparente caos da variação, contudo, pode ser explicado, em termos nanossintáticos, através de um mecanismo bastante simples: o movimento de determinadas partes da estrutura sintática é desencadeado pela forma da estrutura gravada nos itens lexicais de uma determinada língua e pela necessidade de lexicalização cíclica exaustiva. Caha (2009), a partir da proposta de Starke (2005), denomina tal mecanismo como “Movimento dirigido por Lexicalização”122.
As perguntas que se colocam, então, são: que partes da estrutura podem se mover, quando isso pode acontecer e onde elas devem parar. Para ilustrar um processo
120 Do inglês, “Linear Correspondence Axiom”.
121 “ If a non-terminal X asymetrically c-commands a non-terminal Y, then whatever spells out X precedes whatever spells out Y” - T.A.
122 Do inglês, “Spell-out driven movement”.
derivacional que envolva Mover, apresento resumidamente, mais uma vez, o passo a passo de tal hipótese baseando-me em Pantcheva (2011).
Imaginemos, assim, uma língua que possua os itens lexicais abaixo:
(265) a à < /a/ , A >
b à </b/, SB>
B
Ao mesmo tempo, suponhamos que a sintaxe construa o sintagma seguinte:
(266) SB B A
Levando-se em conta as hipóteses assumidas até aqui, a derivação terá início com o Merge externo de A e B, seguido de inspeção ao Léxico, já que o Mergir externo define o fim de um ciclo. Essa inspeção, por sua vez, como proposto anteriormente, acontecerá de baixo para cima e da direita para a esquerda. Assim, o primeiro nó a ser inspecionado para inserção na estrutura criada em (266), será o nó A. Nesta língua, encontraremos um item lexical perfeito para a lexicalização de A = a:
(267) SB
B A
Na continuidade da inspeção do Léxico, ao buscarmos uma combinação para o nó B, encontramos b, que pode ser inserido sobre B, já que uma de suas subpartes é idêntica ao nó em questão:
(268) SB
B A
Finalmente, na busca por uma combinação para BP, encontramos novamente b, que carrega, na verdade, uma estrutura com a habilidade de cobrir tanto BP quanto B. Note-se, contudo, que a forma do item b não prevê a existência de uma irmã para B. Deste
a
b a
modo, para que b seja inserido de forma bem sucedida sobre BP-B, o nó A precisa ser movido, criando um nó BP2:
(269) SB2
A SB1 àb
B tA
Até aqui, pudemos ver quais partes da estrutura estão sujeitas à operação Mover, que configurações desencadeiam tal movimento e qual é o lugar de aterrissagem dos nós evacuados. Resta-nos saber, então, quando esse movimento acontece. As duas possibilidades seriam: o movimento acontece dentro do mesmo ciclo ou, alternativamente, somente se efetiva no ciclo seguinte.
Para decidir qual seria a opção mais viável, precisamos nos lembrar de dois pontos cruciais: o nó SB2 precisa igualmente ser buscado no Léxico para uma inserção bem sucedida. No entanto, o movimento de A para SB2 constitui Mover Interno e, portanto, não aciona inspeção lexical. Além disso, recordemos que a inspeção lexical que acontece dentro de um determinado ciclo se lembra do ciclo anterior, e não repete o trabalho já realizado. Assim, se o movimento acontecesse dentro do mesmo ciclo em que foi acionado, invariavelmente teríamos a criação de um nó que não seria, por sua vez, lexicalizado, resultando em uma sentença mal formada.
Considerando tal configuração, a única opção possível dentro da presente abordagem seria a de que o nó A seja marcado para evacuação em um ciclo, mas que o movimento somente aconteça no ciclo seguinte. Potencialmente, desta forma, todo ciclo poderia começar com um Mergir Interno, seguido de um Mergir Externo e terminando com a lexicalização bem sucedida de todos os seus nós.
Como já sugeri, para uma discussão mais detalhada e aprofundada de todas as potencialidades que tal sistema apresenta, refiro, especialmente, o trabalho de Pantcheva (2011) sobre a hierarquia espacial e o trabalho de Caha (2009) sobre a hierarquia de casos. Para os objetivos da presente tese, contudo, a proposta básica até aqui apresentada mostra-se suficiente, pois as análises que desenvolveremos não lançam mão desta aparelhagem mais complexa.
b a