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EM DEFESA DE UMA ABORDAGEM SEMÂNTICA DECOMPOSICIONAL

No documento PARTE II (páginas 46-53)

Capítulo 7: Considerações finais Apêndices:

2 POR UM TRATAMENTO SEMÂNTICO-CONCEITUAL DA MUDANÇA

2.2 SEMÂNTICA CONCEITUAL: BREVE APRESENTAÇÃO

2.2.1 EM DEFESA DE UMA ABORDAGEM SEMÂNTICA DECOMPOSICIONAL

Como podemos perceber, a Semântica Conceitual se coloca como uma abordagem decomposicional. Portanto, é importante reforçar a minha opção por uma teoria decomposicional-conceitual em oposição a outras teorias semânticas que partem do princípio de que os significados dos itens lexicais devem ser interpretados como unidades mônadas, sem estrutura interna (FILLMORE, 1982; COLLINS & QUILLIAN, 1969). Neste sentido, sigo a argumentação de Jackendoff (1983, 1990) e, como espero demonstrar ao longo desta tese, parto da hipótese de que a observação de dados empíricos nos sugere que os significados dos itens lexicais de uma língua natural - e entre eles os verbos de movimento e as preposições espaciais - são passíveis de representação em traços mais finos, primitivos, que, por sua vez, estão estruturados de forma bastante articulada por uma Sintaxe de primeira fase (RAMCHAND, 2008a).

A hipótese de que os itens lexicais de uma língua podem ser decompostos em traços mais finos nos permitirá, ao longo deste trabalho, entender a variação e as restrições encontradas em nossos dados de forma simples, generalizante, e ainda mais importante, sem lançar mão de todo um maquinário ou de princípios que não sejam independentemente motivados. Dentro do quadro decomposicional, contudo, é preciso separar a abordagem semântico-conceitual, que é aqui adotada, de outras duas abordagens: a abordagem formal, por um lado, e a abordagem lexical, por outro lado.

Assim, inicialmente, acolho a defesa de Jackendoff (1983) da limitação de uma abordagem formalista para a Semântica. O autor se baseia, para tal, no que ele chama de “Restrição Gramatical”: a representação lógica/conceitual de uma determinada construção não deveria estar muito distante da representação sintática correspondente.

Dentro do formalismo baseado em uma lógica quantificacional, tal restrição questiona a necessidade imposta por esse quadro teórico de se postularem operações extras que garantiriam a apropriada correlação de ambos os níveis sintático e semântico. Com efeito, o autor aponta que “[s]eria difícil supor que uma criança em fase de aquisição devesse aprender as complexas regras de correspondência necessárias para correlacionar o formalismo quantificacional com a sintaxe de superfície”11 (JACKENDOFF, 1983, p.15).

Com essas observações, o semanticista pretendia justificar a sua proposta de decomposição de sentenças em primitivos que se organizariam de forma a estar diretamente ligados às projeções sintáticas já previstas no quadro teórico gerativista da época.

Segundo Jackendoff (1983, p. 63), há ainda outra limitação na abordagem formalista: a quantidade de categorias deste quadro (constantes, predicadores, quantificadores, etc) não seria rica o suficiente para dar conta das numerosas nuances de sentido que estão ligadas a um SP, por exemplo, e que restringem, de maneira bastante previsível, as estruturas de superfície em que tais sintagmas podem aparecer.

Para ilustrar esse ponto, o autor examina o uso do que ele chama de “preposições intransitivas”12, explorando o fato de que este tipo de item lexical poderia ser tratado como um predicador (23) ou como um termo que preencheria os lugares argumentais de um predicado (24), incorrendo em uma contradição.

(23) Joana está lá.

(24) Joana correu lá.

Assim, Jackendoff (1983, p.67) assume que é possível prever que, pelo menos,

“cada constituinte principal na sintaxe de uma sentença corresponde a um constituinte

11 “[o]ne could hardly expect a language learner to learn the complex correspondence rules required to relate quantificational formalism to surfasse syntax.” - Tradução da Autora (T.A.)

12 Preposições intransitivas seriam aquelas que codificariam os mesmos sentidos comumente encontrados em preposições, mas que não tomariam outras entidades ou categorias conceiutuais como argumentos.

conceitual que pertence a uma das principais categorias ontológicas”13. Como veremos na sequência deste trabalho, o maquinário da Nanossintaxe nos possibilitará uma correlação entre sintaxe e semântica bastante fidedigna, nos termos de Jackendoff, mas com uma importante distinção: a proposta desse autor levava em conta a Teoria Gerativa dos anos 80, enquanto que a Nanossintaxe constrói sua proposta sobre os mais recentes trabalhos de inspiração ou de origem gerativa, como o programa Minimalista (CHOMSKY, 1995) e a Cartografia (CINQUE, 2002; CINQUE & RIZZI, 2010).

Ainda, é importante sublinhar que, embora eu adote uma orientação decomposicional conceitual, não formal, esta orientação não é necessariamente lexicalista. Sigo Ramchand (2008a) na proposta de que, definidos os primitivos conceituais estritamente necessários para capturar as generalizações sintático-semânticas que encontramos em dados empíricos e lançando mão de um maquinário sintático reduzido e amplamente aceito, o Léxico não se sustenta como um módulo independente que projete e controle a estrutura das línguas naturais através de regras de correspondência.

Ao mesmo tempo, partindo de um ponto de vista empírico, torna-se difícil assumir a sintaxe como um módulo independente e autossuficiente. Seguindo uma intuição amplamente investigada dentro do quadro Lexicalista, por exemplo, também acredito que “parece haver generalizações relacionadas com o tipo semântico do participante que faz diferença no comportamento linguístico de diferentes tipos de verbos”

(RAMCHAND, 2008a, p. 18), embora essas generalizações não pressuponham, necessariamente, uma precedência do módulo semântico sobre o sintático (ou vice-versa).

É essa intuição que, vale destacar, está presente em teorias sintáticas e semânticas desde, pelo menos, a Teoria Localista de Gruber (1965) ou a gramática de casos de Fillmore (1967). Ela tem levado, há décadas, diversos semanticistas e sintaticistas a explorarem a relação entre a grade temática de um verbo - seu conjunto de argumentos semânticos - e sua expressão de superfície. Em consequência da grande variação nos papéis temáticos associados aos mesmos argumentos verbais que surge das investigações desta área, então, muitos autores exploraram a ideia de uma hierarquia temática. O primeiro autor a propor tal hierarquia foi Fillmore (1967).

13 “(...) every major constituent in the syntax of a sentence corresponds to a conceptual constituent that belongs toone of the major ontological categories”. - (T.A.)

Como muitas hierarquias foram propostas desde então, Soares & Menuzzi (2010) trazem uma lista comparativa retirada, por sua vez, de Levin & Rappaport-Hovav (2004, apud SOARES & MENUZZI, 201014), que reproduzo abaixo:

(25)

Como distintos autores já observaram, mesmo essas hierarquias encontraram muitos contraexemplos nas mais variadas línguas e dentro das mais variadas classes verbais. Em uma tentativa de resolver o problema da incompatibilidade de tais hierarquias temáticas, Dowty (1991) já havia, de fato, proposto uma decomposição dos papéis temáticos em propriedades semânticas mais finas, baseada nos conjuntos de acarretamentos lexicais que os verbos oferecem para seus argumentos. Esses primitivos, por sua vez, estariam hierarquizados de uma forma fuzzy em dois grandes papéis prototípicos, nomeadamente, de Protoagente e de Protopaciente: assim, segundo Dowty, caso um verbo possua dois argumentos, aquele que carregar mais propriedades de um Protoagente será ligado, mais prototipicamente, à posição de sujeito da sentença, mesmo que o outro argumento também possua algumas propriedades de Protoagente.

Cançado (2003), por sua vez, embora tome de Dowty (1991) a ideia de protótipos e de decomposição dos papéis em traços mais finos, propõe que tais traços

14 Soares & Menuzzi (2010, p.27-28) apresentam a seguinte legenda para as hierarquias expostas:

“Nas hierarquias temáticas que seguem, Ag é agente, T é tema, Pac é paciente, M é meta, O é origem, L é lugar, Exp é experienciador, Ben é o beneficiário, Rec é o recipiente, Inst é o instrumento, Temp é tempo, Dat é dativo, Assoc é as sociado, Man é maneira e Ca é causa e a “meta” de Dik e o

“objetivo” de Fillmore são renomeados como paciente e on“effector” de Van Valin é traduzido como causa, de acordo com o uso mais convencional.”

15 Embora esteja entre as clássicas Hierarquias Temáticas e seja assim denominada pelo próprio autor, a proposta de Jackendoff difere das outras por estar fundamentada em uma decomposição de eventos e nos traços conceituais que podem compor estes eventos. O próprio autor, por vezes, se refere a esta classificação como “Hierarquia Conceitual”, mas acaba adotando o termo “Hierarquia Temática”. Nesta tese, contudo, adoto o termo “Hierarquia Conceitual” quando faço referência à proposta de Jackendoff (1990). Explorarei essa proposta na Seção 2.4.

a. Baker (1997) - Ag > T/Pac > M/O/L

sejam interpretados como propriedades discretas interagindo entre si. Para desenvolver sua teoria, a autora investiga, no PB, ao longo de mais de uma década, a classe dos chamados verbos psicológicos (‘temer’, ‘amar’) com sujeito experienciador (entre outros trabalhos, CANÇADO, 2002, 2003, 2012; FRANCHI & CANÇADO, 2003). Para resolver as dificuldades tradicionalmente associadas a esses verbos, Cançado (2003) propõe uma hierarquia que, por sua vez, relaciona somente os acarretamentos semânticos de um argumento que são sintaticamente relevantes (entre eles, por exemplo, a noção de Controle). Concretamente, o argumento que “tem como parte de seu papel temático a propriedade mais proeminente do diagrama é localizado na posição de argumento externo na estrutura sintática”. A hierarquia de Cançado (2003, p. 30) se materializa da seguinte forma:

(26) DC > D > AC > A > EC > E16

Ramchand (2008a, p. 19), contudo, embora não critique a noção de hierarquia como um instrumento que impõe restrições à organização de traços primitivos, critica esse tipo de abordagem por duas razões principais. Primeiramente, tendo em vista os problemas e contraexemplos encontrados em diferentes trabalhos (LEVIN &

RAPPAPORT-HOVAV, 1995; AMARAL, 2009; CIRÍACO & CANÇADO, 2011; SILVA &

DE FARIAS, 2011; entre outros), o uso de hierarquias temáticas para “regular o mapeamento [de argumentos semânticos] para a sintaxe nem sempre dá os resultados empíricos corretos”17 (RAMCHAND, 2008a, p. 26). Em segundo lugar, outros autores (Ramchand se refere a Dowty, 1989) já haviam reconhecido que as generalizações comumente associadas à aplicação de hierarquias temáticas dependem, muitas vezes, de outros primitivos semânticos ou explicam, exclusivamente, o comportamento de verbos dentro de uma mesma classe semântica, mas não através de várias classes distintas.

Para Ramchand, essas evidências sugerem que não é a raiz verbal que está codificando e definindo papéis temáticos a seus argumentos. E esta é, efetivamente, a mesma proposta de Jackendoff (1983, 1990), ou seja, os argumentos de um verbo assumiriam determinados papéis argumentais a depender de sua ligação com um ou outro primitivo conceitual presente na estrutura conceitual associada àquele verbo.

16 DC que é desencadeador com controle, D que é desencadeador, AC que é afetado com controle, A que é afetado, EC que é estado com controle, e E que é estado.

17 “(…) regulate the mapping to the syntax does not always give the correct empirical results” - (T.A.)

Como Jackendoff (1983, 1990), Ramchand (2008a) propõe que os fatores que estão regulando os papéis que os argumentos de um verbo podem desempenhar têm relação direta com as propriedades de uma estrutura de eventos. Deste modo, um argumento é interpretado como assumindo um determinado papel a depender da posição que tomar em uma estrutura de eventos. Conforme observaremos no PB, tal hipótese parece explicar de forma satisfatória a variação e a mudança dentro do quadro verbal e preposicional de nossa língua. Por este motivo, assumo a mesma hipótese.

Portanto, me dedicarei, na Seção 2.3 deste capítulo, ao que Ramchand considera ser o primeiro passo para uma análise sintático-semântica baseada em primitivos conceituais, ou seja, o estabelecimento e a motivação daqueles que são empiricamente necessários para uma decomposição de evento que seja fidedigna à variação e às generalizações que encontramos:

(...) estabelecer os papéis primitivos segue de mãos dadas com o estabelecimento dos elementos primitivos de uma decomposição de eventos, já que os participantes no evento somente serão definíveis através do papel que desempenham no evento em si ou em um subevento.”18 (RAMCHAND, 2008a, p.

23).

Como se pode perceber, e da mesma forma que Jackendoff (1983,1990), Ramchand (2008a) sugere que os sentidos verbais podem ser decompostos levando-se em consideração os primitivos envolvidos em uma decomposição de eventos19. Segundo a autora, “(…) a projeção sintática de argumentos é baseada na estrutura de eventos”20 (RAMCHAND, 2008a, p. 39). Consequentemente, os argumentos envolvidos em tal decomposição poderão ter um ou outro papel no evento em questão dependendo do subevento com o qual estiverem relacionados. É importante ressaltar que, nesta concepção, não é o item lexical (um verbo, por exemplo) que determinaria os papéis temáticos dos participantes do evento, mas estes participantes “assumiriam” papéis de acordo com a sua relação com as respectivas subpartes do evento (ou com o evento como um todo) codificado pela raiz verbal.

Para ilustrar, observemos o seguinte par de sentenças:

18 “(...) establishing the primitive role types goes hand in hand with establishing the primitive elements of event decomposition, since participants in the event will only be definable via the role they play in the event or subevent.” - (T.A.)

19 Jackendoff & Culicover (2005, p.183) já propuseram uma hierarquia mais fina baseada em uma estrutura de eventos. Antes disso, Jackendoff (1983, 1990), inspirado em Gruber, também faz sua proposta baseado na decomposição de eventos.

20 “(...) the syntactic projection of arguments is based on event structure.” - (T.A.)

(27) O cavalo saltou sobre o obstáculo.

(28) Felipe saltou o cavalo na Europa durante 3 meses.21

Em (27), o verbo ‘saltar’ é entendido como selecionando um único argumento com o papel temático de agente ou iniciador do evento. No exemplo em questão, o cavalo é entendido como iniciando e/ou tendo controle sobre o evento de saltar. Na sentença em (28), porém, o mesmo verbo seleciona dois argumentos com papéis distintos: o sujeito carregaria o papel-Θ de agente/iniciador enquanto o argumento em posição de objeto direto receberia o papel selecionado pelo verbo de sofredor ou tema.

Neste caso, o cavalo passa a ser o sofredor do evento, ou o tema, enquanto Felipe assume o papel de agente, iniciador ou controlador do evento. Temos, assim, uma situação em que o sujeito é ocupado por um outro argumento agente e o que antes era o agente passa à posição de sofredor ou tema.

O desafio para uma teoria temática seria, como vemos, o de explicar como o mesmo verbo, no caso ‘saltar’, estaria atribuindo papeis temáticos diferentes a um argumento que, aparentemente, realiza a mesma parte do evento; ou, inversamente, como dois argumentos que, aparentemente, realizam a mesma tarefa de saltar teriam papéis distintos. Ainda, nesta troca de papéis, vemos argumentos que são tradicionalmente entendidos como agentes da ação denotada pelo verbo receberem o rótulo de paciente/tema.

Como se pode observar, se as teorias de papéis temáticos muitas vezes não dão conta de explicar a variação na grade temática/argumental de um só verbo como

‘saltar’, é legítimo que se questione a sua habilidade em lidar com classes inteiras. Neste sentido, espero também demonstrar com os dados do PB que as chamadas “classes naturais” de verbos e de preposições aqui sob análise não são parte do sistema linguístico. Elas são, de fato, uma simples consequência da nossa percepção da estrutura do sistema linguístico e da forma como percebemos e analisamos as línguas naturais, amplamente mediada por princípios cognitivos mais abrangentes.

Em outras palavras, não são todos os traços primitivos tradicionalmente associados aos argumentos verbais que se encontram na base de uma estrutura de eventos. Além disso, não é o item lexical que projeta essa estrutura. A Sintaxe de

21 ““O Dante retornou à Europa com o Felipe Amaral em Abril de 2012, aos 9 anos. Felipe saltou o cavalo na Europa durante 3 meses. Ele obteve bom resultados a nível de 2*.” Afirmou Karina JohanSNeter.” - Disponível em: http://brasileirodehipismo.com.br/site/nhtml/nstbh_dnoticia.asp?n=411.

Acesso em 23/11/2016.

primeira fase constrói uma estrutura de eventos utilizando-se de traços-funções que definem as partes (subeventos) essenciais desta. Assim, os argumentos que um verbo toma podem se relacionar com uma parte (subevento) ou com o evento como um todo.

Também, argumentos diferentes podem se relacionar com a mesma subparte, enquanto o mesmo argumento pode ser associado a partes distintas. A diversidade de possibilidades para essa relação seria, portanto, evidência de que os itens lexicais não projetam a estrutura funcional-conceitual que subjaz à sintaxe, mas se combinam com ela de distintas formas. Finalmente, a possibilidade de um item se combinar com diferentes estruturas provaria que uma abordagem conceitual decomposicional pode ser capaz de explicar melhor a variação. Na próxima Seção, (2.3), veremos como essa abordagem trata a “classe” dos verbos de movimento.

2.3 A “CLASSE” DOS VERBOS DE MOVIMENTO NA SEMÂNTICA CONCEITUAL

No documento PARTE II (páginas 46-53)