CAPÍTULO 5 – A BASE CURRICULAR COMUM DE PERNAMBUCO
6.4 As orientações relativas à escolha dos recursos didáticos
No que se refere à escolha dos recursos didáticos, observamos que a BCC-PE discute a orientação de dois recursos, de forma mais especifica: os textos a serem trabalhados e o livro didático.
Verificamos diferentes tipos de orientações relativas à seleção dos textos a serem direcionadas ao ensino. São elas:
- Textos de temática interessante
- Textos com extensão compatível à faixa etária - Textos de diferentes universos culturais - Textos/gêneros variados
- Textos de diferentes dialetos e registros - Textos de diferentes domínios de produção
- Textos com unidade de sentido preservado de relevância conteúdos - Projeto gráfico dos textos
Um dos aspectos ressaltados pelo documento é o fato dos textos serem selecionados a partir de temáticas interessantes aos alunos. O desenvolvimento pelo gosto da leitura perpassa pelo favorecimento de textos significativos aos aprendizes, ou seja, as práticas de leitura dos indivíduos podem ser ampliadas a partir do contato com os textos. Tal aspecto é defendido pela BCC-PE:
[...] serão considerados textos relevantes aqueles textos que, sob qualquer aspecto, despertam a atenção dos interlocutores pela suposição de que selecionam aquilo que lhes interessa ouvir ou ler. (Seção 6.2 As condições de realização da interação verbal, p.71)
- sejam interessantes, adequando-se, na temática e na estruturação lingüística, à faixa etária dos alunos; (PERNAMBUCO, 2008,7.2 A seleção e apresentação dos textos p. 76)
- apresentem uma temática relevante, estimuladora, e instigante; (PERNAMBUCO, 2008, 7.2 A seleção e apresentação dos textos p. 76)
A partir desses fragmentos, observamos que um dos princípios que orientam a seleção dos textos é a capacidade de chamar a atenção do público alvo. Ou seja, o documento preconiza que as temáticas abordadas nos textos precisam ser relevantes ao público alvo, oferecendo elementos pelos quais os alunos se sintam motivados a realizar a leitura Verificamos, ainda, a relevância de esses textos possuírem o critério de adequação à faixa etária, no que se refere à estruturação linguística.
Para o documento em foco, os textos a serem selecionados deverão possuir extensão compatível a faixa etária:
Nesta perspectiva, espera-se que tenha todo o cuidado para que os textos: [...]
- tenham uma extensão compatível a faixa etária e, principalmente, com o tempo destinado à atividade proposta; (PERNAMBUCO, 2008, 7.2 A seleção e apresentação dos textos p. 77)
Nessa perspectiva, trabalhar com textos maiores ou menores em sala de aula se vincula à questão da idade dos alunos e ao tempo que se destina para a atividade a ser realizada. Tais aspectos se configuram em critérios de adequação ao ano/série pelos quais os textos serão utilizados.
Entretanto, não podemos deixar de destacar que esse fragmento pode dar margem à interpretação de que crianças em idades menores não poderiam trabalhar com textos mais extensos ou vice-versa.
Outro aspecto a ser ressaltado é que não encontramos no documento orientações referentes aos modos de ler os textos na diferentes faixas etárias. A discussão sobre a variedade de situações nas quais os alunos poderão ser postos em relação à leitura, tais como, ler sozinhos ou com a ajuda do professor, ler em voz alta ou ler silenciosamente, poderia oferecer subsídios aos docentes para repensar o desenvolvimento de habilidades relacionadas ao eixo da leitura.
Outro principio que permeia a escolha dos textos se refere ao oferecimento de textos de diferentes universos culturais, tal como é ressaltado abaixo:
Nesta perspectiva, espera-se que tenha todo o cuidado para que os textos: [...]
- contemplem diferentes universos culturais e, dessa forma, incluam além dos temas próprios do mundo urbano, temas próprios do mundo do campo;
Como podemos verificar, há uma indicativa no documento para não contemplar textos apenas de um universo cultural, pois não oportunizaria ao aluno acesso a culturas de outros grupos sociais. No entanto, a proposta em foco não apresenta maiores discussões sobre os motivos pelos quais o currículo deva oferecer acesso a textos de diversos universos. Ou seja, não oportuniza um debate sobre a relação entre a oferta de textos de diversos universos e o acesso ao conhecimento de diferentes modos de vidas, de forma a desenvolver a tolerância e o respeito a pessoas de culturas diversificadas.
Outro princípio indicado pelo documento está voltado para a diversidade de gêneros textuais para o trabalho com a linguagem:
Mostrem a diversidade de gêneros de textos que circulam nos diferentes meios sociais, tais como comentários, informações científicas, notícias, trechos de reportagens, trechos de entrevistas, narrativas, crônicas, fábulas, histórias em quadrinhos, tiras, charges, poemas, anúncios, avisos, cartas, convites, declarações,para citar apenas estes; (7.2 A seleção e apresentação dos textos p. 76)
No que se refere aos textos orais, vale a pena definir que merece todo cuidado o interesse da escola por promover o contato dos alunos com diferentes gêneros orais. ((7.2 A seleção e apresentação dos textos p. 75)
Observamos nos fragmentos acima expostos que há uma indicativa de oferecer aos alunos o contato com uma gama de gêneros que circulam socialmente. No entanto, não verificamos reflexões acerca da seleção dos gêneros em cada ano/serie e das dimensões a
serem enfocadas a cada ano de escolaridade, tal como já foi discutido nesse trabalho. Portanto, verificamos na proposta a necessidade de refletir mais sobre tais aspectos.
Constatamos também que o documento autoriza o trabalho a partir de fragmentos de textos. Em outros termos, quando destaca que podem ser selecionados trechos de reportagem e de entrevistas está permitindo a exploração de fragmentos no ensino de língua materna. Essa prática se justificaria mais se a proposta concebesse a importância de abordar também outras dimensões do ensino e não apenas as habilidades de compreensão e produção de textos, como o trabalho envolvendo a aprendizagem do sistema alfabético de escrito, a ortografia ou outros objetos do eixo da análise linguística. Não há, no documento, reflexões sobre o que justificaria tal “concessão”.
Outro aspecto subjacente às recomendações relativas à escolha dos textos é o respeito pelas diferenças culturais. Essa orientação se dá por meio da oferta aos alunos de textos de diferentes dialetos e registros, tal como é ressaltado no documento:
Nesta perspectiva, espera-se que tenha todo o cuidado para que os textos: [...]
- sejam representativos de diferentes dialetos (padrão e não-padrão; desta e de outras regiões) e de diferente registros (formal e informal) com o cuidado para que não se restrinjam a particularidades muito especificas de um determinado lugar ou situação. (PERNAMBUCO, 2008,7.2 A seleção e apresentação dos textos p. 76)
Com o fragmento acima, observamos que a proposta indica a necessidade de selecionar textos que não priorizem uma variante ou registro em detrimento da outra, uma vez que é de extrema importância o oferecimento de reflexões de igual modo para os dialetos e registros. Essa discussão perpassa pelo combate ao preconceito linguístico, uma vez que traz à tona a relevância de se oferecer textos que contemplem dialetos e registros diferentes. No entanto, não verificamos no documento maiores debates sobre as implicações de se eleger representatividade de tais textos na escola. Ou seja, não discute, por exemplo, que o contato com textos de diferentes dialetos e registros possibilita ao aprendiz a oportunidade de refletir sobre os estigmas que a sociedade impõe, muitas vezes, a determinadas pessoas que não se utilizam do dialeto padrão ou do registro formal. Tal compreensão perpassa pela reflexão da adequação dos dialetos e registros nas diversas situações de comunicação, como também pelo respeito às diferentes maneiras de se utilizar da língua, ou seja, o combate ao preconceito linguístico ainda presente na sociedade, onde as variações dialetais e de faixa etária são marginalizadas pelos grupos dominantes da sociedade.
No que concerne aos textos de diferentes domínios de produção, o documento indica:
- remetam para os diferentes domínios de produção e divulgação do conhecimento, tais como imprensa, ciência, literatura, arte, política – em prosa e em verso- e, assim, tenham como suporte o jornal, a revista, o livro de ciências, a enciclopédia, o folheto de cordel, o cartaz, entre outros; (PERNAMBUCO, 2008, 7.2 A seleção e apresentação dos textos p. 76)
Como verificamos, o trecho destaca uma proposta de acesso a textos de diversos domínios discursivos, tais como o científico, jornalístico e literário, como também a contemplação de diferentes suportes. Sendo assim, podemos observar a preocupação em ampliar o leque de letramento dos alunos, ou seja, é uma oportunidade do aluno ter contato com diversos domínios e produção de forma a inseri-los em espaços sociais diversos
Vale ainda ressaltar na proposta a preservação do texto em sua unidade de sentido e a relevância dos conteúdos:
Nesta perspectiva, espera-se que tenha todo o cuidado para que os textos: [...]
- preservem a unidade de sentido e a relevância do conteúdo, no caso de sofrerem adaptações ou supressões. (PERNAMBUCO, 2008, 7.2 A seleção e apresentação dos textos, p. 77)
O fragmento acima atenta para as questões voltadas para as reformulações feitas no texto. Ou seja, o cuidado para não deformar o sentido ou o conteúdo de determinados textos no processo de ensino aprendizagem, uma vez que a qualidade textual fica comprometida caso as mudanças não respeitem seu texto de origem. Com a finalidade de desenvolver as capacidades linguísticas e discursivas dos alunos, o texto que sofre adaptação ou supressão inadequada compromete a fidelidade do texto de origem, com também não se configura como um bom material didático a ser utilizado nas aulas de língua portuguesa.
Observamos também algumas recomendações voltadas para o projeto gráfico dos textos. São elas:
A apresentação dos textos também merece seus cuidados, para que:
- se preserve a forma gráfica do suporte original, sempre que isso seja relevante e possível;
- seja inteiramente legível, numa configuração clara e acessível – de maneira que favoreça, integralmente, a leitura e o entendimento;
- esteja conforme os originais, sem erro de impressão ou outros que possam dificultar a interpretação;
- traga algum tipo de ilustração ou algum recurso gráfico, caso se trate de textos mais longos, de forma a amenizar o esforço da leitura, principalmente quando se destinam às séries iniciais do Ensino Fundamental. (PERNAMBUCO, 2008, p. 76-77)
Como observamos, o documento refere-se a deturpações da forma gráfica, legibilidade, isenção de erros de impressão e presença de ilustrações. Tais aspectos são vistos como elementos que contribuem para a qualidade do texto. Em outros termos, os alunos merecem ter acesso a textos de qualidade e que colaborem para o desenvolvimento de suas capacidades. Portanto, necessitam de uma apresentação gráfica que ajude o aprendiz a realizar interpretações e criar significações com o conjunto do texto, desde seus elementos contextuais, de tema, conteúdo e elementos gráficos.
Por último, observamos que a BCC-PE ressalta os elementos de contextualização do texto como pré-requisitos na escolha:
Nesta perspectiva, espera-se que tenha todo o cuidado para que os textos: [...]
Explicitem seus elementos de contextualização, tais como autoria, suporte, lugar e época de publicação. (PERNAMBUCO, 2008,7.2 A seleção e apresentação dos textos p. 77)
Os elementos acima citados se referem a alguns elementos contextuais dos textos. Esses são relevantes para o estudo sistemático da linguagem, uma vez que oferecem suporte ao leitor acerca de aspectos sociodiscursivos dos textos. Com isso, trabalhos como antecipações, conhecimento sobre o autor, dentre outros, poderão ser realizados com o objetivo de desenvolver as habilidades discursivas dos alunos.
A escolha do livro didático também foi alvo de reflexão no documento. Verificamos que esse material é visto sob duas perspectivas: a relevância de ser um instrumento didático disponível aos professores e a ressalva do mesmo não ser o único recurso a ser utilizado.
Dessa forma, a proposta ressalta que o LD é um recurso importante no processo de ensino aprendizagem, por se tratar de um recurso de fácil acesso e que disponibiliza conteúdos e atividades relevantes, tal como está sendo destacado abaixo:
Convertem-se assim, em apenas um dos apoios disponíveis para o professor; talvez o mais importante, o mais facilmente acessível, na disponibilidade do material textual que vai ser objeto de estudo, na indicação dos conteúdos relevantes e nas propostas de atividades que ensejam sua exploração. (PERNAMBUCO, 2008, Seção 8.2 O lugar do livro didático no desenvolvimento de competências em linguagem, p. 106)
No entanto, também atenta ao público leitor a necessidade desse recurso ser visto como complemento que precisa ser revisto porque não dá conta das particularidades locais ou regionais nas quais estão sendo inseridos:
[...] é esperado que o professor possa complementar o recurso do livro didático, até mesmo para responder às exigências de uma atenção às particularidade locais ou regionais da comunidade escolar. . (PERNAMBUCO, 2008, Seção 8.2 O lugar do livro didático no desenvolvimento de competências em linguagem, p. 106)
Com isso, observamos que a proposta indica algumas reflexões acerca desse recurso didático utilizado em muitas escolas. Entretanto, acreditamos que a discussão poderia ter sido ampliada chamando a atenção para critérios de escolha do livro e de outros recursos, a análise critica das atividades propostas pelo mesmo, a relação entre os princípios propostos pelo próprio documento e o livro didático a ser adotado, enfim, outros elementos que poderiam ter sido alvo de reflexões mais sistemáticas.
Dado o exposto, verificamos que a BCC-PE indica alguns princípios para a seleção dos recursos didáticos a serem utilizados. Entretanto, a discussão não favorece reflexões mais aprofundadas sobre esses materiais. Sendo assim, a reflexão sobre o papel do livro no desenvolvimento das competências se torna insuficiente para o que propõe o documento.
Síntese do capítulo
Nesse capítulo, discutimos os pressupostos teóricos e metodológicos que perpassam a BCC-PE de língua portuguesa. Nessa perspectiva, verificamos que, no que concerne à concepção de língua, a referida proposta apresenta princípios que se aproximam da compreensão bakhtiniana de língua como interação verbal. Sendo assim, destaca como sendo relevante para o ensino da linguagem a natureza dialógica, contexto de produção e efeitos de sentidos produzidos entre os interlocutores. Já em relação aos princípios referentes ao texto e gênero, observamos que o documento concebe o texto como entidade concreta materializada no gênero.
Destacamos que, embora o documento ressalte a importância de levar em consideração os gêneros no ensino de língua materna, não discute, de forma mais sistemática, tal aspecto. Ou seja, não problematiza quais dimensões dos gêneros poderiam ser alvo de reflexão de
modo mais específico e quais as capacidades de linguagem, a eles relacionadas, podem ser consideradas nos anos/séries.
Verificamos também que, embora o documento ressalte a relevância dos alunos entrarem em contato com uma gama variada de gêneros não observamos discussões que problematizassem como tal abordagem estaria articulada com as competências destacadas nos eixos de ensino. Constatamos, ainda, que outro princípio defendido no documento é o do trabalho a partir dos textos orais e escritos, todavia, não foram observados maiores debates acerca de como tais textos podem ser instrumento de teorização.
Já em relação aos dados referentes aos saberes e habilidades indicados para os diferentes eixos de ensino, foi observado que são poucas as habilidades que se relacionam à discussão dos gêneros. Tal dado nos sugere um afastamento do princípio de que os textos se materializam em determinados gêneros, defendido pela proposta. Em contrapartida, encontramos competências que enfatizam o desenvolvimento de estratégias de leitura, sem haver articulações com as propriedades dos gêneros a serem trabalhados. Tais competências ora se aproximam de uma compreensão pautada na perspectiva dialógica da linguagem, ora se afastam propondo análises estruturais sem relacionar ao processo de interlocução e construção de sentidos.
Por último, discutimos as orientações relativas à escolha dos recursos didáticos. Nessas, constatamos que a BCC-PE indica princípios para a seleção dos recursos didáticos a serem utilizados, entretanto tais orientações são dadas de forma geral sem discussões mais aprofundadas, principalmente no item que se refere à escolha do livro didático.