2. O novo enfoque dado às aglomerações produtivas localizadas: a importância da governança externa a partir
2.2 A abordagem das cadeias globais de valor
2.2.1 As origens da abordagem das cadeias globais de valor
A abordagem de cadeia de valor está englobada na perspectiva teórica de Immanuel Wallerstein, que analisa o sistema mundial moderno a partir de dois conceitos chave: sistema histórico e economia-mundo.
O primeiro conceito indica que “a sua base de coesão é formada por redes de processos econômicos, políticos e culturais que amparam a referida auto-centragem [relativa autonomia]” e que esses sistemas sociais são cíclicos, possuindo uma delimitação temporal. Existe ainda uma delimitação geográfica, de fato, a extensão desses sistemas é indicada pela divisão do trabalho necessária para permitir a reprodução social no seu interior (Lins; Alves, 2005: 2).
A partir disso, pode-se definir economia-mundo como sendo um sistema histórico em que redes de produção articulam-se a estruturas políticas e culturais múltiplas26. Essas redes de produção são vastas, desdobradas geograficamente e integradas, com desigualdades entre os seus diversos elos no tocante às formas de processo produtivo e de trabalho, aos níveis de remuneração/recompensa e à capacidade de retenção do excedente. A lógica essencial de funcionamento envolve a desigual distribuição do excedente gerado nas redes produtivas em benefício dos grupos de agentes que logram alcançar, mesmo que temporariamente, posições privilegiadas nos fluxos mercantis (Hopkins; Wallerstein, 1987).
A economia mundo é constituída de forma que as suas operações básicas estão expandindo e contraindo em ritmo regular, análogo a respiração de um organismo vivo. Esse ritmo pode ser medido por muitos dados econômicos quantificáveis. Ou até por trajetórias qualitativas: termos de comércio; razões de atividades produtivas intensivas em capital. De acordo com Hopkins e Wallerstein (1994), duas preocupações impostas pelo
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Este conceito é uma contraposição ao conceito de império-mundo, que seria uma outra forma de entidade de grande dimensão temporal e geográfica, em que enormes espaços obtêm apenas uma estrutura política única (embora os padrões culturais possam ser variados) e sua lógica central de funcionamento é marcada pela punção, via tributos, de recursos existentes nos círculos de produtores diretos. Tais recursos são transferidos para o centro do império e redistribuídos entre os funcionários dos quais depende a manutenção das estruturas imperiais (Lins; Alves, 2005: 2).
sistema aos empresários normalmente requerem mudanças opostas na organização social e na localização geográfica: a redução de custos de transação e a redução do custo de mão- de-obra. Normalmente os custos de transação são reduzidos pela integração vertical e pela convergência geográfica de nós de uma cadeia (concentração em escala global e urbanização local). Enquanto os custos de mão-de-obra normalmente são reduzidos através da subcontratação e dispersão geográfica dos nós da cadeia.
Ainda segundo esses autores, uma cadeia de valor é “uma rede de processos de trabalho e produção cujo resultado é um produto final”, portanto, em termos de estrutura da economia-mundo capitalista, “as cadeias de valor devem ser pensadas como a urdidura e a trama desse sistema social de produção” (Hopkins; Wallerstein, 1994: 17).
As várias cadeias globais apresentam diferentes proporções dos seus processos produtivos localizados nos países predominantemente centrais ou predominantemente periféricos, ou em países semi-periféricos. Essas proporções mudam historicamente. Tais deslocamentos seqüenciais na proporção são ligados ao ritmo cíclico da economia-mundo.
Hopkins e Wallerstein (2000) afirmam que a identificação/delimitação de qualquer cadeia de valor implica partir de uma mercadoria pronta e remontar o encadeamento de operações que resultam nesta, um procedimento pelo qual se cobrem os diferentes segmentos e sub-segmentos da seqüência e se alcançam as atividades ligadas às matérias- primas iniciais.
Cada segmento ou processo específico realizado dentro de uma cadeia de valor é representado como caixas ou nós. A primeira coisa que se deve notar sobre um nó é que suas fronteiras são socialmente definidas e podem ser, portanto, redefinidas. Os nós podem ser consolidados ou subdivididos27. Essas redefinições são efeitos das mudanças tecnológicas ou das mudanças na organização social. Portanto, ao construir uma cadeia a ser analisada deve-se observar cada um de seus nós majoritários e verificar a natureza usual dos fluxos entre determinado nó e as operações que ocorrem imediatamente depois e antes (Hopkins; Wallerstein, 2000).
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Consolidação: quando em uma cadeia as atividades constituídas em dois nós passam a ser elaboradas em apenas um nó. Subdivisão: quando as atividades realizadas em um nó passam a ser elaboradas em dois nós
Segundo Hopkins e Wallerstein (1994) diversas questões podem ser elaboradas a respeito desses nós, os autores exemplificam seis destas perguntas, sendo a primeira relacionada ao seu grau relativo de monopolização.
Um dos processos mais importantes da economia-mundo capitalista é a tendência à direção da desmonopolização de qualquer nó muito lucrativo, no entanto isso é contrabalanceado pelas
mudanças tecnológicas e/ou pela redefinição dos limites organizacionais do nó por unidades
produtivas ávidas para recuperar um nível elevado de lucro (Hopkins; Wallerstein, 1994: 18).
A segunda pergunta diz respeito ao grau de dispersão geográfica; os autores argumentam que um nó do tipo central tende a ter suas unidades dispostas em pouquíssimos países, enquanto os nós periféricos tendem a ter unidades dispersas em muitos países. O que ocorre é que à medida que o nó começa a se desmonopolizar este tende a se localizar em mais e mais países. Uma terceira questão seria sobre o número de diferentes cadeias de valor que certo nó participa, quanto maior esse número maior é a diversificação de suas atividades e menor é o risco. Por exemplo, quando produtores trabalham para muitos compradores, a melhoria em atividades não associadas com a produção tem menor probabilidade de ser bloqueada por tais compradores.
A quarta questão seria sobre a organização proprietária associada às unidades de produção de determinado nó. Segundo os autores, existem diversas possibilidades, em um dos nós todos os produtores são pequenos (ou grandes) proprietários, enquanto em outros pode haver tanto grandes como pequenos proprietários, ou ainda, as unidades produtivas de determinado nó podem ser gerenciadas não por proprietários, mas por concessão, por exemplo. Diante dessas possibilidades é importante lembrar que não necessariamente todas as unidades de um mesmo nó apresentam as mesmas características proprietárias.
Um quinto questionamento pode surgir com relação ao modo de controle da mão- de-obra exercido em certo nó. Isso pode variar de muitas formas assalariadas de emprego
para várias formas de mão-de-obra escrava e outros tipos de trabalho não assalariado. Trabalho forçado normalmente é encontrado apenas em nós periféricos. Algumas vezes um
nó pode exibir diferentes formas de controle de trabalho, enquanto diferentes nós dentro de
uma mesma cadeia de valor tendem a mostrar modos de controle de trabalho distintos. Por sexto e último, é importante “inquirir sobre as relações entre nós, já que tais vínculos não se restringem ao comércio de insumos e produtos: por exemplo, se unidades produtivas de
diferentes nós pertencem a uma mesma empresa, está-se diante de uma relação marcada por integração vertical” (Hopkins; Wallerstein, citado em Lins; Alves, 2005:4).
Dessa forma, ao traçar as redes das cadeias de valor, pode-se perceber a divisão e a integração do processo de trabalho e monitorar o desenvolvimento constante a transformação da economia-mundo. Pode-se observar, por exemplo, que existe uma afluência maior de riqueza para os nós “centrais” em detrimento aos nós periféricos, devido à capacidade das empresas e dos estados centrais em inovar e transferir pressões competitivas para os países periféricos.
Nenhuma razão teórica obriga a aceitar que as cadeias de valor representam divisões do trabalho amplamente distribuídas no espaço e que sua existência implica a interconexão de Estados por meio de relações mercantis. Nada impede imaginar tais redes como organizadas no interior das fronteiras de um mesmo país (Hopkins; Wallerstein, 2000). Entretanto, conforme assinalam os autores, a análise histórica mostra que a distribuição espacial abrangente e a forte interação entre Estados são a regra.
Assim, uma economia-mundo tende a se apresentar como estrutura em que o sistema interestatal é vazado por um conjunto de processos produtivos integrados ligados em uma divisão social do trabalho contínua, que fundamentalmente determina o comportamento social (ação social) dentro de sua arena (fronteiras) ao longo do tempo. Essas fronteiras são variáveis. As forças em trabalho (em conflito) dentro dessa arena social se expressam ou fazem emergir várias expressões institucionais não apenas como estrutura para lugar de trabalho, mas como estruturas políticas e culturais. Uma economia-mundo é definida como um tipo de sistema-mundo em que as estruturas políticas e culturais são múltiplas e são menos intangíveis e imediatamente constrangedoras do que as estruturas locais. Um sistema com múltiplos estados com graus de poder diferentes, ligados em um sistema interestatal coordenado pelas fronteiras da economia social real, não é um simples emaranhado de estados, mas uma ordem estruturada por regras e mecanismos (Hopkins; Wallerstein, 1987). “Mostram-se sugestivas, a esse respeito, as palavras de Braudel (1998), para quem uma economia-mundo envolve um fragmento do universo, um pedaço do planeta economicamente autônomo, capaz, no essencial, de bastar a si próprio e ao qual
suas ligações e trocas internas conferem certa unidade orgânica” (p. 12 citado em Lins; Alves, 2005: 4).
Nessa perspectiva de análise, o sistema mundial moderno corresponde a uma economia-mundo capitalista cujos primeiros passos aconteceram na Europa Ocidental no início do século XVI. Naquele período, por razões ligadas à longa crise do feudalismo e também devido aos atributos de cunho histórico e geográfico da região, uma economia- mundo particular mostrou-se menos frágil do que as que a precederam, subsistiu ao peso até então esmagador da forma império-mundo, impôs-se diante desta e se consolidou. A consolidação dessa nova entidade – a economia-mundo européia – foi sustentada pela sua capacidade de abrigar e favorecer as engrenagens da lei do valor – a infinita acumulação de capital. Isso envolveu expansão geográfica impelida por processos internos, pois o avanço deu-se em movimentos cíclicos de incorporação de novas áreas em resposta às necessidades de desdobramento espacial das cadeias de valor (Hopkins; Wallerstein, 1987). “No bojo de uma dinâmica que levou de roldão outros sistemas históricos, entre eles impérios, o alcance da divisão do trabalho ampliou-se crescentemente, permitindo a penetração da lógica capitalista em diferentes – e não raramente longínquas – esferas” (Lins; Alves, 2005: 5).
É a partir dessa abordagem que Gereffi (1994) elabora o conceito de cadeia global de valor, com o intuito de captar as transformações da organização espacial da produção e do consumo na economia-mundo contemporânea. O autor conceitua que “a cadeia global de valor é um conjunto de redes interorganizacional, agrupado em torno de uma mercadoria ou produto, que liga consumidores, empresas e estados uns aos outros dentro da economia- mundo” (Gereffi, 1994: 2).