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Upgrading e Downgrading da indústria de móveis

3. Caracterização da indústria de móveis e estrutura e dinâmica das cadeias globais de valor de móveis

3.3 Mercado internacional de móveis

3.3.2 Upgrading e Downgrading da indústria de móveis

Kaplinsky e Readman sugerem uma análise dinâmica da capacidade relativa de inovar de diferentes países, que deve ser mensurada através das estatísticas de comércio internacional. De acordo com os autores existe uma diferença entre inovar e promover o

upgrading. Inovar é a capacidade de produzir alguma coisa nova ou com maior eficiência,

enquanto, promover o upgrading significa inovar mais rápido e melhor do que os competidores. “É a capacidade de promover o upgrading ao invés de simplesmente inovar que, principalmente, determina a sustentabilidade do crescimento da renda” (2005: 21).

Esses autores propõem uma medida para identificar a capacidade de upgrade, composta pelo preço unitário do produto em questão e a participação de mercado de cada um dos países no mercado internacional de móveis. A combinação entre estes dois indicadores e a análise de sua mudança ao longo do tempo, considerando um nível de desagregação das estatísticas internacionais de oito dígitos, possibilita que os autores vislumbrem o processo de upgrading de diversos países.

Kaplinsky e Readman (2005) analisam dados, do período entre 1989 e 2001, que lhes permitem dividir a indústria de móveis de madeira em 11 segmentos distintos. Através dessa análise, realizada a partir das estatísticas demonstradas na tabela 4, os autores concluem que:

• Há uma tendência em direção a um preço unitário mundial em sete dos onze segmentos analisados, ou seja, os preços de produtos fabricados em diferentes tipos de economias vêm convergindo;

• Há um aumento da dispersão do setor. Em 1989, apenas 28 países tinham mais de 1% de participação no mercado em pelo menos um dos segmentos analisados, em 2001 esse número subiu para 48 países;

• Os países em desenvolvimento estão aumentando a sua participação no mercado externo. No período observado pelos autores, o número de países de baixa renda que possuíam no mínimo 1% de participação em um dos 11 segmentos mais que dobrou, de 11 países em 1989, o número aumentou para 28 países em 2001. Tabela 4 – Tendência do preço unitário e número de países que possuem 1% de participação nas importações para a União Européia, 1988 e 2001

Fonte: Kaplinsky e Readman (2005)

Nota-se, portanto, que houve mudanças bastante significativas no setor. Esses dados indicam uma intensificação da competição global dessa indústria. Isso pode ser percebido a partir do forte aumento no número de países que participam do mercado externo e da tendência a um preço unitário global e decrescente. Essa queda nos preços indica que a expansão desse setor ocorreu de forma extensiva (mais do mesmo) e em oposição à forma intensiva (novos produtos) (Kaplinsky; Readman, 2005).

Variação do preço 1989 2001 1989 2001 1988-89 2000-01 1988-892000-01 1Móveis de cozinha 3.63 2.51 -31 4.26 1.83 15 14 2 4 2Móveis de quarto 2.34 1.94 -17 2.36 1.74 18 25 6 11 3Assentos estofado 7.38 4.42 -40 4.03 3.16 19 26 6 12

4Assentos com estrutura de madeira 3.26 3.06 -6 2.77 4.44 24 31 10 18

5Mesas para escritório 3.13 2.51 -20 4.23 2.16 19 19 5 6

6Móveis para escritório (=< 80 cm altura) 4.41 2.68 -39 3.84 2.41 19 25 3 7

7Estantes para escritório (> 80 cm altura) 4.09 3.09 -24 1.76 1.9 14 18 1 6

8Móveis para escritório ( > 80 cm altura) 3.52 2.88 -18 2.48 2.5 17 20 2 4

9Móveis para sala de estar e jantar 3.26 2.07 -37 3.32 1.99 20 35 6 18

10Móveis de madeira para lojas 5.31 4.73 -11 2.51 4.64 14 23 1 7

11Outros móveis de madeira 2.9 2.19 -24 2.47 2.44 23 31 8 16

Todos móveis de madeira 2.72 2.17 -20 28 48 11 28

No. total de países emergentes No. total de países exportadores Desvio Padrão Média do preço unitário

Portanto, o aumento do número de países produtores de móveis e a queda do preço unitário no mercado internacional mostram o aumento da dispersão geográfica dos nós produtivos da indústria moveleira e um processo de desmonopolização desses nós em andamento. Além disso, percebe-se que entre os 20 países que começaram a participar do mercado internacional de móveis na década de 1990, 17 são países em desenvolvimento. Portanto, esse aumento da dispersão corrobora com a tese de Gereffi (2000), de que a industrialização de países menos desenvolvidos e a liberalização comercial permitiram que os países desenvolvidos passassem a subcontratar dos países em desenvolvimento as etapas produtivas da fabricação de móveis. É importante ressaltar que para fundamentar essa afirmação, serão apresentados casos específicos de diversos países na próxima subseção.

Ao analisar estes dados conjuntamente com aqueles de participação de mercado, pode-se chegar à matriz demonstrada na figura 4.

Figura 4 - Posição de upgrading dos países com no mínimo 1 % de participação de mercado para os 11 sub-setores de móveis de madeira

Fonte: Kaplinsky e Readman (2005)

Obs.: Os números apresentados representam a quantidade de sub-setores nos quais os respectivos países estão: no quadrante dois, em uma situação de upgrading; no quadrante quatro, em uma situação de downgrading; e nos quadrantes um e três estão em situações ambíguas.

De fato, não há como extrair afirmações conclusivas sobre a situação de upgrading ou downgrading no setor de móveis de madeiras dos dados apresentados acima, no entanto, pode se delinear algumas predições razoáveis (Kaplinsky; Readman, 2005). De fato, o quadro apresenta apenas uma situação de upgrading produtivo, pois só leva em

considerações etapas de manufatura, ou seja, os fatores de competitividade considerados pelos autores não engloba etapas anteriores e posteriores à produção. Dessa forma, estas informações podem contribuir como base para estudos mais detalhados de cada um dos países participantes desse mercado externo, uma vez que este trabalho considera importantes outros fatores de competitividade, além daqueles utilizados por Kaplinsky e Readman (2005). O quadro acima distingue claros casos de upgrading de casos de

downgrading e as categorias ambíguas.

No entanto, estes dados precisam ser complementados com maiores detalhes sobre a estrutura industrial dos diferentes países (Kaplinsky; Readman, 2005), a competitividade em etapas como design, marketing e branding, as relações de trabalho, a participação do

governo, as interações entre agentes internos e estes e os agentes externos que influenciam a competitividade dos sistemas produtivos. A análise comparativa das vantagens competitivas entre países distintos, não deve ser realizada sem considerações mais profundas desses sistemas como um todo (Kaplinsky; Readman, 2005). É por isso, que passa a se analisar, as peculiaridades da indústria de móveis de alguns países importantes no palco do comércio internacional.