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AS ORIGENS E O FUNCIONAMENTO DO GRUPO JAC

No documento JANAIRA FIDELIS CAETANO (páginas 48-54)

GRUPO JAC E SUAS EXPERIÊNCIAS RELIGIOSAS, POLÍTICAS, CULTURAIS E RECREATIVAS

3.1 AS ORIGENS E O FUNCIONAMENTO DO GRUPO JAC

O grupo JAC exerceu suas atividades durante a década de 1970, mas não há uma precisão em relação à data de sua fundação, o que não se constitui em condição indispensável para as análises aqui apresentadas. Mas, de acordo com alguns dos entrevistados, este grupo começa a se reunir e desenvolver suas atividades aproximadamente por volta dos anos de 1972/73. Há dois relatos significativos quanto a essa questão:

[…] eu não lembro muito bem, mas o primeiro contato foi através de um convite que distribuíram nas residências marcando uma reunião no sábado à tarde lá na escola Neutel Maia, numa das salas da escola Neutel Maia, justamente essa reunião foi conduzida pelo Dourado, o Antônio Dourado, e a proposta era criar um grupo de jovens daquela localidade, uma vez que vários grupos existiam na cidade. E houve... É concordância de todos os membros... E dessa reunião surgiu o grupo de jovem Juventude em Ação Comunitária. (JAC) (Entrevista de Geraldo Lopes Vitoriano, em 30.09.11 – Rio Branco – Acre).

Como podemos observar a partir da fala de Geraldo Lopes, a criação do grupo se deu a partir de uma reunião organizada por Antônio Dourado de Souza8 e por outras pessoas que

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Antônio Dourado de Souza é o filho mais velho e o sexto dos onze filhos do casal de seringueiros Irene Dourado de Souza e José Ribamar Ferreira de Souza. Nasceu no dia 5 de Abril de 1947, no seringal Recreio, no Município de Feijó – Acre. Seu pai faleceu quanto tinha nove anos de idade, e por esta ração, por ser o filho homem mais velho, pela lógica do seringal, teve que assumir a criação dos seus irmãos. Veio para Rio Branco em 1967, quando passou a frequentar a escola, já com vinte anos de idade, tendo concluído apenas o Ensino Médio, através do sistema supletivo. Era carpinteiro e marceneiro por profissão, mas tornando-se artista: artesão, cineasta e teatrólogo, por determinação. Participou ativamente dos movimentos estudantis dos anos de 1960/70/80, inclusive como dirigente da casa do Estudante Acreano. Engajou-se no movimento artístico-cultural durante o período acima já referido, na condição de fundador e dirigente das seguintes entidades: Estúdio Cinematográfico Amador de Jovens Acreanos (ECAJA), Grupo Juventude em Ação Comunitária (JAC), Associação dos Artesões do Acre (AAA). Casou-se com Lucélia Melo, com quem teve um filho, Alexandre.

estavam diretamente ligadas a essa articulação. Mas, além desses, foram convidados outros jovens como Geraldo Lopes, que também ajudaram na criação do grupo, que passou a ter uma atuação junto aos jovens daquela região onde moravam – uma parte do bairro Bosque.

Na fala de Geraldo Lopes não há menção a outras pessoas ou entidades que estavam envolvidas nessa articulação de criação de mais um grupo de jovens, além daquelas que moravam nas proximidades da escola Neutel Maia, mas, provavelmente haveria, no mínimo, um representante da Igreja Católica e talvez outras entidades.

Outra fala em relação ao surgimento do grupo JAC, vem de Maria Sevy Dourado da Silva, que faz o seguinte comentário:

[…] acho que já em 1969 ou no início dos anos 70, o meu irmão, o Antonio Dourado, já pertencia de um grupo, o MFC, que funcionava no... Onde hoje é o... META – a Galeria Meta... O Colégio dos Padres... Chamavam colégio dos padres. E ali eles se reuniam à noite, nos sábados à noite. Então o meu irmão, ele sempre estava articulado com essas pessoas e com muita leitura. Ele convidava a mim e a minha irmã (referindo-se a sua irmã gêmea, Maria Mavy Dourado de Souza – Irmã da Congregação Servos de Maria). Então a gente acabou indo a algumas reuniões, e ali participavam muitas pessoas [...] E depois, acho que partiu dele, do Antonio Dourado... fundar um outro grupo, pois tinha também o da Santa Inês que a gente frequentava algumas reuniões. Depois ele era carpinteiro, ele trabalhava… Então ele construiu no quintal, no nosso quintal uma casa de madeira muito bem feita porque ele era carpinteiro, e ali a gente... Ele fundou o grupo ali e começou articular com alguns jovens e eu já entrei num... Na diretoria (Entrevista de Maria Sevy Dourado da Silva, em 23.11.2010 – Rio Branco – Acre).

Tanto a fala de Maria Sevy como a de Geraldo Lopes levam a crer que partiu de Antonio Dourado a articulação para a fundação do JAC, chegando a construir a sede do grupo no quintal de sua própria casa.

Sevy esclarece que Antonio Dourado já participava de outro grupo de jovens e que não era somente ele que estava interessado na criação de um novo grupo, mas que havia outras pessoas interessadas, tendo em vista que já havia um grupo de jovens naquela região de abrangência da paróquia Santa Inês, à qual o JAC também se vinculou. São esses alguns dos indícios de como se articulou a fundação do grupo JAC, de como o mesmo veio a funcionar.

Assim, aos poucos o grupo foi se organizando, vários jovens foram convidados e começaram a participar efetivamente das reuniões que aconteciam sempre aos sábados à noite.

O grupo se organizava a partir de uma diretoria, com seus respectivos componentes: presidente, secretário, tesoureiro. Essa diretoria era formada pelos próprios participantes, que se dividiam na realização de várias tarefas a serem desenvolvidas. Em relação a isso, Sevy diz que:

[…] tinha uma diretoria e era eleita por votos, votos secretos, nós fazíamos a... Foi criada a primeira diretoria que não foi votada, mais a cada... Não me lembro se era um ano ou dois anos, ela era renovada, com eleições mesmo. Tinha um presidente, o vice-presidente, o tesoureiro e o secretário, era essa a diretoria, essa era a diretoria do grupo. Mas tinha vários outros setores. Depois ele foi crescendo, o grupo foi crescendo muito, aí teve a parte de esporte, onde nós tivemos time de vôlei, time de futebol. Essas coisas todas, a gente fazia. […] (Entrevista de Maria Sevy Dourado da Silva, em 23.11.2010 – Rio Branco – Acre).

É algo bem interessante que um grupo de jovens fosse organizado dessa maneira, com funções bem definidas, organogramas e fluxogramas. Mas não só isso, com uma responsabilidade social, com um compromisso declarado de defender os jovens. Em várias entrevistas essa questão é ressaltada com orgulho pelos membros do grupo.

Havia também a emissão de carteirinhas de membro do grupo que indicavam um pouco dessa organização. Além disso, podemos dizer que a carteirinha era uma identificação do grupo, das pessoas que o frequentavam, representava a identidade do grupo. Vejamos como era essa carteirinha.

Ainda em relação à organização do grupo Edivaldo Souza, relata:

[…] Tinha presidente, secretário, tinha os líderes do grupo, tinha o camarada do violão, tinha a pessoa que ia dar a palestra da semana. Era uma palestra sobre política, uma palestra sobre droga, uma palestra sobre a importância da família, a importância dos movimentos de base naquela época, a importância da história, o quê que a revolução estava fazendo de bom ou de ruim pro país naquela época. A gente discutia isso debaixo de sete capas, pra ninguém saber. A gente tinha medo de ser preso, a gente tinha medo de ser preso porque a gente era muito jovem, a gente tinha muito medo disso, mas os assuntos principais que permeavam aquela época a gente...(Entrevista de Edivaldo dos Santos de Souza, em 18.11.2011 – Rio Branco – Acre).

Figura 2: Carteira de membro do grupo JAC

Fonte: Arquivo Pessoal de José Dourado de Souza

O relato de Edivaldo Souza reforça o que os outros entrevistados já colocaram em relação à organização do grupo. Acrescenta o que poderíamos chamar de uma divisão de tarefas ou como se dava o envolvimento dos participantes do grupo no desenvolvimento das diversas atividades, referindo-se aos responsáveis pela música, pelas palestras, pelas atividades esportivas, dentre outras.

Algo muito importante que é enfatizado em seu depoimento é a realização das palestras, relacionadas a temáticas diversas, que discutiam principalmente os assuntos que estavam na ordem do dia, que eram de grande importância para os jovens. Essas palestras com certeza serviram para que eles se direcionassem de maneira mais satisfatória possível na vida.

Edivaldo Souza dá bastante ênfase ao grau de repressão da Ditadura Militar daquela época, ressaltando que muitas das discussões levantadas no interior do grupo eram feitas às escondidas, pois tinham medo de serem presos. Diz que eram sempre vigiados, principalmente por participarem de um grupo de jovens.

Mas, em relação às palestras e demais atividades que se desenvolviam no grupo, Maria de Fátima Suzuki Aguiar ressalta:

[...] a gente tinha uma pauta sempre... Sempre preestabelecida, onde a gente iniciava sempre... Eu lembro que a gente iniciava com uma oração, depois a gente ia pra uma parte da Bíblia, e depois, além dessas conversas em cima da Bíblia, da parte religiosa, sempre surgia alguma coisa da política do momento, eu lembro bem disso, que a gente procurava se informar sobre o que estava acontecendo e ficava debatendo, enquanto... Eu lembro também, que é uma coisa bem interessante e que naquela época de adolescência, saindo da adolescência, que me fez crescer muito era algumas palestras que eram... Lembra que ia a professora Iara? (dirigindo- se aos entrevistadores) e outras pessoas... Que a gente precisava de mais esclarecimento, e eram convidadas essas pessoas, para essas palestras, e eu achava muito interessante isso. (Entrevista de Maria de Fátima Suzuki, em 05.04.2012 – Rio Branco- Acre).

A realização de Palestras nos revela que a juventude que participava do grupo JAC estava preocupada também com a realidade em que estavam vivendo, queriam saber mais sobre o momento, entender o que estava acontecendo. O grupo de jovens não era simplesmente um espaço de diversão, de se fazer amizades, mas também de aprendizagem.

Então, o grupo JAC se reunia aos sábados à noite, na sua sede própria, construída pelos próprios membros do grupo em forma de mutirão. Nestas reuniões eram discutidos os mais variados assuntos, desde assuntos religiosos até os políticos. Mas havia todo um roteiro, uma programação a ser seguida em cada reunião, onde cada participante do grupo ficava

responsável por desenvolver determinada atividade. Em relação a essa questão, deve-se destacar um trecho da fala de José Dourado:

[…] a gente se reunia todos os sábados. Então tinha um rito, tinha uma forma... Tinha um roteiro. Aí, normalmente se fazia assim: em cada reunião se escolhia... Se chamava animador... O animador da próxima reunião. Aí esse animador tinha o compromisso, tinha o roteiro. Primeiro: como é que recebe os novos visitantes… Aí depois tinha rezas, tinha cânticos, esses cânticos que a gente chamava de músicas de protesto, tanto da Igreja como de protesto propriamente dito. Essas coisas se cantavam muito. Fazia-se leitura de algum evangelho, de alguma parte do evangelho, mas também se fazia leituras de jornais. A gente tinha contatos com alguns jornais que eram chamados de nanicos ou pasquim... Tinha O

Movimento, O opinião e o próprio jornal O Pasquim. Tinha também um jornal

ligado a Igreja Católica do Rio Grande do Sul, chamado Mundo Jovem. Eram jornais fortes a nível nacional que chegavam até nós e a gente fazia essas leituras […] (Entrevista de José Dourado de Souza, em 23.09.2011 – Rio Branco – Acre).

Outra fala que ajuda a esclarecer melhor as informações acima vem de Jonas Abud Neto, que diz:

[…] eu lembro que tinha as reuniões nos dias de sábado. A gente lia um texto da Bíblia, debatia aquele texto e ali vinham tantos assuntos fora daquele texto. Vinha o social, vinha o político, vinha tudo ali. Era assim, eu sentia o grupo JAC, o grupo JAC como se fosse assim um movimento que direcionava os jovens para uma vida assim mais equilibrada […] (Entrevista de Jonas Abud, em 28.09.11 - Rio Branco – Acre).

A partir dessas duas falas, de Jonas Abud e de José Dourado, podemos compreender que as reuniões do JAC tinham horários e lugar certo, já programado. E que a maneira como eram conduzida as reuniões demonstra que havia um planejamento com antecedência. Havia um roteiro e se escolhia até o chamado animador da reunião, que iria conduzir as atividades programadas para cada encontro. Ao mesmo tempo, evidenciam-se nas falas algumas das atividades desenvolvidas pelo grupo e como estas eram realizadas.

Jonas Abud esclarece que a leitura do evangelho constituía-se basicamente em uma motivação para se discutirem outras temáticas, mas sempre partindo inicialmente da leitura de algum trecho da Bíblia. E isto contribuía para uma formação para além do aspecto religioso, estimulando aqueles jovens a assumir uma posição mais comprometida com as problemáticas sociais.

A fala anterior de José Dourado também ressaltou esta particularidade da formação dos membros do grupo JAC, dizendo que além do evangelho havia outras leituras, como os jornais, citando alguns deles. E que além das músicas religiosas havia as músicas de protesto, que estavam sempre presentes em seus encontros. Estes aspectos, leituras e músicas vão também contribuindo para uma formação mais politizada e, portanto, crítica da realidade. Então era dessa forma que o JAC ia desenvolvendo suas atividades e envolvendo cada vez mais os jovens participantes. E cada vez mais, mais jovens iam aderindo ao grupo.

Assim, o grupo de jovens JAC se reunia aos sábados à noite em sua própria sede, que foi construída no quintal da casa de Dona Irene, mãe de alguns participantes (Antonio Dourado, Maria Sevy Dourado, Maria Mavy e José Dourado).

Nestas reuniões se conversava bastante sobre o cotidiano de suas famílias, dos seus afazeres diários (estudo, trabalho, etc.); dos amores e desamores. Lia-se a Bíblia e outros livros e textos que tratavam a respeito da realidade da época; dos problemas sociais e políticos; sobre temas polêmicos como: relações familiares, namoro, sexo e casamento. Mas também se divertiam através de brincadeiras, dinâmicas de grupo, cantando, dançando, passeando, namorando, etc. Mas, acima de tudo, havia uma preocupação fundamental que era ajudar o próximo.

No documento JANAIRA FIDELIS CAETANO (páginas 48-54)