CURSO DE BACHARELADO EM HISTÓRIA
JANAIRA FIDELIS CAETANO
LEMBRANÇAS DE JOVENS
O GRUPO JUVENTUDE EM AÇÃO COMUNITÁRIA (JAC) E SUAS
PRATICAS RELIGIOSAS, POLÍTICAS, CULTURAIS E
RECREATIVAS
RIO BRANCO – ACRE MAIO DE 2012
JANAIRA FIDELIS CAETANO
LEMBRANÇAS DE JOVENS
O GRUPO JUVENTUDE EM AÇÃO COMUNITÁRIA (JAC) E SUAS
PRÁTICAS RELIGIOSAS, POLÍTICAS, CULTURAIS E
RECREATIVAS
Monografia apresentada ao Curso de Bacharelado em História (CBH) da Universidade Federal do Acre (UFAC) como requisito parcial para obtenção do título de Bacharel em História. Área de concentração: História de Movimentos Sociais.
Professor Orientador: Dr. José Dourado de Souza
RIO BRANCO – ACRE MAIO DE 2012
práticas religiosas, políticas, culturais e recreativas. Rio Branco, 2012. 86f. Monografia (Graduação em História)- Centro de Filosofia e Ciências Humanas. Universidade Federal do Acre, Rio Branco, 2012.
Ficha catalográfica elaborada pela Biblioteca Central da UFAC
Agostinho Sousa Crb11-547
Rio Branco – Acre 2012 C128l Caetano, Janaira Fidelis,
Lembranças de jovens: o grupo Juventude em Ação Comunitária (JAC) e suas práticas religiosas, políticas, culturais e recreativas / Janaira Fidelis Caetano. – Rio Branco: UFAC/Centro de Filosofia e Ciências Humanas, 2012.
86f.; il.; 30 cm.
Monografia (Graduação) - Universidade Federal do Acre, Centro de Filosofia e Ciências Humanas, Curso de Bacharel em História. Rio Branco, 2012.
Inclui Referências bibliográficas
Orientador: Profº Drº José Dourado de Souza
1. Juventude em Ação Comunitária (JAC) - História e memória. 2. Movimento de juventude - Rio Branco (AC). 3. Teologia da Libertação. I. Título.
JANAIRA FIDELIS CAETANO
LEMBRANÇAS DE JOVENS: O GRUPO JUVENTUDE EM AÇÃO COMUNITÁRIA (JAC) E SUAS PRÁTICAS RELIGIOSAS, POLÍTICAS, CULTURAIS E
RECREATIVAS
Monografia apresentada ao Curso de Bacharelado em História da Universidade Federal do Acre, como requisito parcial para obtenção do título de Bacharel em História.
Banca Examinadora:
_________________________________________________________________ Prof. Dr. José Dourado de Souza (Orientador) – CFCH/UFAC
_________________________________________________________________ Prof. Dr. Airton Chaves da Rocha (Membro Titular) – CFCH/UFAC
_________________________________________________________________ Profª. Doutoranda Geórgia Pereira Lima (Membro Titular) – CFCH/UFAC
Conceito: _________(______________). Rio Branco – Acre, _______/_______/_______.
DEDICATÓRIA
A meus pais José Caetano Filho e Célia Fidelis Caetano, que sempre incentivaram meus estudos.
Aos membros do grupo JAC e a todos aqueles jovens que estiveram sempre engajados na luta por melhores dias e que mesmo vivendo momentos difíceis diante da opressão social, nunca desistiram dos seus objetivos.
Agradeço a todos aqueles que me ajudaram na elaboração deste trabalho:
Ao professor orientador Dr. José Dourado de Souza, que esteve sempre presente, acompanhando a elaboração desta monografia. Que sempre me incentivou para que eu não desistisse. E mostrou que esse é apenas o meu primeiro voo, dentre muitos que poderão acontecer. A ele meus sinceros agradecimentos.
A todos os meus colegas de curso que me ajudaram de diversas formas, em especial às minhas amigas Wilciene Cordeiro Santos e Cássia França dos Santos, que estiveram sempre ao meu lado durante o decorrer do curso, dividindo momentos de encontros e desencontros.
Aos entrevistados: Antônio Manoel Camelo Rodrigues, Airton Chaves da Rocha, Edivaldo dos Santos de Souza, Geraldo Lopes Vitoriano, Jonas Abud Neto de Jesus, José Dourado de Souza, Josino de Almeida Aguiar, Manuel Pacífico da Costa, Maria de Fátima Suzuki, Maria Sevy Dourado da Silva.
A Valéria Santana da Silva, assessora da PJ, que me recebeu com toda atenção na Diocese de Rio Branco, durante os dias que lá estive pesquisando.
A Lauane Laura da Silva pela contribuição à pesquisa nos jornais;
Não poderia deixar de agradecer a todos os professores que participaram do meu processo de formação, especialmente aqueles que me acompanharam na elaboração da monografia: Professora MSc. Geórgia Pereira de Lima, e Professor Dr. Airton Chaves da Rocha.
Ao professor João Batista, pela contribuição na revisão ortográfica do texto; A minha família:
Minha mãe, Célia Fidelis, pela compreensão e apoio; meu pai, José Caetano, pela paciência que sempre teve comigo; aos meus irmãos, Jânio e Jocelene, que me suportaram nos momentos difíceis, especialmente a Jocelene que sempre escutou minhas reclamações e aconselhou-me nas dificuldades, (ela e seu esposo, Cristiano, foram meus segundos pais), e aos meus queridos sobrinhos Navlis, Eduarda, José e Ian Pietro, por me alegrarem nos momentos de tristeza.
(Graduação) – Curso de Bacharelado em História, Universidade Federal do Acre, Rio Branco – AC, 2012.
RESUMO
Esta monografia estuda o Grupo de Jovens Juventude em Ação Comunitária (JAC), que teve atuação durante a década de 1970, na cidade de Rio Branco-Acre. Esse grupo estava vinculado a uma experiência da Igreja Católica do Acre, que nesse período se baseava nas ideias propostas no Concílio Vaticano II e nos princípios da Teologia da Libertação, que defendiam, principalmente, a vinculação da Igreja às classes populares. É nessa perspectiva que vão surgir as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e, a partir destas, os grupos de jovens, como foi o caso do JAC. Procurou-se inicialmente compreender o contexto religioso, social e político em que se insere o objeto de estudo, analisando como se organizava a Igreja Católica na década de 1970, e como se configurava a sociedade daquele momento, principalmente nas suas questões políticas e sociais, situando assim a representatividade da juventude desta época. No segundo momento, buscou-se identificar quem eram e o que faziam os jovens de Rio Branco da década de 1970. No terceiro momento, analisaram-se as práticas religiosas, políticas, culturais e recreativas do grupo JAC, a partir das memórias dos sujeitos sociais que o constituíram, através do uso da história oral temática, pesquisas bibliográficas e documentais, orientando-se por uma perspectiva de que a memória é seletiva e que estabelece um permanente diálogo com o presente recompondo identidades até então não reveladas. Tornaram-se de fundamental importância na composição deste trabalho as concepções de história e memória de Loiva Otero Felix, de identidades subterrâneas de Michel de Certeau e de práticas e experiências de Edward Palmer Thompson.
PALAVRAS- CHAVE:
(Graduação) – Curso de Bacharelado em História, Universidade Federal do Acre, Rio Branco – AC, 2012.
ABSTRACT
Este trabalho apresenta um estudo sobre o Grupo de Jovens Juventude em Ação Comunitária (JAC), que teve atuação durante a década de 1970, na cidade de Rio Branco- Acre. Esse grupo estava vinculado a uma experiência da Igreja Católica do Acre, que nesse período se baseava nas idéias propostas no Concílio Vaticano II e nos princípios da Teologia da Libertação, que defendiam, principalmente, a vinculação da Igreja às classes populares. É nessa perspectiva que vão surgir as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e a partir destas os grupos de jovens, como foi o caso do JAC. Busquei inicialmente compreender o contexto religioso, social e político em que se insere o objeto de estudo, analisando como se organizava a Igreja Católica na década de 1970, e como se configurava a sociedade daquele momento, principalmente nas suas questões políticas e sociais, situando assim a representatividade da juventude desta época. No segundo momento buscou-se identificar quem eram e o que faziam os jovens de Rio Branco da década de 1970. No terceiro momento analiso as práticas religiosas, políticas, culturais e recreativas do grupo JAC, a partir das memórias dos sujeitos sociais que o constituíram, através do uso da história oral temática, pesquisas bibliográficas e documentais, orientando-se por uma perspectiva de que a memória é seletiva e que estabelece um permanente diálogo com o presente recompondo identidades até então não reveladas. Tornou-se de fundamental importância na composição deste trabalho as concepções de história e memória de Loiva Otero Felix, de identidades subterrâneas de Michel de Certeau e de práticas e experiências de Edward Palmer Thompson
PALAVRAS- CHAVE:
ACRE – Amor de Cristo Reunido no Evangelho CEBs – Comunidades Eclesiais de Base
CPC – Centro Popular de Cultura CUT – Central Única dos Trabalhadores
GESCA – Grupo de Elevação Sociocultural do Acre GJF – Grupo Juvenil de Formação
IC – Igreja Católica
JAC – Juventude Agrária Católica JAC – Juventude em Ação Comunitária JAP – Juventude Amor e Paz
JCB – Juventude Cristã Brasileira JEC – Juventude Estudantil Católica JIC – Juventude Independente Católica JOC – Juventude Operária Católica JUC – Juventude Universitária Católica LUA – Lutaremos Unidos no Amor
MFC – Movimento de Formação Cultural
MJUE –Movimentos Jovens Unidos no Evangelho. MST – Movimento Sem Terra
MTP – Movimento Trabalho e Progresso PAP – Prelazia do Acre e Purus
SCC – Seguiremos Com Cristo TL – Teologia de Libertação
VAI –Vamos o Amor Implantar
VUA – Vivemos Unidos no Evangelho JA – Juventude em Ação
JUB – Juventude Unidas da Base JBC – Juventude Bandeirante Cristã
SUMÁRIO INTRODUÇÃO, 12
CAPÍTULO 1
TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO, COMUNIDADES ECLESIAIS DE BASE E GRUPOS DE JOVENS DA PRELAZIA DO ACRE E PURUS, 19
1.1 JUVENTUDE: ALGUMAS REFLEXÕES, 20
1.2 TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO E COMUNIDADES ECLESIAIS DE BASE, 23 1.3 GRUPOS DE JOVENS DA PRELAZIA DO ACRE E PURUS, 30
CAPÍTULO 2
A JUVENTUDE DE RIO BRANCO NA DÉCADA DE 1970, 34 2.1 QUEM ERAM OS JOVENS NA DÉCADA DE 1970? , 34 2.2 OS JOVENS E A SOCIEDADE DOS ANOS DE 1970, 37
2.3 PRÁTICAS E COSTUMES DA JUVENTUDE DE RIO BRANCO NOS ANOS 70, 40
CAPÍTULO 3
O GRUPO JAC E SUAS EXPERIÊNCIAS RELIGIOSAS, POLÍTICAS, CULTURAIS E RECREATIVAS, 47
3.1 AS ORIGENS E O FUNCIONAMENTO DO GRUPO JAC, 48 3.2 AS PRÁTICAS RELIGIOSAS E POLÍTICAS, 54
3.3 AS PRÁTICAS CULTURAIS E RECREATIVAS, 67
CONCLUSÃO, 81
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS, 84 FONTES DOCUMENTAIS, 85
INTRODUÇÃO
Esta monografia apresenta um estudo sobre o grupo de Jovens Juventude em Ação Comunitária (JAC) que desenvolveu suas atividades entre os primeiros e últimos anos da década 1970, na cidade de Rio Branco – Acre, vinculado à paróquia Santa Inês, que abrange a região do Bairro Bosque e adjacências. Esse grupo se estrutura a partir de experiências de jovens que já vinham atuando em outros grupos da Prelazia do Acre e Purus1.
Os jovens do Grupo JAC colaboravam com o funcionamento da Igreja da qual estavam vinculados, ajudando nas missas, catequese, arraiais, entre outras atividades. Contudo sua atuação se dava para além do funcionamento da Igreja. Ele possuía sua própria programação, com uma variedade de atividades, como: reuniões ordinárias aos sábados à noite; programava e realizava o seu próprio arraial; desenvolvia atividades esportivas e artísticas, tais como: voleibol, futebol, teatro, música; editava jornais; fazia piqueniques, mantinha uma rotina de palestras com especialistas em temas polêmicos de importância para o momento.
O grupo JAC, como os demais surgidos durante o final da década de 1960 e por toda a década de 1970, se constituiu, inicialmente, a partir de uma orientação da Igreja Católica, que nessa época tinha uma atuação voltada às classes populares, aos pobres, aos injustiçados, a partir de uma orientação fundamentada nos princípios da Teologia da Libertação (TL), demonstrados principalmente nas práticas das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs).
Desta forma o interesse por esta pesquisa surge da necessidade de compreender como se dava a organização e funcionamento dos grupos de jovens da década de 70 em Rio Branco. Por se tornar uma tarefa muito densa querer tratar dos vários grupos de jovens existentes na época, optou-se por estudar um desses grupos, o JAC, para que, a partir da análise das suas práticas religiosas, políticas, culturais e recreativas, possamos compreender os aspectos mais gerais que caracterizam os grupos de jovens naquele período.
Prelazia do Acre e Purus era a denominação atribuída à Igreja Católica do Acre e Purus, que na atualidade se chama Diocese de Rio Branco.
A necessidade de compreender a atuação desses grupos de jovens é motivada por algumas inquietações. Uma delas é a questão de que, naquela época, vários grupos de jovens atuavam na cidade de Rio Branco desenvolvendo um conjunto de atividades consideradas importantes, tanto para os jovens como para a sociedade da época. A compreensão de como se davam essas práticas torna-se de fundamental importância para compreendermos outros contextos históricos considerados relevantes. Outra inquietação é o fato de existir um número razoável de trabalhos abordando questões referentes aos movimentos sociais, em que a Igreja Católica esteve presente, através das CEBs, mas que mantém certo silêncio acerca da participação da juventude nesses movimentos.
Esta pesquisa conseguiu identificar apenas um trabalho tratando mais especificamente destes jovens, que é a monografia de conclusão de curso de Silvana Maria Batista da Silva, defendida em 2010, que se intitula MFC, Movimento de Formação Cultural
da Juventude – A Juventude Católica e os Movimentos sociais em Rio Branco nos anos 70 ,
onde a autora faz um estudo sobre o grupo MFC através das lembranças de alguns dos seus integrantes.
Outro ponto que me fez pesquisar sobre um grupo de jovens da década de 70, é a minha relação com a Igreja Católica. Minhas origens familiares são Católicas, o que me levou a participar ativamente das várias práticas religiosas desta Igreja, como: sacramentos, pastorais, serviços e movimentos. Inclusive cheguei a frequentar um grupo de jovens, fui a algumas reuniões, mas, não me identifiquei com aquele espaço, com as atividades e discussões que ali eram apresentadas. Mas, em conversa com algumas pessoas que participaram de grupos de jovens da década de 70, pode-se perceber que naquela época os grupos eram mais animados, atuantes, participativos, tanto na comunidade religiosa como na sociedade de uma forma geral. E pensando melhor sobre essa questão, resolvi pesquisar e escrever sobre um grupo de jovens da década de 70, o JAC.
Nesse caminho a proposta aqui trabalhada foi analisar as diversas práticas do grupo JAC, buscando compreender fragmentos da trajetória dos grupos de jovens da década de 70 na cidade de Rio Branco-AC, bem como identificar e analisar a conjuntura religiosa, política, social e cultural desse período da história acreana, aspectos esses que definiram de certa forma a atuação da juventude na sociedade da época. E como o trabalho fala de juventude, mais necessariamente a juventude de Rio Branco dos anos 70, procurou-se identificar algumas características dessa juventude.
Nessa perspectiva, acredita-se que este trabalho irá contribuir para que os jovens do presente e os do amanhã possam melhor compreender a história e a importância que tiveram os jovens da década de 70 na transformação e constituição de uma nova sociedade, preparando-os para uma atuação mais qualificada na atual sociedade.
Para que este trabalho se realizasse, optou-se por uma abordagem qualitativa no que se refere à pesquisa e análise de dados. De acordo com os objetivos, utilizou-se pesquisa do tipo exploratória, na busca de colher maior numero de informações possíveis sobre o objeto de estudo. Nesse sentido foram realizadas entrevistas com alguns dos membros do grupo JAC, ou seja, com os sujeitos que vivenciaram efetivamente essa experiência.
O uso da História Oral foi uma forma encontrada dentre as várias opções de pesquisa, pois possibilita o pesquisador, na ausência ou escassez dos documentos, ter acesso a informações primordiais ao seu trabalho. Foi o caso desta pesquisa, que em grande parte se utilizou da entrevista do tipo semiestruturada, onde se propõe um roteiro de questões para delinear os objetivos da pesquisa, mas deixando o entrevistado à vontade para falar o que achasse necessário no decorrer da entrevista.
A História Oral é um recurso fundamental para determinadas pesquisas, mas ela exige alguns critérios para que possa ser bem sucedida. Nesse trabalho foram utilizados alguns procedimentos, antes, durante e depois, da coleta da entrevista. Primeiramente entramos em contato com o possível entrevistado, por telefone ou pessoalmente falando sobre a pesquisa que estava realizando, os objetivos, e a importância do depoimento de cada um para o trabalho, e esclarecendo como iríamos proceder à entrevista, caso aceitassem a concedê-la.
Tendo o depoente aceito o convite, colhemos seus dados pessoais para compor alguns documentos necessários ao respaldo do pesquisador na utilização da entrevista, bem como a proteção do depoente quanto a possíveis danos. Estes documentos são: Dados de Identificação do Entrevistado; Dados de identificação da Pesquisa; Termo de Compromisso Livre e Esclarecido; Termo de Compromisso com a Utilização da Entrevista.
É importante ressaltar que o método de História Oral que utilizamos está baseado em alguns princípios norteadores dessa metodologia, que se encontram no Manual de História
Oral, de José Carlos Sebe Bom Meihy. Neste manual encontram-se as informações técnicas
os cuidados que deve tomar antes, durante e depois da entrevista, bem como o modo de acolher o entrevistado, entre outras questões necessárias.
Mas, além dos procedimentos técnicos sobre a entrevista, nos orientamo-nos também por algumas posições éticas necessárias, para a valorização e respeito dos entrevistados. Para isso nos norteamos por algumas reflexões levantadas por Alessandro Portelli, no artigo
Tentando aprender um pouquinho: algumas reflexões sobre a ética na História Oral. Dentre
os vários pontos levantados, foi importante para este trabalho a seguinte colocação: a História
Oral tende a representar a realidade não tanto como um tabuleiro em que todos os quadrados são iguais, mas como um mosaico ou colcha de retalhos, em que os pedaços são diferentes. Ou seja, no caso deste trabalho, que se utiliza da História Oral para analisar as
práticas, experiências de cada sujeito dentro de uma coletividade que é o grupo de jovens, deve-se compreender que, apesar desses sujeitos sociais terem vivido a mesma experiência, esta foi absorvida de forma desigual, e a história oral nos possibilita de forma mais efetiva enxergar essas diferenças, desde que respeitemos os depoimentos de cada indivíduo, na busca não somente das semelhanças, mas também dos contraditórios.
As entrevistas foram gravadas, e algumas filmadas, de acordo com a concordância de cada entrevistado, depois foram transcritas, corrigidas e analisadas, para que pudessem ser utilizadas.
Além da História Oral, foi utilizada a pesquisa bibliográfica, que se deu através da leitura de algumas obras que dão conta de aspectos relacionados à conjuntura política, econômica e social da década de 1970, bem como de obras que abordam os temas relacionados à Igreja, como a Teologia da Libertação, Comunidades Eclesiais de Base, entre outros. Essa pesquisa se deu em três momentos: primeiro, selecionaram-se as obras que poderiam contribuir com o estudo, depois foram feitas as leituras e interpretações dos textos, utilizando-se do fichamento para o registro e organização do estudo.
Outro tipo de pesquisa utilizada foi a documental. Inicialmente a ideia era trabalhar com os documentos produzidos pelo próprio grupo, como: atas, relatórios, certificados, o jornal do grupo – O Construtivo -, fotografias, álbuns de recordação. Mas, no decorrer da pesquisa, poucos desses documentos foram encontrados nos acervos pessoais de alguns membros do grupo.
Além dos documentos produzidos pelo grupo, trabalhei com alguns jornais e folhetos, no caso o jornal O Rio Branco, da empresa Rio Branco, e o folhetim Nós Irmãos
produzido pela Prelazia do Acre e Purus. O período pesquisado foi o da década de 1970, de acordo com o objeto de estudo e de acordo com o acervo encontrado.
A pesquisa no jornal O Rio Branco buscou identificar algumas atividades e lugares de que a juventude da década de 70 costumava participar; onde eles se encontravam, como: bailes, cinemas, boates, entre outras atividades que caracterizaram as práticas socioculturais e políticas da época.
A pesquisa no folhetim Nós Irmãos foi realizada na intenção de identificar informações referentes ao grupo JAC, objeto de estudo desta pesquisa, tendo em vista que boa parte do folheto é dedicada a informações sobre a caminhada da Igreja.
A escolha pelo jornal o Rio Branco se deu por ser, entre os jornais existentes na década de 1970, um dos que tinham maior circulação, e que se encontra acessível para pesquisa no acervo do Museu Universitário. Procurou-se analisar os acervos dos anos de 1970 a 1978, de acordo com os exemplares existentes em cada ano no acervo. Os acervos pesquisados foram: 1970 – janeiro, março, outubro; 1971 – fevereiro, março; 1972 – março, maio; 1974 – janeiro, maio, outubro; 1975 – janeiro, março, maio, julho, setembro, novembro; 1976 – novembro, dezembro; 1977 – julho, agosto; 1978 – janeiro, fevereiro, julho, agosto, novembro, dezembro.
A maioria das informações que falavam sobre as atividades culturais e recreativas em que a juventude estava envolvida, encontrava-se na Coluna A cidade se diverte, de Chico Pop. Então foram colhidas essas informações através do registro fotográfico dessas matérias, que foram depois transcritas e selecionadas para a utilização no trabalho.
Na pesquisa ao boletim Nós Irmãos, realizada também no Museu Universitário, foram identificados os seguintes acervos: 1971, 1973, 1974 e 1975 (abril/julho/setembro). As informações encontradas se referiam em maior numero às Comunidades Eclesiais de Base, com poucas referências aos grupos de jovens, e nenhuma informação sobre o grupo JAC.
Foi realizada uma pesquisa na diocese de Rio Branco, na sala da Pastoral da Juventude. Os documentos lá identificados encontram-se todos dispersos, mas consegui colher algumas informações referentes às atividades desenvolvidas pelos vários grupos de jovens existentes na década de 70, e dentre os documentos encontrados, estão: convites para encontrões de jovens, festival de música sacra, treinamentos, mostra de poesia, entre outros.
Todas as pesquisas realizadas ajudaram em grau diferenciado na elaboração deste trabalho, mesmo que algumas fontes não tenham sido utilizadas diretamente na escrita, mas influenciaram de alguma forma na produção do texto.
Assim o trabalho foi organizado em três capítulos. No primeiro, intitulado Juventude,
Igreja Popular e grupos de Jovens na Prelazia do Acre e Purus, procurou-se refletir
inicialmente sobre a juventude das décadas de 1960 e 1970, buscando identificar algumas características e práticas da mesma, utilizando-se de trabalhos que abordaram a temática. Em seguida fez-se uma breve contextualização da caminhada da Igreja Católica em Rio Branco, reportando-se principalmente às Comunidades Eclesiais de Base e como os princípios da Teologia da Libertação influenciaram a trajetória desta Igreja, para que ela se tornasse uma Igreja Popular. E aliada a essa discussão, identificamos a atuação da juventude nesta Igreja na constituição dos grupos de jovens.
Ao levantarmos essas discussões, a pretensão é identificar a conjuntura religiosa, política e social em que vão surgir os grupos de jovens, como o JAC. Que fatores propiciaram a criação desses grupos.
No segundo capítulo, que se intitula A Juventude de Rio Branco na década de 1970, procurou-se identificar quem era a juventude dos anos 1970 na cidade de Rio Branco. O que faziam? O que pensavam? Quais dificuldades enfrentavam? Enfim, como se definia essa juventude. Assim trabalharam-se os seguintes aspectos: quem eram os jovens da década de
1970? Os jovens e a sociedade da década de 1970; Práticas e Costumes da Juventude de Rio Branco nos anos 70. Essas discussões foram trabalhadas a partir das entrevistas colhidas com
alguns jovens dessa época, participantes e não participantes do grupo JAC, bem como com as informações colhidas na pesquisa ao Jornal O Rio Branco sobre as atividades artísticas, culturais e recreativas das quais muitos desses jovens participavam.
Nesse segundo capítulo, objetivamos identificar algumas características dos jovens rio-branquenses de 1970, tendo em vista que esses são os sujeitos desta pesquisa, e para não chegarmos a um conceito limítrofe a esse respeito, procuramos pontuar algumas atividades em que esses jovens estavam diretamente envolvidos.
O terceiro e ultimo capítulo deste trabalho, desenvolveu-se propriamente a discussão sobre o objeto central desta pesquisa, O grupo JAC e suas experiências religiosas, políticas,
culturais e recreativas. Aqui refletimos sobre as origens e o funcionamento do grupo; as práticas religiosas e políticas e as práticas culturais e recreativas. A maior parte deste
capítulo se desenvolveu a partir da fonte oral, ou seja, a partir da memória dos membros do grupo sobre as experiências que vivenciaram durante o tempo que estiveram ali, tendo em vista que poucos são os registros que encontramos a respeito dessas práticas.
No decorrer do capítulo, evidenciaram-se as várias atividades desenvolvidas pelo grupo JAC, algumas atividades comuns aos vários grupos de jovens que existiam na época, bem como as exclusivas do grupo, que dão conta de identificar algumas características daquela juventude católica, e até mesmo dos jovens como um todo.
No final deste capítulo pretendia-se fazer um contraponto entre os jovens da década de 1970 e os da atualidade, procurando entender por que os jovens daquela época são vistos como exemplo de jovens comprometidos com a realidade em que viviam, com a sociedade da época, com os problemas. E porque os jovens de hoje são tidos como descompromissados, alheios à realidade, individualistas, entre outras questões. Mas, acredita-se que no decorrer do texto, foram evidenciadas algumas questões que respondem a esses questionamentos, como a situação da própria sociedade da época, como os costumes da época, as atividades que eles desenvolviam, entre outras questões.
CAPÍTULO 1
TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO, COMUNIDADES ECLESIAIS DE BASE E GRUPOS DE JOVENS DA PRELAZIA DO ACRE E PURUS
Neste capítulo busquei identificar alguns acontecimentos em que a juventude estava envolvida, como esta se definia ou se encontrava diante das várias mudanças ocorridas no Brasil e no mundo. Procurou-se enfocar a questão política e social dos anos 1970, considerando que nessa época estava em vigência no Brasil o regime político de Ditadura Militar, que teve início com o Golpe de 1964.
Esse período foi marcado por várias transformações no Brasil, em seus diversos contextos: econômico, político, social e cultural, tornando-se necessário discutir como esse regime político se refletiu aqui no Estado do Acre e como a Igreja Católica se portava diante dessa situação.
Dentro dessa discussão, destacaram-se alguns aspectos referentes à situação da Igreja Católica naquela época, tendo em vista que o grupo surge a partir desta. Assim, fez-se uma breve discussão sobre o que foi a Teologia da Libertação, seus princípios e o que ela trouxe de novo para a Igreja Católica, principalmente para a Prelazia do Acre e Purus.
Ainda nessa perspectiva, discutimos o que foram as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), constituídas a partir das novas propostas da Igreja Católica vinculadas aos princípios da Teologia da Libertação.
A partir desse contexto, foi possível entender como surgiram os movimentos da juventude, principalmente os grupos de jovens na cidade de Rio Branco, bem como as várias atividades por eles desenvolvidas; quais as motivações e objetivos da reunião de vários jovens. É a partir dessas reflexões que vamos entender, também, qual a representatividade que tiveram esses grupos para a sociedade daquela época e principalmente para os sujeitos sociais que os constituíram.
1.1 JUVENTUDE: ALGUMAS REFLEXÕES
O termo juventude nos sugere várias ideias ou representações do que é ser jovem. Desta forma não é possível homogeneizar um único entendimento acerca desta classe. Além disso, não é a pretensão definir um conceito único para a juventude.
Seria também equivocado tentar enquadrar todos os jovens dentro de uma caracterização que não contemplasse a multiface desse estágio da vida. Nessa perspectiva, são interessantes as reflexões feitas por Janice Tirelli Ponte Sousa no livro Reinvenções da
Utopia: a militância política de jovens nos anos 90, que, ao analisar o pensamento de vários
autores chega à conclusão de que
[...] não podemos trabalhar com um conceito único de juventude, mas com uma multiplicidade de condições juvenis, já que são muitas e diversas as formas sociais de conflito e solidariedade envolvendo os jovens que vivem um momento biológico e social transitório, e, portanto provisório para o estabelecimento de relações estáveis (SOUSA, 1999, p. 23).
Janice Sousa nos conduz a entender a juventude como um estágio provisório do desenvolvimento humano, como uma parte da vida humana carregada de ambiguidades, de dúvidas e posicionamentos diversos; como um momento de formação da personalidade do ser social que irá se constituir a partir daí, não devemos tratá-la de forma homogênea, enquadrando todos os jovens numa só perspectiva. Devemos buscar compreender a juventude para além dos conceitos cristalizados, levando em conta as diferenças dos jovens entre si, diferenças que se constituem de acordo com o espaço social, cultural, que ocupam e constroem durante sua vida.
Sendo este trabalho um estudo sobre o movimento de juventude, sobre um grupo de jovens da década de 1970, é interessante discutirmos aspectos da juventude de um modo mais geral, reportando-se às manifestações e práticas juvenis que se definiram ou propagaram-se por quase todo o mundo, principalmente a partir da década de 1960, período em que se observa uma maior expressão da juventude.
A juventude da década de 1960 pode ser caracterizada principalmente pelos movimentos de contracultura que surgiram inicialmente nos Estados Unidos e Europa e se expandiram pelo resto do mundo. Estes movimentos eram desenvolvidos por jovens que
contestavam a visão de mundo e o modelo de vida imposto pela sociedade contemporânea, manifestando-se através de várias formas culturais: música, teatro, movimentos pacifistas, entre outros. A intenção era contestar a visão de mundo racional e bitolante que prevalecia nesta sociedade. Para Brandão & Duarte (2004) tratava-se de buscar uma alternativa que não fosse o capitalismo nem o socialismo.
O surgimento do movimento de contracultura foi impulsionado pela intensificação do conflito entre Estados Unidos e União Soviética, denominado de Guerra Fria, que gerou grande instabilidade nas relações internacionais, chegando próximo de uma terceira guerra mundial, além dos conflitos no Vietnã2. Na América Latina, neste mesmo período, ocorre a Revolução Cubana de 1959, que traz consigo uma proposta alternativa de socialismo que repercutiu por todos os países latino-americanos, que vai ser visto como uma ameaça ao capitalismo (BRANDÃO & DUARTE, 2004; COSTA SOBRINHO, 2001).
Os movimentos de contracultura têm como ápice os acontecimentos de maio de 1968, na França, quando milhões de estudantes vão às ruas protestar contra a inadequação do ensino universitário ao mercado de trabalho, provocando uma mobilização de outros setores da sociedade, inclusive, estudantes de outros países em várias regiões do globo.
No Brasil houve uma intensificação do movimento estudantil contra a Ditadura Militar. A década de 1960 foi bastante conturbada. Em relação a isso, Antonio Carlos Brandão e Milton Fernandes Duarte, no livro Movimentos Culturais de Juventude, assinalam que:
O final da década de 1960, em termos mundiais, foi realmente um tempo de muita agitação, esperança e inovação nas formas de participação política dos jovens, que emergiram como a principal força transformadora da sociedade moderna [...] (BRANDÃO & DUARTE, 2004, p.67).
Durante os primeiros anos da década de 1960, o Brasil passou por grandes dificuldades econômicas e políticas. O governo estava sendo pressionado de todas as formas
2
Trata-se do processo de invasão militar que os Estados Unidos fizeram ao Vietnã do Sul, no período entre 1959 e 30 de Abril de 1975, como forma de combater o avanço do socialismo naquele país.
para solucionar a crise econômica, principalmente pelos militares que acabaram tomando o poder em 1964, iniciando-se assim o regime político de Ditadura Militar.
Neste período de Ditadura Militar, o Brasil foi marcado pela violência aos que se colocassem contra a autoridade central ou manifestassem qualquer divergência às ideias e atos do governo, sendo visível o uso do poder para repressão às pessoas e movimentos contrários ao regime. Entre outros, estabeleceu-se a censura aos meios de comunicação, jornais e revistas e as atividades artistas em geral; além da implacável perseguição aos artistas, políticos, estudantes, trabalhadores/operários e todos aqueles que buscassem denunciar as arbitrariedades do regime. Para tal, o governo se utilizava de prisões, do exílio e da tortura àquelas pessoas consideradas subversivas (COSTA SOBRINHO, 2001).
Diante desse contexto, a juventude brasileira não deixou de se manifestar, organizando-se de várias formas. Entre essas, podemos citar: A União Nacional dos Estudantes (UNE), a cultura engajada com a criação dos Centros Populares de Cultura (CPCs), que desenvolviam atividades culturais de atitude conscientizadora junto às classes populares. Para tanto encenavam peças em portas de fábricas, favelas e sindicatos; publicavam cadernos de poesia; promoviam cursos de teatro, cinema, artes visuais e de filosofia. Junto a essa cultura engajada, afirma Brandão (2004) ter surgido também a canção
de protesto, apresentando letras de conteúdo político e social (BRANDÃO & DUARTE,
2004).
Mas em pouco tempo essas manifestações culturais de cunho político e social foram sendo reprimidas pelo regime militar, e a juventude passou a procurar outros meios e outras organizações para continuarem protestando diante dos atos de violência, de repressão daquele governo. Uma das instituições em que os jovens encontraram apoio foi a Igreja Católica, que apesar de se apresentar dividida entre aqueles que apoiavam e os que não apoiavam o regime militar, entre conservadores e liberais, contava com um segmento significativo de religiosos de carreira e de leigos que, influenciados pelas ideias da Teologia da Libertação, passaram a apoiar os movimentos de contestação liderados principalmente pela juventude.
A Igreja Católica brasileira passou então a se fazer presente nas várias frentes de luta, através de setores que já vinham atuando mesmo antes do Golpe Militar de 1964. A maioria desses setores era do segmento juvenil como: Juventude Operária Católica (JOC), Juventude Universitária Católica (JUC), Juventude Agrária Católica (JAC), Juventude Estudantil Católica (JEC), Juventude Independente Católica (JIC) e o Movimento de Educação de Base (MEB) (COSTA SOBRINHO, 2001; SILVA, 2010).
Mas não é subitamente que a Igreja Católica passa a apoiar essas e outras lutas de base; há algumas mudanças nas diretrizes da Igreja que é preciso compreender, como as ideias da Teologia da Libertação e as práticas das CEBs.
1.2 TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO E COMUNIDADES ECLESIAIS DE BASE
Falar sobre a Teologia da Libertação, mesmo que de modo sintético, é fundamental para compreender algumas mudanças ocorridas na Igreja Católica que propiciaram o surgimento e desenvolvimento das CEBs e dos Grupos de Jovens.
A Teologia da Libertação se constitui a partir de uma síntese de vários acontecimentos, que podem ser entendidos como favoráveis ao seu surgimento, principalmente na América Latina, onde se sustentam suas bases. Michel Löwy diz:
[...] acontece na América Latina uma profunda mudança social e política: 1) a industrialização do continente a partir dos anos 1950 (sob o impulso de capitais multinacionais) vai “desenvolver o subdesenvolvimento” [...], isto é, agravar a dependência, aprofundar as contradições sociais, estimular o êxodo rural e o crescimento das cidades concentrando nas zonas urbanas uma classe trabalhadora nova e, sobretudo, um imenso “pobretariado”; 2) com a revolução cubana de 1959, se abre na América Latina um novo período histórico, caracterizado pela intensificação das lutas sociais, a aparição de movimentos de guerrilha, a sucessão de golpes de Estado militares e a crise de legitimidade do sistema político (LÖWY, 1991, p. 33-34).
É nesse contexto de mudanças sociais e políticas na América Latina, que desfavoreciam as classes mais vulneráveis, excluídas, e diante da organização destas classes que começaram a se manifestar contra as injustiças e desigualdades sociais, que vai surgir a proposta de uma igreja dos pobres, ou seja, a Teologia da Libertação dentro dos princípios da Igreja Católica.
Para Catão (1986), a Teologia da Libertação surge vinculada ao Marxismo, onde os teólogos, na tentativa de denunciar as injustiças e a opressão como causas da miséria, foram buscar nas ciências modernas uma melhor compreensão acerca da análise dos mecanismos de dominação.
Entretanto é no Concílio Vaticano II, convocado no dia 25 de dezembro de 1961, realizado entre 1962/65, que a maioria do episcopado Latino americano se pronunciou para a necessidade de renovação da Igreja Católica. Assim, os primeiros passos foram dados rumo à Teologia da Libertação. A discussão foi aberta, e desde já foram aprovadas algumas diretrizes para a renovação da Igreja na América Latina (CATÃO, 1986).
Com relação ao Concílio Vaticano II e as discussões que foram levantadas a partir dele, vale destacar o depoimento de Manoel Pacifico da Costa, que diz:
[...] historicamente dentro de um marco grande de mudanças, de transformações profundas na Igreja, especialmente na África, de 1962 a 1965, realizou o Concílio Vaticano II. E essa época, que era de profundas transformações, ela levantava uma questão assim fundamental: que a fé tinha que se expressar objetivamente dentro da realidade em que cada povo vive. E era um período em que os continentes, nosso (referindo-se ao Continente Americano), da África, da Ásia e da América Latina de um modo geral, eles estavam passando por problemas muitos sérios, porque cada vez aumentava mais as desigualdades sociais; e a distribuição da renda, cada vez mais desigual, de grande parte dessa população que era ligada a uma religião que era a católica, a evangélica... De repente começou a se questionar se estava certo o fato de o pessoal freqüentar os templos e as igrejas sem mudar nada dessa estrutura que era considerada uma estrutura social injusta. Então, com o Concílio Vaticano II tinha resgatado, também, esse papel da Igreja, que desde o começo era ligada com os pobres, que tinha passado por um verdadeiro afastamento, e tinha se identificado muito com as elites. Então o Concílio Vaticano II já provocava um pouco essa discussão de a Igreja voltar de novo como era a Igreja no começo, a se preocupar com os pobres, os excluídos [...] (Entrevista com Manuel Pacífico da Costa, em 26.05.2011- Rio Branco – Acre).
A fala de Manoel Pacífico nos esclarece que o Concílio Vaticano II reflete, em parte, como estava sendo o papel da Igreja diante das desigualdades sociais, que estavam acontecendo em todo o mundo, verificando-se que a Igreja estava mais vinculada às elites do que às classes populares e aos problemas enfrentados por elas. E é a partir deste Concílio que a Igreja vai começar a realizar mudanças nas suas bases em direção à opção pelos mais pobres.
Essa proposta de transformação da Igreja Católica, sobretudo na América Latina, a partir de uma nova Teologia, propunha a tomada de consciência da Igreja diante do sofrimento do povo. É a partir desse novo olhar que a Igreja passa a se comprometer com as lutas por sobrevivência, por dignidade, por melhores condições de vida da população pobre.
A Teologia da Libertação vai ser discutida também em Medellín, Colômbia, na II Conferência Episcopal Latino-americana. Em relação a isso, Francisco Catão assinala:
[...] Medellín estabelece com vigor que os cristãos precisam se empenhar na luta contra as estruturas injustas da sociedade latino-americana e que este empenho é fundamental e básico para toda ação pastoral. Foi nesse sentido que Medellín fundou a teologia da libertação: enquanto adotou, na base de sua orientação pastoral, a necessidade de uma reflexão teológica sobre o sentido da luta contra a injustiça (CATÃO, 1986, p. 57).
Nesse sentido, verifica-se que a Teologia da Libertação surge dentro de um contexto de grandes injustiças sociais, principalmente na América Latina, e que a Igreja toma partido e convoca todos os cristãos para lutarem contra essas injustiças, constituindo-se numa Igreja preocupada não só na divulgação do evangelho e na salvação espiritual do homem, mas também, com a realidade que a cerca, com a vida concreta do homem, voltando-se para a libertação deste homem na sua atualidade.
Com relação aos impactos da Teologia da Libertação no Brasil, Michael Löwy (1991) destaca que a Igreja brasileira é o único caso da América Latina em que a Teologia da Libertação e seus adeptos pastorais conquistaram uma influência decisiva. Isso pode ser notado nos vários movimentos populares brasileiros, que foram organizados por militantes cristãos, dentre eles a Central Única dos Trabalhadores (CUT), o Movimento dos Sem - Terras (MST), as associações de bairros e outros.
A Igreja Católica no Brasil foi importante também nos movimentos contra a Ditadura Militar, organizando, juntamente com a população humilde, alguns movimentos e protegendo algumas pessoas contra as atrocidades do regime.
É a partir desse novo olhar da Igreja, de opção pelos pobres e excluídos, proporcionado pelo Concílio Vaticano II, e principalmente pela Conferência de Medellín, que as CEBs, baseadas nas ideias da Teologia da Libertação, vão se desenvolver no Brasil. Frei Betto, tratando deste tema, sintetiza o seu entendimento do que sejam estas Comunidades Eclesiais de Base:
[...] comunidades porque reúnem pessoas que têm a mesma fé, pertencem à mesma igreja e moram na mesma região. Motivadas pela fé vivem em comum-união em torno de seus problemas de sobrevivência, de moradia, de lutas por melhores condições de vidra e de anseios e esperanças libertadoras. São eclesiais porque são congregadas na igreja, como núcleos básicos de comunidades de fé. São de base, porque são integradas por pessoas que trabalham com as próprias mãos (classes populares): donas-de-casa, operários, subempregados, aposentados, jovens e empregados dos setores de serviços, na periferia urbana; na zona rural, assalariados agrícolas, posseiros, pequenos proprietários, peões e seus familiares (FREI BETTO, 1985, p. 17).
Então são comunidades onde se reúnem as pessoas de mesma fé, no caso, cristãos católicos, vinculados aos princípios de sua Igreja. Essas comunidades são formadas pelas classes populares, que buscam não somente a palavra de Deus, mas também a libertação de suas opressões.
As CEBs não foram somente um espaço de discussão e prática da fé, mas também de discussão da realidade do povo. É a partir delas que a Igreja vai se posicionar diante dos problemas sociais enfrentados pelas classes populares, orientando-as e juntando-se à luta dos oprimidos.
Na Prelazia do Acre e Purus, as CEBs vão se constituir a partir da década de 1970, diante de um quadro político e social desfavorável aos oprimidos. Mas antes de falar da Igreja dos anos 70 no Acre, é importante se reportar a algumas etapas desta Igreja, definidas por Clodovis Boff, na qual este apresenta três momentos distintos.
De 1920 até 1950, a Igreja do Acre e Purus viveu o período da pastoral religiosa, porque consistia basicamente na assistência religiosa, em que os padres adentravam as florestas levando o conforto da fé. De 1950 a 1970, foi o período da pastoral social, em que a Igreja começa a se preocupar com a situação social do povo construindo hospitais, escolas, orfanatos, colégios, etc. E a partir de 1970 tem início o período da pastoral da libertação, quando surgem as CEBs, momento em que o povo e a Igreja começam a andar com seus próprios pés, pensar com sua própria cabeça e lutar pelos seus direitos (BOFF, 1980)
No período da pastoral libertadora, que teve início em 1970, momento em que surgem as CEBs, o Acre está passando por uma situação desfavorável no que diz respeito principalmente aos mais pobres. Refletia-se aqui a opressão do regime político de Ditadura Militar, que estava imposto em todo o país.
O governo militar lança a política de ocupação da Amazônia, que visava transferir as terras do Acre, dos seringalistas - alguns muito endividados e outros falidos - para os empresários do centro-sul, na tentativa de se implantar no Estado a pecuária de corte e outras atividades que fossem mais lucrativas do que a decadente economia extrativista da borracha (COSTA SOBRINHO, 2001). Além da política do governo federal, dos incentivos fiscais e
créditos bancários, o governo Dantas3 desencadeia uma campanha publicitária relativa às terras do Acre, objetivando atrair os empresários do centro-sul para investirem na região (CALIXTO & OUTROS, 1985).
Diante das facilidades e campanhas para o investimento de empresários de outros estados, no Acre, estes acabaram encontrando uma nova possibilidade de negócio na compra das terras acreanas.
Devido à crise da economia extrativista da borracha, muitos seringalistas haviam abandonado suas terras, ficando ali somente os seringueiros numa condição de posseiros. Com a venda das terras, esses posseiros eram expulsos. Alguns resistiam ao processo de expulsão, fazendo com que os compradores de terra usassem da violência, contribuindo para a instalação de um conflito entre empresários e posseiros.
Esses conflitos pela posse da terra perduraram durante vários anos no Estado do Acre, e a Igreja teve papel fundamental na luta pela terra ao lado da população excluída: posseiros, seringueiros, trabalhadores rurais. É em meio a esses conflitos que vão ocorrer algumas transformações na Igreja do Acre e Purus.
No ano de 1971, a Igreja do Acre e Purus influenciada pelas linhas pastorais da II Conferência Episcopal Latino-americana, no bispado de Dom Giocondo, que começa a observar melhor o processo de pecuarização do Acre e as consequências nada favoráveis aos acreanos, principalmente os mais pobres. Dom Giocondo então passa a estimular a formação de grupos de evangelização leigos que deram origem às CEBs no Acre (COSTA SOBRINHO, 2001).
Uma das primeiras comunidades a ser organizada foi a do bairro Estação Experimental, em Rio Branco, considerada a mais expressiva no período. A partir dessa experiência, vão se multiplicar por toda a prelazia outras comunidades, que tinham como motivação a evangelização para a promoção humana e chamar os pobres e excluídos para a participação social (MARTINELLO, 1986, apud KLEIN, 2007, p. 64).
Os grupos de CEBs eram formados em lugares onde não havia uma paróquia próxima, geralmente em bairros e colônias distantes. Era uma forma de descentralização da
3
Foi durante o Governo de Vanderlei Dantas (1971/74) que se intensificaram as compras dos seringais para a implantação da pecuária.
Igreja, não restringindo os serviços somente em torno das paróquias. Era uma forma de introduzir os leigos nos diversos serviços da Igreja, como exemplo a celebração da palavra, os batizados, que antes eram tarefa exclusiva dos sacerdotes. Participavam desses grupos pessoas de todas as faixas etárias, que se reuniam para rezar, falar do evangelho e discutir sobre assuntos da realidade em que viviam. Em relação a essas questões, é interessante a fala de Manuel Pacífico, ao dizer que:
[...] não podia ser mais aquela Igreja apenas da paróquia, tudo centralizado... E os bairros, colônias e comunidades sem ter um atendimento permanente. Então começou um processo, até a nível de discussão interna da Igreja, da descentralização dos serviços da paróquia através da formação e consolidação das Comunidades Eclesiais de Base. Agora quando se falava das Comunidades Eclesiais de Base, era que aquela comunidade passasse a ter tudo que ela precisasse pra tornar-se uma igreja viva, passava a ter os jovens, os adultos e os ministérios e serviços necessários que ela precisasse, até a presidência da eucaristia; que não tivesse toda hora precisando de padre para rezar missa [...] (Entrevista com Manuel Pacífico da Costa, em 26.05.2011- Rio Branco – Acre).
Juntamente com as CEBs, nasce o Boletim Informativo Nós Irmãos, uma espécie de jornal alternativo que vai divulgar as informações sobre o que acontecia nas Comunidades Eclesiais de Base. Esse informativo, junto com as CEBs, vai exercer papel fundamental na nova caminhada da Igreja de opção pelos mais humildes, tendo como ponto mais relevante de ação conjunta a conscientização dos trabalhadores pelos seus direitos referentes às questões da terra, que, como ressaltamos anteriormente, estava em ebulição no Estado do Acre.
Com relação ao boletim Nós Irmãos, Pedro Vicente Costa Sobrinho, em seu livro
Comunicação Alternativa e Movimentos Sociais na Amazônia Ocidental, faz um estudo bem
interessante, destacando os vários assuntos abordados pelo Boletim, a importância do mesmo para o trabalho das CEBs e para a luta da população mais humilde. Este autor, analisando o Boletim, destaca que:
[...] sua ação foi fundamental como veículo alternativo de comunicação a serviço dos marginalizados, abrindo suas páginas para denunciar a violência, orientar as lideranças dos movimentos de resistência dos trabalhadores, apoiar o trabalho educativo das CEBs, e até mesmo influenciar a organização dos movimentos sociais (COSTA SOBRINHO, 2001, p. 14).
Nas páginas do boletim Nós Irmãos, estão as notícias das várias CEBs, como estava caminhando determinada comunidade, quais os trabalhos que estavam sendo desenvolvidos em cada uma, quais as discussões e problemas levantados pela comunidade, tudo isso era divulgado. Como exemplo, podemos citar um trecho do Boletim, de junho de 1973, que fala da caminhada da comunidade da Santa Inês:
COMUNIDADE SANTA INÊS – Como já é tradição, todo primeiro domingo do mês os grupos da Santa Inês fazem aquele ENCONTRÃO, é simpes (sic?) mas, caloroso. A comunidade está firme e forte. Dez grupos já foram criados, onde todos procuram discutir para melhor conhecer o evangelho [...] você sabia que o nosso grupo de jovens está para frente, procurando unir-se aos monitores, para melhor desenvolvimento de nossa paróquia? E a irmã Rita... Com seu grupo apoiada também pelos jovens na Getúlio Vargas, está entusiasmada![...] (Boletim Nós Irmãos, junho de 1973, acervo do CDIH/Museu Universitário- 1971- 1974)
Esse é apenas um exemplo de como eram divulgadas as notícias das Comunidades Eclesiais de Base no boletim Nós Irmãos, e aqui já notamos a presença e participação dos grupos de jovens nas atividades dessas comunidades.
Outro aspecto fundamental do Nós Irmãos e das CEBs era o trabalho de orientação ao povo, de como lidar com a realidade em que viviam, nas dificuldades e injustiças enfrentadas por eles, principalmente no que diz respeito à questão da terra, como já referido anteriormente.
Foi de grande valia a divulgação de um texto informativo chamado Catecismo da
Terra, elaborado num treinamento de monitores realizado no município de Brasileia, que
esclarecia e orientava sobre os direitos dos trabalhadores pela terra. Esse texto foi amplamente divulgado pelo Nós Irmãos, ano II, nº. 12, de dezembro de 1973.
A partir da divulgação desse texto, motivado pela intensificação dos conflitos pela terra, o Boletim passa a dar mais ênfase na divulgação de notícias, denúncias e orientações sobre a luta pela posse da terra. Com isto a Igreja começa a ter uma posição mais clara, identificando-se e apoiando a luta dos trabalhadores, na formação de associações, sindicatos e demais instituições de defesa dos mais humildes (COSTA SOBRINHO, 2001).
Diante desse breve apanhado da situação em que se encontrava o Acre na década de 1970 e a inserção das Comunidades Eclesiais de Base nesse contexto, compreende-se que a
constituição dessas comunidades foi fundamental tanto para a Igreja quanto para as classes oprimidas.
A Igreja ao modificar a maneira de divulgação do evangelho, voltando-se para a realidade da população humilde, agrega uma maior quantidade de fiéis, fortalecendo a instituição Igreja Católica, principalmente a partir do esforço dos clérigos comprometidos com esse novo jeito de ser Igreja, e, é claro, com a contribuição dos leigos inseridos nesse novo olhar da Igreja.
Ao mesmo tempo a população humilde, que já estava descrente em dias melhores, diante de tantas desigualdades e injustiças sociais, encontra na Igreja não somente um refúgio momentâneo dos problemas, mas possibilidades de resolução desses problemas ou pelo menos força e ajuda para lutar pelos seus direitos. Há agora uma razão concreta de ser cristão, e de ser Igreja.
1.3 OS GRUPOS DE JOVENS DA IGREJA CATÓLICA DO ACRE E PURUS
Ainda é incerta a periodização da organização dos movimentos juvenis na Igreja do Acre e Purus. São poucos os trabalhos referentes a esta temática, mas é possível identificar a significativa presença juvenil nas várias atividades desenvolvidas pela Prelazia do Acre e Purus, principalmente a partir dos anos 1970, sem descuidar que o surgimento destes grupos remonta à década de 1960.
Segundo Estanislau Paulo Klein, a partir de 1930, começou a surgir na Igreja do Acre e Purus um movimento de jovens idealizado por Padre Egidio Rovolon, em Sena Madureira. Tratava-se de um grupo de escoteiros Servos de Maria. Mas é no Episcopado de Dom Giocondo que se consolidou o movimento Juvenil (KLEIN, 2007).
Em documentação constante nos arquivos da Diocese de Rio Branco4, foi possível identificar que já em meados da década de 1960, aproximadamente entre 1966 e 1968, vai se organizar o Grupo de Elevação Sócio Cultural do Acre (GESCA), com o auxílio de Dom
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Caderno de Anotações de Irmã Augusta, referente ao período, aproximado, da década de 1970. Arquivo da Diocese de Rio Branco. Pesquisa realizada durante o primeiro semestre de 2011.
Giocondo. Alguns jovens vão começar a se reunir com a finalidade de fazer um estudo aprofundado da realidade em que viviam e melhor conscientizar-se da nova caminhada da Igreja.
Portanto, é a partir do bispado de Dom Giocondo que vão se organizar alguns movimentos juvenis na cidade de Rio Branco, em um momento de efervescência política e social, proporcionados pelo regime militar ditatorial. Aqui, como em outras localidades do país, havia a presença forte do regime, que tentava controlar, inibir e reprimir qualquer tipo de organização que viesse a se posicionar contra os ideais e ações dos governos militares.
De certa forma a Igreja Católica do Acre e Purus também foi alvo dos mandos e desmandos dos governos militares. Posicionou-se, ajudando a organizar alguns movimentos sociais, principalmente na luta contra as questões de terra na região. Os grupos de jovens vão ser uma das organizações da Igreja que vai estar diretamente ligada às denúncias de injustiças sofridas pela população. Como, por exemplo, o grupo GESCA, que surge com a intenção de avaliar a sociedade em que viviam.
Depois do GESCA, surgiram vários outros grupos juvenis, como o Movimento de Formação Cultural (MFC) e o Movimento para o Trabalho e Progresso (MTP), sendo os primeiros grupos a se organizarem, ainda na década de 1960. Mas, é a partir da década de 1970 que a constituição desses grupos de jovens se intensifica, principalmente pelo apoio prestado durante o bispado de Dom Moacyr Grechi.
De acordo com as informações da pesquisa realizada na Diocese, em documentação acima já referida, nasce em 1971 o Grupo Juvenil de Formação (GJF), no bairro Estação Experimental. Na seqüência, vão surgindo outros grupos que, também, protestavam, fazendo caminhadas e discutindo os problemas da atualidade.
De acordo com essas informações, foi a partir de 1974 que começou a se articular uma coordenação de jovens na prelazia, e com isso começam a se desenvolver cada vez mais os grupos de jovens. Eram várias as atividades realizadas por esses grupos juvenis que, além de participarem das atividades da Igreja, realizam também atividades culturais e recreativas como festivais de música, amostras de teatro, passeios, festinhas, etc.
Mas não estavam preocupados somente com o entretenimento. Era a partir dessas atividades culturais que criticavam a estrutura social da época, reivindicando seus direitos. Um acontecimento que demonstrou com bastante clareza a união desses jovens e suas
preocupações com a reivindicação de seus direitos e da sociedade em geral, foi o movimento que realizaram pela meia passagem no transporte coletivo.
Nesta perspectiva, Estanislau Paulo Klein ressalta que:
As reuniões de grupos de jovens nas paróquias seguiam uma dinâmica com a leitura de textos dos evangelhos para um debate entre os participantes, relacionando a leitura com situações vivenciadas pelos jovens, onde os textos lidos serviam como luz de orientação das vivências, procurando contextualizar a religião com a vida [...] (KLEIN, 2007, p. 83).
Nota-se que havia uma relação entre fé e vida nas práticas desses jovens, em suas vivências e reflexões cotidianas, seja durante uma reunião do grupo de que participavam, em uma atividade organizada pela Prelazia, sejam em suas festinhas, piqueniques ou ainda durante um festival de música sacra. Tratava-se de uma orientação religiosa vinculada à realidade daqueles jovens, proporcionando-lhes uma melhor visão do que estava acontecendo na sociedade, e a partir daí possibilitando que se organizassem para lutar, principalmente em favor dos seus direitos e da população mais humilde.
Dentre os documentos localizados na Diocese de Rio Branco, encontram-se convites destinados aos grupos de jovens para participarem de seus encontrões, torneios de futebol, passeios, treinamentos juvenis, festivais de música religiosa, maratona intelectual, etc. Isto só vem confirmar as várias atividades desenvolvidas pelos grupos de jovens na Prelazia, demonstrando que eles não se limitavam às reuniões periódicas de discussão do evangelho e da realidade.
Constam ainda dessa documentação alguns relatórios de atividades desenvolvidas pelo setor da juventude da Prelazia e propostas de atuação do conselho de jovens, o que comprova a existência de um setor dentro da Igreja que acompanhava a caminhada dos grupos de jovens. Mas esses materiais são apenas indícios de uma estrutura organizacional existente a partir dos grupos de jovens.
Merece destacar a produção de pequenos jornais,5 com circulação entre os membros do próprio grupo, entre os grupos e às vezes na comunidade e nas escolas onde esses jovens
5
estudavam. Dentre eles podemos citar o jornal Juventude Sorriso, do grupo MFC; O
Construtivo, do grupo JAC; o jornal Movimento Jovem, de Sena Madureira.
Por enquanto não iremos entrar em maiores detalhes a respeito da organização e práticas dos grupos de jovens de Rio Branco a partir dos documentos encontrados. Isto ficará mais claro quando forem abordadas as práticas do grupo JAC, que serão retratadas a partir dos depoimentos de alguns de seus participantes, tendo em vista a escassez de fontes escritas.
Nesse caminho cabe aqui apenas referir-se aos nomes dos grupos encontrados naquela documentação, constantes de uma relação elaborada em abril de 1978 pelo conselho juvenil da Prelazia6. Constam naquela relação os seguintes grupos juvenis: Juventude Trabalho Amizade (JUTA), do São Francisco; Seguiremos Com Cristo (SCC), da Baixa da Colina; Juventude Cristã Brasileira (JCB), da Cidade Nova; Amor de Cristo Reunido no Evangelho (ACRE), da Santa Inês – bairro Bosque; Vivemos Unidos no Evangelho (VUA), do Palheiral; Vamos o Amor Implantar (VAI), da Imaculada Conceição; Lutaremos Unidos no Amor (LUA), da Imaculada Conceição; Grupo Juvenil de Formação (GJF), da Estação Experimental; Juventude em Ação Comunitária (JAC), do Bosque; Juventude Amor e Paz (JAP), da Cadeia Velha; Movimentos Jovens Unidos no Evangelho (MJUE); Juventude em Ação (JA); Juventude Unidos da Base (JUB), da Base; Juventude Bandeirante Cristã (JBC), do Abraão Alab; Jovens Unidos Dentro do Evangelho (JUDE).
Obviamente esta relação não apresenta todos os grupos que tiveram atuação na década de 1970, mesmo assim devemos reconhecer que se tratava de um número considerável de grupos espalhados por toda a cidade de Rio Branco, como podemos observar a partir da localização de alguns deles.
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CAPÍTULO 2
A JUVENTUDE DE RIO BRANCO NA DÉCADA DE 1970
Tendo em vista que a temática deste trabalho é a juventude, mais especificamente sobre o grupo de jovens JAC, julgou-se necessário fazer uma breve reflexão sobre a juventude de Rio Branco dos anos 1970. Quem era? O que fazia? O que pensava? Como esses jovens se viam? Então, neste capítulo iremos discutir alguns dos aspectos relacionados a essa juventude. Para isto, utilizamo-nos dos depoimentos dos participantes do grupo JAC, bem como do depoimento de outros jovens da época, além da pesquisa nos jornais.
2.1 QUEM ERAM OS JOVENS DA DÉCADA DE 1970?
Na década de 1970, o Estado do Acre e, sobretudo, a sua capital Rio Branco estavam passando por um processo de transformação, processo esse ligado a uma série de acontecimentos locais e nacionais. Nesse período o Brasil estava subjugado a um governo ditatorial que impunha medidas opressoras à população, e no Acre não foi diferente.
Com a instalação do Regime Militar Ditatorial em 1964, é redefinida a política de ocupação para esta região, que tinha como objetivo ocupar os espaços vazios da Amazônia; e o Acre foi um dos grandes alvos dessa política (CALIXTO & OUTROS, 1985).
Nessa época a economia do Estado baseava-se, prioritariamente, no extrativismo da borracha e da castanha, mesmo que em pequena quantidade; e na agricultura de subsistência, o que obrigava a maioria da população a viver no interior dos seringais ou em pequenos núcleos agroextrativistas nas proximidades das áreas urbanas.
Com a política de ocupação da Amazônia, após 1964, através de propagandas, de incentivos do governo federal, bem como do governo local, milhares de pessoas de outras regiões do país começaram a vir para o Acre para ocupar os ditos espaços vazios, mas esses espaços já eram ocupados pelos seringueiros, que se encontravam na condição de posseiros, mesmo com a falência do extrativismo da borracha. Assim, tem início um grave problema,
que é a expulsão dos seringueiros/posseiros de suas terras para a implantação da grande fazenda de gado. Em relação a isso, José Dourado de Souza (2011) ressalta:
Logo nos primeiros anos da década de 1970, grande volume de capitais nacionais e multinacionais inicia as compras dos seringais, que há muito se encontravam abandonados pelos donos, mas todos ocupados por posseiros. Esses antigos donos, os seringalistas, sem nenhuma possibilidade de fazerem de seus seringais propriedades produtivas e temendo perder tudo para os posseiros, vendiam as terras a preços irrisórios aos compradores do Centro-Sul. Os novos donos, os
paulistas, que se encarregavam de expulsá-los de suas posses (SOUZA, 2011, p.
45-46).
Como podemos observar, os seringueiros foram expulsos de suas posses pelos
paulistas7, que, ao comprarem estes antigos seringais, tinham o propósito de implantar a
pecuária na região, atividade esta que não necessitava da mão de obra dos seringueiros.
Ao serem expulsos, esses homens, juntamente com suas famílias, ficaram sem ter para onde ir, e uma das soluções foi migrar para a cidade em busca de emprego, moradia e de outras formas de sobrevivência, diferentemente daquele que estavam acostumados. Ao chegarem à cidade, tiveram que montar seus barracos, em sua maioria, na beira do rio Acre e em outros terrenos baldios, caracterizando-se como um verdadeiro processo de invasão suburbana, e dando início à formação da periferia de Rio Branco.
Então a cidade de Rio Branco na década de 1970 era ocupada principalmente por essas pessoas que vieram do interior dos seringais em busca de um lugar para morar e de outras formas de sobrevivência. Eram pessoas pobres e humildes que não tinham sequer moradia digna, e em sua maioria analfabetos, o que dificultava ainda mais a possibilidade de conseguir emprego na cidade. Em consequência disso, começam a surgir os crimes, roubos, prostituição, uso de drogas e outros problemas sociais graves (ROCHA, 2006; SOUZA, 2011).
A grande maioria dos jovens participantes do grupo JAC eram sujeitos desse processo, filhos de seringueiros que vieram para a cidade de Rio Branco por terem sido expulsos de suas colocações de seringa, tornando-se assim posseiros urbanos. Isso pode ser
7 A expressão paulistas era utilizada pejorativamente para designar todos aqueles compradores de