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3 O PROJETO VIVA FAVELA

3.1 As origens do Viva Favela

Criado oficialmente em 2001, pela ONG Viva Rio92, o Projeto VF tinha como um de seus objetivos desconstruir a imagem restrita, equivocada e distante que grande parte da

88 Coordenador da ONG Viva Rio, que criou o Projeto Viva Favela.

89 O evento ocorreu de 18 a 22 de julho de 2011 na cidade do Rio de Janeiro, mais informações em:

<http://vivafavela.com.br/materias/i-encontro-nacional-de-correspondentes-comunit%C3%A1rios-viva-favela-programa%C3%A7%C3%A3o>. Acesso em 20 nov. 2011.

90 A política editorial está disponível nesse endereço: <http://vivafavela.com.br/politica-editorial>. Acesso em 21 nov. 2011.

91 Dados fornecidos pela coordenação do Projeto Viva Favela.

sociedade possuía das favelas (RAMALHO, 2007). Buscava-se representá-la fora das violências e carências que a marcam e mostrar o que tem de bom e criativo nessas localidades.

Além disso, pretendia-se que funcionasse como um canal para dar às pessoas que lá vivem a oportunidade de se expressar. É fundamental lembrar que no início dos anos 2000 a chamada

“cultura da periferia” não tinha a valorização que tem hoje. Atualmente, favela ainda é sinônimo de pobreza e violência, mas há uma valorização da cultura que é produzida nesse ambiente93. As ações de ONG’s em favelas eram em número menor e havia mais receio em conviver com essas áreas. Isso será discutido no decorrer do capítulo.

Como foi dito, o VF é um portal na internet, mas como chegou a tal? Cristiane Ramalho, a primeira editora do portal VF, escreveu um livro sobre o Projeto e seu relato ajuda a entender um pouco do que provocou a criação da iniciativa. Ramalho (2007) diz que o Viva Favela foi (Faferj) para integrar a passeata – que levaria a favela em peso para a rua. Em troca do apoio, impuseram uma condição: o Viva Rio teria de ajudar a mudar a imagem da favela na mídia (RAMALHO, 2007, p. 47).

Para pensar em como responder ao compromisso firmado com a Faferj, Ramalho (2007) conta que Rubem César reuniu três figuras concorrentes do jornalismo carioca que, aparentemente, nunca sentaria juntas: Walter Mattos (jornal O Dia), João Roberto Marinho (O Globo) e Kiko Brito (Jornal do Brasil). Os três se comprometeram em ajudar na empreitada, isto é, tentar mudar a imagem da favela na sociedade. Inicialmente, cada um desses três jornais criou uma coluna para mostrar as “coisas boas da favela”, mas pouco tempo depois julgaram que não era suficiente. Logo após, pensaram em criar uma agência de notícias, mas que nem começou a ser implementada, pois seria muito dispendiosa. Foi então que surgiu a ideia de criar um portal na internet94, pois o custo seria bem menor.

O Viva Rio é uma ONG que tem boas relações com empresários, muitos dos quais fazem parte do conselho da organização, como o João Roberto Marinho, por exemplo. Essa

92 Organização não governamental que existe desde 1993 no Rio de Janeiro e atua na pesquisa e formulação de políticas públicas com o objetivo de promover a cultura de paz e o desenvolvimento social. Mais informações em: <http://www.vivario.org.br/>. Acesso em 21 nov. 2011.

93 Geralmente, “cultura da periferia” faz referência à música, dança, filme, ou qualquer outra forma de expressão, produzida nas favelas e/ou em áreas com características parecidas pelo Brasil. Pode-se encontrar exemplos da valorização disso em programas da TV Globo, que mostram, em uma perspectiva positiva, o que acontece e é produzido nas favelas, como o Programa semanal “Caldeirão do Huck” e o programa “Esquenta!”.

94 O papel da internet nesse contexto é fundamental. Por isso, essas questões serão aprofundadas no próximo item.

aproximação facilitou os diálogos e contribuiu para a criação do VF. Apesar disso, o Viva Rio nunca se posicionou de “nenhum lado” (RAMALHO, 2007).

Uma proximidade como essa não é comum, especialmente porque os interessados em mudar a imagem da favela na mídia buscam o auxílio de quem contribui para a construção das visões negativas e para reforçar os estereótipos. Por outro lado, o Viva Rio tinha um objetivo e buscou quem poderia colaborar, mesmo sendo aqueles que, talvez, estivessem do “outro lado”. Analisando por essa perspectiva, fica próximo do que foi observado em outras iniciativas, como na ComCausa, que procura e acha positivo aparecer nas mídias comerciais.

Mas no caso do VF a contribuição foi bem maior.

A família Marinho (proprietária das Organizações Globo) deu um milhão e meio de reais para a criação e manutenção do portal durante um ano (RAMALHO, 2007). O financiamento saiu do site Globo.com, que tinha sido criado recentemente, e o compromisso era que o Viva Rio colocasse o portal no ar em seis meses e, posteriormente, captasse recursos para sustentá-lo. Assim, “as organizações Globo acabaram viabilizando o desenvolvimento e a manutenção inicial do Viva Favela” (RAMALHO, 2007, p. 48). A participação das organizações Globo foi apenas neste momento e restringiu-se a doação de recursos, além disso, a independência editorial não foi influenciada por esse apoio (RAMALHO, 2007).

Para coordenar a implantação do VF, Rubem César convidou o jornalista Xico Vargas, que atua desde a década de 1970 em diversas empresas de mídia, como TV Globo, jornal O Dia, Jornal do Brasil, entre outros.

Com recursos financeiros e alguém para coordenar a criação, faltava pensar como resolver uma questão importante: de que forma colocar os próprios moradores da favela para produzir as matérias? Essa preocupação sempre esteve presente no Projeto, era preciso falar da favela a partir do ponto de vista dos moradores, e só com eles produzindo os conteúdos era possível alcançar isso (RAMALHO, 2007).

A solução encontrada foi criar o que chamaram de “correspondentes comunitários”.

Aqui é importante “abrir um parêntese” e comentar a ideia de “comunidade”, termo bastante recorrente na fala das pessoas, inclusive das iniciativas apresentadas no capítulo anterior.

Nota-se o discurso sobre comunidade como a busca por um lugar de referência, de vínculos, próximo da “procura de algo bom”, uma das características da noção de comunidade para Bauman (2003).

Voltando à questão dos correspondentes comunitários. Ramalho (2007) diz que a seleção deles foi uma etapa complexa porque ainda não estava claro o que seriam. Quando o Viva Rio abriu a seleção, apareceram pessoas com idades, experiências e expectativas

profissionais distintas. A seleção possuía duas etapas: uma redação que o candidato deveria escrever sobre a localidade onde residia e uma posterior entrevista. O fato de ter experiência em comunicação somava pontos ao candidato, porém o critério mais importante na seleção foi a sensibilidade que demonstravam em perceber e revelar o local onde moram (RAMALHO, 2007).

Ramalho (2007) conta que ao final do processo foram selecionadas quinze pessoas com idades entre 18 e 47 anos. Dez seriam os correspondentes de texto e cinco de fotografia.

Após a seleção, todos passaram por uma semana de capacitação, na qual estudaram como escrever, apurar notícias, usar o computador e a internet. Além dos correspondentes, a equipe do Viva Favela era composta pelos editores do portal, jornalistas profissionais que discutiam as pautas e, além de editar, colaboravam na elaboração dos textos. O número dos editores variou com o tempo, em alguns momentos, chegaram a ser cerca de dez profissionais (RAMALHO, 2007).

Walter Mesquita (2011), que entrou no VF em 2001 como correspondente de fotografia e atualmente é editor de imagem do Projeto, lembra que os correspondentes tinham dificuldade na redação dos textos, alguns entregavam cerca de vinte páginas escritas a mão95 para os editores organizarem. Para facilitar a compreensão das matérias e dar a elas um “trato jornalístico”, os editores mudavam muito, o que acabou gerando discussões sobre a autoria do texto, já que tanto o correspondente quanto o editor trabalhavam nele. Essa questão foi resolvida quando ambos passaram a assinar as matérias.

Embora o trabalho como correspondente agradasse a todos, demoraram um pouco até confiarem no Projeto. Walter Mesquita (2011) conta que os correspondentes tinham “o pé atrás” com o Viva Rio e dúvidas sobre o objetivo real do VF. Uma das possibilidades que levantavam era que “talvez quisessem informações sobre o tráfico”, lembra Mesquita (2011).

Além de o próprio Viva Rio ser considerado “elitista” por alguns, conforme foi apontado anteriormente, no início dos anos 2000 era rara a relação “favela e asfalto”, ainda mais trabalhando juntos em um Projeto no qual os moradores de favela têm o mesmo direito que as pessoas da “elite” carioca, lembra Mesquita (2011).

A desconfiança foi sanada quando, após diversos desentendimentos com uma das editoras do portal, os correspondentes se reuniram e pediram o afastamento dela. A esse pedido, Rubem César Fernandes disse que “sem correspondentes não há Viva Favela”, e estes não só tinham a mesma importância que os jornalistas como eram o aspecto mais importante.

95 Nenhum dos correspondentes tinha computador em casa e a maioria não possuía familiaridade com a máquina, conta Walter Mesquita (2011).

Como resultado desse episódio, conta Walter Mesquita (2011), a editora da qual reclamaram saiu e os correspondentes passaram a confiar no Projeto.

3.1.1 A rotina

Nas tardes de segunda-feira aconteciam as reuniões de pauta e os correspondentes tinham o restante da semana para produzir. Além das matérias e fotografias, quase todos os correspondentes tinham outras ocupações, pois a bolsa que recebiam pelo trabalho no VF não era suficiente para se manter, lembra Walter Mesquita (2011). As relações de trabalho no âmbito dessas iniciativas serão discutidas no próximo capítulo.

Em abril de 2001, os correspondentes foram a campo pela primeira vez. As “belezas”

da favela eram as pautas preferidas. Inclusive uma questão muito discutida nas reuniões de pauta, segundo Ramalho (2007), foi a preocupação do portal virar uma espécie de “Caras da favela”. Não só o interesse em mostrar o que de bom existia na favela, então uma novidade, mas especialmente o medo em discutir questões que pudessem os prejudicar fazia com que os correspondentes não desejassem abordar determinadas pautas. A questão da violência era a mais evitada, pois podia gerar conflitos com os traficantes. Os correspondentes também não podiam expor os moradores. Ao contrário dos repórteres das empresas de mídia, que, em geral, não possuíam relação com os entrevistados moradores de favela, os correspondentes eram amigos ou conhecidos de quase todas as suas fontes, com quem precisavam conviver.

Outra preocupação dos correspondentes era serem chamados de “jornalistas”. Não pela ausência de um diploma, na época ainda exigido, mas ser jornalista e atuar na favela era sinônimo de perigo, especialmente a partir de 2002, quando o jornalista Tim Lopes foi assassinado enquanto fazia uma matéria sobre o baile funk em um conjunto de favelas do Rio de Janeiro conhecido como Complexo do Alemão.

Um aspecto importante a ser lembrado é a independência editorial do Viva Favela em relação ao Viva Rio. De acordo com os correspondentes e editores, eles sempre tiveram independência e liberdade para tratar dos temas que julgassem pertinentes e como achassem melhor. Um exemplo que ilustra isso, a partir de Ramalho (2007), foi a publicação da matéria

“Corra, o Caveirão vem aí”, de outubro de 2005. A reportagem foi escrita a partir de diversas denúncias de prejuízos morais e materiais causados pela ação do carro blindado, conhecido como “Caveirão”, usado pelas polícias civil e militar do Rio de Janeiro em incursões nas favelas. As denúncias de moradores somavam-se a indignação dos correspondentes que

presenciavam cenas de violência e desrespeito (RAMALHO, 2007). A matéria poderia gerar conflito com o Viva Rio, pois

batia de frente com a política de segurança pública do Governo Estadual, o que destoava da linha de atuação da área de direitos humanos e segurança pública do Viva Rio, que mantinha parcerias com o governo do estado para a capacitação de policiais. (RAMALHO, 2007, p. 201).

Rubem César só viu o texto quando já tinha sido publicado no portal, mas não fez nenhum “reparo”, ainda que soubesse da repercussão (RAMALHO, 2007). Poucas semanas após a publicação, a matéria foi manchete em jornais impressos e repercutiu nas rádios Tupi, CBN, Globo e Rede TV, gerando mensagens de apoio e agradecimento, além das explicações da polícia. Esse fato parece mostrar uma “prática de liberdade”96 que se aproxima do que é entendido pela ComCausa e o Observatório Notícias & Análises, conforme apresentado no capítulo anterior.

A repercussão dessa matéria sobre o “Caveirão” também é um pequeno exemplo de como o Viva Favela pautava a mídia comercial. O outro olhar sobre a favela que o portal apresentava e a credibilidade obtida com o tempo, aliados ao fato de que várias empresas de mídia proibiram seus jornalistas de “subir o morro” para cobrir algum assunto, devido à morte de Tim Lopes, fazia do VF não só a principal fonte, mas em alguns casos única (RAMALHO, 2007). Folha de São Paulo, TV Globo, Canal Futura, Jornal do Brasil, O Dia, além da imprensa internacional, elogiavam o trabalho do portal, reproduziam suas matérias e desenvolviam pautas apontadas (RAMALHO, 2007). Diante disso, e de acordo com o que é possível perceber desde sua constituição, o VF sempre teve boa relação com os meios de comunicação comerciais.

3.1.2 A crise de 2005

Até 2005, o Viva Favela continuou assim: quinze correspondentes, encontrando-se às segundas-feiras em reuniões de pauta com os editores, tendo o restante da semana para produzir as matérias e fotografias, que eram publicadas no portal.

O VF era um projeto dispendioso. Manter o salário da equipe, que em alguns momentos chegou a ter quase 30 pessoas não era fácil (RAMALHO, 2007). Assim, apesar do trabalho reconhecido e com os frutos que estava gerando, em 2005 o VF passou por uma séria crise de financiamento, anunciada em meio a choros dos editores e correspondentes: o Viva Rio não tinha mais como bancar o Projeto (RAMALHO, 2007). A partir desse ano, alguns

96 “Prática de liberdade” é uma ideia de Michel Foucault que será tratada no próximo capítulo.

correspondentes saíram e outros continuaram produzindo as matérias e fotos, voluntariamente, para o Projeto com o qual já tinham um envolvimento afetivo, devido a visibilidade do trabalho e o desenvolvimento pessoal que alcançaram com ele, conta Walter Mesquita (2011), um dos que continuou como voluntário. Pouco tempo depois, o Projeto conseguiu financiamento da Petrobrás e do movimento estudantil norueguês, entre outros, que eram suficientes para não acabar com o VF, mas não mantinham a estrutura de antes.

Assim, entre 2005 e 2010, o VF continuou produzindo, mas em menor escala. Até que perto de completar dez anos, com a ampliação do uso da internet, inclusive nas favelas, surgiu a ideia de criar o Viva Favela 2.0, que diminuiria os custos e estaria em consonância com o momento atual. Além disso, os correspondentes poderiam ser de qualquer lugar, não somente do Rio de Janeiro. Mas antes de aprofundar isso, é importante lembrar a relação do VF com as tecnologias digitais e a internet.

3.1.3 Sobre o uso da internet

A decisão de criar um portal na internet foi motivada por ser uma forma de comunicação em expansão no momento e mais barata. Embora a partir de 1995 a internet comercial tenha ganhado “corpo” no Brasil, no início dos anos 2000 ainda era incipiente. As lan houses, por exemplo, estavam começando, principalmente nas favelas. Entre os correspondentes, no início nenhum tinha computador em casa e a maioria não possuía familiaridade com a máquina, diz Walter Mesquita (2011). Com o tempo, algumas tentativas de amenizar essas dificuldades foram tomadas, como o financiamento, pelo Viva Rio, da compra de computadores para os correspondentes interessados.

Uma questão que incomodava os correspondentes e precisava ser resolvida, segundo Mesquita (2011), era como fazer com que os moradores das favelas, isto é, os personagens das matérias e fotos, tivessem acesso aos conteúdos. Na tentativa de sanar esse problema, organizaram exposições fotográficas e, às vezes, alguns correspondentes imprimiam e colavam as matérias em lugares de grande circulação das favelas. Apesar disso, Walter Mesquita (2011) diz que os correspondentes sentiam necessidade de buscar formas para que os moradores pudessem acessar a internet.

Foi com essa motivação que o Viva Rio criou as Estações do Futuro, uma espécie de telecentro, ainda no início dos anos 2000. Era um lugar com banda larga, cursos de computação e outros cursos profissionalizantes a preços módicos, que além de permitir o

acesso à internet, também funcionava como uma forma de investir em jovens em situação de risco social e auxiliar na sua inserção no mercado de trabalho (RAMALHO, 2007).

As Estações do Futuro foram instaladas em áreas de grande densidade demográfica, com acesso não muito difícil e parceiros que pudessem colaborar para fazer funcionar o Projeto (RAMALHO, 2007). A primeira Estação criada foi a da Rocinha97, em abril de 2001.

Ao todo, foram construídas dez, em diversas favelas cariocas (RAMALHO, 2007).

Para construir as Estações do Futuro era necessário levar acesso à internet a áreas nas quais até os telefones eram escassos. Aqui entra um ator importante nesse processo: um banqueiro. Ele estava interessado em trazer acesso sem fio à internet para o Rio de Janeiro e fez um acordo com o Viva Rio: ao invés de gastar com publicidade para seu empreendimento, destinaria esses recursos para colocar internet em dezesseis favelas cariocas (RAMALHO, 2007).

A aposta do empresário era que ao fazer esse investimento muitas reportagens seriam feitas sobre a iniciativa (seria como publicidade gratuita) e assim poderia fazer as pessoas entenderem que “se tem na favela, pode ter em qualquer lugar”. E deu certo. Veículos de mídia do mundo inteiro publicaram notícias sobre o que chamavam de “melhor projeto da tecnologia sem fio no mundo” (RAMALHO, 2007). Apesar do sucesso inicial dessa empreitada, não foi possível concluir a instalação conforme o planejado. O dólar aumentou muito e como todos os equipamentos utilizados eram importados, os custos elevaram e não foi possível continuar.

Não só a internet era incipiente, mas também as tecnologias digitais como um todo. As câmeras fotográficas digitais, por exemplo, eram comercializadas com valor alto, por isso, no início, a equipe do VF só possuía uma câmera digital, que os correspondentes nem gostavam de utilizar porque tinha um problema no foco: o equipamento não captava o ângulo para o qual estava apontado, fizeram até um mapa para auxiliar na utilização da câmera, conta Walter Mesquita (2011). Com isso, a maioria dos fotógrafos do portal ainda utilizava máquinas analógicas no começo, tendo alto gasto com filmes e revelações das fotos.

Xico Vargas, o jornalista responsável pela implantação do VF, lembra que o acesso dos moradores dessas áreas à internet significou um passo na tentativa de garantir o direito à comunicação a pessoas que nem telefones tinham (informação verbal)98. Para o jornalista, o

97 Localizada na zona sul da cidade do Rio de Janeiro, é uma das maiores favelas da cidade.

98 Fala proferida durante o evento em comemoração aos 10 anos do Viva Favela, que ocorreu de 18 a 22 de julho de 2011 na cidade do Rio de Janeiro. Mais informações em: <http://vivafavela.com.br/materias/i-encontro-nacional-de-correspondentes-comunit%C3%A1rios-viva-favela-programa%C3%A7%C3%A3o>. Acesso dia 20 nov. 2011.

acesso ao computador, nesse contexto, não tinha um fim em si, era um meio para produzir outros sentidos.

Com essa breve trajetória do VF, é possível observar como atores aparentemente sem relação, ou contrários, tiveram papéis importantes na criação de uma iniciativa de ação política no campo midiático. É o caso das lideranças de favelas cariocas e de empresários, tanto de mídia quanto um banqueiro. Percebe-se também como o VF surge desde o início como uma forma de ação predominantemente “afirmativa”, busca produzir e mostrar aspectos do que existe a partir da ótica de moradores de favelas.

Assim, a relação do VF com a tecnologia, como também é recorrente nas iniciativas de outras configurações, não é motivada pela técnica em si, mas por uma necessidade de expressar algo, no caso o desejo de “mudar a imagem negativa da favela na mídia”. Dessa forma, a relação do VF com as tecnologias (com a internet, a fotografia, o texto etc.) é, em parte, fruto de relações, dentre outras, com o subjetivo, o político e o econômico, ou seja, do desejo de afirmar outras visões sobre a favela e contrapor estereótipos, além de manter o Projeto e pagar as pessoas, por exemplo.

O cenário das favelas cariocas mudou muito nos últimos dez anos. Atualmente, o acesso à internet é facilitado pelas lan houses, o valor dos equipamentos digitais diminuiu, inúmeros Projetos oferecem capacitação profissional, mais jovens acessam universidades e o olhar da sociedade sobre a favela também tem mudado, para citar apenas alguns exemplos.

Assim, o VF partiu do pior momento das favelas, no que se refere ao acesso às tecnologias digitais, e uma década depois chegou ao “mundo 2.0”.