Faculdade de Comunicação Social
Ramon Bezerra Costa
Mídias Livres: um estudo sobre formas de ação política no campo midiático
Rio de Janeiro
2012
Mídias Livres: um estudo sobre formas de ação política no campo midiático
Dissertação apresentada como requisito parcial para obtenção do título de Mestre, ao Programa de Pós- graduação em Comunicação, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Área de concentração:
Comunicação Social.
Orientador: Prof. Dr. Fernando do Nascimento Gonçalves
Rio de Janeiro 2012
CATALOGAÇÃO NA FONTE UERJ/REDE SIRIUS/BIBLIOTECA CEH/A
Autorizo, apenas para fins acadêmicos e científicos, a reprodução total ou parcial desta dissertação.
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Assinatura Data
C837 Costa, Ramon Bezerra.
Mídias Livres: um estudo sobre formas de ação política no campo midiático / Ramon Bezerra Costa. – 2012.
149 f.
Orientador: Fernando do Nascimento Gonçalves.
Dissertação (Mestrado) – Universidade do
Estado do Rio de Janeiro. Faculdade de Comunicação Social.
1. Comunicação de massa – Aspectos sociais – Teses.
2. Comunicação e cultura – Teses. 3. Mídia alternativa – Teses.
4. Imprensa e política – Teses. 5. Favelas – Aspectos sociais – Teses.
I. Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Faculdade de Comunicação Social. II. Gonçalves, Fernando do Nascimento.
III. Título.
nt CDU 316.77
Mídias Livres: um estudo sobre formas de ação política no campo midiático
Dissertação apresentada como requisito parcial para obtenção do título de Mestre, ao Programa de Pós-graduação em Comunicação, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Área de concentração: Comunicação Social.
Aprovada em 29 de Março de 2012.
Banca Examinadora:
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Prof. Dr. Fernando do Nascimento Gonçalves (Orientador) Faculdade de Comunicação Social – UERJ
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Prof.ª Dra. Alessandra Aldé
Faculdade de Comunicação Social – UERJ
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Prof. Dr. Alexandre Almeida Barbalho Universidade Estadual do Ceará – UECE
Rio de Janeiro 2012
Aos que, com paciência e generosidade, buscam mudanças a partir da inclusão do seu desejo no desejo do mundo.
À minha família, em especial à minha mãe, Gorete, pelo eterno incentivo, dedicação, confiança, carinho, auxílio imensurável e primoroso apoio. E ao Henrique, pelo “empurrão”
oportuno e todo apoio e incentivo de sempre.
À Natália pela aceitação das mudanças, companheirismo e enorme incentivo.
Agradeço também o carinho, críticas, revisões, traduções e as “frases precisas nos momentos devidos”. Enfim, por me amar.
Aos amigos Celso, Luciano e Maycko pela cumplicidade.
A Chico pelo apoio e incentivo de sempre.
À Jane e Bruno pelo apoio e importante amizade.
A todos da IETB pelos momentos de aprendizado em todos os campos, em especial à Arlette, Neide, Ana Tereza, Marly, Ana Maria, Lisania, Sonia, Ana Lucia, Isaias, Júlio e Carlos.
Ao Programa Internacional de Bolsas de Pós-Graduação da Fundação Ford pelos 24 meses de bolsa e outros benefícios que permitiram a realização deste trabalho.
Ao meu orientador, Fernando Gonçalves, por aceitar meu projeto, acreditar em meu trabalho, me estimular, pelos exemplos de generosidade e paciência e tantas outras lições.
Aos professores do PPGC/UERJ pelos estímulos intelectuais, em especial à Alessandra Aldé, Erick Felinto, Vinicius Andrade Pereira, Ricardo Freitas e João Maia.
Aos amigos do PPGC/UERJ e do grupo de estudos pelos momentos de descontração e aprendizado. Em especial à Viviane, que com enorme generosidade me ensinou muito e ofereceu indispensável ajuda na pesquisa, à Bia, com quem aprendi muito e recebi grande incentivo e à Thalita, Paula e Daniela pelas conversas e estímulo.
Aos funcionários da Secretaria do PPGC/UERJ, em especial ao Celestino, pela paciência e auxílio.
Às pessoas que, gentilmente, contribuíram com a pesquisa de campo: Lourenço Cezar (O Cidadão); Adriano Dias (ComCausa); Luiza Cilente (Radiorevista Comunidade em Rede);
Vito Giannotti (Núcleo Piratininga de Comunicação); Vitor Castro (Observatório Notícias &
Análises); Victor Ribeiro (Agência Mídia Livre) e toda equipe do Projeto Viva Favela, em especial à Daniella Guedes, Walter Mesquita, Mayra Jucá, Renato Oliveira, Marciano Rodrigues, Mascote e Viviane Oliveira.
Os mais preocupados perguntam hoje: “Como se conserva o homem?”. Mas Zaratustra pergunta – e é o primeiro e único a fazê-lo: – “Como será o homem superado?”
O Super-homem é que me preocupa; para mim é ele o primeiro e único, e não o homem; não o próximo, o mais pobre, nem o mais aflito, nem o melhor.
Meus irmãos, o que eu posso amar no homem é ele ser uma transição e um fim. E em vós também há muitas coisas que me fazem amar e esperar.
Friedrich Nietzsche
COSTA, Ramon Bezerra. Mídias Livres: um estudo sobre formas de ação política no campo midiático. 2012. 149 f. Dissertação (Mestrado em Comunicação) - Faculdade de Comunicação Social, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2012.
Esta pesquisa tem como tema as chamadas “mídias livres”, que se inserem no contexto das lutas pela democratização da mídia e na defesa da comunicação como direito humano fundamental de uma sociedade democrática. Ao longo da história dessas formas de ação política, pode-se observar uma relação entre as diversas mudanças sócio-políticas, tecnológicas e essas práticas. Diante disso, o objetivo da pesquisa é refletir sobre as atuais formas de ação política no campo midiático a partir do estudo dessas práticas intituladas
“livres”. Como questões importantes para a pesquisa, pergunta-se sobre os sentidos que o termo liberdade assume nessas práticas e o papel que as tecnologias de comunicação podem ter nas mudanças das formas de ação política na atualidade, que parecem problematizar noções como direito à comunicação e resistência. Para tanto, a pesquisa analisa algumas iniciativas que ganharam o Prêmio Pontos de Mídia Livre do Ministério da Cultura, em especial o Projeto Viva Favela. Como estratégias metodológicas, a pesquisa empírica apoiou- se na análise de produções de algumas das chamadas mídias livres, em trabalho de campo e entrevistas.
Palavras-chave: Comunicação. Mídias livres. Tecnologia. Liberdade.
The research has as its theme the so-called “mídias livres” that fit into the context of struggles for democratization of the media and in defense of communication as a fundamental human right of a democratic society. Throughout the history of these forms of political action, we can observe a relationship between the various socio-political, technological changes and these practices. Therefore, the objective of the research is to reflect on the current forms of political action in the media field from the study of these practices entitled “livres”. As important questions to the research, wonders about the meanings that the word “liberdade”
acquires in these practices and the role that those communication technologies may have on changes of the forms of political action nowadays, that it seem to problematize notions such as right to communication and resistance. So, the research analyzes some initiatives that have won the “Prêmio Pontos de Mídia Livre” of “Ministério da Cultura”, in particular the Project
“Viva Favela”. As methodological strategies, the empirical research has relied on the analysis of productions of some of the so-called “mídias livres”, fieldwork and interviews.
Keywords: Communication. “Mídias livres”. Technology. Freedom.
INTRODUÇÃO... 11
1 PRÁTICAS E QUESTÕES NAS FORMAS DE AÇÃO POLÍTICA NO CAMPO MIDIÁTICO... 18
1.1 Configurações das formas de ação política no campo midiático... 20
1.1.1 A configuração “alternativa”... 23
1.1.2 A configuração “tática”... 29
1.1.2.1 Mídia tática no Brasil... 35
1.2 Entre as questões... 38
2 SOBRE AS MÍDIAS LIVRES... 42
2.1 Os primeiros passos do “movimento midialivrista”... 42
2.1.1 Fóruns de Mídia Livre... 44
2.1.2 Prêmio Pontos de Mídia Livre... 51
2.2 Por que mídia livre?... 54
2.3 Mídias livres por quem faz... 60
2.3.1 A “comunicação como instrumento de exigibilidade”... 61
2.3.2 “A mídia tem que possibilitar uma mente livre”... 64
2.3.3 A “comunicação de interesse público”... 68
2.3.4 A mídia “contra o sistema”... 70
2.3.5 Radiorevista “Comunidade em Rede”... 73
2.3.6 A “tríade das mídias livres”... 74
2.3.7 “Tudo junto e misturado”... 77
3 O PROJETO VIVA FAVELA... 80
3.1 As origens do Viva Favela... 80
3.1.1 A rotina... 84
3.1.2 A crise de 2005... 85
3.1.3 Sobre o uso da internet... 86
3.2 Viva Favela 2.0... 88
3.2.1 Os conteúdos e as revistas multimídia do Viva Favela... 90
3.3 O Viva Favela pelos correspondentes... 99
3.3.1 Sobre a relação com as mídias livres... 102
4 AMPLIANDO AS QUESTÕES SOBRE AS MÍDIAS LIVRES... 107
4.3 E a liberdade?... 124
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS... 134
REFERÊNCIAS... 138
APÊNDICE A... 146
APÊNDICE B... 147
APÊNDICE C... 149
INTRODUÇÃO
A utilização das mídias como estratégia de divulgação ou confronto de ideias em uma perspectiva crítica à determinada forma de ordem social é, possivelmente, tão antiga quanto esses meios. Há diversos exemplos disso no famoso trabalho de John D. H. Downing, Mídia Radical (DOWNING, 2002). A “guerra do panfleto”, liderada por Martinho Lutero no início da década de 1520 na Alemanha, durante a Reforma Protestante, é exemplo disso. Lutero chegou a dizer que “a imprensa foi o maior e mais recente dom de Deus”, apesar de questionar o aumento crescente de publicações, que segundo ele “serviam mais para desencaminhar do que para esclarecer o público” (DOWNING, 2002, p. 200). Além da própria Bíblia em língua vernácula, foram impressos textos que condenavam as ideias dos teólogos católicos de então. Esse movimento, comandado por Lutero, foi significativo na ruptura da autoridade política e religiosa da época e desencadeou as origens do que Downing (2002) chama de “imprensa herética”. As sanções a essaprática de comunicação, não só aos que produziam, mas também aos livreiros e vendedores que distribuíam eram severas, iam desde a queima do material até a morte (DOWNING, 2002).
Cerca de dois séculos depois, em 1789, as publicações impressas também desempenharam papel importante na Revolução Francesa. Nesta, além dos textos que traziam opiniões e descontentamentos, havia anedotas e amplo uso de pornografia. Em uma cultura extremamente falocrática, acusar a realeza de impotência sexual ou de possuir um falo minúsculo era uma profunda forma de contestação e crítica política (DOWNING, 2002).
Downing também lembra a xilogravura, o romance e a história em quadrinhos, que do mesmo modo tiveram seu papel em divulgar, questionar e confrontar as ideias predominantes nesse período.
Considerando que os conflitos e as diferenças fazem parte da experiência social, observa-se sempre o desejo de criticar, divulgar e/ou questionar, que acompanhou o aprimoramento técnico dos meios, do impresso ao digital, e não se sabe até onde vai. Os exemplos observados a partir de Downing (2002) ilustram um pouco disso.
É curioso como determinadas situações se repetem. Por exemplo, o entusiasmo de Lutero ao considerar a imprensa como um “recente dom de Deus” se aproxima do que se observou diante das possibilidades da digitalização e da internet, que ativam o imaginário, dentre outros, de liberdade e aprimoramento da democracia devido à ampliação do acesso à informação, à participação em debates públicos e a circulação de diversas mensagens.
Ao longo da trajetória dessas práticas críticas de comunicação, diversas terminologias foram usadas por pesquisadores ou pelas próprias pessoas que as desenvolviam na tentativa de explicar ou categorizar o fenômeno. Mídia alternativa, tática, comunicação popular, comunitária e ativismo de mídia são alguns desses termos. Essas diversas expressões têm relação com as inúmeras mudanças de caráter tecnológico, político, econômico e cultural pelas quais essas práticas passaram. Além dessas mudanças, também há outras no que diz respeito às demandas que orientam as ações, como a busca pela liberdade de expressão, a divulgação de pontos de vista e abordagens pouco usuais nos meios comerciais, a garantia do direito à comunicação, entre outras. Nesse sentido, as nomenclaturas dessas práticas críticas se relacionam diretamente com cada momento histórico e com os objetivos dessas lutas.
É no interesse de entender tais mudanças e o que elas implicam que se insere a presente pesquisa. A investigação parte do questionamento acerca de uma nova nomenclatura relativa às “formas de ação política no campo midiático” 1: as “mídias livres”. As mídias livres se caracterizariam, em princípio, menos por serem práticas contestatórias e de enfrentamento e mais por ações propositivas, que nem por isso deixam de ter uma intenção crítica e uma função política. Mas que intenção e função seriam essas? O que indicariam? Por que mídia livre e não alternativa, popular, comunitária ou tática, uma vez que essas terminologias já existem? Em que medida as mídias livres diferem das demais? Como a liberdade aparece nessas práticas? Qual o papel das tecnologias de mídia nessas iniciativas?
Enfim, em que medida as chamadas mídias livres implicariam, efetivamente, em mudanças nas “formas de ação política no campo midiático” e podem contribuir para o pensamento sobre esse tema?
Esta pesquisa surgiu do desejo de discutir essas questões, tendo como objetivo principal refletir sobre o estatuto das atuais “formas de ação política no campo midiático”, a partir do estudo das chamadas mídias livres. Especificamente, pretende-se refletir sobre dois aspectos: a questão da liberdade – de que forma ela aparece nas mídias livres e o que compreender a partir disso – e segundo, que relação as tecnologias de comunicação teriam com as mudanças dessas formas de ação política.
Ao pensar a questão da liberdade, não se pretendeu fazer uma vasta análise desta noção nas iniciativas ao longo do tempo, o que exigiria uma revisão bibliográfica específica.
A intenção principal foi observar o que é considerado como liberdade no âmbito dessas práticas de comunicação e como pensar as iniciativas a partir disso. No que se refere às
1 Quando se fala aqui em “ação política no campo midiático” é no intuito de não categorizar a priori o fenômeno estudado, conforme será melhor esclarecido no início do primeiro capítulo.
tecnologias de comunicação, serão pensadas em suas diversas relações culturais, econômicas e políticas, levando em consideração o papel que assumem nesse contexto de mudanças das formas de ação política no campo midiático.
Sobre a pertinência de uma pesquisa com essa temática para a área da comunicação, enfatiza-se duas contribuições. A primeira é o esforço de compreender um fenômeno de ação política recente no campo midiático, o que pode auxiliar com o desenvolvimento de pesquisas posteriores. A segunda é a relevância social de uma pesquisa que pode contribuir com reflexões sobre formas de ação social que buscam colaborar na garantia de direitos humanos e no aperfeiçoamento da experiência democrática.
As mídias livres inserem-se no contexto da já conhecida luta pela democratização da mídia, que tem como base o reconhecimento da comunicação como direito humano fundamental2 de uma sociedade democrática. Em geral, são iniciativas que expressam anseios e potencialidades de grupos da sociedade historicamente à margem ou que eram apenas objeto de discursos da mídia.
A trajetória das mídias livres, segundo o que foi considerando na pesquisa, tem início em 2008. Neste ano aconteceu o primeiro Fórum de Mídia Livre e é lançado o Manifesto de Mídia Livre. Nos anos seguintes, o Fórum ganha outras edições, inclusive uma mundial, e o Ministério da Cultura lança o Prêmio Pontos de Mídia Livre. Após esses fatos, diversas pessoas ou grupos passam a se identificar como “midialivristas”, aqueles que fazem ou atuam em mídias livres.
Em 2011, o termo “mídia livre” estava presente no título de um dos eixos temáticos do V Encontro Nacional da Associação Brasileira de Pesquisadores em Cibercultura (ABCiber)3. Talvez isso seja um indício da importância que a dimensão tecnológica tem para as mídias livres, porque esse poderia ser o nome de um eixo em outro encontro de pesquisadores, mas por que logo nesse? Durante um dos dias de apresentação surgiu o questionamento: “mas o que é mídia livre?”.
Assim como nesse Encontro, atualmente esse termo tem sido usado para dar nome a determinadas iniciativas, eventos e relações no campo do direito à comunicação, de modo que ao falar em “mídia livre” o interlocutor reconheça do que se está tratando. Porém, se mídia
2 O direito à comunicação é um conceito que ganhou força no início dos anos 2000, embora seja debatido, pelo menos, desde o final da década de 1960. Ele está relacionado não somente a defesa da liberdade para se expressar, mas também a garantia dos meios para isso. No momento em que o Estado reconhece a comunicação como um direito é obrigado a efetivá-lo através de políticas públicas, que garantam as condições materiais para a expressão. Sobre esse conceito: Unesco (1983); Melo e Sathler (2005); Costa (2007) e Intervozes (2005).
3 O título do eixo era “Jornalismo, Mídia Livre e Arquitetura da Informação”. Mais informações sobre a Associação e o evento em: <http://www.abciber.org/>e <http://simposio2011.abciber.org/>. Acesso em: 06 jan.
2012.
livre aparece como uma maneira de reconhecer e explicar práticas de comunicação, na verdade é ela que precisa ser explicada. Não apenas porque o termo tenha diferentes significações para aqueles que a praticam, mas especialmente porque remete a uma dinâmica de pessoas e coisas, que está sempre mudando. Por isso, é preciso dar conta de tal movimento e buscar observar e analisar as práticas por trás dos conceitos e categorias que poderiam engessá-las de antemão.
Nesse sentido foi que se buscou inspiração na Teoria Ator-Rede (TAR) de Bruno Latour (2008). Embora utilize o nome de teoria, a TAR aproxima-se mais de uma proposta metodológica e propõe compreender os fenômenos em permanente processo de mudança, pois o que caracterizaria o objeto de uma pesquisa é o processo de interação entre os discursos, pessoas e objetos que o permite existir. Nesse sentido, Latour (2008) sugere que o trabalho do pesquisador deve, prioritariamente, rastrear as conexões que compõem o objeto e descrevê- las, focando nos momentos de “mediação”4, isto é, quando as interações entre os “atores humanos e não-humanos”5 permitem perceber o fenômeno em processo de construção e mudança, antes que ele se estabilize e se torne aquilo que é dado a ver.
Apesar da inspiração, esta pesquisa não é um estudo de TAR. De todo aparato presente nessa teoria que poderia servir de orientação metodológica, privilegiou-se a importância de descrever os fenômenos e sua dinâmica. Com isso, busca-se evitar ao máximo encaixá-los em conceitos ou categorias pré-estabelecidas. Latour (2008) propõe investigar os fenômenos a partir de um “rastreamento de associações de elementos heterogêneos” ao invés de uma
“explicação social” baseada em contextos e/ou marcos referenciais pré-existentes. Nesse sentido foi que se buscou mais apresentar as iniciativas visitadas do que explicá-las, exatamente na tentativa de se aproximar desse rastreamento e não apenas compartilhar as interpretações e conclusões obtidas a partir da pesquisa.
É nessa perspectiva metodológica que será abordado o objeto de pesquisa. Ao descrever as práticas e ações presentes no fenômeno estudado, os discursos e noções de liberdade, as pessoas e as tecnologias que o configuram, pretende-se criar mapas de algumas das redes6 que compõem o fenômeno e que possam ajudar a atingir os objetivos da pesquisa.
4 Para Latour (2008), “mediação” diz respeito à mudança e pode ser entendida como um processo de articulação entre elementos e forças diversas que, ao serem conectados uns aos outros, são transformados por afetação recíproca. A ideia de mediação em Latour (2008) aproxima-se do seu conceito de “tradução”, que se pode entender como conexões que transportam transformações.
5 Latour (2008) considera ator tudo aquilo que produz ação, seja uma pessoa ou um objeto: “cualquier cosa que modifica con su incidencia un estado de cosas es un actor” (LATOUR, 2008, p. 106).
6 Rede é entendida aqui a partir de Latour (2008, p. 190): “Red es un concepto, no una cosa que existe allí afuera. Es una herramienta para ayudar a describir algo, no algo que se está describiendo”. Nesse sentido, as redes aparecem à medida que se descreve o fenômeno.
Sobre o objeto de pesquisa, sua delimitação exigiu atenção e cuidado. Sob o título de mídia livre existem iniciativas dos mais diversos formatos, plataformas, metodologias, entendimentos de sociedade e interesses sociais e políticos. Inicialmente, a proposta era analisar todos os Projetos que receberam o Prêmio Pontos de Mídia Livre (PPML) do Ministério da Cultura (Minc) localizados no Rio de Janeiro. Porém, eram mais de dez e seria preciso delimitar, escolher um número pequeno de iniciativas que tivessem várias ações e trabalhassem com plataformas variadas, de modo que o fazer das outras, de alguma forma, aparecesse ali.
Nessa perspectiva, o trabalho preliminar de campo teve início em setembro de 2010 e foi até abril de 2011. A estratégia inicial foi marcar visitas para conhecer algumas das iniciativas que ganharam o Prêmio Pontos de Mídia Livre no Rio de Janeiro de diferentes plataformas midiáticas. Mas o agendamento das entrevistas demandava muito tempo. Era preciso conciliar horários e contar com imprevistos. Por isso, até abril de 2011, foram visitadas sete mídias livres.
Uma das primeiras questões observadas foi a diversidade das iniciativas, não apenas na plataforma midiática principal utilizada (três trabalham com jornal impresso, uma com internet, uma com rádio e as outras duas com várias plataformas), mas principalmente em seus entendimentos de sociedade e dos processos políticos. Os objetivos são próximos, mas a forma como pensam em alcançá-los é distinta7.
Após visitar essas iniciativas, foi decidido debruçar-se sobre o Viva Favela, um Projeto da ONG Viva Rio, que existe, oficialmente, desde 2001 e consiste em um portal na internet. O principal motivo para a escolha foi a diversidade do Projeto, que apresenta várias ações presentes em outras iniciativas que se reconhecem como mídia livre. Outra motivação foi a existência dos chamados “correspondentes”, pessoas de diversas regiões do Brasil que podem se cadastrar no portal e postar fotos, vídeos, textos e áudios de qualquer tema relacionado a favelas, desde que respeitem a política editorial8. Segundo os coordenadores do Projeto, são os correspondentes que “fazem o Viva Favela acontecer”. Isso aumenta a diversidade de interesses e pontos de vista existentes na iniciativa, o que enriquece o objeto de análise. Além desses dois motivos, o fato do Viva Favela ser a mais antiga dentre as iniciativas visitadas e ter passado por muitas mudanças também contribuiu para a escolha.
Ao se definir somente o Viva Favela como objeto empírico principal, significa que ele foi observado com mais cuidado e tempo, aumentando as possibilidades de apreender a
7 No segundo capítulo as iniciativas serão apresentadas.
8 No terceiro capítulo, sobre o Viva Favela, essa e outras questões serão explicadas, discutidas e aprofundadas.
diversidade de questões existentes. Os dados coletados nas outras seis iniciativas visitadas também foram utilizados para pensar as mídias livres, pois aumentam o campo de observação.
As informações de todas as iniciativas foram usadas no segundo e no quarto capítulos.
Contudo, no terceiro capítulo, é analisado somente o Viva Favela.
Nas seis primeiras iniciativas visitadas no trabalho preliminar de campo foram realizadas entrevistas semi-abertas9. Além disso, algumas das produções dessas iniciativas foram posteriormente analisadas, tais como jornais, programas de rádio, textos, entre outras, mas sem um critério definido, tendo em vista que a maioria das iniciativas não possuía esse material sistematizado.
Já no Viva Favela, foram realizadas cinco visitas, a primeira em abril de 2011 e as demais entre maio e julho deste ano. Nestas, foram realizadas entrevistas semi-abertas com pessoas da equipe do Projeto10. O objetivo foi entender o funcionamento da iniciativa e sua dinâmica. Além das visitas e entrevistas, participou-se de uma “reunião virtual de pauta”11 e do primeiro Encontro Nacional de Correspondentes Comunitários do Viva Favela, atividade que aconteceu em julho de 2011 como parte das comemorações dos 10 anos do Projeto. Nesta oportunidade, foi possível conhecer alguns correspondentes de outros estados e aumentar a dinâmica da observação.
Entre outubro e dezembro de 2011, foram realizadas entrevistas com os correspondentes por meio de um questionário online12. A escolha dessa ferramenta foi motivada pelo fato de muitos correspondentes do Viva Favela estarem fora do Rio de Janeiro, o que inviabilizou entrevistas presenciais. Mais informações sobre isso no terceiro capítulo, quando os dados levantados são discutidos.
Além das entrevistas, era necessário também considerar os conteúdos do Viva Favela.
Para isso, foram analisadas as fotos, vídeos, textos e áudios presentes nas nove primeiras edições das Revistas Multimídia publicadas no portal entre maio de 2010 e novembro de 2011. O portal Viva Favela também foi acompanhado entre junho e novembro de 2011 diariamente, no intuito de observar os novos conteúdos que eram publicados e sua dinâmica.
9 O roteiro utilizado como base para as entrevistas está no Apêndice A.
10 O roteiro utilizado como base para as entrevistas é o mesmo das outras iniciativas (Apêndice A), sendo que foi usado apenas como direcionamento inicial, outras questões surgiam durante a conversa. Foram entrevistadas seis pessoas da equipe do Viva Favela: Daniella Guedes (editora do portal), Walter Mesquita (editor de imagem), Renato Oliveira (editor de vídeo e áudio), Marciano Rodrigues (designer gráfico), Mascote (estagiário) e Viviane Oliveira (estagiária).
11 Reunião que precede a edição das Revistas Multimídia do Projeto Viva Favela. Isso será apresentado no terceiro capítulo.
12 O questionário está no Apêndice B e a versão online utilizada com os correspondentes está disponível nesse endereço: <http://www.surveymonkey.com/s/J8WMGN7>.
É importante ressaltar que o trabalho ora apresentado origina-se de uma pesquisa de natureza qualitativa. E nesse sentido foram tratados todos os dados levantados, sejam das entrevistas, conteúdos, ou mesmo as observações do portal e do evento comemorativo aos 10 anos do Projeto.
Dessa forma, a estrutura da dissertação pode ser assim apresentada: o primeiro capítulo, “Práticas e questões nas formas de ação política no campo midiático”, apresenta, a partir de revisão bibliográfica, duas configurações ou lógicas de organização do que se está considerando como formas de ação política no campo midiático nos últimos 50 anos, com o intuito de mostrar como essas configurações se relacionam com o surgimento das mídias livres.
No segundo capítulo, “Sobre as mídias livres”, discute-se o surgimento desse fenômeno e as principais questões que o marcam. Em seguida, são apresentadas as iniciativas visitadas no intuito de observar a dinâmica de diferentes práticas consideradas mídias livres.
O terceiro capítulo, “O Projeto Viva Favela”, apresenta a trajetória e o funcionamento dessa iniciativa no intuito de analisar “como se constrói” uma mídia livre. Leva-se em consideração os interesses, as pessoas envolvidas, as tecnologias, o momento histórico, enfim, diversos elementos e atores que possam auxiliar na observação do fenômeno em questão.
O quarto e último capítulo, “Ampliando as questões sobre as mídias livres”, tem caráter mais analítico. Nele as questões observadas nas iniciativas são analisadas e relacionadas a conceitos e estudos de outros autores para ampliar e experimentar uma compreensão das mídias livres. É neste momento em que muitas questões “em aberto” e/ou levantadas ao longo dos capítulos anteriores são “amarradas”. Primeiramente, o foco das reflexões é o contexto de produção das mídias livres, no qual é discutida a relação do capitalismo com essas iniciativas. Em seguida, reflete-se sobre o foco dessas práticas de comunicação: o que buscam? E como buscam? E por fim, após observar, nos capítulos anteriores, como a liberdade é entendida e/ou aparece nas iniciativas, apresenta-se uma forma de “olhar para essa liberdade” e o que isso parece implicar.
1 PRÁTICAS E QUESTÕES NAS FORMAS DE AÇÃO POLÍTICA NO CAMPO MIDIÁTICO
Antes de tratar do chamado “movimento midialivrista” é importante observar o ambiente que o precedeu. Isso é necessário porque as mídias livres, como fenômeno contemporâneo, não existem isoladas, como se tivessem surgido em um momento singular no espaço e no tempo.
Comunicação popular, comunitária, mídia alternativa, tática e ativismo de mídia são alguns dos termos já utilizados para designar o que se está chamando, genericamente, de
“formas de ação política no campo midiático”. Cada uma dessas expressões possuem particularidades e diversos pesquisadores já se dedicaram ao trabalho de organizá-las, bem como suas características. Mas, na prática, há iniciativas que se identificam com várias dessas nomenclaturas ao mesmo tempo, utilizando essas expressões como sinônimas. Dentre as iniciativas visitadas em campo, reconhecidas pelo Ministério da Cultura e por si mesmas como mídia livre, algumas consideram sua ação, simultaneamente, como mídia alternativa e mídia tática, por exemplo.
Dessa forma, mais importante do que a nomenclatura e seu significado é o fenômeno ao qual se refere. Por isso não será utilizado nenhum dos termos mencionados anteriormente para “explicar” as mídias livres. Primeiro porque, na prática, algumas ideias expressas por aquelas nomenclaturas se “misturam” ou muitas vezes se repetem. Segundo porque, ao utilizá-las, é fácil perder a capacidade de estranhar o fenômeno. Por exemplo, ao analisar as mídias livres a partir do que se entende por mídia alternativa ou tática é muito possível deixar passar o que de singular podem apresentar, devido ao filtro ou categoria que se está utilizando. Além disso, cada uma daquelas expressões possui uma conotação do momento histórico em que surgiu, isso também se pretende evitar.
Nesse sentido, ao observar as “práticas críticas de comunicação”, a questão sempre foi, ou melhor, é a relação entre interesses e o uso de ferramentas para auxiliar no alcance dos objetivos a que tais práticas se propõem. Por isso, ao refletir sobre esses fenômenos, é importante observar o que os motiva, as configurações que os “organizam”, os tipos das tecnologias e os modos como são mobilizadas. Com isso, a proposta é pensar tais práticas como “redes sociotécnicas” ou “mediações” (LAW, 1992; LATOUR, 1994), isto é, um conjunto de relações entre pessoas e coisas no seio de uma rede heterogênea, na qual os tipos
e formas diferentes de interação entre esses atores13 produzem sentido e valor para a experiência social. É nesse sentido que as chamadas mídias livres foram abordadas e tenta-se apresentar diferentes configurações assumidas pelo que se está chamando de formas de ação política no campo midiático.
Como nessa perspectiva o mais importante é o fenômeno do que o conceito e seu significado, adotou-se a expressão “formas de ação política no campo midiático”14 por parecer menos conotada que os termos normalmente empregados para nomear essas práticas. A tentativa com isso é não tomar os fenômenos já dados e/ou apreendidos em conceitos antes mesmo de sua análise. Mas é importante esclarecer exatamente o que se está querendo dizer com essa expressão.
Quando se fala em “ação política”, refere-se, com inspiração nos trabalhos de Maria da Gloria Gohn (2003) e Alberto Melluci (2001), à ação de sujeitos, individual ou coletivamente, institucionalizados ou não, que se manifestam, independente da forma, com o intuito de expor demandas e/ou promover mudanças em algum aspecto da sociedade, notadamente relacionadas a alguma questão da garantia de direitos e equidade social. Fala-se em “campo midiático” para enfatizar a presença e importância da tecnologia para essas formas de ação. Sem o papel, o rádio, o computador, a internet, essas práticas poderiam existir? Sim, por meio da comunicação interpessoal, por exemplo, mas seria outra coisa e não do que se está tratando aqui. Dessa maneira, é possível considerar que essas formas de ação política no campo midiático são habitadas e organizadas por uma relação com a técnica, isto é, estão impregnadas de uma “tecnicidade”, tal como entende Gilbert Simondon (1983; 2007).
Contudo, para Simondon (1983; 2007), essa “tecnicidade” envolve, juntamente com a técnica, o elemento político, econômico, cultural, subjetivo15, entre outros, e à medida que um desses aspectos muda, altera-se o conjunto dessas relações e consequentemente das configurações
13 Latour (2008) considera ator tudo aquilo que produz ação, seja uma pessoa ou um objeto: “cualquier cosa que modifica con su incidencia un estado de cosas es un actor” (LATOUR, 2008, p. 106).
14 Inicialmente, pensou-se em utilizar a expressão “intervenções sociais midiáticas”, mas pareceu ser muito conotada e próxima das nomenclaturas normalmente empregadas para falar das práticas abordadas aqui. Outra opção foi utilizar “ativismo de mídia”, o que também não seria pertinente, pois é uma expressão que tem muita relação com as tecnologias digitais. Por isso, optou-se por “formas de ação política no campo midiático”, que embora não seja a ideal, foi o que se julgou ser amplo o suficiente para dar conta de tratar do fenômeno sem aprisioná-lo em uma nova categoria.
15 Ao falar em subjetividade aqui, e no decorrer do trabalho, esta é entendida, com Félix Guattari, como “o conjunto das condições que torna possível que instâncias individuais e/ou coletivas estejam em posição de emergir como território existencial auto-referencial (...)” (GUATTARI, 1992, p. 19). Assim, a ideia de subjetividade está relacionada a um processo que Guattari e Rolnik (1999) chamam de “produção social de subjetividade”, a partir do qual determinados conjuntos de referenciais e sistemas de representação, que orientam nossas percepções sobre a vida e ações no mundo são elaborados.
das práticas. Assim, a tecnologia é um elemento importante e deve ser considerado, mas nunca determinante, tendo em vista que funciona em relação a outros.
Portanto, a expressão “formas de ação política no campo midiático” é mais uma maneira de falar da interação entre pessoas e coisas que visam produzir algum tipo de mudança nas relações de produção midiática e subjetiva no campo social. Em um primeiro momento isso pode sugerir imprecisão, mas é na realidade uma tentativa de considerar a complexidade do fenômeno. Se, como considera Latour (1994; 2008), na esteira do pensamento de Tarde (2007), tudo que existe é diferença e, consequentemente, movimento e mudança, o social não existe enquanto instância ontológica própria. Ele é o resultado da relação entre elementos diversos: técnicos, econômicos, psicológicos, políticos, organizacionais, culturais. Então, o ambiente no qual essas formas de ação se dão é igualmente dinâmico e mutável.
Nessa perspectiva é que se questiona quais as mudanças de configuração nas formas de ação política no campo midiático; que papel a tecnologia parece assumir nesse processo e o que cada configuração implica em termos de produção subjetiva. Especificamente neste capítulo, a intenção é observar algumas configurações que essas formas de ação política encarnam e que correspondem a determinados tipos de questões política, tecnológica e subjetiva.
1.1 Configurações das formas de ação política no campo midiático
Inúmeros pesquisadores já se debruçaram sobre o que se pode chamar de uma história das formas de ação política no campo midiático. A partir de alguns deles, será apresentado agora uma trajetória dessas iniciativas no intuito de contextualizar o ambiente no qual emergem as mídias livres.
A história dessas formas de ação se inscreve em um contexto de lutas políticas, que passou por diversas mudanças. A esse respeito, Edgardo Castro (2009) lembra uma distinção que Michel Foucault faz dos tipos de luta:
Foucault distingue três tipos de luta: 1) contra as formas de dominação étnica, social ou religiosa, 2) contra as explorações que separam os indivíduos do que eles produzem, 3) contra as formas de sujeição que vinculam o sujeito consigo mesmo e, desse modo, asseguram sua sujeição aos outros (CASTRO, 2009, p. 288).
Foucault diz ainda que atualmente prevalecem as lutas contra as “formas de sujeição”, ainda que não tenham desaparecido as lutas contra a dominação e a exploração (CASTRO,
2009). Essas “formas de sujeição” são características do estágio atual do capitalismo16, que tende a descentrar as relações de poder17 das estruturas de produção de bens e de serviços para as produtoras de subjetividade (GUATTARI, 1990, p. 31). Nesse sentido, a sujeição da qual Foucault fala se dá por meio dos fluxos que “afetam nossas maneiras de ver e sentir, desejar e gozar, pensar e perceber, morar e vestir, em suma, de viver” (PELBART, 2009, p. 147).
Peter Pál Pelbart (2009) ilustra essas formas de sujeição quando afirma que o trabalho imaterial18, predominante no capitalismo contemporâneo, exige “a subjetividade de quem o produz, no limite até os seus sonhos e crises são postos para trabalhar” e “os fluxos que ele produz, de informação, de imagem, de serviços, afetam e formatam a subjetividade de quem o consome” (PELBART, 2009, p. 147).
Mas antes de chegar nesse estágio, o capitalismo e as formas de luta e resistência passaram por diversas transformações. Antonio Negri (2003) apresenta três períodos do desenvolvimento capitalista a partir de sua entrada na chamada “grande indústria”. O primeiro é o período da grande indústria ou “fase do operário profissional”, marcado pela figura do operário, que é força de trabalho anexada ao ciclo produtivo. Essa fase é caracterizada também por uma afirmação cada vez mais ampla da produção em massa, do subconsumo proletário e da expansão imperialista. “Subsalário e superprodução são aqui faces de uma mesma moeda” (NEGRI, 2003, p. 62). No que se refere aos movimentos de resistência, eles se dão
com base em uma organização dual (de massa e de vanguarda, sindical e partidária) e em um programa que prevê a gestão operária da produção industrial e da organização social, de acordo com o projeto de emancipação socialista das massas (NEGRI, 2003, p. 62).
No segundo período, há uma nova composição técnica do proletariado, que se torna uma força “abstrata”, pois é abstraído de “qualquer qualidade concreta e anexado, como tal, ao processo industrial, nas formas do taylorismo” (NEGRI, 2003, p. 64). É nesta fase que se constitui o fordismo, “uma prática capitalista do salário como antecipação adequada à aquisição e ao consumo dos bens produzidos pela indústria de massa” (NEGRI, 2003, p. 64).
Sobre a composição política do proletariado, continuam as experiências das organizações operárias socialistas. As palavras de ordem são: “recusa ao trabalho, igualdade sindical,
16 Alguns pesquisadores apontam que vivemos na era do “Capitalismo Cognitivo” (NEGRI, 2003; HARDT;
NEGRI, 2005; LAZZARATO, 2006), que se aproxima muito do que Félix Guattari (1990) chamou de
“Capitalismo Mundial Integrado (CMI)”. Essa questão será aprofundada no quarto capítulo.
17 A partir do pensamento de Foucault (1984), entende-se que as relações de poder têm vasta extensão nas relações humanas. Podem ser exercidas entre indivíduos, no âmbito da família, nas relações pedagógicas, no corpo político etc.
18 Essa questão será aprofundada no quarto capítulo.
recusa a qualquer figura de delegação e reapropriação do poder, em formas de massa e base”
(NEGRI, 2003, p. 65).
O terceiro período é caracterizado por um processo de automação das fábricas e de informatização do social. O trabalho material perde sua centralidade, enquanto surge a figura do “operário social, que se apresenta como intérprete das funções de cooperação laboral veiculadas pelas redes produtivas sociais” (NEGRI, 2003, p. 66). Sobre o proletariado, ele é
“mais imaterial do ponto de vista da substância do trabalho, é móvel, multiforme e flexível do ponto de vista de suas formas” (NEGRI, 2003, p. 67). A sociedade inteira é subsumida ao capital. “Toda relação social se torna, em algum sentido, uma relação produtiva” e “o comando não é mais algo que se acrescenta de fora ao processo de exploração, mas é algo que, diretamente, o organiza” (NEGRI, 2003, p. 69).
Assim, acompanhando o desenvolvimento capitalista, as formas de luta e resistência passaram de organizações centralizadas para uma forma disseminada, mais complexa (HARDT; NEGRI, 2005).
Diante dessas mudanças nas formas de luta, identifica-se duas lógicas que organizam determinados desejos, formas de ação e relação com as tecnologias, e que constituem duas configurações19 que parecem predominar nas práticas de ação política no campo midiático.
Ambas as lógicas de organização parecem estar relacionadas a uma das formas de luta que Foucault fala, conforme foi indicado no início deste item. A primeira configuração emerge no contexto das lutas contra a exploração, marcado pela centralização das intervenções. Já a segunda, quando as lutas parecem começar a focar mais nas formas de sujeição. O objetivo não é fazer um histórico e/ou uma revisão conceitual desses tipos de prática, mas atentar para o tipo de configuração a que uma determinada forma de ação implica e que conjunto de relações estabelece.
De maneira geral, conforme será observado, é possível considerar que a primeira configuração, caracterizada especialmente pela chamada comunicação popular e alternativa, tem início por volta da década de 1960, desenvolve-se nos anos de 1970 e começa a enfraquecer na década de 1980. A segunda, que “ganha corpo” a partir da década de 1990, é marcada pela chamada mídia tática. Apesar de estabelecer essas duas configurações para facilitar a exposição, isto não significa que elas existiram em momentos distintos da história, como em uma trajetória temporal linear, vindo a primeira e depois a outra. Elas podem
19 Fala-se em configuração ou organização das relações aqui a partir do conceito de “agenciamento” de Deleuze e Guattari (1977). Para eles, agenciamento seria como uma teia de elementos heterogêneos ligados por desejos. É uma noção mais ampla que a de sistema, estrutura, processo ou montagem e admite componentes de natureza diversa, tanto de ordem biológica, quanto social, maquínica, imaginária (GUATTARI; ROLNIK, 1999).
coexistir, pois são modos de funcionamento, de organização de forças e de elementos diversos20.
1.1.1 A configuração “alternativa”
Embora existam outras, mídia alternativa e comunicação popular são as denominações mais comuns nessa configuração, e na literatura pesquisada são algumas vezes usadas como sinônimas, ainda que para outros autores possam ser distintas. As principais críticas que circulam neste momento pairam em torno da concentração da produção de conteúdos “nas mãos” de poucos, que constituem a classe mais alta, enquanto a maioria, da classe mais baixa, se resguarda ao papel de receptor (MOTTA, 1987; MAZETTI, 2008). Também é criticada a centralização da produção de conteúdos nos chamados países de “primeiro mundo”, em detrimento do “terceiro mundo”, e a perda da expressão de grupos locais, devido a concentração da produção em grandes empresas instaladas apenas nos principais centros urbanos.
É importante lembrar que, no Brasil, o termo alternativo foi usado para adjetivar as publicações feitas por jornalistas contrários ao regime militar (que se instalou em 1964) e ligados à pequena burguesia, que defendiam interesses nacionais e populares (PERUZZO, 2006). Bernardo Kucinski descreve essa questão:
a imprensa alternativa surgiu da articulação de duas forças igualmente compulsivas:
o desejo das esquerdas de protagonizar as transformações institucionais que propunham e a busca, por jornalistas e intelectuais, de espaços alternativos à grande imprensa e à universidade. É na dupla oposição ao sistema representado pelo regime militar e às limitações à produção intelectual-jornalística sob o autoritarismo, que se encontra o nexo dessa articulação entre jornalistas, intelectuais e ativistas políticos (KUCINSKI, 1991, p. XVI apud PERUZZO, 2006, p. 07-08).
Mas além da atuação desses profissionais, que já trabalhavam com comunicação, outros setores buscaram se apropriar da produção e difusão de conteúdos. Em geral, são grupos oriundos de situações de negação de direitos, que criam canais alternativos e conteúdos próprios (MOTTA, 1987). John Downing (2002), que pesquisou durante muito tempo a mídia alternativa, ou “mídia radical alternativa”21, como ele apresenta, considera essa forma de ação como uma expressão das “culturas populares e de oposição”, que exprimem “as
20 Seria possível dividir em outras configurações, mas como a intenção é mais situar as formas de ação política no campo da mídia e essas duas configurações parecem ser as mais significativas, optou-se por elas.
21 John Downing (2002) considera que falar em mídia alternativa é um paradoxismo, pois tudo sempre tem oposições e essa terminologia não explica o que essas mídias teriam de diferente, por isso acrescenta a
designação “radical”. É preciso enfatizar também que, para Downing, é mais o contexto e as consequências que caracterizam a mídia radical alternativa, visto que as técnicas também são usadas pela mídia de massa e privada.
prioridades e aspirações das culturas forçosamente excluídas” (DOWNING, 2002, p. 33).
Essa compreensão vai ao encontro de como Motta (1987) percebe as formas alternativas de comunicação:
Ela tem nítido caráter de classe na medida em que expressa os interesses de um determinado grupo social no seu conflito pela sobrevivência, no seu enfrentamento da dominação política, cultural e econômica (MOTTA, 1987, p. 42).
Para Motta (1987), o surgimento dessas iniciativas no Brasil é motivado pelo desenvolvimento dos meios de comunicação de massa muito distantes das necessidades da população, repletos de mensagens com pouca ou nenhuma relevância para a maioria, como ele diz:
o aumento da oferta de meios e mensagens de massa não satisfez as necessidades de comunicação das camadas mais baixas da população. Ao contrário, a expansão dos meios de massa significou um distanciamento entre emissor e receptor, dificultando ainda mais o acesso do público num período em que as dificuldades cada vez maiores de sobrevivência dos grupos populares aumentavam sua necessidade de receber informações relevantes e de expressar seus interesses. Esta necessidade não satisfeita obrigou os grupos de base a criar canais alternativos e a formular conteúdos próprios para fazer frente a suas necessidades imediatas, para gerar mobilização ou para expressar inconformismos (MOTTA, 1987, p. 45).
Máximo S. Grinberg (1987), após analisar os diversos contextos, limites e possibilidades nas quais a comunicação alternativa aparece na América Latina, considera que o elemento central, o que irá caracterizar o alternativo, é o tipo de discurso, isto é, o conteúdo.
Este discurso alternativo seria marcado pela escolha e classificação dos temas e pelo tratamento aberto e não autoritário (GRINBERG, 1987). A essa característica definidora, Grinberg (1987) aponta outras secundárias: a “propriedade” coletiva dos meios, a
“participação” ativa dos receptores oferecendo opiniões e criticando, as “redes de distribuição” à margem dos meios de massa e as “fontes de financiamento”, que não interferem nos conteúdos. Assim, Grinberg propõe a seguinte definição, que ele faz questão de enfatizar que é provisória, de meio de comunicação alternativo.
(...) é alternativo todo meio que, num contexto caracterizado pela existência de setores privilegiados que detêm o poder político, econômico e cultural – nas diversas situações possíveis desde o sistema de partido único e economia estatizada (Cuba) até os regimes capitalistas de democracia parlamentar e as ditaduras militares – implica uma opção frente ao discurso dominante; opção a qual confluem, em grau variável, os sistemas de propriedade, as possibilidades de participação dos receptores na elaboração das mensagens, as fontes de financiamento e as redes de distribuição, como elementos complementares. (GRINBERG, 1987, p. 30).
Como já apontado, esses meios alternativos estão, em sua maioria, ligados aos movimentos populares, por isso essa forma de ação também é chamada de comunicação popular (MOTTA, 1987). Assim, são práticas relacionadas às formas de ação que surgem
junto aos movimentos sociais, que forjam sua própria comunicação no contexto onde atuam e com conteúdos, em geral, não trabalhados pelos meios massivos.
As ferramentas e meios utilizados são simples, de baixo custo e muito diversos:
música, poesia, teatro, jornal, panfleto, cartilha, fotografia, vídeo, alto-falante, programa radiofônico, entre outros (PERUZZO, 2004, p. 148). E o foco principal dos conteúdos são questões próximas a quem faz e de caráter mais imediato, como descreve Peruzzo (2004, p.
149):
As manifestações desse tipo de comunicação afloram com maior desenvoltura quando se trata de socializar informações ou conscientizar, mobilizar e organizar a população em torno, basicamente, da busca de soluções para problemas vivenciados em comum, embora cheguem a dar-se em outros níveis de participação política, ou seja, contra formas de poder, repressão e discriminação.
Motta (1987) afirma que os meios alternativos têm duas funções nos movimentos populares. A primeira é a de “apoio”, que consiste em fazer mais pessoas tomarem conhecimento de um problema determinado e sensibilizá-las para a ação. A segunda função é a de “potencialização”, ou seja, “fazer com que os movimentos tenham maior repercussão, alcancem públicos externos, cheguem a outras comunidades e categorias profissionais, alcancem as autoridades e a sociedade em geral” (MOTTA, 1987, p. 48).
Diante dessas funções apresentadas por Motta (1987), lembra-se algumas limitações e aspectos positivos da comunicação feita pelos movimentos populares que são descritas por Peruzzo (2004), mas que se prefere pensar como características. Abaixo seguem alguns desses aspectos organizados pela pesquisadora.
Peruzzo diz que esses veículos possuem “abrangência reduzida”. Devido à falta de recursos financeiros, a tiragem dos impressos é pequena ou o rádio possui baixo alcance, por exemplo. Tal fato contribui para que os conteúdos cheguem, na maioria dos casos, apenas aos sujeitos já sensibilizados para a causa, fazendo com que as questões fiquem somente “entre os mesmos” (PERUZZO, 2004).
A “carência de recursos financeiros” é outra característica apontada pela pesquisadora.
As pessoas que praticam essa forma de ação não têm recursos próprios para investir e buscam consegui-los com festas, donativos ou junto a instituições financiadoras (PERUZZO, 2004).
Muitos veículos deixam de existir por falta de recursos, o que também é possível observar contemporaneamente. Mas é interessante notar como a forma de “financiamento” muda desta configuração para outras. Aqui não existiam “militantes profissionalizados”22, que têm como fonte de renda seu trabalho na iniciativa. Além disso, os recursos necessários para sustentar as
22 Nos capítulos seguintes será discutido o que se está chamando de “profissionalização dos militantes”.
ações eram valores baixos (comparados aos atuais) e vinham, sobretudo, de rifas, bingos, festas e eventos dessa natureza. A sustentação financeira das formas de ação política no campo midiático atualmente será discutida nos capítulos seguintes.
Peruzzo (2004) também afirma que essas formas de ação são maneiras de contribuir para a “democratização dos meios”. Por outro lado, a pesquisadora aponta que na prática percebe-se o que chama de “inadequação dos meios” e “falta de competência técnica”. É o caso de fazer comunicação sem preocupar-se com o público a que se destina e sem uso apropriado dos meios. Por exemplo, produzir um jornal impresso para um público de maioria analfabeto, não haver periodicidade nas publicações e um líder comunitário ocupar o microfone por quase uma hora em um único discurso.
Embora os sujeitos que pratiquem essas formas de ação se apropriem das técnicas de produção de mídia, antes monopolizadas pelas empresas, Peruzzo (2004) diz que há um “uso restrito dos veículos”, pois as mídias que requerem maior elaboração técnica são menos utilizadas. Diante disso, observa-se a predominância do uso de veículos impressos e rádio.
Mas isso não significa que vídeos ou imagens não fossem utilizados; eram, mas em menor escala.
Peruzzo (2004) afirma ainda que os conteúdos são “críticos e questionadores”, mas os meios pouco atraentes. Utilizam discursos repetitivos e há muita limitação em relação ao conteúdo. “Talvez no afã de conscientizar a qualquer custo e rapidamente, transmitem-se discursos abstratos, prepotentes, panfletários ou doutrinários” (PERUZZO, 2004, p. 151). Isso leva a outra questão apontada pela pesquisadora e também por Mazetti (2008), a
“instrumentalização” desses meios, que geralmente são utilizados para um fim (denunciar algo, conscientizar, transformar a sociedade etc). E ao fazer isso se esquece de outras manifestações do campo cultural e afetivo, o mais importante é passar o conteúdo.
Peruzzo (2004) também enfatiza que esses veículos têm autonomia em relação às instituições públicas e privadas e funcionavam como um canal de expressão das comunidades, contribuindo para um reforço das identidades locais e dos grupos. A pesquisadora também lembra que esses meios populares serviam de auxílio para a “preservação da memória”, pois ao divulgar fatos das lutas dos movimentos sociais, contribuíam para a história das “classes populares”.
Outro aspecto que Peruzzo (2004) apresenta é a “participação desigual”. Segundo ela, a produção dos conteúdos é centralizada em poucas mãos, o que facilita o controle de informação e poder, além de conferir um caráter personalista ao meio. Embora a comunidade seja convidada a participar, cotidianamente não tem espaço. Além disso, os meios também
estão sujeitos ao que Peruzzo (2004) chama de “ingerências políticas”, pois existe o risco dessas iniciativas serem utilizadas com objetivos político-eleitorais.
Esse último aspecto é curioso. Peruzzo (2004) diz que talvez essa centralização esteja ligada à inexperiência brasileira em uma prática participativa democrática, o que talvez explique o fato “de tal situação geralmente nem ser contestada pela comunidade, que acaba até a encará-la como natural” (PERUZZO, 2004, p. 155).
É importante lembrar o momento político pelo qual passava o mundo e o país quando é predominante essa configuração das formas de ação no campo midiático. Acontecia no mundo a Guerra Fria, em torno da qual circulavam as dicotomias: primeiro e segundo mundos, capitalismo e socialismo. No Brasil, de um lado uma gestão pública comandada por militares que restringiam, crescentemente, todas as liberdades. De outro, o êxito da então recente revolução socialista em Cuba, em torno da qual girava boa parte do imaginário de liberdade e transformação social na América Latina. A implantação do socialismo no Brasil ainda era um objetivo almejado de maneira mais ampla, em torno do qual se organizavam guerrilhas ou apenas servia de inspiração. E essa “revolução proletária”, fundada na ideia de um regime de propriedade compartilhada por todos, era orientada segundo as premissas das tentativas de revolução socialista no resto do mundo, dentre as quais se destaca a necessidade de esclarecer e conduzir as massas para a mudança social.
Esse contexto pode não justificar, mas ajuda a compreender as hierarquias e centralizações, que permeavam os discursos dos militantes, sejam de organizações guerrilheiras, grupos de artistas ou qualquer outro que pensava a transformação social, como os que promoviam as formas de ação política no campo midiático.
Cicilia Peruzzo (2006,p. 04) diz ainda que:
a comunicação popular e alternativa se caracteriza como expressão das lutas populares por melhores condições de vida que ocorrem a partir dos movimentos populares e representam um espaço para participação democrática do “povo”. Possui conteúdo crítico-emancipador e reivindicativo e tem o “povo” como protagonista principal, o que a torna um processo democrático e educativo. É um instrumento político das classes subalternas para externar sua concepção de mundo, seu anseio e compromisso na construção de uma sociedade igualitária e socialmente justa.
A partir do exposto, é possível observar que essa forma de ação é marcada por uma ideia de transformação social, de mudança “das estruturas opressivas e condições desumanas de sobrevivência” (PERUZZO, 2006). Para Mário Kaplún, citado por Peruzzo (2006), essa prática de comunicação é “libertadora e transformadora” e as mensagens são produzidas para que “o povo tome consciência da realidade”. É possível observar ainda como essa forma de
ação é marcada por uma percepção moderna de sociedade23, em geral maniqueísta e dicotômica. Percebe-se a vida e, consequentemente, a ação política, muito bem organizadas e delimitadas em classes, ideologias e interesses.
Mazetti (2008) diz que essas formas de ação precisam da “verdade” para funcionar. É ela que sustenta e move as iniciativas. São as certezas ideológicas e os projetos de sociedade, em sua maioria fundados no marxismo, que oferecem o lugar seguro da verdade e fazem essas iniciativas se oporem, geralmente, a qualquer projeto contrário.
Assim, o desejo de emancipação, de transformação social, fundado em uma verdade, que vem das ideologias, parece ser a principal marca dos processos de produção social de subjetividade dessa primeira configuração.
Nesse sentido, é possível observar também que as práticas de comunicação nessa configuração aproximam-se de uma disputa por hegemonia24, isto é, por liderança e dominação em diversos campos (econômico, cultural, político). Há também centralização, tanto nas iniciativas quanto na forma como é percebido o “inimigo”, conforme foi observado.
Dessa maneira é que a ideia de alternativo sugere bem essa primeira configuração, pois essas práticas de mídia atuam como se buscassem corrigir a mídia convencional para depois suplantá-la (MAZETTI, 2008).
Conforme foi indicado anteriormente através de Peruzzo (2004), a relação com as tecnologias nessa configuração é, predominantemente, de caráter “instrumental”, o mais importante são os conteúdos. Cabe enfatizar que instrumental não significa neutro, a questão é que parece não existir muita preocupação sobre qual tecnologia utilizar, qual seria a mais indicada, por exemplo, usa-se a que for mais fácil de obter e operar, desde que os conteúdos sejam produzidos e colocados em circulação.
Por fim, a partir do que foi observado nesta primeira configuração, é possível sugerir também o tipo de transformação que se almeja e o que se entende por liberdade. Luta-se pela garantia de direitos constitucionais e para que o Estado garanta os direitos fundamentais à população, como hoje, mas a liberdade buscada é a de se organizar em partidos e manifestar opiniões e ideias, então inibidas pela Ditadura Militar. Assim, buscam quebrar regras, divulgar uma ideologia, “quebrar o silêncio, refutar mentiras, dizer a verdade” (DOWNING, 2002). Assim, a liberdade, nessa configuração, parece se aproximar do que Foucault (2010a)
23 Fala-se em modernidade aqui como um projeto, uma forma de pensar e organizar o mundo, conforme diz Latour (1994).
24 Hegemonia é entendida aqui a partir da maneira como Fairclough (2001) e Anderson (2002) apresentam esse conceito do teórico italiano Antonio Gramsci, que muito influenciou o pensamento dos movimentos sociais desse período.
chama de “liberação”, isto é, da busca por condições para se expressar e se libertar da influência de um “inimigo”. A distinção entre as noções de liberação e liberdade serão retomadas e aprofundadas no quarto capítulo.
1.1.2 A configuração “tática”
Durante a década de 1980, diversos fatos contribuíram para mudar o ambiente no qual as formas de ação política no campo midiático se configuram. A abertura democrática, as eleições diretas e as liberdades de organização e expressão são exemplos disso. A queda do muro de Berlim no ano de 1989 pode ser uma interessante “porta de entrada” para pensar o ambiente no qual emerge a segunda configuração. A derrubada do muro simbolizou, para muitos, o triunfo do liberalismo, do capitalismo e o fim das esperanças socialistas, do marxismo. E esse fato contribui para o fim das dicotomias e maniqueísmos que dividiam o pensamento e as ações, característicos da primeira configuração.
Mas essa vitória dura pouco. Como lembra Latour (1994), o socialismo “perdeu”, mas o capitalismo, que “venceu” também está perdendo. Pois a partir do mesmo 1989 acontecem, no mundo, as primeiras conferências sobre o estado global do planeta, as preocupações ecológicas ganham destaque, juntamente com os ecocídios e a fome em escala global. Isso coloca um limite nas ciências e nas técnicas, base na qual passa a se sustentar o imaginário do capitalismo nesse momento, em uma tentativa de mascarar a “exploração do homem pelo homem” em uma “exploração da natureza pelo homem” (LATOUR, 1994).
Assim, ainda de acordo com Latour (1994), diante da falência dos dois projetos que disputavam sua instituição no mundo, de um lado o que buscava a solução, principalmente, através da política (socialismo), de outro o que buscava, em especial, por meio das ciências e tecnologias (capitalismo)25, há uma crise de propostas e as ideias que moviam e/ou sustentavam as lutas por transformação social, antes tão claras, começam a não ter em que se apoiar. É nesse ambiente que emerge o que se está considerando como segunda configuração das formas de ação política no campo midiático, marcada por outras formas de intervir, outras relações tecnológicas, incertezas e talvez contradições.
Surgem vários termos na tentativa de categorizar as diversas formas de ação que se observa nesse momento, alguns oriundos do ambiente acadêmico, outros dos próprios movimentos (MAZETTI, 2008). “Ativismo”, “hacktivismo”, culture jamming, “artivismo” e
25 Ambos são políticos e técnicos, foi exposto nesses termos para enfatizar, sinteticamente, tendências do capitalismo e do socialismo, a partir da argumentação de Latour (1994).