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2 REFERENCIAL METODOLÓGICO

3.4 O MODELO DE MONOPÓLIO

3.5 AS PERDAS DO MONOPÓLIO

Muito antes que Arrow e Debreut23 tivessem formalizado a relação precisa entre mercados perfeitamente competitivos e a eficiência econômica ou de Pareto, os economistas clássicos e os primeiros marginalistas já destacavam a ineficiência do monopólio vis-à-vis o mercado concorrencial. Para Smith, o monopólio impedia a boa alocação dos recursos. Em seu juízo, somente a livre competição poderia garantir que os recursos estivessem sendo empregados nas atividades para as quais fossem mais necessários (BACKHOUSE, 2002). Menger, por sua vez, qualificava o monopólio como uma má prática. Defendia que, em um ambiente de concorrência, a produção seria maior e os preços menores. Indo ao encontro do modelo de concorrência perfeita, argumentava que a competição conduz a uma maior escala de produção, a lucros menores, à redução de desperdícios e ao aumento da provisão de bens disponíveis para a sociedade, a preços mais reduzidos (MENGER, 1976). Marshall, contudo, não era tão convicto quanto aos efeitos negativos do monopólio. Sustentava que, sob algumas circunstâncias, a quantidade de equilíbrio da mercadoria produzida sob a livre competição seria menor do que aquela para a qual o preço de procura fosse igual ao preço de oferta do monopólio (MARSHALL, 1982).

O debate teórico acerca dos efeitos do monopólio foi pacificado, no âmbito da teoria microeconômica neoclássica, com o emprego de um instrumental de avaliação cujos primórdios remontam ao trabalho de Dupuit sobre obras públicas, um precursor da idéia de excedente do consumidor. Foi Marshall, no entanto, que deu forma exata ao conceito, chamando-o, primeiramente, excedente de satisfação: “mede-se economicamente esse

23 Uma visão sobre os dois teoremas do bem-estar formulados por Kenneth Arrow e Gerard Debreu pode ser

excedente pela diferença entre o preço que o comprador consentiria em pagar para não se privar da coisa e o preço que pagou na realidade” (MARSHALL, 1982). Marshall foi além e argumentou que o conceito de excedente do consumidor poderia servir a que se descobrisse também a diferença entre o quanto a coletividade estaria disposta a pagar por um determinado bem e o quanto efetivamente pagava, utilizando-a como uma medida de “bem estar social”. Suas considerações, no entanto, prendiam-se a situações nas quais fosse plausível supor existir alguma semelhança entre os valores atribuídos pelos indivíduos a uma unidade adicional de renda (BACKHOUSE, 2002). A conceituação do excedente dos consumidores levou a que, por analogia, fosse também trazido à luz o conceito de excedente do produtor, este significando a diferença entre o preço efetivo da venda e o preço mínimo pelo qual o produtor estaria disposto a vender determinada coisa. Da soma dos excedentes dos consumidores e do produtor, surge o conceito de excedente total, que se tornou a medida-padrão das análises relacionadas a políticas de regulação concernentes a quantidades e preços. Como aponta Melo (2002), na concepção dessas políticas a questão mais importante, a saber, é como se darão variações nos excedentes em razão de decisões sobre novos preços ou quantidades.

Figura 3.7: Excedentes do consumidor (EC) e do produtor (EP) e variações no EC e no EP, devidas a variações de preço.

Fonte: Varian (2003).

O gráfico (a) da figura 3.7 ilustra os excedentes líquidos dos consumidores (EC) e do produtor (EP), definidos a partir do preço de equilíbrio. O gráfico (b) ilustra a perda de excedente dos consumidores com a elevação do preço de p’ para p”. O retângulo A representa a perda resultante do fato de que o consumidor agora paga um preço maior por todas as unidades que continua a consumir. O triângulo B, por sua vez, representa a perda

decorrente do que se deixa de consumir do bem em questão. A área do trapézio formado por A e B mede a perda total do EC. O gráfico (c) ilustra o aumento do excedente do produtor com a variação do preço de p’ para p”. O retângulo A representa o ganho adicional obtido com a venda, ao preço p”, das unidades antes vendidas ao preço p’. O triângulo B mede o ganho obtido com a venda de unidades adicionais, ao preço p”. Como no caso do EC, a soma das áreas de A e B dá a medida da variação no EP (VARIAN, 2003).

As representações das variações nos excedentes dos consumidores e do produtor, feitas aqui, são úteis para que se compreenda a análise particular empreendida por Harberger24, no tocante a diferenças entre o monopólio e a concorrência perfeita. A demonstração gráfica dessas diferenças, figura 3.8, tornou-se um clássico da economia do bem estar social, passando a orientar ações de regulação destinadas a impedir ou reduzir o poder de monopólio (ARMENTANO, 1982).

Figura 3.8: O ônus gerado pelo monopólio. Fonte: Varian (2003).

Na figura 3.8, observa-se que, na condição inicial de monopólio, o preço monopolista é pm e a quantidade monopolista é qm, dados pela condição de igualdade entre custo marginal (CMg) e receita marginal (RMg), considerando-se custo marginal igual a custo médio, para simplificar. Supondo-se uma intervenção que conduza o mercado à condição de concorrência perfeita (preço competitivo igual a pc e quantidade competitiva igual a qc), o retângulo A representaria o aumento do excedente dos consumidores em virtude da compra a preço mais baixo das unidades antes vendidas sob monopólio. O triângulo B representaria o aumento do excedente dos consumidores resultante da possibilidade de se

comprar uma maior quantidade do bem ao preço competitivo. O “quase-triângulo” C representaria o aumento no excedente do produtor (a indústria) devido à venda de unidades adicionais, ao preço competitivo. O retângulo A, contudo, não passaria de uma transferência de excedente, do produtor para o consumidor. O excedente total, a depender só disso, ficaria inalterado. As áreas B e C, no entanto, representariam um ganho, respectivamente, para os consumidores e para a indústria, se prevalecessem as condições de concorrência perfeita. Diz-se, então, que dão uma medida de quão pior está a situação das pessoas por se cobrar o preço do monopólio, no lugar do preço competitivo (VARIAN, 2003).

O modelo de Harberger para perdas de bem estar claramente presume a ocorrência de monopólio por restrição legal ou por iniciativa das firmas (cartéis). Não toma em consideração o monopólio natural, surgido por força de economias de escala ou de escopo. Quando a curva de custo médio do monopolista atinge seu mínimo ao nível de produção que supera a demanda do mercado (dado o preço de maximização dos lucros), já não tem cabimento cogitar da substituição do monopolista por um grande número de firmas sem se falar em efeitos negativos nos custos (VISCUSI et. al., 2005). A figura 3.9 ilustra tal fato. No caso, várias firmas produziriam, cada uma delas, uma quantidade máxima qc, a um custo médio (CM) muito superior ao do monopólio e a um preço pc, da mesma forma, superior a pm. Em tal circunstância, a organização da indústria sob monopólio é vantajosa.

Figura 3.9: Economias de escala e monopólio natural. Fonte: Viscusi et. al. (2005)

Há situações de monopólio natural mais características do que a representada na figura 3.9. Nas chamadas “indústrias de utilidade pública”, inclusive em rodovias com excesso de

capacidade, é comum que o custo médio de produção continue a diminuir mesmo depois de atendida a demanda sob a condição de eficiência “preço igual a custo marginal”. A figura 3.10 mostra essa situação. Ali, se a firma monopolista fosse obrigada a operar nessa condição de eficiência, só poderia fazê-lo mediante o recebimento de um subsídio, uma vez que o preço competitivo seria menor do que o custo médio de produção, gerando a perda equivalente ao retângulo A, por unidade de produção. Restariam aos legisladores e reguladores, portanto, as alternativas de deixar o monopolista natural fixar o preço pelo processo de identidade entre receita marginal e custo marginal (maximização dos lucros) ou fixar o preço, eles mesmos, no patamar do custo médio (p = CM), dado o nível de produção eficiente qc.

Figura 3.10: Perda do monopolista natural, retângulo A, em razão da fixação do preço ao custo marginal.

Fonte: Train (1995).

3.6 - A REGULAÇÃO DO MONOPÓLIO EM RODOVIAS: O CUSTO MÉDIO