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5 PERFORMANCE: CONCEITO E PRESENÇA NAS MATANÇAS DO

5.4 As performances cômicas e a construção do discurso dos

As estórias de cada palhaço do Bumba-Meu-Boi de Peital são denunciadoras de uma vocação para a prática das comédias. Eles são naturalmente engraçados no cotidiano das comunidades, gostam de contar piadas e estão sempre fazendo gozação com parentes, amigos ou com algum visitante. O processo de construção das matanças varia de palhaço para palhaço. Contudo, merece atenção o depoimento de seu Maçã, que não gostava das matanças, muito menos dos palhaços. Contudo, de tanto os amigos insistirem, ele foi um dia assistir a uma apresentação do Bumba-Meu-Boi, e acabou gostando da brincadeira.

Nessa mesma época, dois anos antes ele havia contraído uma doença, e convivia com três tumores em forma de bolhas, um na cabeça e dois no braço esquerdo, que o atormentavam. A doença, por incrível que possa parecer, acabou ligando definitivamente seu Maçã ao Bumba-Meu-Boi, e o transformou em palhaço da brincadeira. Conforme afirma seu Raimundo Rodrigues, o Maçã (2012):

Senhor, eu passei muito tempo com essas bolhas, fui despachado pelos médicos na cidade e não me curei, andava esmorecido. Aí um dia me apareceu um amigo que me disse: tu já pediu pra São João te curar? olha que ele é santo milagreiro. Então, eu respondi: rapaz, eu boto meu olho na imagem e vejo o santo sisudinho, não acho que ele me cure não. Mas aí eu disse assim pro meu amigo: olha, se ele me fizer de achar cura pra essas minhas bolhas eu faço promessa de brincar de palhaço durante 12 anos. Ora, logo ser palhaço de Bumba-Meu-Boi, justo do que eu menos gostava. Então, quando eu fui um dia com meus amigos ver o Boi tomei umas cachaças. Aí numa certa hora me deu sono e eu acabei me encostando num canto e por lá dormi; aí eu sonhei que estava numa praça, num descampado, num lugar bem amplo, e ali tinha uma brincadeira com muita gente e todo mundo vinha e despejava um bocado de coisas numa fogueira muito grande no meio da praça. E eu, de longe, vendo tudo isso. Aí passou por mim um sujeito, um caboquinho baixinho e barbudo, que esbarrou no meu braço esquerdo, e eu fiquei sentindo muita dor. Ele foi até a fogueira, voltou até onde eu estava e perguntou o que eu tinha no braço. Contei a estória pra ele que me perguntou se eu ia mesmo pagar a promessa. Eu disse que sim, então ele me disse: teu remédio tá em Alcântara, na sede, vai até lá. Nessa época, as freiras canadenses tinham chegado em Alcântara, e moravam no prédio onde hoje é o museu, na praça da Matriz. Arrumei uma jumenta com meu sogro e fui montado nela para Alcântara, aí cheguei, entrei no prédio e as freiras viram as feridas, e uma delas me deu uma injeção de cor vermelha. Depois me

deram um remédio verde gelado. Pensei que ia morrer, senti muita dor. Era umas dez horas do dia, eu dormi até umas três da tarde. Aí voltei para o meu lugar, Rio Corredor, e com 15 dias eu tava bom, fiquei curado, olhe aqui as marcas no meu braço (mostra o braço). Aí minha mulher me disse: agora que tu tá curado tu vais brincar Bumba-Meu-Boi, olha a promessa. Eu tinha raiva muita de Boi, aí eu fui pro ensaio do Bumba-Meu-Boi, e fui nuns três ensaios. No ensaio de Santo Antônio, aí eu fui caçar uma paca. Então peguei no sono e sonhei de novo com o mesmo caboquinho e ele me perguntou: tu não vai brincar o Boi? Aí eu me assustei e disse eu vou, eu vou, e aí eu fui, e de lá pra cá nunca mais parei, e sempre fazendo o papel de palhaço, e até hoje eu tô como palhaço no Boi. Eu entendi que o caboquinho barbudo era o próprio São João que me apareceu no sonho, cabelo curtinho, baixinho, peito e corpo todo cabeludo, sim, senhor.

A história de seu Maçã, além de ser muito bela, na qual se localiza a presença do sagrado, envolve também a questão da cura e de uma visão, através do sonho, no qual ele identifica como sendo o santo (São João) o responsável por indicar o local no qual seria curado de seu problema de saúde. O fato de a cura ser resultado de uma promessa feita ao santo une de forma indissociável o palhaço à brincadeira, já que os grupos de Bumba-Meu-Boi geralmente surgem em decorrência de pagamento de promessas. A partir da graça alcançada, seu Maçã se tornou devoto de São João.

Na perspectiva freudiana, o sonho envolve, basicamente, a realização de um desejo e, traduzido em valores, pode ser explicado como um pensamento que se desenvolve a partir de imagens, sendo representado através de uma forma visual. O sonho possui laços com o mito (Campbell, 1990) e, dessa forma, desempenha importância social. Sobre o tema, elucida Campbell (1990, p. 42):

O sonho é uma experiência pessoal daquele profundo, escuro fundamento que dá suporte às nossas vidas conscientes, e o mito é o sonho da sociedade. O mito é o sonho público, e o sonho é o mito privado. Se o seu mito privado, seu sonho, coincide com o da sociedade, você está em bom acordo com seu grupo...em alguns níveis, um sonho privado se insere em temas verdadeiramente míticos e não pode ser interpretado senão em analogia com o mito. Jung fala de duas ordens de sonho, o sonho pessoal e o sonho arquetípico, ou o sonho com dimensão mítica. Você pode interpretar um sonho pessoal por associação, deduzindo o que ele diz sobre sua própria vida, ou em relação a seus problemas pessoais. Mas a qualquer momento surge um sonho que é puro mito, que contém um tema mítico.

Sonhar com o santo, São João, para quem fez uma promessa, para o palhaço Maçã, representou uma resposta a seu problema privado, a cura da doença que o acometia, ao mesmo tempo em que o colocou em contato com a dimensão arquetípica, em diálogo com o mito e, dessa forma, seu sonho coincidiu

com o da comunidade na qual se encontra inserido, palco das apresentações do Bumba-Meu-Boi de Peital, teatro da realização das matanças.

O sonho possui uma importância crucial no contexto da brincadeira, já que o estado onírico possui, nas sociedades rurais em estudo, igual importância em relação ao estado de vigília. As mensagens advindas dos sonhos são levadas a sério, e devem ser obedecidas, influenciando o cotidiano dos integrantes das comunidades, servindo como “avisos”, podendo ter caráter premonitório.

O indivíduo que sonha, inclusive, fica prestigiado e legitima as suas decisões em relação a qualquer assunto, como explica Prado (2007). Dentre os tipos de sonhos estudados por essa pesquisadora, no seio das comunidades camponesas, incluem-se os sonhos de iniciação, como o que foi descrito por seu Maçã, provocando no palhaço uma radical mudança na sua vida em razão da metamorfose sofrida por ele após o sonho que teve com São João, causando no palhaço uma “recuperação da vida, mediante devolução da saúde”. Sobre o assunto, discorre Prado (2007, p. 177-180):

As passagens que marcam a mudança de uma função social para outra quase nunca se processam tranquilamente. Aliás, as dificuldades próprias a esse período fazem parte de um ritual de iniciação cujo esquema tradicional supõe: o sofrimento, a morte e a ressurreição. O candidato à vida nova suporta-os como condição necessária de sua investidura e interpreta-os como experiências singulares decorrentes de uma “eleição” ou, ainda, como purificação para novas revelações. Ao lado da doença, o sonho pode consistir numa dessas formas de iniciação...

...O estudo de muitas culturas revela igualmente que o sonho pode servir como fator de legitimação daqueles que passam a exercer o poder de punir, de nutrir, de celebrar uma liturgia, de atualizar um mito, de recitar as genealogias sagradas e, por que não, de celebrar uma dança. É o que acontece com alguns dos brincantes que passam a integrar “a boiada” não porque fizeram promessa por doença, nem porque se sentiram animados a fazê-lo, mas porque foram, através do sonho, convidados por São João...

...a imagem descrita é sempre a mesma: “um velho barbudo”, levando-nos a concluir que a forma das aparições assume características convencionais de identificação, ou seja: por não adotarem, a cada vez, traços particulares, fazem parte antes do social que do individual. Assim, a coincidência da imagem indica a veracidade do sonho.

Neste trabalho, analiso e entendoa construção do discurso simbólico das matanças ou comédias enquanto performances cômicasdo Bumba-Meu-Boi de Peital, sob o aspecto ritualístico e teatral dessa manifestação cultural, identificando as influências sofridas pelos palhaços no processo de construção do discurso. Nesse processo, levo em conta o contexto social no qual esses palhaços estão

inseridos. Imaginei, a princípio, que cada palhaço entrevistado iria se reportar a palhaços mais antigos, que ensinaram sua arte aos mais jovens.

Dessa forma, pensei que os palhaços que seriam entrevistados por mim fariam, naturalmente, referências aos seus antecessores. No entanto, essa expectativa foi frustrada em relação a seu Maçã, tido pelos outros palhaços como o chefe dos palhaços, o mestre de todos eles que, de acordo com seu depoimento, não aprendeu a fazer comédia com ninguém. Como diz seu Raimundo Rodrigues, o Maçã (2012):

No Bumba-Meu-Boi uns vai pra ver toada, uns pra ver rajado, e uns vai pra ver matança. Eu vi muita matança, mas, ninguém me ensinou não. Quando eu comecei a brincar e a fazer palhaçadas nas matanças, quem me ensinou mesmo foi São João, tive alguns sonhos. Eu aprendi com o santo, eu aprendi mesmo no olho, eu não tinha explicação de outra pessoa, então eu comecei a tomar umas cachaças pra tirar a vergonha de fazer matança e aí eu começava a falar as doidices todas e todo mundo se ria demais, e aí desde então eu não parei mais. Fico matutando um tempão, vejo muitas coisas e aí vou pensando aqui na minha cabeça, imaginando as matanças, unindo as coisas, até ter uma ideia e combinar a matança com os outros palhaços e os mandantes.

Diante dessa interessante resposta do campo, tive que realizar algumas reflexões. Reconheço que, ao me defrontar com meu objeto, surgiu a questão da familiaridade, em razão da proximidade com as pessoas que integram as manifestações culturais da comunidade de Peital; já são sete anos de contato e de imersão no povoado, mesmo que de forma entrecortada, o que pode dificultar a percepção analítica de alguns elementos da pesquisa proposta.

Por outro lado, podemos nos valer das premissas de Malinowski (1976), relativos ao tema, métodos e objetivos da pesquisa de campo, quando ele informa que no trabalho etnográfico o pesquisador precisa conviver intimamente com os nativos, inclusive, realizando o aprendizado da sua própria língua (neste caso, um estilo particular de comunicação nativa) ou de sua maneira própria de expressão para entender da melhor forma possível as fontes de informação (lastreadas na memória e no comportamento dos seres humanos), que podem ser enganosas. Assim, o pesquisador tem que banir ideias preconcebidas, aproximar-se o máximo possível da estrutura da sociedade em estudo e evidenciar leis e padrões dos fenômenos culturais em análise.

Dessa forma, ao me debruçar sobre o objeto em questão, imediatamente veio à mente os perigos referentes ao trabalho de pesquisa sociológica. A questão do envolvimento com a comunidade naturalmente implica numa espécie de compromisso social de conferir algum retorno ao grupo estudado. Conforme explica Bourdieu (2010), tal situação seria definida como romantismo social. Para ele, o mergulho na pesquisa social e nas suas ramificações cria uma espécie de armadilha, a dificuldade de se libertar das pré-noções, identificando nelas um obstáculo epistemológico, em razão das características do objeto de estudo do sociólogo.

Ele chama a atenção para a importância de ultrapassar a limitação imposta por uma sociologia espontânea ou guiada por um frágil realismo. Dessa forma, procuro me ancorar no combate às pré-noções, transformando os problemas abstratos em operações práticas, de viés científico, visando ultrapassar as limitações inerentes à sociologia espontânea. Trata-se de um exercício que requer permanente vigilância, sobretudo em relação ao aspecto da familiaridade com o objeto.

Mesmo tendo consciência da existência das pré-noções, confesso que me surpreendi, embora positivamente, com o depoimento de seu Maçã. O mestre dele foi São João, o santo festejado na brincadeira de Bumba-Meu-Boi; ele aprendeu a fazer as matanças através de sonhos, embora tenha presenciado, anteriormente, algumas apresentações das comédias.

A indefinição da relação entre o sociólogo e o objeto pode dar origem a interpretações errôneas acerca da realidade, gerando o profetismo. Daí o cuidado que tenho quando a linguagem científica é acionada, com o acirramento do olhar sobre o discurso sociológico, para que a linguagem hodierna não se confunda com a linguagem científica no campo social. O pesquisador precisa ter cuidado com a automação do pensamento nesse campo, evitando as pré-noções, exercitando a vigilância epistemológica, de forma sistemática, evitando a pecha de falso profeta, conforme explica Bourdieu (2007).

Nesse contexto, é fundamental que se tome cuidado com relação ao objeto de estudo, evitando-se uma interpretação castiça do mundo social, o que pode gerar dicotomias, caso os atores sociais sejam vistos como vítimas ou cúmplices, dominantes ou dominados, o que nada explicaria sobre o processo (BOURDIEU, 2010). Nesse caso, aparece a sociologia espontânea, que engendra

a naturalização do objeto.O fato de a comunidade ter sido deslocada de seu local de origem, sofrendo discriminação e violência por parte do CLA pode desviar o foco da atenção do objeto em estudo.

Em busca de uma explicação para a construção do discurso, encontrei no povoado de Cajueiro mais algumas respostas às minhas perguntas. Seu José Lino de Araújo, mais conhecido como seu Bucho, informou que antes os palhaços se vestiam conforme o que aparecia pela frente, o que a gente encontrava no povoado (Bucho, 2012). As vestimentas eram feitas à base de saco de estopa, ráfia, macacão grande do exército, as máscaras eram feitas de papelão. Segundo depoimento de seu Bucho (2012):

A gente brincava à paisana, no início da apresentação do Boi; depois é que a gente vestia a fantasia de palhaço, quando ia começar a matança. A gente ficava ali, como quem não quer nada, começava a falar com os mandantes, entertendoeles, puxava uma conversa fiada, aí quando eles se espantavam a gente já tinha roubado o boi. O vaqueiro procurava, não encontrava o boi, aí começavam a bater nos palhaços, todo mundo ria. Todo ano a gente fazia uma matança diferente, nunca é igual à de antes, com as toadas também diferentes. Eu aprendi a fazer matança no olho, não aprendi com ninguém. Comecei a fazer matança ao lado de seu Maçã, de Marudá, lá no Camaleão, no Boi de seu Raimundo Gaju. Eu me alembro de uma toada minha, que dizia assim: Eu tava na minha casa / na minha rede deitado / quando eu acordei tinha dois soldados / procurei o que eles queriam / eles iam fazer um mandado / tava com a cara alegre / à moda mulher relaxada / procurei por Mariquinha / mulher me faz um assado / ela foi me respondeu: eu te levo um guizado / Marido, o que tu quer / o que é do bom tá guardado / quando eu chegar lá / eu boto o outro ao meu lado.

Seu Bijuca, que se diz discípulo de seu Maçã, com quem teria aprendido a fazer matanças, também fornece depoimentos elucidativos. No ano de 2008, na véspera do dia de São João (23 de junho) acompanhei o ritual de batismo do Bumba-Meu-Boi de Peital. Imediatamente após o batizado, o Boi se apresentou no terreiro e as caixas de zabumba e os pandeirinhos devidamente aquecidos pelo calor de uma bela fogueira começaram a ser percutidos; as matracas entraram em ação, as índias tapuias espalharam animação e graça pelo ambiente e as toadas encheram de alegria o povoado de Peital.

No céu uma lua ainda viva completou o encanto da brincadeira e o Bumba-Meu-Boi atravessou a noite com seu batuque. Em determinado momento da apresentação, houve uma interrupção para a realização da matança ou comédia.

Nesse momento, apareceram no terreiro três personagens mascarados vestidos com roupas de fofão, feitas de chita. Nenhum deles sequer fazia lembrar Pai Francisco ou Mãe Catirina. Como informou seu Bijuca (2008):

Hoje, nós representamos uma palhaçada, como se um sujeito vindo de fora, dos Estados Unidos, tivesse chegado aqui com dois amigos dizendo que queriam comprar um pedaço de terra para plantar. Aí o americano chamou um vaqueiro e pediu para ele ir falar com o patrão dele. O vaqueiro perguntou o nome dos estrangeiros e o americano respondeu: “meu nome é Tu Já Sabe, e esses dois amigos meus aqui são Malaquias e Vai Levando”. Então, o vaqueiro foi lá falar com o patrão, que vendeu um pedaço de terra para o sujeito só que ele cercou um pedaço de terra maior e plantou milho, feijão e jerimum. Quando tudo nasceu veio o boi do patrão e comeu tudo. Aí o estrangeiro matou o boi. O vaqueiro perguntou se ele ia pagar o boi e ele respondeu que não. Então, o patrão mandou seus índios guerreiros prenderem o sujeito, que prometeu comprar outro boi. Esse novo boi foi comprado, mas, não urrava como o primeiro; aí se passou no boi banha de mucura e depois banha de gato maracajá com banha de jurará e aí o boi urrou bonito. Então, todos se alegraram de novo e o boi voltou a dançar no terreiro; toda essa molecagem é para animar ainda mais a festa.Com o tempo, a palavra é a mesma, a fala é a mesma, o que muda é o assunto da brincadeira.

Existe na sede de Alcântara um Bumba-Meu-Boi de zabumba conhecido como Boi dos Idosos. Os interessados podem se inscrever e participar da brincadeira. Seu Bijuca já brincou algumas vezes nesse grupo que, todavia, não realiza as matanças, o que causa estranheza ao palhaço. Segundo seu Bijuca (2012):

Eu fui lá em Alcântara este ano e brinquei dois dias, é bem bonitinha a brincadeira, organizada. Mas aí eu perguntei pra Marlene: aqui não se faz matança do Boi? Ela disse que não; lá só se brinca uma hora de relógio e depois pegam um carro e mandam a gente pra casa. Na cidade já não tem mais matança. Agora na cidade um Bumba-Meu-Boi se apresenta em oito, dez lugares, e não fazem mais a matança, porque a matança é demorosa, e não dá dinheiro. No povoado de Peru tem muitos pandeiristas, tem muitos brincantes, aí eles recebem um troco em São Luís e quando vem de lá trazem cem reais no bolso, então eles não querem tocar aqui de graça.Entonce daqui a uns dias a matança não vai mais existir, é o que eu acho. Os mais velhos estão se acabando e os mais novos não querem mais brincar. Então, só tem matança aqui no interior. A brincadeira só é boa com a matança.Numa das matanças, que eu me alembro, o mandante, que é quem tira as cantigas, dizia assim: se não devolver o boi chamo uma fera, onça, leão ou jiboia. Uma vez fizeram uma cobra que se pensava que era de verdade. Tinha criança que corria de medo e que não chegava nem perto. Quem fez essa jibóia foi o velho Cândido, ela era cheia de juntas, a cobra se movia toda, era muito bem feita. Aí, quando o ladrão dizia que não ia pagar o boi, então a cobra chegava por trás dele, todo mundo olhando, e dava uma mordida no pé do ladrão, que pulava fora, gritando, com medo, e aí todo mundo ria no terreiro, era muito engraçado.

A realização das performances cômicas, como se pode depreender do depoimento de seu Bijuca (2012), também exige, por parte do palhaço, uma agilidade corporal satisfatória, já que eles se fantasiam imitando animais e, assim como o miolo do Boi, precisam ter um ótimo preparo físico para explorarem o gestual nas matanças, com a utilização do corpo nas apresentações.

Realizar evoluções debaixo de uma estrutura em forma de cobra, rastejar pelo solo imitando o animal e convencer a assistência / platéia de que o trabalho está sendo bem executado exige um trabalho de corpo suficientemente bem feito para que a matança seja convincente e provoque o riso.

A desenvoltura corporal, portanto, colabora para a eficácia do espetáculo, e essa dimensão das performances se liga umbilicalmente à