5 PERFORMANCE: CONCEITO E PRESENÇA NAS MATANÇAS DO
5.5 O conceito de re-performance no Bumba-Meu-Boi de
No Bumba-Meu-Boi de Peital, a matança é realizada, segundo seus organizadores (palhaços e mandantes), de acordo com as representações que eram feitas antigamente, no povoado de Peital Velho. As novas matanças, portanto, são feitas tendo como base um enredo que se renova. Sempre existe uma disputa em jogo, o que gera um conflito. O boi é o centro da ação, sobre ele se desenvolve toda a trama. Numa fazenda existe um boi famoso, preferido do patrão ou fazendeiro (cabeceira). Esse boi invade a terra de um vaqueiro que não se encontra cercada e come sua roça, causando-lhe prejuízo.
O boi, então, é morto pelo vaqueiro e o patrão manda seu capataz descobrir quem matou o boi. Com a descoberta, o patrão promete castigar o vaqueiro, que acaba se livrando da pena ao restituir o boi ao fazendeiro (através da compra de outro animal ou através da ressurreição do boi morto). Existem várias versões sobre a estória, assim como versões particulares para a origem do Bumba- Meu-Boi. Segundo seu Raimundo Rodrigues, o Maçã (2012):
Eu vou dar uma explicação. Na época da escravatura, só tinha serviço e taca para os negros. Eles não acompanhavam festa. Então, resolveram, em algumas fazendas, inventar a festa de São Benedito e, em outras, o Bumba-Meu-Boi para se divertirem. Como esses escravos trabalhavam nas fazendas, com criação de boi, então viram que São João, que era pastor, criava carneiro, também devia ter criado gado, então inventaram que a brincadeira de Bumba-Meu-Boi deveria ser feita para agradar São João, assim eu penso com meu juízo. As matanças elas precisam ser de acordo com a tradição, senão não fica bom, sem ser como era antes não presta. Quando vejo hoje Bumba-Meu-Boi na televisão, mudou muito desde que eu conheci a brincadeira. Hoje tem é muita doidice, não tem mais as toadas como aquelas de antes, mas, aqui, a gente ainda procura fazer como era antes, assim tem mais graça. As matanças a gente sempre muda alguma coisa aqui ou ali, pra melhorar de ano pra ano, mas, a ideia tá sempre em como se fazia as matanças antes, lá no Peital Velho, em
Marudá Velho. Uma vez teve até uma representação que tinha um avião que corria num fio com uma vela dentro iluminando ele, na época não tinha energia elétrica, foi muito bonita aquela matança.
Cabe ressaltar a afirmação feita por seu Maçã com relação à importância de se manter a tradição no que se refere às matanças. Ele afirma que é preciso repetir, mesmo com mudanças, aquilo que é considerado, por ele, como o correto, já que “sem ser como era antes não presta”. As modificações que acontecem nas matanças ou comédias ao longo dos ensaios anuais, seja acrescentando ou suprimindo algo das performances tidas como originais, portanto, a busca de uma fidelidade decorrente de um exercício de variações em torno de um mesmo tema representa uma interferência que se alinha com as afirmações de Schechner (2003, p. 27-35):
Performances afirmam identidades, curvam o tempo, remodelam e adornam corpos, contam histórias. Performances artísticas, rituais ou cotidianas - são todas feitas de comportamentos duplamente exercidos, comportamentos restaurados, ações performadas que as pessoas treinam para desempenhar, que têm que repetir e ensaiar.
Performance, no sentido do comportamento restaurado, significa - nunca pela primeira, sempre pela segunda ou enésima vez: comportamento duas vezes exercido.
O conceito de comportamento restaurado ou comportamento por duas vezes exercido, como proposto por Schechner, pode ser encontrado em qualquer atividade cotidiana, dentre as quais as performances cômicas encenadas nas matanças. Nelas, o palhaço realiza uma interação com a assistência, responde à reação da plateia, aos estímulos que nela provoca, estabelecendo uma espécie de feedback, através do qual ganha novas forças.
Recuperar o passado através das repetições de algumas performances anteriormente executadas e trazendo-as para o tempo presente, com a possibilidade de serem transmutadas é uma tarefa que aproxima os palhaços até da prática xamânica; aí é quando se comportam como artistas, integrando um cerimonial, realizando práticas teatrais, acessando conhecimento novo ou perdido (Stevens, 1992). Acessar conhecimento perdido (estórias de antigas matanças), e recuperar esse conhecimento se configura como tarefa dos palhaços, através das matanças que realizam, o que os aproxima das técnicas presentes no xamanismo. Expandindo tais reflexões, explica Stevens (1992, p. 31):
Dificilmente uma pessoa permanece identificada e demasiado exaltada com determinada situação quando o humor está presente. Os xamãs sabem disso e ressaltam a importância de colocar o aspecto do humor em seu trabalho. Invariavelmente transformam-se em palhaços, representando um exercício com gestos impetuosos, danças e canto. Os antropólogos ocidentais achavam que os xamãs eram loucos, porque eles pareciam rir de tudo. Loucos, talvez; insanos, dificilmente. Apenas as pessoas verdadeiramente sãs são capazes de rir dos problemas dos seres humanos.
Nas matanças, os palhaços riem e fazem os outros rirem de situações cotidianas, presentes nas comunidades. Esses momentos são recuperados através de suas encenações, quando transformam até o trágico em cômico, promovendo com a sátira de determinadas cenas diárias uma espécie de distensão social diante das mesmas, o humor e o riso sendo utilizados para a liberação de emoções, até mesmo as mais reprimidas.
Através da ação repetitiva as matanças se remodelam, o que causa o seu fortalecimento, com o reforço de uma situação outrora vigente e que se repete nos dias de hoje, recuperada do passado através da memória oral. Afirma Schechner (2003, p. 28):
Performances são feitas de pedaços de comportamento restaurado, mas cada performance é diferente das demais. Primeiramente, pedaços de comportamento podem ser recombinados em variações infinitas.
O comportamento restaurado se revifica, adquirindo novos significados no momento atual através da recuperação de cacos de performances anteriormente executadas para que possa, dessa forma, “ganhar novas forças”, segundo Schechner. A repetição articula novos significados às matanças, que devem ser “de acordo com a tradição”, como diz o palhaço Maçã. O comportamento tradicional ou a repetição desse comportamento é tido, por alguns autores, no entanto, como algo superado. Sobre o assunto, informa John B. Thompson (2009, p. 159):
Tradição, se presume, é uma coisa do passado (em mais de um sentido) e “sociedades modernas” contrastam de um modo geral com “sociedades tradicionais” que as precederam. “Tudo o que é sólido se desmancha no ar”, é a famosa observação de Marx; e muitos outros pensadores, partilhando ou não a sua perspectiva, geralmente concordaram com o ponto de vista de que o desenvolvimento das sociedades modernas é acompanhado por um declínio irreversível do papel da tradição. Esta visão fez parte integral de várias teorias da modernização desenvolvidas nos
anos 50 e 60. E é uma visão que foi revitalizada em anos recentes, embora de maneira mais qualificada, pelos teóricos que afirmam que o desenvolvimento das sociedades modernas implica um processo de “desenraizamento das tradições”.
Neste capítulo quero questionar a propalada visão de que a tradição é uma coisa do passado. Tentarei mostrar que, se atentarmos para o impacto transformativo da mídia, chegaremos a uma visão bem diferente do caráter mutável da tradição e de seu papel na vida social.
Na matança ou comédia do Bumba-Meu-Boi de Peital tem que ter um cabeceira ou mandante, um vaqueiro do cabeceira, os ladrões (os palhaços) e os companheiros que auxiliam esses personagens na comédia. Os integrantes da matança fazem algumas reuniões prévias entre eles para decidir sobre os assuntos, combinarem sobre os temas a serem desenvolvidos nas apresentações. Depois disso, o mandante conta a estória, tira uma toada, geralmente fazendo uma pergunta sobre algum tema, e aí o vaqueiro responde à pergunta; nesse momento os palhaços vão se defrontar com os mandantes.
A cada ano novas matanças são imaginadas e desenvolvidas pelos integrantes da mesma, nas quais situações cômicas são exploradas. Palavras que possuem vários significados servem de mote para que se instaure a confusão nas estórias inventadas, provocando o riso. Como conta seu Maçã (2012):
Uma vez eu fiz uma matança onde um sujeito, querendo agradar à sua mulher, falou pra ela que iria separar umas coisas de suas posses, porco, galinhas, farinha, e outras coisas, para o Natal. Então esse homem separou as coisas e disse pra ela: pronto, vou deixar tudo aqui na porta de casa, agora acho que essas coisas já são o suficiente para Natal. Depois que ele falou isso, saiu pra trabalhar na roça. Passou umas horas e apareceu um palhaço na porta da casa da mulher, viu aquelas coisas reunidas e perguntou pra ela: pra quem são essas coisas? E a mulher respondeu que era pra Natal. Então o palhaço disse pra mulher: seu marido é muito bom de coração, é um grande amigo mesmo, então a senhora já pode me entregar as coisas, pois o meu nome é Natal. Então a mulher entregou tudo para o palhaço, que levou as coisas embora. Quando o marido voltou e não viu as coisas, perguntou onde ela havia guardado tudo. Então, a mulher contou o acontecido e o marido ficou louco de raiva: mulher, tu é doida? As coisas que eu separei era pra vender pra gente apurar um dinheiro para o Natal, que é uma festa que vai chegar. Então, todo mundo se ria dessas presepadas que a gente inventava.
Em busca da resposta à minha pergunta sobre como os palhaços do Bumba-Meu-Boi de Peital realizam a construção do discurso das performances cômicas, o texto de Thompson (2009, p. 159) é importante pelo fato de mostrar a
permanência da força da tradição na vida social das comunidades e elucidativo em vários aspectos, sobretudo no que se refere ao papel transformador da mídia nas sociedades. Indagado sobre como elabora as estórias que são encenadas nas matanças, seu Maçã surpreende ao informar que se utiliza da mídia para a construção das suas performances cômicas.
A cada ano os temas das matanças são mudados de acordo com a inspiração dos palhaços, que é variada, com assuntos extraídos de cenas do cotidiano, da vida real, de estórias transmitidas através da oralidade, de estórias de literatura de cordel, de notícias transmitidas pelo rádio, e até de filmes, novelas ou desenhos animados da programação da TV.Como depõe seu Raimundo Rodrigues, o Maçã (2012):
Se eu tô em meu trabalho na roça ou em casa, aí um dia chega o organizador do Bumba-Meu-Boi e me convida para ser palhaço na brincadeira dele, então a partir desse momento eu começo a imaginar a matança que vou fazer. Nos dias logo depois que recebo o convite eu fico prestando muita atenção em tudo que possa servir para eu fazer matança. Vou vendo alguma coisa na televisão ou escutando algum programa no rádio e a ideia vai aparecendo na cabeça da gente, o assunto. Aí amanhã eu já vejo outra coisa aqui em Marudámesmo, escuto alguém contando alguma novidade da cidade e vou emendando as coisas para fazer a estória. Eu também tenho algum ensino, estudei um pouco, sei ler, e algumas ideias eu tiro de alguns livros ou revistas. Às vezes a gente olha uma coisa, e aí tira a ideia; eu vi uma cena de uma briga de uma dona discutindo com outra cena no interior e elas começaram a se esculhambar. Uma dizia: tu és uma cunhã e a outra respondia, eu sou mesmo, aí eu tirei uma toada: “surulina mexe farinha / siricora peneira a massa / tem uma dona aqui dizendo / que tem pelado na praça” (risos). Se eu ouvia uma conversa de outra pessoa, e achava ela engraçada, ela acabava dando uma toada e, em cima da toada, a gente faz a brincadeira. Teve uma vez que uma cobra sucuri quase engole uma criança. Então um rapaz chamado Cândido fez uma cobra de buriti com uns 5 metros de comprimento, toda cheia com aqueles nós dela, então a cobra vinha com um bando de gente debaixo fazendo aquele movimento todo que parecia cobra de verdade, e então todo mundo queria ver a cobra engolir a criança, e a gente fez uma toada em cima disso. Já me convidaram pra brincar Boi em muitos lugares, alguns longe daqui, como em Santana dos Cabocos, mas eu já to velho, não ando mais pra muito longe.
Esse depoimento me surpreendeu mais uma vez, já que eu imaginava, a priori, incorrendo no erro das pré-noções, que as matanças realizadas pelos palhaços sofreriam mudanças apenas a partir de comédias anteriormente realizadas, tendo como base as matanças antigas presenciadas pelos atuais palhaços, quando jovens.
No passado, nem o rádio existia nas comunidades rurais de Alcântara. Após esse meio de comunicação ser introduzido nesses locais, começaram a mudar as relações pessoais existentes nas comunidades, fenômeno que se acentuou de forma dramática a partir da introdução da energia elétrica nos povoados e, com a eletricidade, a consequente introdução da televisão no cotidiano das pessoas, interferindo no processo das relações sociais entre os alcantarenses. Sobre a introdução das mídias nas sociedades e as transformações operadas por elas, mais uma vez esclarece John B. Thompson (2009, p. 159-160):
Antes do desenvolvimento da mídia, a compreensão que muitas pessoas tinham do passado e do mundo além de seus imediatos ambientes era modelada principalmente pelo conteúdo simbólico intercambiado em interações face a face. Para a maioria das pessoas, a noção de passado, do mundo além dos seus locais imediatos e de suas comunidades socialmente limitadas, das quais foram parte, era constituída principalmente através das tradições orais que foram produzidas e reproduzidas nos contextos sociais da vida cotidiana. Com o desenvolvimento da mídia, contudo, os indivíduos puderam experimentar eventos, observar outros e, em geral, conhecer mundos – tanto reais quanto imaginários – situados muito além da esfera de seus encontros diários. Eles foram incessantemente atraídos por redes de comunicação que não tinham mais um caráter de interagir face a face. Além disso, à medida que os indivíduos tiveram acesso aos produtos da mídia, eles puderam também manter certo distanciamento do conteúdo simbólico das interações face a face e das formas de autoridade que prevaleciam em seus contextos sociais. Para chegarem a um sentido de si mesmos e das possibilidades que lhes eram abertas, os indivíduos chegaram a confiar cada vez menos no conteúdo simbólico transmitido pelas interações face a face e pelas formas localizadas de autoridade. O processo de autoformação tornou-se mais reflexivo e aberto, no sentido de que os indivíduos recorriam cada vez mais aos próprios recursos e ao conteúdo simbólico transmitido pela mídia para chegarem a identidades coerentes para si mesmos.
Mas estes desenvolvimentos enfraquecem a tradição? Não necessariamente. Pois as tradições transmitidas oralmente continuaram a desempenhar um papel importante na vida cotidiana de muitos indivíduos. E mais, as tradições mesmas foram transformadas à medida que seu conteúdo simbólico foi sendo assumido pelos novos meios de comunicação.
Outros depoimentos, por sua vez, são mais reservados, mostrando que um alinhamento com relação à tradição também é observado. A repetição das performances também se baseia em estórias antigas, que são reformuladas, com acréscimos e cortes. Como informa seu Bijuca (2012):
Tiramos as ideias das comédias desde os tempos dos mais velhos, as histórias já tinham e a gente repetia, e todo ano a gente vai mudando as toadas e aí vamos ampliando pra atrair mais a atenção do povo. As primeiras matanças que nós fazia antes era muito diferente das de hoje.
Dantes, tinha macaco, cachorro, leão, jiboia, e pra cada bicho desses tinha uma estória diferente. No primeiro ano que trabalhei como palhaço fiz o papel de Leão, que ia devorar o ladrão que tinha roubado o Boi. A gente se rolava pelo chão, o mandante chamava a fera e se o ladrão, o palhaço não desse conta do Boi, a fera ia devorar ele, o ladrão. Nessa época não tinha televisão, a gente tinha mais tempo para pensar nessas coisas, inventar as estórias. Nessa época tinha até 20 palhaços ao todo nas comédias, com o nosso chefe de frente. Ele que roubava o Boi, que se fazia de brabo pra não pagar. O soldado, o delegado, os índios é que iam buscar quem não queria pagar o Boi, que voltava algemado, era muito bonita e demorosa a matança. Hoje não tem esse povo todo pra fazer a matança, os mais novos não querem mais. Sempre a gente trabalhava em cima da mesma estória, a gente sempre vinha todo ano mudando a estória, melhorando ela.
Essa declaração de seu Bijuca aponta para as reflexões interessantes. Com efeito, a partir da compreensão do que seja performance, creio que o que acontece atualmente com as matanças do Bumba-Meu-Boi de Peital é o que Schechner (2012) denomina de re-performance. O conceito contempla a ideia de algo que foi reconstituído, e ainda a pretensão de reconstituir algo (no caso das comédias que são preparadas em Peital, os palhaços tentam reconstituir as matanças perdidas) e não de novas interpretações sobre alguma encenação tida como original. Segundo Schechner (2012, p. 28):
Claro, as re-performances (os reenactements) não duplicam simplesmente a primeira apresentação, porque os públicos são diferentes, as circunstâncias sociais transformaram-se – tudo muda, menos o “espetáculo propriamente dito”. Ou mesmo isso também mudou, porque os corpos mudaram, as mentalidades...Em suma, as re-performances abrem uma janela para um passado imaginado que aparece insuflado de vida.
Esse trabalho de reconstrução de uma estória, de uma variação em torno de um mesmo tema encontra nos palhaços os atores sociais que carregam essa responsabilidade. Eles sabem que não reproduzem simplesmente algo que já foi feito antes, pois estão conscientes de que a memória, mesmo sendo acionada, não recupera tudo o que foi dito em matanças passadas. O texto, embora possa conter alguma coisa encenada anteriormente, nunca é reproduzido em sua totalidade. Segundo seu Bijuca (2012):
A realidade da brincadeira aqui em Alcântara é que hoje os palhaços vestem roupa de fofão, não tem cazumba aqui na nossa brincadeira. Tinha também no passado máscara de papelão que a gente pintava. Antes, as roupas eram feitas com saco de estopa, com folhas de bananeira ou daquelas folhas que a gente usa para fechar aboca de um paneiro de farinha. Agora, as máscaras são compradas em São Luís, são de plástico
mesmo, as coisas mudam sempre. As estórias também mudam de acordo com a situação, com a realidade que hoje é muito diferente de dantes. O menos que gasta para fazer uma matança é uma hora de relógio.Eu vou explicar as coisas. Olha, nós trabalha nas matanças, eu, Maçã, conforme os mandantes também. Nós faz a nossa parte. Se nós fazemos matança aqui agora, a gente combina antes com os mandantes. É tudo organizado, não é tirado de uma vez de nossas cabeças, e entre os mandantes e os vaqueiros também tudo é combinando; então eu dou uma ideia, o mandante dá a ideia dele, o vaqueiro dá outra, é assim dessa forma é que vai surgindo a matança. O Maçã foi quem me ensinou tudo o que sei. Tem umas coisas engraçadas, mas, que eu só ia entender depois de algum tempo, por exemplo, quando um palhaço me dizia: Quando é que o inverno começava aqui? E apontava para a parte de baixo dele (risos) eu não entendia, até que eu entendi o que ele queria dizer. A gente às vezes tenta se lembrar como a gente falava antes, como se dizia as coisas uns para os outros, mas, não dá pra gravar tudo, aqui não tem gravador, ninguém filmou. Então, a gente faz tudo de novo de forma diferente, entendeu?
O depoimento de seu Bijuca é muito enriquecedor; quando ele afirma que eles fazem tudo de novo de forma diferente o palhaço está comprovando a afirmação de Schechner (2012), que diz que as re-performances não reproduzem simplesmente a apresentação anteriormente realizada, informando que até o próprio espetáculo muda, já que as mentalidades também se modificam, não esquecendo ainda que até o figurino dos palhaços, incluindo as máscaras, de acordo com seu Bijuca (2012), sofreram modificações ao longo do tempo.
O palhaço sempre participa de forma indissociável do processo, pois sempre dá uma ideia para que as matanças sejam criadas. Esse depoimento indica que os palhaços do Bumba-Meu-Boi, além de atores, são também autores do texto