III. Problematizando as Políticas de Identidade: A Posição da Psicanálise
3.4 A Crítica de Žižek as Políticas de Identidade
3.4.2. As Políticas de Identidade como Ideologia
Na revisão bibliográfica sobre a pós-modernidade verificamos que a crença na morte de toda e qualquer ideologia, sobretudo a ideologia marxista, fora um dos terrenos nos quais se fundou a noção de um novo período histórico e que influenciou as políticas de identidades, surgidas então em um contexto de alternativa de luta ao invés do “velho” conceito de classe. Nosso posicionamento é de que tal premissa é tão ideológica quanto qualquer outra e convocamos o trabalho de Slavoj Žižek para sustentá-lo. Na contramão de acreditar no “fim da história’’ com um capitalismo ad eternum, Žižek (1996) retoma o conceito de ideologia e o faz através de textos clássicos que versam sobre a o conceito.
Para o autor, a ideologia - como fantasia fundamental que dá suporte a realidade - é preciso ser encarada/assumida no campo da política sem perder de vista a relação com o mercado. Ora, sob este princípio, do mesmo modo que podemos afirmar que a perseguição aos homoeróticos é ideológica, adiantamos de logo que sim, a defesa das lutas LGBTs (e de qualquer luta particular) é também ideológica, fato que não guarda nenhum viés pejorativo, pois sabendo que se trata de ideologia podemos balizar com uma ética.
Mas antes cabe definirmos melhor o conceito de ideologia. Para Žižek a ideologia nada tem a ver com a forma distorcida da verdade, com a “ilusão”; apóia-se em Lacan para dizer que a verdade tem estrutura de ficção. Portanto, mais do que confundíveis, mesclam-se
entre conteúdos verdadeiros/objetivos e crenças. Aqui o autor começa “a dar pistas” de outra definição da clássica ideologia marxista (como falsa consciência da realidade social), mas também sem descartá-la desta mesma função.
Na visão do autor o que importa como critério para analisarmos o campo ideológico é como o conteúdo serve para legitimar a exploração e a dominação, aspectos que sempre ficam ocultos. “Em outras palavras, o ponto de partida da crítica da ideologia tem que ser o pleno reconhecimento do fato de que é muito fácil mentir sob o disfarce da verdade” (Žižek, 1996:14). Assim, parecem incontestáveis os dados sobre o estilo de vida gay, com descrição “clara” da relação destes com as drogas e comportamentos de risco, reportados pela a imprensa e até mesmo por relatórios dos órgãos de saúde.
A primeira abordagem da ideologia que o autor oferece é a transposição histórico- dialética hegeliana do problema para sua própria solução. Fazendo um paralelo com Hegel quando este analisou a religião como ideologia (dividindo-a em doutrina, crença e ritual), Žižek - a propósito de distanciar a ideologia do relativismo histórico – também lança mão de três categorias/concepções de ideologia e das diferentes maneiras de se fazer crítica a estas.
A primeira noção apresentada traz a ideologia como conjunto de idéias, crenças e conceitos destinado a nos convencer da sua “veracidade”, mas na verdade servindo a algum interesse particular de poder. O objetivo da crítica aqui é fazer a leitura dos sintomas, ou seja, denunciar a tendenciosidade não reconhecida não texto oficial, através de suas lacunas, rupturas e lapsos. O autor deixa claro que não se trata de uma “análise do discurso” (stricto sensu) – à medida que esta seria igualmente ideológica – mas, (des)aprender uma formação discursiva como um fato extradiscursivo. Vejamos, por exemplo, as pesquisas de opinião em relação à comunidade LGBT, que neste sentido revelam mais uma manutenção do controle ideológico do que uma real crença na própria opinião proferida; ou seja, sabe-se que os gays possuem família, trabalham e podem ser ótimos pais. Porém, reconhecer isto é legitimá-los. Assim, a sociedade continua negando os direitos iguais aos LGBTs, alegando (paradoxal e estranhamente) que ela não está preparada para reconhecê-los como iguais, mantendo-se um preconceito imanente, impossível de localizar.
Além de manter o poder, a ideologia em uma segunda concepção tem de ser pensada em um contexto onde não se trata de interpretar o conteúdo como idéia “falsa” da realidade (escola de Frankfurt), nem ao menos “deixar que os fatos falem por si” (Michel Pêcheux), mas de analisar a fantasia que dá substância a tal “realidade”. Žižek exemplifica tal manobra
com o filme “O Grito Silencioso”, documentário que mostra fotos e ultrassons onde “se vê” que os bebês “gritam” e “tentam se defender” no momento em que são abortados.
Por último, Žižek analisa a ideologia segundo Laclau, onde seus elementos funcionam como “significantes” soltos, cujos sentidos são fixados por seu modo de articulação hegemônica. Para exemplo, faz um exercício com o tema da ecologia, perpassado por diferentes ideologias. Assim, teríamos: a ideologia conservadora, que defenderia o estilo das comunidades rurais e o retorno do modo tradicional de vida; a ideologia estatal, que afirmaria a regulamentação estatal como capaz de salvar o planeta da catástrofe iminente; a ideologia feminista, que responsabilizaria o homem e seu poder fálico insaciável pela destruição do mundo. O autor segue apresentando “incontestáveis” dados de acordo com os seus princípios norteadores. Žižek se pergunta como, neste contexto, localizar a verdade, e logo conclui: “A questão é que nenhum destes encadeamentos é ‘verdadeiro’ em si, inscrito na própria natureza da problemática ecológica” (Žižek 1996:17-18). Terá status de verdade o discurso que através de “alianças” alcançar a hegemonia. Também fora através da hegemonia de poderes, afixados em significantes médicos, legais, militares, psicológicos e tantos outros, que foi “provado” quão patológico, incorreto, imoral e ilegal é o comportamento homoerótico, proporcionando durante toda a história a “caça às bruxas” a tais desviantes. Em contraponto, na atualidade, a identidade e o estilo de vida marcam a comunidade LGBT com significantes como sensíveis, cultos, ‘modernos’, antenados etc.
Žižek discute também a questão da materialidade da ideologia. Para tanto, recorre à concepção de Pascal sobre a fé, que é o que melhor retrata esta ideologia “material”. Pascal acreditava que o fato de se ajoelhar e fazer a “cena de reza” faria com que os sujeitos viessem a ter fé. Aproxima-se muito da noção do “fazer política” na lógica da visibilidade das Paradas LGBTs, em que não é preciso ter discurso político ou fazer “velhos” protestos; aglomerar milhões de pessoas em uma passeata transforma todos os presentes em aderentes confessos da causa.
O autor critica Althusser (com a sua teoria sobre os Aparelhos Ideológicos de Estado) e Foucault (os micro-poderes), para quem a ideologia deixa de ser um mecanismo homogêneo, “cimento” de toda estrutura social, mas um campo vasto de componentes e forças, uma família onde seus membros são interligados, mas heterogêneos. Dentro desta linha, o autor localiza também a Tese da Ideologia Dominante (TID), onde a Ideologia penetra (através dos meios de comunicação) em todo corpo social, e, portanto, perderia seu peso, ou seja, a reprodução social confiaria mais na coerção (normas legais do Estado, etc.) do
que nas crenças e convicções ideológicas. Somente a “realidade social” desmascararia a ideologia. Žižek aponta que exatamente aí não poderíamos estar sendo mais ideológicos:
Primeiro, os mecanismos da coerção econômica e da norma legal sempre ‘materializam’ propostas ou crenças que são intrinsecamente ideológicas. (...) Segundo, a forma de consciência que se adapta à sociedade ‘pós-ideológica’ do capitalismo tardio – a atitude cínica e ‘sensata’ que advoga a ‘fraqueza’ liberal em matéria de ‘opiniões’ (todo mundo é livre para acreditar no que bem quiser e isto só diz respeito à privacidade), que desconsidera as expressões ideológicas patéticas e segue apenas motivações utilitaristas e/ou hedonistas – continua a ser, stricto sensu, uma atitude ideológica: implica uma série de pressupostos ideológicos (sobre a relação entre ‘valores’ e a ‘vida pessoal’, a liberdade pessoal etc.) necessários à reprodução das relações sociais existentes. (Žižek 1996:20) [grifos nossos].
Seguindo os três campos em que Žižek tratou a ideologia (crença, AIE, realidade social) cabe perguntar: toda realidade é social? Estaríamos amputados de qualquer verdade? O que poderia nos balizar para apostas políticas? Estaríamos de novo no primado do relativismo?
Žižek acusa exatamente esta linha de raciocínio de ter propiciado os argumentos, típicos dos pós-modernistas, para se abandonar a crítica à ideologia. Todavia, o problema é que quando fazemos a crítica ideologia, geralmente estamos sendo outra vez ideológicos. A solução seria tentar sustentar a tensão para manter a crítica, pois uma solução completa, uma vez estabelecida, seria tão passível de crítica quanto sua anterior. E como não ser novamente ideológico ao fazer isto?
(...) a ideologia não é tudo; é possível assumir um lugar que nos permita manter distância em relação à ela, mas esse lugar de onde se pode denunciar a ideologia tem que permanecer vazio, não pode ser ocupado por nenhuma realidade positivamente determinada; no momento em que cedemos a essa tentação, voltamos à ideologia. (Žižek, 1996:22/23) [grifos nosso].
E qual é o lugar vazio? Para responder, o autor constrói uma linha de raciocínio – complexa e de uma dialética costumas em Žižek - que segue o percurso do mapa até este momento: retoma novamente Althusser e o “complementa” com a teoria de Lukács, sobre a organização “espontânea” da sociedade pela via do mercado. Analisa também a questão do cinismo – característico no capitalismo tardio – que sustenta algo de uma perversão (o rei está nu, todos sabem, mas continuam agindo como se não soubessem). Nos conta ainda que geralmente é só dentro de outra ideologia que o indivíduo consegue apontar a ideologia (ele sempre requer outro corpo de opiniões).
A matriz formal de várias ideologias é a fantasia que suplementa a realidade. O autor retorna a Lacan para dizer que a realidade não é “a própria coisa”, mas sim aquilo que já está simbolizado. A ideologia é a fantasia que sutura o real (a coisa em si) e o simbólico (a
“realidade social”). “Dito de forma simples, a realidade nunca é diretamente ‘ela mesma’; só se apresenta através da sua simbolização incompleta/falha”. (Žižek 1996:26). A realidade, tal como a verdade, nunca é, por definição, “toda”.
No âmbito social Žižek aponta que é a luta de classes - não exatamente como concebe Marx, mas como o antagonismo indissolúvel, algo do Real lacaniano – que impede, sempre, o fechamento “harmonioso” do sistema social. Descreve vários exemplos ideológicos que buscam tamponar este real (a paz – que na verdade é a vitória temporária de um dos lados; o movimento yin-yang; o discurso da ciência; a crença no homem e na mulher como complementares etc.). Todos de alguma forma são fantasias, ideologias que buscam tamponar o conflito inerente, o antagonismo. Assim também pode ser interpretada a paranóia de que os gays querem acabar com os “valores da família” e de que almejam uma liberdade que nem mesmo os heterossexuais têm, como argumentam os conservadores. Algo tem que ser foracluído/expulso do real para que se dê a manutenção social. É este ‘algo’ que retorna como sintoma: a homofobia.
E não é só pela via do sintoma, que obedece aqui a mesma lógica do sintoma psicanalítico, que Žižek aposta na psicanálise para fornecer/complementar a teoria marxista da ideologia. Convoca a análise da relação súditos-líderes da psicologia das massas como exatamente aquilo faltou ao marxismo e retoma a relação dos conceitos Real/simbólico lacaniano para analisar o que fica de fora: o sintoma, exatamente que a ideologia vem recobrir. Sobre o sintoma social,diz o autor: “Marx ‘inventou o sintoma’ (Lacan) mediante a identificação de uma certa fissura, de uma assimetria, de um certo desequilíbrio ‘patológico’ que desmente o universalismo dos ‘direitos e deveres’ burgueses. (Žižek 1996:300).
Žižek aponta o triunfo do cinismo na contemporaneidade, onde não é que “eles não sabem o que fazem” – como acreditava Marx – “eles sabem é continuam fazendo mesmo assim”. O mundo submetido ao império do cinismo seria então pós-ideológico? Para responder, Žižek faz uma distinção entre sintoma e fantasia. A ideologia seria a estrutura, a própria realidade social, onde a fantasia fundamental, o cinismo, ficaria intacta:
O cinismo [cynicism] é a resposta da cultura dominante a essa subversão cínica [Kynical]: ele conhece, leva em conta o interesse particular que está por tráz da universalidade ideológica, a distância que há entre a máscara ideológica e a realidade, mas ainda encontra razões para conservar a máscara. Esse cinismo é uma postura direta da imoralidade; mais parece a própria moral posta a serviço da imoralidade – o modelo da sabedoria cínica é conceber a probidade e a integridade como uma forma suprema de desonestidade, a moral como uma forma suprema de depravação, a verdade como a forma mais eficaz da mentira.. (Žižek 1996:313).
Althusser acreditava que a ideologia interpelava o sujeito desde sempre (na família, educação etc) através dos seus Aparelhos Ideológicos de Estado. Žižek acrescenta que isto só acontece porque a força dos AIE é vivenciada na economia inconsciente do sujeito, como uma promessa de reparo a sua castração, traumática e sem sentido. Onde gozo, ouço sentido! É a brincadeira que Žižek faz para explicar como o sujeito se mantém preso à ideologia:
Essa é a dimensão desconsiderada na explicação althusseriana da interpelação: antes de ser captado na identificação, no reconhecimento/desconhecimento simbólico, o sujeito($) é captado pelo Outro através de um paradoxal objeto-causa do desejo em meio a isso, (a), mediante o segredo supostamente oculto no Outro: $◊a- fórmula lacaniana da fantasia. Que significa, mais exatamente, dizer que a fantasia ideológica estrutura a própria realidade: ela é. Como certa vez disse Lacan, o suporte que dá coerência ao que chamamos de ‘realidade’. (Žižek, 1996:322).
A ideologia não é a ilusão “válvula de escape”, mas oferece a fuga de algum núcleo do real traumático, construindo a “realidade social”. No entanto, para além deste sujeito da extrema alienação “(...) a tese de Lacan, pelo menos nos seus últimos trabalhos, é de que existe uma possibilidade de o sujeito obter alguns conteúdos, algum tipo de consciência positiva, também fora do grande Outro, da rede simbólica alienante”. (Žižek 1996:324).
A ‘saída’ seria se aproximar do desejo. A única maneira de romper com a ideologia é confrontar o real do nosso desejo. A ideologia só “nos pega” quando não sentimos nenhuma oposição entre ela a realidade. E, para tanto, ela sempre busca argumentos a seu favor, um constructo ideológico que busca forjar a realidade. A crítica da ideologia deve apontar a imagem de “universal” que se esconde na dominação particular do indivíduo burguês. Esta universalização ultra-rápida de uma imagem tem a função da dominação sócio-simbólica histórica, um real que sempre retorna. Neste sentido, saber o quão ideológico é o movimento LGBT não impede o sujeito de lutar pelos seus direitos; ao contrário: ao invés de alienar-se no ideal do Outro - promessas de mercado, adequação ao estilo de vida e a própria liderança do Movimento LGBT – que ele possa se comprometer com as mudanças que deseja, mantendo uma posição crítica e responsável, e podendo, inclusive, desistir/derrubar este ponto de articulação no qual se ligou e investiu, sem desistir do que quer.
O marxismo não conseguiu levar em conta o objeto a como este objeto a mais, como resto do Real que escapa à simbolização, ainda que Marx apontasse certa encarnação do mais- gozar, quando afirma sobre o limite lógico-histórico do capitalismo, “o limite do capital é o próprio capital, isto é, o modo de produção capitalista”. A primeira leitura histórica é que o
capitalismo, através da tecnologia, seria como uma cobra capaz de trocar sua pele quando preciso. Desta maneira, ele é eterno:
Nisto reside o paradoxo característico do capitalismo, seu último recurso: o capitalismo é capaz de transformar seu limite, sua própria impotência, na fonte de seu poder – quanto mais ele ‘apodrece’, quanto mais se agrava sua contradição imanente, mais ele tem que se revolucionar para sobreviver. (Žižek, 1996:329).
Tal mote, no entanto, não impossibilita o sujeito de se posicionar criticamente dentro do sistema, de questioná-lo constantemente pelos seus furos, de contextualizá-lo com as outras lutas em uma frente contra qualquer exclusão. As políticas de identidade podem servir como este modo de luta contra a violência. Entretanto, manterão núcleos de exclusão se não levarem em conta as questões de classe envolvidas no grupo.
Voltaremos a discutir a teoria de Žižek correlacionando com as entrevistas feitas com os membros da APOGLBT no próximo capítulo. O que se buscou até este momento foi apresentar por dois eixos falhas estruturais nas P. I. concebidas como políticas de Estado, objetivo último na resolução de conflitos ou correção histórica. Abaixo apresentaremos a Teoria Queer, não somente para destacar sua relevância no âmbito acadêmico-político atual, mas também para diferenciá-la da proposta da psicanálise lacaniana como a concebemos.