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As Políticas Sociais no Brasil entre 1964-1985

CAPÍTULO 3 PARADIGMAS DISTINTOS DE BEM-ESTAR NO BRASIL

3.2 As Políticas Sociais no Brasil entre 1964-1985

De acordo com Grin (2013) a consolidação e a expansão do regime de bem-estar social no Brasil teve início pós-1964, sob a égide de um governo autoritário. A condução da política social após 1964 ocorreu comprimindo cada vez mais a universalização dos direitos sociais e também do respeito aos direitos civis, e aprofundando um modelo econômico por excelência concentrador de renda e socialmente excludente. Nestes termos, os problemas sociais urgentes como o financiamento da saúde e a ampliação da

oferta de serviços essenciais passaram a segundo plano. Estas são algumas das características marcantes do Estado do Bem-Estar no Brasil no imediato pós 1964 Draibe (1994) apud Grin (2013, p. 271) que por sua vez citou Fagnani (1997) afirmou que:

As políticas sociais ancoraram-se no arrocho salarial, no cerceamento às organizações e na exclusão social. Havia um nexo entre regime político, padrão de acumulação capitalista e política social carente de critérios para universalizar direitos. A agenda social era subordinada à modernização da economia, no que Draibe (1994) chamou de “reforma conservadora” políticas sociais pós-1974. O regime militar buscou equilibrar redução de despesas e ampliação de objetivos redistributivos ao “redescobrir” a pobreza.

O fato é que as políticas sociais foram pouco inclusivas e tiveram baixo impacto redistributivo. Ademais, apesar da existências de poucos programas os mesmos eram restritos quanto à universalidade, carentes de seletividade e mal focados nas camadas mais necessitadas (DRAIBE, 2003; DRAIBE; AURELIANO, 1989 apud GRIN 2013). “Diferentemente do regime social democrata europeu, as políticas sociais do regime militar não foram universais e carregaram a herança da cidadania regulada e da estratificação ocupacional”. Não foi concedida a política social como um direito e não se integraram a participação social e democracia na construção da cidadania nacional. Se até 1964 havia a cidadania regulada, no regime militar os patamares de cidadania estiveram aquém do mínimo de justiça.

Segundo Pinheiro Júnior (2014), apud Fanai (1997), nesse período pode-se enumerar cinco principais características nos setores que foram objeto de intervenção do governo autoritário: regressividade dos mecanismos de financiamento; centralização do processo decisório; privatização do espaço público; expansão da cobertura e reduzido caráter redistributivo.

Na regressividade dos mecanismos de financiamento a política de financiamento foi restritiva com os recursos fiscais e prevaleceu as fontes autossustentáveis. A redistribuição ficava em segundo plano, ou seja, não era uma preocupação de prioridade pois, o foco estava mais direcionado para o crescimento econômico. Os setores mais afetados com a regressividade foi: o setor habitacional, em que era financiado pelo FGTS e pela poupança, fundos que eram regulados pelo mercado e pelas fontes autossustentáveis, o que ocasionava um impacto na grande maioria da população que tinha um nível baixo de renda; o setor previdenciário, que era financiado pela união, por

meio do Fundo de Assistência e Previdência Social3; a saúde pública, suplemento alimentar e o transporte público que era totalmente dependente do Tesouro, se tornando assim marginalizados; e na educação o cenário na esfera federal, estadual e municipal estes compartiam a competência de fomentar a educação do 1ₒ e 2ₒ grau, com vinculação constitucional através de recursos de financiamentos fiscais, “fazendo com que os governos subnacionais fossem os principais responsáveis pela área”. (FAGNANI, 1999

apud PINHEIRO JÚNIOR, 2014, p.7).

A centralização do processo decisório com a participação das esferas subnacionais fazia com que houvesse uma ausência de controle social. Isso ocorreu pelo fato de que a reforma tributária foi tracejada na concentração do “bolo” nacional e nas transferências negociadas e numa forma administrativa e sistematizada na expansão das empresas públicas que utilizavam a receita própria para se manterem. De acordo com Pinheiro Júnior (2014) apud Fagnani (1997), a ampliação das bases de financiamento com a criação de fundos fiscais foi marcada na esfera política pelo controle da esfera federal para o financiamento de políticas e de uma burocracia federal com muitos poderes para determinação das políticas sociais.

A privatização do espaço público foi muito doloso, pois o mesmo propiciou a criação de mercados cativos dentro da área pública com superfaturamento, uma vez que havia o favorecimento de determinados agentes dentro do poder público e em contrapartida, esses setores empresariais financiavam os governos. Na área da saúde, por exemplo, essa privatização fomentou a difusão de serviços não necessários, mas que pagavam melhor, ocasionando assim a falta de controle e a elevação dos custos. No caso da educação, ocorreu em todos os níveis, do mais básico até o superior, o que promoveu um grande aumento dos custos nessa área, além da contratação de professores sem preparo. No setor habitacional, a privatização favoreceu empresas para a construção de casas populares. No saneamento básico, os investimentos estavam mais voltados à satisfação do segmento empresarial (construção civil) que da coletividade. Assim, essas práticas de interferência provocaram o clientelismo como indicações a cargos públicos, empreguismo, oferta assistencialista de serviços, dentre outros favores. (FAGNANI, 1997

apud PINHEIRO JÚNIOR, 2014, p. 8).

No que tange à expansão da cobertura social, baseou-se no aumento dos serviços oferecidos, influenciando na maior capacidade de intervenção do governo nas esferas sociais. Na previdência, um crescente aumentou do número de segurados inativos urbanos. Na saúde, aumento das internações e consultas. Na educação, aumento efetuado de matrículas da escolarização de sete a quatorze anos e maior cobertura ainda nos setores de nutrição, habitação e saneamento. Segundo (FAGNANI,1999, apud PINHEIRO JÚNIOR 2014, p.8).

Na última característica do setor analisado pelo o autor citado anteriormente, ficou registrado que o baixo caráter redistributivo ocorreu em várias áreas: na previdência, se refletiu com o baixo valor dos benefícios dados de acordo com a contribuição dos beneficiados, com privilégio a certas categorias e limitada cobertura do trabalhador rural. Na saúde, os investimentos se deram na maior parte nas áreas desenvolvidas, pela alta mortalidade e epidemias em consequência da miséria. Na área da educação, se refletiu na piora da escolarização da base, baixa eficácia do ensino fundamental (evasão e repetência), baixos salários dos professores, na sua capacitação e diminuição na oferta de equipamentos. Na habitação, uma parcela pouco significativa do Sistema Financeiro da Habitação (SFH) foi destinada a famílias de baixa renda; altos subsídios dados à classe alta. No saneamento, baixa parcela das residências servidas por uma rede geral de esgotamento sanitário, negligenciando-se ainda as regiões menos desenvolvidas como o Norte e Nordeste do país.

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