2. HA-JOON CHANG E OS DEGRAUS DO DESENVOLVIMENTO
2.1. AS POTÊNCIAS CHUTANDO A ESCADA
Existe uma cartilha, uma “receita de bolo” para um país se tornar desenvolvido? É bem possível que exista uma estratégia ou atitudes que tenham levado os países hegemônicos a ganhar espaço no cenário internacional. No entanto, com certeza, esses fatores não são congruentes aos citados pelas nações desenvolvidas. Como bem coloca Chang, logo no início de seu livro, as políticas prescritas pelo Consenso de Washington62 seriam
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Ha-Joon Chang (n. 1963), economista sul-coreano, é professor da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, desde 1990, e diretor-adjunto do Departamento de Estudos sobre Desenvolvimento. Chang vem sendo considerado um líder da nova geração de economistas heterodoxos que tentam revitalizar os trabalhos e debates na área de desenvolvimento econômico.
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HA-JOON CHANG. Chutando a Escada: a estratégia do desenvolvimento em perspectiva histórica. São Paulo: Editora UNESP, 2004. Em 2003, o livro, cujo título original em inglês é Kicking away the ladder: development strategy in historical perspective, foi o vencedor do Prêmio Gunnar Myrdal, dado pela EAEPE (European Association for Evolutionary Political Economy) para a melhor publicação.
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O Consenso de Washington foi criado em 1989, através de um encontro conhecido como Latin American Adjustment: How Much has Happened. Nesse evento, reuniram-se diversos economistas latino-americanos de perfil liberal, funcionários do Fundo Monetário Internacional (FMI), Banco Mundial e Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e do governo norte-
consideradas apropriadas, segundo seus formuladores, para elevar uma nação à categoria de país desenvolvido. Mas será mesmo que políticas macroeconômicas restritivas, liberalização do comércio internacional e dos investimentos, privatização e desregulamentação fariam um país crescer e progredir? Dificilmente, como bem mostrará o autor:
Atualmente, os países em desenvolvimento estão sofrendo uma enorme pressão, por parte das nações desenvolvidas e das políticas internacionais de desenvolvimento controladas pelo establishment, para adotar uma série de ‘boas políticas’ e ‘boas instituições’ destinadas a promover o desenvolvimento econômico. (...) ‘Instituições boas’ são, essencialmente, as existentes nos países desenvolvidos, sobretudo nos anglo- saxônicos. Entre as instituições-chaves, incluem-se a democracia, a burocracia ‘boa’, o Judiciário independente, a forte proteção aos direitos de propriedade privada (inclusive intelectual) e uma governança empresarial, transparente e orientada para o mercado, assim como instituições financeiras (inclusive um banco central politicamente independente)63.
Chang questiona se as políticas e instituições recomendadas são realmente as devidas para gerar o desenvolvimento. Porém, o interessante não é o questionamento em si, mas sim a forma com que o autor propõe esse debate. Para ele, não basta inferir que a ‘cartilha’ está incorreta. É preciso, na verdade, demonstrar que, na época em que estavam se desenvolvendo, os Países Centrais da atualidade não fizeram uso dessas medidas que eles profetizam como necessárias. Afinal, essa é a melhor forma de provar que esse ‘método’ – por eles imposto – não dá certo.
Faz-se mister diferenciar, assim como Chang o faz em seu livro, política e instituição. Para o autor, as instituições são mais duradouras e permanentes, enquanto as políticas são mais moldáveis, adaptáveis, cambiáveis. A política é a arte de dirigir as relações entre os Estados, através de princípios que orientam a atitude administrativa de um governo. Dessa forma, podemos americano. Por decisão do Congresso norte-americano, as medidas do Consenso de Washington foram adotadas como imposições na negociação das dívidas externas dos países latino-americanos. Acabaram se tornando o modelo do FMI e do Banco Mundial para todo o planeta. De outro lado, movimentos nacionalistas e de esquerda criticam essa política e protestam contra sua aplicação.
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entender a política como sendo o conjunto de objetivos que servem de base à execução das atividades de responsabilidade do Estado. Paralelamente, o conceito de instituição vem do ato de instituir, ou seja, denota uma fundação, um estabelecimento, um instituto e, até mesmo as leis fundamentais que regem uma sociedade.
Chang vai questionar se realmente foram as políticas de laissez-faire e o estado mínimo – completamente contrários a Lei de Wagner64, por exemplo – que ajudaram o desenvolvimento da Grã-Bretanha – e, em contrapartida, se foi a falta delas que atrasou a França. Irá perguntar também se os Estados Unidos passaram pela Crise de 1929 porque aplicou o protecionismo e se a lei de patentes é realmente tão importante para o desenvolvimento das atividades intelectuais, das pesquisas e das exportações. Os estudos históricos de Chang apresentados ao longo do livro, demonstraram que as políticas “boas” recomendadas aos países em desenvolvimento não fizeram parte do processo de desenvolvimento dos países desenvolvidos:
Mesmo em termos superficiais, não faltam indícios e evidências históricas fragmentárias sugerindo o contrário. É possível que alguns saibam que, contrariamente à sua natureza nos séculos XVIII ou XX, o Estado francês do século XIX foi essencialmente conservador e não-intervencionista. Também é provável que estejam informados sobre as elevadas tarifas praticadas pelos Estados Unidos, pelo menos a partir do fim da Guerra de Secessão. Uns poucos terão ouvido dizer que o banco central norte-americano, o Federal Reserve Board, foi criado bastante tardiamente, nada menos que em 1913. E é possível que uma ou duas pessoas saibam até que, no século XIX, a Suíça se alçou à categoria de líder mundial em tecnologia sem contar com uma só Lei de Patentes65.
Como é possível constatar durante a leitura, Chang faz usa da história de diversos países, hoje considerados desenvolvidos – os PADs – quando estes estavam em suas fases de desenvolvimento. A partir de tais exemplos, constata que estas nações, à época, não tinham nem políticas e nem
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Cabe lembrar aqui a famosa Lei de Wagner (Adolph Wagner), de acordo com a qual, há uma tendência natural ao aumento do tamanho relativo do governo com o desenvolvimento da sociedade humana.
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instituições boas, pelo contrário. Chang deixa claro também que, grande parte dos PADs, no passado, foram verdadeiras ditaduras e aplicaram políticas contrárias ao que historicamente afirmam ter usado. Além disso, estes mesmos países investiram maciçamente em pesquisas, educação, infra-estrutura e concessão de terras, o que nos faz perceber que a “cartilha” redigida por eles, de fato, é um contra-senso ao próprio exemplo que eles dão.
Na verdade, o que Chang deseja saber é “o segredo do sucesso” que, de acordo com ele, os países desenvolvidos escondem. São diversos elementos de informação histórica compilados pelo autor, o qual deseja provar as contradições entre o que os desenvolvidos fizeram (e fazem) e o que eles ‘mandam’ fazer. E fica então a questão: como os países ricos enriquecem realmente? De fato, a melhor resposta para essa pergunta é “eles não seriam o que são hoje se tivessem adotado as políticas e as instituições que agora recomendam às nações em desenvolvimento”66. Os países recorreram ativamente às políticas comerciais e industriais tão condenadas por eles atualmente. Eles protegeram à industria nascente e raramente possuíam instituições como os bancos centrais e a responsabilidade limitada.
Como se pode perceber, ao que parece, as nações desenvolvidas estão apenas tentando dificultar o acesso dos países em desenvolvimento às políticas e instituições que elas implementaram no passado e que garantiram deu real desenvolvimento econômico. Sim, as potências estão tentando “chutar a escada”.