O objetivo deste capítulo é, a partir das análises teóricas desenvolvidas nos capítulos anteriores, abordar criticamente alguns dos indicadores de desenvolvimento mais utilizados e difundidos, suas utilidades, aplicabilidades, particularidades e limitações.
Na primeira parte, abordarei o Produto Interno Bruto, sua história, suas características e suas restrições. Já na segunda parte, farei a análise de diversos indicadores, a partir da perspectiva dos autores tratados neste trabalho. Primeiramente, abordarei os indicadores que estão alinhados a temas ligados a sustentabilidade, correlacionados à perspectiva de desenvolvimento de Furtado. Num segundo momento, tratarei de indicadores que mensurarão questões abordadas por Chang, no segundo capítulo. E, por fim, tecerei comentários sobre os indicadores que fazem referência aos assuntos discutidos por Sen, e relatados no terceiro capítulo. Por último, tratarei dos indicadores que visam uma compreensão mais completa do desenvolvimento e, em seguida, sugerirei um indicador alternativo, que incorpore os preceitos fundamentais de sustentabilidade ambiental, instituições em favor do desenvolvimento e liberdades democráticas.
O propósito deste trabalho não é o de esgotar a discussão acerca dos indicadores de desenvolvimento, muito menos o de sugerir o indicador perfeito. Deseja-se pesquisar dentre os indicadores existentes aqueles que realmente buscam entender a realidade de forma mais sensível e mais profunda. O indicador aqui proposto nasce como fruto do presente trabalho, ou seja, trata- se de um indicador que nascerá desta confluência de idéias, dessa comunhão de informações colhidas através da pesquisa.
Diversas são as tentativas de elaborar um indicador capaz de captar a realidade, de forma a espelhar o que de fato acontece. Na minha perspectiva deveria ser este dotado de sensibilidade, de forma a que conseguisse captar as nuances da democracia, os pilares das instituições de desenvolvimento e o grau de liberdade e democracia de uma sociedade. Mas como fazer isso?
Em primeiro lugar, analisaremos o PIB, Produto Interno Bruto (a Tabela 05 mostra o PIB para os BRICs nos últimos sete anos), indicador muito simples e eficiente. Utilizando a definição divulgada pelo IBGE, o PIB consiste em “um indicador que mede a produção de um país. Ele permite examinar o desempenho da economia do país com detalhes. O PIB leva em conta três grupos principais: a agropecuária, a indústria e os serviços”123.
O PIB é utilizado como um indicador base para diversas teorias e constatações científicas e, no meu entender, de forma muito limitada, como se depreende da análise dos autores estudados. E é exatamente isto que se quer pôr em pauta, pois trata-se de um indicador limitado.
O PIB, como já foi dito, é um indicador raso e direto. Não foi criado para medir o progresso, nem o bem estar, nem a qualidade de vida. Criado na década de 1930, por Simon Kuznets124, continua sendo um indicador importante do desenvolvimento econômico de um país. Como já foi dito, o PIB visa medir o crescimento econômico. Obviamente, é possível entender o crescimento econômico como meio para se obter estes outros fins. Como se viu, o desenvolvimento econômico, por outro lado, não garante que esses fins sejam alcançados. Ele é apenas um dos ingredientes, mas nem sempre tem impactos no bem comum. De fato, na atmosfera em que foi criado – entre as Grandes Guerras Mundiais – sua concepção continha bastante relevância: medir a produção de mercadorias e capital fixo, permitindo, desta forma, a comparação entre as produtividades nacionais.
Muitos são os questionamentos que podem ser suscitados com base na superficialidade do PIB, como por exemplo, as críticas feitas por Hazel Henderson125:
123
IBGE - Vocabulário. [online] Disponível em:
<http://www.ibge.gov.br/7a12/voce_sabia/vocabulario/vocabulario.php?id_vocabulario=92>. Acesso em: 15 de outubro de 2009.
124
Simon Smith Kuznets foi um economista russo naturalizado americano que, na década de 930, criou o Produto Interno Bruto – PIB – o que lhe rendeu o Prêmio Nobel de Economia. 125
Hazel Henderson é autora de várias obras, entre as quais Building a Win-Win
World – “Construindo um mundo em que todos ganhem”. Foi uma das criadoras dos Indicadores Calvert-Henderon de Qualidade de Vida. Integrou o Comitê Organizador da conferência “Além do PIB”-Beyond GDP -, do Parlamento Europeu.
Cresce em todo o mundo a crítica a um cálculo que equipara o "desenvolvimento" ao valor monetário das mercadorias produzidas. E se dinheiro não for sinônimo de bem-estar? E se tiverem importância fatores ignorados pelo índice, como preservação da natureza, educação e busca da igualdade?126
Nesta consideração de Henderson, percebe-se a preocupação com o uso do PIB como indicador base para qualquer perspectiva. Henderson deixa claro que o desenvolvimento não pode ser visto por uma perspectiva reducionista, pois é muito mais do que o valor somado dos produtos e serviços produzidos. Segundo a autora, desenvolvimento diz respeito aos cidadãos de um país, à qualidade de vida deles, ao Estado a que são submetidos, à legislação que os rege e à sustentabilidade das suas futuras gerações.
Pode-se afirmar então que o PIB “erra” quando não monitora, por exemplo, a dilapidação do planeta e quando não leva em conta as condições de vida da população. Levando em consideração um maior número de variáveis, para mensurar o bem-estar dos povos, será possível realmente ter noção da verdadeira dimensão do progresso, criando assim novos critérios de decisão para a sociedade sustentável.
O PIB vem sendo questionado e debatido cada vez mais. Foi assim em Palermo, no Fórum “Estatísticas, Conhecimento e Políticas”, em novembro de 2004; em Milão, no Fórum “Medindo Bem-Estar e Progresso das Sociedades”, em junho de 2006; em Istambul no Fórum “Medindo e Fomentando o Progresso das Sociedades”, em junho de 2007, na OCDE; e em Bruxelas, na Conferência da União Européia “Além do PIB: Medindo Progresso, Verdadeira Riqueza e o Bem-Estar”, em novembro de 2007. Inclusive, este último rendeu um grande movimento, o Beyond GDP (que pode ser traduzido como “Além do PIB”). Trata-se de uma iniciativa da Comissão Européia127, do Parlamento Europeu,
126
HENDERSON, Hazel. PIB: Um Indicador Anacrônico. Le Monde diplomatique, Rio de Janeiro, dez. 2007. Disponível em: <http://diplo.uol.com.br/2007-12,a2026> Acesso em: 01 set. 2009.
127
Comissão Européia é a instituição politicamente independente que representa e defende os interesses da União Européia (UE) na sua globalidade, propõe a legislação, política e programas de ação e é responsável por aplicar as decisões do Parlamento Europeu (PE) e o Conselho da União Européia (CUE). A Comissão Européia materializa e defende o interesse geral da Comunidade Européia. O presidente e os membros da Comissão são nomeados pelo Conselho da União Européia, por maioria qualificada, após aprovação pelo Parlamento Europeu.
do Clube de Roma128, da OECD129e do WWF130. O movimento visa encontrar instrumentos mais eficientes para medir o progresso, a riqueza e o nível de bem-estar. Deseja-se uma forma de mensuração que conte não apenas questões econômicas, mas que computem também uma perspectiva social e ambiental, abrangendo assuntos como saúde, mudanças climáticas, pobreza e diminuição dos recursos naturais.
Vale ressaltar que as recentes conferências internacionais citadas acima ajudaram a esclarecer quais índices eram mais adequados para medir o progresso e como poderiam ser integrados ao processo de tomada de decisão e retomados pelo debate público. Estas conferências sempre reuniram especialistas de alto nível e políticos influentes para resolver essas questões críticas. Mais de 500 pessoas, das esferas econômica, social e ambiental, compareceram. Numerosas propostas foram desenvolvidas. A rede ambientalista WWF, por exemplo, propõem, em geral, planos de ação mundial conjunta para garantir que o mundo evite um colapso e assegure um futuro com água para todos. A WWF está preocupada com o ecossistemas de áreas úmidas e também com os acordos entre os governos e as agências financiadoras para a implementação de práticas que respeitem o meio ambiente.
Porém cabe aqui uma análise crítica. Apesar de todas essas iniciativas, nenhuma medida pessoal e nenhum conjunto de indicadores goza de amplo reconhecimento dentro do contexto do debate político e para o público em geral. Talvez devido à existência de divergências no que diz respeito aos fundamentos conceituais, ou pela falta da simplicidade analítica que havia assegurado o sucesso do PIB.
128
Clube de Roma é um grupo, constituído em 1968, composto por cientistas, industriais e políticos, que tinha como objetivo discutir e analisar os limites do crescimento econômico levando em conta o uso crescente dos recursos naturais.
129
OECD (Organisation for Economic Co-operation and Development) ou OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) é uma organização internacional dos países comprometidos com os princípios da democracia representativa e da economia de livre mercado. A sede da organização fica em Paris, na França.
130
WWF é uma das mais conhecidas ONGs ambientalistas do planeta, tendo iniciado suas atividades em 1961, por iniciativa de um grupo de cientistas da Suíça preocupados com a devastação da natureza. A sigla WWF eram as iniciais de "World Wildlife Fund".
Na próxima seção, introduziremos alguns indicadores cujas qualidades nos parecem poder ajudar a mensurar a realidade de forma mais eficiente do que o PIB.