Toda sociedade possui uma cultura, um conjunto de costumes e tradições que são passados de geração em geração e vão morrendo e/ou se adaptando conforme o tempo avança. Baseada nos conceitos de McLuhan, Santaella (2003 apud NASCIMENTO; BRAGANÇA, 2018, p. 84) compreende que a passagem de uma cultura a outra, no contexto atual, fez e está fazendo com que os meios de comunicação entrem em constante transformação sociocultural. Assim, Santaella divide essas transformações em cultura oral: conhecimentos passados de geração para geração, mas guardados na memória; cultura escrita: a cultura passa a ser lida, relida e corrigida, a memória passa a ser eternizada; a cultura impressa: que é a impressão sobre o papel; a cultura de massa: uma sociedade que surge junto com a revolução industrial e com o senso de coletivo; e a cultura das mídias: a sociedade deixa de absorver tudo passivamente e passa a ter poder de escolha, como o controle remoto e a TV fechada (SANTAELLA, 2003 apud NASCIMENTO; BRAGANÇA, 2018).
Conforme Nascimento e Bragança:
Podemos dizer que a cultura das mídias é uma cultura disponível, e a cultura digital: é a interatividade do homem com a “máquina”, a individualização da mensagem e da informática, possibilita a disseminação de todos e para todos, podemos também chama-la de cultura do acesso. (NASCIMENTO; BRAGANÇA, 2018, p. 84).
Assim, o smartphone se encaixa nesta cultura do acesso ou cultura digital, local que Santaella (apud NASCIMENTO; BRAGANÇA, 2018, p. 85) trata como uma cultura que há novos meios de comunicação e informação personalizada, o ciberespaço, pois é um dispositivo que dá ao indivíduo autonomia para produzir, escolher e distribuir conteúdo. O indivíduo está inserido em uma sociedade que cria, aprende e reproduz comportamentos, tornando-os práticas sociais que compõem a cultura. A partir dessa reflexão, inserimos o smartphone neste contexto. Desde quando surgiu, em 1992, o smartphone foi a cada ano ganhando mais funcionalidades, desenvolvendo suas capacidades, qualidades e potencialidades multimídia, tanto na produção quanto na distribuição de mídias. Hoje, encontramos celulares com capacidade de produzir fotografias em qualidade profissional. O desenvolvimento de suas funcionalidades foi crucial para a apreciação e apropriação do dispositivo pela sociedade como um objeto inseparável.
Tornando-se um dispositivo bastante presente na vida do ser humano, o smartphone foi cada vez mais usado, pois ele possibilita, além de sua capacidade de produção multimídia, o
acesso à internet. A internet, constitutiva do ciberespaço, não exclui nenhuma outra das culturas citadas por Santaella, é um prolongamento delas segundo Lemos (2015, p.14 apud NASCIMENTO; BRAGANÇA, 2018, p.85).
Um dos méritos da cibercultura descrito por Lemos (2015), é a liberdade em rede, um espaço que interliga pessoas, documentos, máquinas, e relacionamento, ele não se configura apenas como uma ambientação, mas sim como um meio de informação de cultura e expressão, onde se podem expressar suas singularidades e, ao mesmo tempo interagir dentro desta ambientação com as mesmas, criando novas pluralidades de relacionamento. É possível devido o ciberespaço ser considerado um espaço propriamente de circularidade de informação livre e descentralizada, onde a linguagem digital é traduzida na linguagem da informática. (NASCIMENTO; BRAGANÇA, 2018, p. 86).
Hoje, políticos fazem suas propagandas eleitorais via redes sociais virtuais, como a partir do uso do aplicativo de mensagens WhatsApp nas últimas eleições. Uma pessoa acompanha o modo de preparo de uma receita por um site pelo smartphone enquanto se desloca pela cozinha, assim como também o usa para acompanhamento dos batimentos cardíacos durante um exercício físico na rua ou na academia, ou ainda, ela pode simplesmente pedir comida pelo dispositivo através de um aplicativo, ao invés de se locomover até um estabelecimento para isso. O dispositivo ainda possibilita o pagamento de boletos e transferências bancárias com aplicativos desenvolvidos pelos próprios bancos. Vemos que incorporamos o smartphone ao criar e reproduzir essas práticas do dia-a-dia, pois esse dispositivo está presente conosco a todo momento, facilitando e/ou substituindo várias tarefas. Por reunir possibilidades de produção de imagem, áudio e escrita e, às vezes, com tudo isso simultaneamente e por apropriação do espaço físico, o modo das pessoas de se relacionar e se comunicar ganhou novas formas segundo Lemos:
Os DHMCM aliam a potência comunicativa (voz, texto, foto, vídeos), a conexão em rede, a mobilidade por territórios informacionais (Lemos 2006), reconfigurando as práticas sociais de mobilidade informacional pelos espaços físicos das cidades. Trata-se da ampliação da conexão, dos vínculos comunitários, do controle sobre a gestão do seu espaço e tempo na fase pós-massiva da comunicação contemporânea. (LEMOS, 2003 apud LEMOS, 2007, p. 25).
Na citação acima, o autor se refere ao smartphone como “Dispositivo Híbrido Móvel de Conexão Multirredes” (DHMCM). Lemos conceitua o smartphone assim, pois seguindo sua linha de pensamento:
O que chamamos de telefone celular é um Dispositivo (um artefato, uma tecnologia de comunicação); Híbrido, já que congrega funções de telefone, computador, máquina fotográfica, câmera de vídeo, processador de texto, GPS, entre outras; Móvel, isto é, portátil e conectado em mobilidade funcionando por redes sem fio digitais, ou seja, de Conexão; e Multirredes, já que pode empregar diversas redes, como: Bluetooth e infravermelho, para conexões de curto alcance entre outros dispositivos; celular, para as diversas possibilidades de troca de informações; internet (Wi-Fi ou Wi-Max) e redes de satélites para uso como dispositivo GPS. (LEMOS, 2007, p. 25).
Podemos ver que o smartphone mudou a forma como as pessoas se relacionam com o lugar, com o tempo e entre si, tornando as conexões comunitárias mais frequentes. Lemos (2007) afirma que o DHMCM está se apropriando dos espaços físicos (cidades), pois há vários aplicativos que permitem que os usuários mandem localização ou interferiram em alguma parte deste espaço físico, seja onde estiver, fazendo anotações eletrônicas, deixando uma foto, um vídeo ou áudio, ou comentários de crítica sobre um lugar. Assim, ele baseia esse processo no aumento das conexões comunitárias.
No último relatório do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 201713, o percentual de domicílios com acesso à internet foi a 74,9%, de 69,3% confirmados em 2016. O relatório também mostra que o percentual de celulares por domicílio chegou a 93,2%.
Atualmente, temos uma juventude conectada. O acesso à internet pelo celular aumentou de 94,6% para 97,0%, segundo o relatório do IBGE de 2017. O relatório ainda mostra que a maior parcela desse percentual é de pessoas dos 20 aos 24 anos, de um total de 126,3 milhões de pessoas entrevistadas. Segundo o relatório, as pessoas constatam que o celular possui uma maneira de compartilhamento de arquivos diferente do e-mail, e que também possibilita a chamada por voz e vídeo.
A comunicação interpessoal segue como a atividade online preferida pela ampla maioria dos jovens brasileiros. As redes sociais e os aplicativos de mensagens instantâneas figuram no topo dos conteúdos mais acessados, em todas as regiões do País. (FUNDAÇÃO TELEFÔNICA, 2015, p. 24). A partir desses dados vemos o quão enorme está o acesso da sociedade brasileira ao smartphone e à internet e certamente a maior finalidade é o uso das redes sociais virtuais. Esse acesso trouxe o encurtamento do espaço e do tempo. Hobsbawn (1995, p. 22) afirma que, em
13 Disponível em: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-sala-de-imprensa/2013-agencia-de-noticias/releases/23445-pnad-continua-tic-2017-internet-chega-a-tres-em-cada-quatro-domicilios-do-pais. Acesso em: 22/06/2019.
1980, o mundo estava repleto de uma tecnologia em constante avanço, cujas mais impressionantes eram em relação às revoluções nos transportes e na comunicação, que encurtaram o tempo e as distâncias e facilitaram a troca de informações.
Complementando Hobsbawn, a partir do pensamento de Cebrián, podemos refletir se o uso do smartphone causa uma diminuição das interações sociais presenciais. Hoje é comum ver uma reunião via videoconferência, ver e e/ou realizar trabalhos acadêmicos de grupo via videoconferência, entre outras práticas.
O cibernauta de nossos dias não é apenas um navegante: é também um navegante solitário, ainda que ele mesmo não tenha consciência de sua condição. Sua capacidade de relacionar-se com os outros, nesse universo global por que passeia, vai conduzi-lo a um ensimesmamento, a um fechamento em si mesmo em relação aos que lhe estão mais próximos. (CEBRIÁN, 1999 apud PARADELLO, 2011, p. 8).
Cebrián (1999 apud PARADELLO) defende que o indivíduo se tornará mais reservado, dando preferência a contatos intermediados pela tecnologia por sua capacidade de privacidade e acomodação.
Lemos (2007) afirma que as conexões comunitárias na internet aumentaram, enquanto Cebrián (1999) afirma que houve uma diminuição das interações sociais presenciais por causa do encurtamento do espaço e tempo que o smartphone causou. Então, podemos refletir, a partir dos autores, sobre como o uso do smartphone conectado a uma rede online faz com que realmente se gere uma intensa conexão comunitária, embora não seja presencial. Cebrián ainda afirma sobre a preferência do indivíduo por contatos intermediados pela tecnologia. Por mais que as pesquisas mostrem um grande número de internautas, a reflexão de Cebrián não deve ser generalizada, visto que, atualmente, apesar de a conexão virtual entre as pessoas ser grande, isso não excluiu e também não diminuiu drasticamente a possibilidade de estabelecer relações pessoais presenciais. A conexão comunitária existente advinda dos smartphones é resultado da interação e de sua apropriação nos espaços físicos com fotos, vídeos e comentários, como já dito anteriormente.
Diante de todos os fatos vemos que o smartphone é uma tecnologia cada vez mais presente na vida do brasileiro. Com ele é possível se localizar no tempo e espaço, acessar a web e, a partir disto, saber o que acontece no mundo em tempo real, entrar em contato com seus amigos, familiares e até com personalidades famosas, ou inclusive fazer compras.
Com o avanço de suas funcionalidades e aplicativos (ou “apps”), as relações pessoais tendem a não necessitar mais da relação face-a-face para acontecer. Reuniões, trabalhos,
decisões, entrevistas de emprego, discussão de cunho amoroso, agendamento de consultas médicas e jurídicas, passaram do encontro pessoal para encontros virtuais, se tornaram e-mails, mensagens instantâneas. Com isso, as pessoas tendem a delegar mais atividades ao smartphone, se tornando dependentes desse dispositivo.
Entrando no campo da psicanálise, alguns estudiosos da área da comunicação e da psicologia, como Freud, Lévy e Bauman (apud MENDES, 2015) trabalham a ideia de nos tornarmos muito necessitados da tecnologia. Freud (2010 apud MENDES, 2015) menciona o ser humano como um protético, referindo-se à tecnologia, pois, na maioria dos casos, as pessoas não andam sem ele. Segundo Mendes (2015, p.134), Freud antevê o futuro:
[...] Em O mal-estar na civilização, Freud ([1930] 2010) se indaga sobre a insistência da infelicidade humana a despeito dos prodigiosos avanços científicos e tecnológicos de sua época. “[...] o ser humano tornou-se, por assim dizer, um deus protético, realmente admirável quando coloca todos os seus órgãos auxiliares; mas estes não cresceram com ele, e ocasionalmente lhe dão ainda muito trabalho” (FREUD, [1930] 2010, p. 52).
Mendes defende que os smartphones se encaixam nos avanços tecnológicos mencionados por Freud. Nesta busca de superação de tempo e espaço e nesse avanço de velocidade ao qual se refere Freud, Pierre Lévy faz uma observação: “[...] cada novo sistema de comunicação e de transporte modifica o sistema das proximidades práticas, isto é, o espaço pertinente para as comunidades humanas (LÉVY, 1996 apud MENDES, 2015, p. 135).
Em 2004, Bauman, ao falar dos celulares, antecessores dos smartphones, falava do quão nossa vestimenta se adequava para portar esses celulares conosco:
Na verdade, você não iria a nenhum lugar sem o celular (‘nenhum lugar’ é, afinal, o espaço sem um celular, com um celular fora de área ou sem bateria). Estando com o seu celular, você nunca está fora ou longe. Encontra-se sempre dentro, mas jamais trancado em um lugar (BAUMAN, 2004, p. 78 apud MENDES, 2015, p. 135).
Sobre este conceito, podemos ver o quão o celular nos coloca inseridos no que acontece no mundo. O fato de o smartphone ser um item tecnológico inseparável, acaba fazendo com que ele faça parte de nossas práticas sociais cotidianas em uma intensidade tão grande que a falta dele gera comoção alheia, como veremos a seguir no caso do jornalista Evaristo Costa.
Em 26 de abril de 2017 o jornalista Evaristo Costa teve um problema com o seu smartphone14. O seu dispositivo, segundo fotos divulgadas por ele, estava com sua tela totalmente trincada e, pela rede social Instagram, Evaristo afirmou que estaria offline por causa do ocorrido com o smartphone. Instantaneamente, ocorreram milhares de comentários de seus seguidores sobre o fato em sua publicação, chegando a um total de 4.392 comentários, como mostram abaixo as imagens do seu perfil no Instagram.
Figuras 1 e 2 – Postagem de Evaristo Costa sobre celular quebrado e sua repercussão
14 Disponível em: https://revistaquem.globo.com/QUEM-News/noticia/2017/04/evaristo-costa-quebra-celular-e-diz-que-ficara-longe-das-redes-sociais.html. Acesso em: 09/02/2019.
Fonte: Captura de tela do Perfil de Evaristo Costa no Instagram em 11 de julho de 2019.
Sendo um meio através do qual o jornalista interagia e ainda interage com seus seguidores, Evaristo se tornou notícia em vários sites brasileiros como mostram as imagens abaixo.
Fonte: Captura de tela dos sites RD115, TVeFamosos/Uol16, Caras/Uol17, Folha18, RevistaQuem/Globo19
Os milhares de comentários recebidos por Evaristo Costa devem-se a meses de interação com seus seguidores. Uma interação intensa que, consequentemente, acabou criando um sentimento de identificação e afetividade dos seguidores com o jornalista. O fato também repercutiu nas redes sociais Facebook e Twitter, com centenas de comentários e milhares de curtidas. 15 https://rd1.com.br/evaristo-costa-quebra-celular-causa-nas-redes-sociais-e-aponta-pecado-de-padre-fabio-de-melo/ 16 https://tvefamosos.uol.com.br/noticias/redacao/2017/04/26/evaristo-costa-quebra-o-celular-e-diz-que-vai-dar-tempo-das-redes-sociais.htm 17 https://caras.uol.com.br/tv/evaristo-costa-quebra-o-celular-e-avisa-que-ficara-longe-das-redes-sociais-por-tempo-indeterminavel.phtml 18 https://f5.folha.uol.com.br/celebridades/2017/04/queridinho-nas-redes-sociais-evaristo-costa-quebra-o-celular-e-diz-que-ficara-offline.shtml 19 https://revistaquem.globo.com/QUEM-News/noticia/2017/04/evaristo-costa-quebra-celular-e-diz-que-ficara-longe-das-redes-sociais.html
Desta forma, vemos que Evaristo Costa se utiliza de métodos que podem ser entendidos como estratégias de aproximação com o público, através de publicações de fotografias e vídeos. A internet, assim como o smartphone, possui uma carga imagética forte, sendo este um dos principais pilares da comunicação online e das redes sociais virtuais. Sabendo da forte influência que a fotografia tem sobre nossas vidas, vamos relacioná-la ao smartphone na seção a seguir.
4.1Relação da Imagem com o Smartphone
O smartphone é um dispositivo multimídia, capaz de produzir fotografias, vídeos e áudios, sendo essas algumas de suas principais funcionalidades como já contextualizado anteriormente. Cientes de sua propagação atual, vale ressaltar que ele é um dos dispositivos cuja apropriação interferiu na construção da sociedade em que vivemos, lugar que a maioria das redes sociais virtuais se baseia em fotografias.
Segundo Córdova e Jesus (2015), na história do homem com a imagem, as pinturas desempenham a função de representação da realidade, sendo através delas que se construía uma relação de comunicação, ainda que de maneira mimética.
Na história da arte, o retrato propriamente dito, tomado no sentido da representação figurativa, mais ou menos realista, mais ou menos abstrata, do outro ou de si mesmo, ocupa lugar específico. [...] A sua história, história de um movimento de introspecção e extrospecção, é marcada por uma certa ideia de mimesis, enquanto esta pode ser vista como o processo impulsivo de imitar, não a realidade, mas uma sua representação. (MEDEIROS, 2000, p. 37 apud CÓRDOVA; JESUS, 2015, p. 4).
Assim, Córdova e Jesus (2015) nos trazem, através da linha de pensamento de Medeiros, que o retrato pintado constrói uma relação mimética e que, a partir disso, o sujeito desenvolve uma relação consigo mesmo e com os outros. Porém, o autor pontua que, ao retratarmos algo ou alguém, inclusive nós mesmos, colocamos a subjetividade e a “re(criação)” no processo. Assim, não há uma fidelidade no retratar a realidade (CÓRDOVA; JESUS, 2015). A fotografia e o homem possuem uma relação vista por alguns teóricos como a de um caçador (CÓRDOVA; JESUS, 2015). O mundo é visto pelo fotógrafo como um espaço de caça, onde só há o observador e o observado:
Não se trata de captar a realidade. É apenas o ato que está circulando em suas veias. A fotografia não é a arte de captar, ao contrário, é a arte de soltar. Como
se a cada disparo da máquina fosse o fotógrafo que se esvaísse em disparada. Fotografia: esvair-se. O fotógrafo nada recebe, ao contrário, é como se, através do obturador aberto, ele se permitisse um voo cego, um mergulho de se expor. Clic! (OMAR, 1988 apud SANTAELLA; NOTH, 2012, p. 116).
Então, vemos que a fotografia não é uma captura da realidade, é na verdade o soltar da imaginação à exposição. Segundo Córdova e Jesus (2015), quando a fotografia ainda era novidade na sociedade, o poder aquisitivo que ela dava e seu significado fez com que fosse uma arte somente de acesso da classe dominante. Nesta época, segundo Medeiros (apud CÓRDOVA; JESUS p. 5), a fotografia estava ligada à condição econômica, à afirmação social e à representação de si.
Antes, a construção da subjetividade a partir da fotografia era constituída apenas de três fatores externos, segundo Córdova e Jesus (2015): o autoconhecimento, as relações e a reflexão por elas geradas e o convívio. Com o avanço tecnológico comunicacional, Córdova e Jesus afirmam que surgiu outro fator externo crucial para esse processo de subjetivação do sujeito, o olhar da sociedade. Com a fácil distribuição da imagem de si pelas tecnologias comunicacionais, a forma com que se olha para os indivíduos e as relações se transformou. “O olhar do outro – agora mais próximo e, por vezes, invasivo – modifica o comportamento do observador” (CÓRDOVA; JESUS, 2015, p. 6).
Nesta distribuição da imagem de si e nesta busca do eu e da relação social pela imagem, hoje, ouvimos falar, e mais do que isso, vemos a todo momento nas redes sociais virtuais os selfies, produzidos e propagados pelo smartphone. Nas últimas décadas, com os avanços nestas áreas, houve uma integração dos dispositivos de comunicação com a fotografia. Esses dispositivos também se tornaram câmeras fotográficas. Assim, quando surgiram os smartphones, já estava grande sua capacidade de fotografar e filmar.
4.2Selfie
O Selfie é uma fotografia tirada pela própria pessoa por celular ou câmera digital e compartilhada na internet. É um autorretrato, portanto, a palavra selfie é um neologismo em inglês, originado do termo self-portrait, que significa autorretrato. É formada da junção do substantivo self (em inglês, "eu") e o sufixo ie.
Os dicionários Oxford, ao incorporar o termo e elegê-lo como a “palavra do ano de 2013”, definem selfie como “Uma fotografia que alguém tira de si mesmo, normalmente tirada com um smartphone ou webcam e compartilhada através das redes sociais (SELFIE, 2015 apud PASTOR, 2017, p. 159).
Esse tipo de fotografia, os selfies, geralmente são casuais, tirados nos mais variados e inusitados lugares e momentos, há selfies com os amigos numa festa, selfies pulando de paraquedas, selfies comendo, selfies no trabalho, selfies no salão de cabeleireiro ou selfies no topo do prédio mais alto de Dubai. Geralmente os autores dessas fotos costumam estar sozinhos, mas também há selfie em grupo e também em espelhos.
Segundo Aaron Hess (2015, p. 1630 apud PASTOR, 2017, p. 160), o selfie é uma prática social, pois relaciona fotografia e smartphone, direcionando ao ato de tirar uma foto de si mesmo. E, como sabemos, esse ato está presente em vários momentos do dia do ser humano. Pastor (2017) explica que o selfie não é apenas um autorretrato, é essencialmente a versão digital da fotografia interagindo com o smartphone.
Essa relação com o smartphone permite, de maneira híbrida, o surgimento e popularização de uma prática que não apenas traz influências de uma evolução da representação de si e de uma construção de intimidade a partir da imagem, como também sua inserção em uma lógica de instantaneidade, compartilhamento e comunicação. (PASTOR, 2017, p. 160).
Assim, a prática de tirar um selfie é reproduzida pela sociedade com a finalidade de comunicação e expressão. Pois, é uma prática que é repetida pelos demais e esse processo cria uma identificação entre seus autores, é um comportamento reconhecido. E, como já refletido acima, com a fácil propagação que a tecnologia dá às fotografias, os selfies estão em todos os lugares.
De acordo com Córdova e Jesus (2015), a tecnologia comunicacional tem grande influência sobre a subjetivação do sujeito a partir da fotografia, por estar ao olhar de todos. Assim, colocamos o smartphone como o nosso foco neste estudo.
Sobre o fato do selfie ser observado pelo outro, Córdova e Jesus afirmam que o olhar do outro se torna “controlador, coercitivo e individualizante”, fazendo com que o observado fique cada vez mais envolvido com uma identidade.
As massas, na perspectiva de Foucault (1983), podem ser vigiadas e manipuladas, perdem a capacidade de construírem a própria identidade e seus