2.2 O advento do terceiro setor
2.2.2 As principais categorias do terceiro setor no Brasil
As primeiras categorias que compõem o que posteriormente viria a ser denominado terceiro setor surgem a partir da criação do Código Civil Brasileiro em 1916, que distingue as organizações sem fins lucrativos formadas pela sociedade civil:
Art. 16. São pessoas jurídicas de direito privado:
I - as sociedades civis, religiosas, pias, morais, científicas ou literárias, as associações de utilidade pública e as fundações;
II - as sociedades mercantis.
Tem-se, consoante o Código Civil Brasileiro, a classificação das organizações sem fins lucrativos em três categorias: as sociedades civis de fins não econômicos, as associações de utilidade pública e as fundações. Cada uma destas categorias possui características particulares que serão brevemente analisadas para que se possa melhor entender o porquê desta distinção.
A sociedade civil de fins não econômicos é aquela que, para Nunes (1990, p.787), “não tem capital empregado para a produção de lucros, de vez que a sua destinação não é de ordem material. As sociedades desta categoria se denominam associações, ou corporações de fins religiosos, pios, morais, beneficentes, recreativos, literários, ou científicos”.
As associações de utilidade pública distinguem-se das associações em geral que formam a categoria das sociedades civis de fins não econômicos, pois “além de possuir os requisitos peculiares à s associações em geral, têm como característica essencial o desempenho do fim exclusivo de servir desinteressadamente à coletividade, ou seja, do fim público (Custódio, 1972, p.67)”. Assim, enquanto as associações em geral são constituídas para atender a um grupo de indivíduos que conjuga os mesmos fins, as associações de utilidade pública atendem à coletividade.
A terceira categoria de organização sem fins lucrativos, à luz do Código Civil Brasileiro, é representada pelas fundações que, segundo Ferreira (1988, p.52), “não têm membros, ou seja, nem sócios, nem associados, eis que a membridade é requisito necessário e próprio das corporações (sociedades e associações)”. O autor complementa, salientando que “a fundação conta, tão somente, com órgãos de administração, integrados por gestores, pelos administradores do patrimônio fundacional (...)”.
Diante do crescente papel que a sociedade civil vem desempenhando no atendimento à s demandas sociais, a classificação das organizações sem fins lucrativos adotada pelo Código Civil Brasileiro já não contempla a totalidade da ação comunitária forte, atuante, reivindicatória e mobilizadora (Melo Neto e Froes, 1999), que constitui o terceiro setor no Brasil.
Surgem, então, duas novas categorias que não estão contempladas no Código Civil Brasileiro: as ONGs e as organizações sociais. A primeira categoria é constituída pelas ONGs surgidas na década de 70 e que, conforme foi visto anteriormente, contestavam o regime militar vigente na época. Já as organizações sociais são um fenômeno mais recente e, diferentemente das ONGs que se formaram a partir da mobilização da sociedade civil, foram instituídas pelo Estado como “estratégia central do Plano Diretor da Reforma do Aparelho do Estado” (Brasil, 1998a, p.7).
Neste sentido, Rodrigues (1998) identifica e caracteriza as cinco categorias principais que compõem o terceiro setor no Brasil e que são apresentadas no Quadro 2:
Quadro 2: As principais categorias do terceiro setor no Brasil Categoria Principais características
1. Associações São organizações baseadas em contratos estabelecidos livremente entre os indivíduos para exercerem atividades comuns ou defenderem interesses comuns ou mútuos. Estão voltados para seus membros, compreendendo uma grande variedade de objetivos e atividades, tais como recreativas, esportivas, culturais, artísticas, comunitárias e profissionais (memberserving organizations).
2. Organizações filantrópicas, beneficentes e de caridade
São organizações voltadas para seus clientes na promoção de assistência social (abrigos, orfanatos, centros de indigentes, distribuição de roupa e comida etc) e de serviços sociais na área de saúde e educação (colégios religiosos, universidades e hospitais religiosos). Também se inclui nesta categoria a filantropia empresarial. Embora estas organizações sejam classificadas como associações no Código Civil Brasileiro, o que as diferencia daquelas são seus valores intrínsecos de altruísmo, boa vontade e serviço à comunidade.
3. Organizações não- governamentais (ONGs)
São organizações comprometidas com a sociedade civil, movimentos sociais e transformação social. Embora também estejam classificadas como associações no Código Civil Brasileiro, diferenciam-se delas por estarem raramente voltadas para seus próprios membros e estarem sobretudo orientadas para “terceiros”, ou seja, para objetivos outros que não os interesses imediatos dos membros que as compõem. Também se diferenciam das organizações filantrópicas – e isto é questão de honra para as ONGs – por não exercerem qualquer tipo de prática de caridade, o que seria contrário à sua idéia de construção de autonomia, igualdade e participação dos grupos populares.
4. Fundações privadas
São uma categoria de conotação essencialmente jurídica. A criação de uma fundação se dá, segundo o Código Civil Brasileiro, pelo instituidor, que, através de uma escritura ou testamento, destina bens livres, especificando o fim a ser alcançado.
5. Organizações Sociais (OS)
Trata-se de um modelo de organização pública não-estatal destinado a absorver atividades publicizáveis (área de educação, saúde, cultura, meio ambiente e pesquisa científica) mediante qualificação específica. É uma forma de propriedade pública não- estatal, constituída pelas associações civis sem fins lucrativos orientadas para o atendimento do interesse público. As OS são um modelo de parceria entre o Estado e a sociedade. O Estado continua a fomentar as atividades publicizadas e a exercer sobre elas um controle estratégico: demanda resultados necessários ao cumprimento dos objetivos das políticas públicas. O contrato de gestão é o instrumento que regula as ações das OS.
Fonte: Rodrigues (1998).
Pode-se verificar que o terceiro setor abrange uma diversidade de organizações surgidas a partir das ações dos três setores que permeiam a vida em sociedade. Do setor público emergem as organizações sociais, do setor privado surgem as empresas que adotam a filantropia empresarial (embora responsabilidade social seja o termo mais utilizado) e da sociedade civil emergem as associações, organizações filantrópicas, beneficentes e de caridade e as organizações não-governamentais. Tem-se, ainda, as
organizações surgidas a partir de ações individuais de membros da sociedade que, na qualidade de instituidores, constituem as fundações privadas.
A diversidade, complexidade e abrangência de formas organizacionais sem fins lucrativos provocam alguns questionamentos sobre o emprego do termo “terceiro setor”. Neste sentido, Fischer e Falconer (1998, p.13) defendem que “o Terceiro Setor foi se ampliando sem que esse termo, usado para designá-lo, seja suficientemente explicativo da diversidade de elementos componentes do universo que abrange”.
Esta heterogeneidade do terceiro setor se reflete na ausência de consenso quanto à abrangência de seu conceito (Teodósio e Resende, 2000). No entanto, o termo terceiro setor é o que vem encontrando maior aceitação para identificar o conjunto de iniciativas sem fins lucrativos surgidas a partir da sociedade civil, do setor privado e do setor público.
Diante da singularidade de cada uma das categorias que compõem o complexo universo do terceiro setor no Brasil, este estudo enfoca a categoria que representa uma forma de parceria entre o setor estatal e o terceiro setor: as organizações sociais. É esta categoria que se discute a seguir.