LA ROUCHE
Sergio A. de A. Coutinho o conteúdo central da tese política do economista e, digamos, cientista político norte-americano Lyndon H. La Rouche Jr. se resume numa conspiração internacio nal que ele atribui ao "Establishment anglo-americano" (a oligarquia financeira mundial) que pretende criar um im pério mundial, anglófono.
Esta teoria conspiratória se completa com afirma ções correlatas tais como: o envolvimento direto do Go verno dos Estados Unidos na condução do projeto impe rial, o desmantelamento das forças armadas nacionais e neutralização da Igreja Católica, dominação por meio do controle da natalidade e demográfico (esterilização das mulheres), subordinação aos organismos econômicos e financeiros mundiais, internacionalização ou desmembramento de áreas territoriais sob alegações de defesa do meio ambiente, dos direitos humanos e das populações indígenas e o "apartheid" tecnológico. T udo isto dirigido contra os países do Terceiro Mundo, para a América Latina em particular.
Segundo La Rouche, o projeto do "império mundi al" teria recebido prioridade a partir de 1991, quando, no quadro de uma Nova Ordem Mundial, o "Establishment" começa a constatar a "bancarrota" do sistema financeiro globalizado e o agravamento da crise econômica interna cional, a começar pelos Estados Unidos mesmos.
Esta idéia de um império mundial anglófono tem origem possivelmente no conhecimento das concepções internacionalistas de personalidades e intelectuais fabianos, ingleses e norte-americanos.
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A existência nos Estados Unidos de organizações privadas internacionais ligadas a outras correlatas na Grã Bretanha proporciona sustentação às acusações de La Rouche sobre a formação de um "Establishment anglo americano", segundo ele, expressão de uma oligarquia financeira internacional. Estamos a nos referir às organi zações privadas internacionais Council on F oreign Relations, Trilateral Commission e Diálogo Interamericano nos EUA e ligadas à Fabian Society, a London School of Economics e ao Royal Institute of International Affairs na Inglaterra (Rever o texto O FABIANISMO NAS AMÉRI CAS).
Na década de
1970,
ao denunciar a política de controle da natalidade de Jimmy Carter, La Rouche já acusava um plano "malthusiano" de dominação dos paí ses do Terceiro Mundo por meio da redução das suas populações.O Projeto Democracia da organização fabiana Di álogo Interamericano lhe deu motivo a interpretações que reforçam a teoria conspiratória de um império mundial. As recomendações do Projeto
(1982)
objetivamente se destinavam a forçar a abertura política nos países latino americanos, então sob regime militar. Recordando, as "re comendações" eram principalmente as seguintes:- Submissão das forças armadas ao controle pol ítico civil;
- Mudança do pensamento militar quanto à segurança interna e ao combate à subversão; - Redução das forças armadas ou limitação de sua expansão;
- Participação das forças armadas no comba te ao narcotráfico;
- Criação de uma força militar interamericana para intervir em casos de conflitos regionais e de violação dos direitos humanos;
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- Direitos Humanos;
- Conceito de soberania limitada nas ques- tões de meio ambiente e direitos humanos.
La Rouche e seus seguidores agravam as inten ções destas recomendações ou ações, traduzindo-as em duas afirmações peremptórias:
- Extinção dos Estados nacionais soberanos e - Desmantelamento das forças armadas ibero-americanas.
Com a expressão Apartheid Tecnológico, refe rem-se às restrições, imposições e pressões que real mente o Governo dos EUA exerce sobre os países emer gentes para impedir que desenvolvam principalmente ar mas nucleares e veículos (mísseis) lançadores de armas de destruição em massa.
Para La Rouche, tudo isto faz parte da política ofi ciai dos EUA e as organizações privadas citadas e outras são de "fachada" e instrumentos de execução, para o que recebem recursos financeiros oficiais. Outras vezes, afir ma que as organizações privadas internacionais são, di ferentemente, instrumentos do "establishment anglo-ame ricano", que impõem as idéias de submissão dos países latino-americanos ao próprio governo norte-americano.
" As medidas propostas pelo Diá logo Interamericano em escala regional provinham do temário glo bal que o Establishment anglo americano conseguiu impor como política oficial dos Estados Unidos' (O Complô, pág
37).
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um plano para reduzir ou, mesmo abolir as Forças Armadas latino-americanas' (O Complô, pág
15).
Apesar de históricos antecedentes como o da po I ítica do "big stick" de Teddy Roosevelt, do intervencionismo ("diplomacia da canhoneira") e da prepotência norte-americanas e, a partir do colapso sovi ético
(1991),
da posição de potência hegemônica que os EUA adquiriram, não se pode afirmar que a criação de um império mundial seja objetivo nacional ou de governo daquele país. Nem que os denunciados empreendimen tos de desmantelamento das forças armadas do Terceiro Mundo e da subseqüente eliminação da soberania dos Estados Nacionais o sejam.É
verdade que há "interes ses" e "pressões" políticas e econômicas de grupos pri vados que constrangem o governo norte-americano e que, direta ou indiretamente, acabam sendo incorporados à política oficial dos EUA, principalmente nos governos de políticos ligados ao fabianismo e às organizações difusoras desta linha ideológica como Jimmy Carter, Bill Clinton e George Bush (pai). (Ler o Texto AMEAÇAS E DESAFIOS).* * *
Desde a fundação da "Nova República" no Brasil, tendo por marcos a promulgação da "Constituição Cida
dã" de
1988
e a eleição de Tancredo Neves, a nação brasileira só acumulou frustrações e perdas de autoestima. Desesperançada, não encontra, em si mesma, motiva
ção e iniciativa; não vê em seus dirigentes, desde
1985,
capacidade para dar solução concreta para seus proble mas conjunturais e estruturais, mas só discurso vazio,
imobilismo, inocuidade. Principalmente não vê um
proje
to nacional.
Na falta de uma referência, de uma expec-============= Cadernos da Liberdade =============
tativa concreta de reversão, anseia por mudança. Por isto, os brasileiros transformaram o medo numa aposta nas promessas eleitorais de 2002. Quem sabe se o novo Pre sidente não vai dar certo? Buscam também alguma com pensação na criação de um "bode expiatório", de prefe rência, identificado com uma causa exterior que absolva a nação da culpa da própria desventura. Vem a calhar a teoria conspiratória de La Rouche. Apelando para o naci onalismo de um segmento intelectual e sensível da na ção, denuncia o causador de todos os males e de todos os desencantos. Que melhor "bode" do que o "Satã do Norte"?
É
um "bode" emblemático visível e consensual. Aí estão tanto os chauvinistas quanto os esquerdistas para apontá-lo. Por paradoxal que possa parecer, as duas li nhas divergentes, por natureza ideológica, têm semelhan te opinião, identificando a potência hegemônica, os Esta dos Unidos da América, como uma ameaça e como res ponsáveis dolosos por todas as dificuldades por que pas sa o País. Coincidência específica das posições de agru pamentos contraditórios que se movem no caminho do inevitávelconsenso
buscado pelas esquerdas revolucio nárias.O preconceito (no sentido vernacular), o despei to, o rancor, o temor e outros sentimentos menores ce gam todos e não os deixam ver (e nem a querer ver) as próprias omissões, negligências, insensatez e traições. O nacionalismo conclamado por um internacionalista es trangeiro não tem relação com um
projeto nacional
e ganha a feição de um nacionalismo dogmático. Perden do a nitidez dos fatos e o poder de crítica pela radicalização, os patriotas passam a interpretar o momento histórico e os acontecimentos sob a ótica da alegada cons piração internacional que visa à destruição das soberani as nacionais. Curiosamente, as linhas ideológicas antiamericanas têm inspirações no exterior: as do mar xismo-Ieninismo nas suas três tendências mundiais===== Sergio Augusto de Avellar Coutinho ===== (stalinismo, trotskismo e gramscismo) e as do "Iarouchismo" sincrético.
Voltando a La Rouche, podemos dizer que a sua teoria da conspiração parece ser uma interpretação pes soal da ideologia fabiana e dos seus projetos objetivos, particularmente os referentes à América Latina. Se, nos seus textos, livros e conferências, fossem substituídas as expressões "Establishment anglo-americano", "oligarquia financeira internacional" e "política governamental dos EUA" pela expressão "movimento fabiano internacio nal", com toda a certeza, o leitor ou ouvinte encontraria um discurso mais lógico, mais compreensível e mais pró ximo da verdade. Repetimos a indagação já feita:
-A troco de que, o senhor La Rouche se apresenta como volun tário paladino dos países da Amé rica Latina que diz ameaçados em sua existência nacional soberana, pelo seu país de nascimento?
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