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AS RECORRÊNCIAS FABIANAS DA TEORIA CONSPIRATÓRIA DE

No documento Gel Coutinho - Cadernos Da Liberdade [Web] (páginas 86-89)

LA ROUCHE

Sergio A. de A. Coutinho o conteúdo central da tese política do economista e, digamos, cientista político norte-americano Lyndon H. La Rouche Jr. se resume numa conspiração internacio­ nal que ele atribui ao "Establishment anglo-americano" (a oligarquia financeira mundial) que pretende criar um im­ pério mundial, anglófono.

Esta teoria conspiratória se completa com afirma­ ções correlatas tais como: o envolvimento direto do Go­ verno dos Estados Unidos na condução do projeto impe­ rial, o desmantelamento das forças armadas nacionais e neutralização da Igreja Católica, dominação por meio do controle da natalidade e demográfico (esterilização das mulheres), subordinação aos organismos econômicos e financeiros mundiais, internacionalização ou desmembramento de áreas territoriais sob alegações de defesa do meio ambiente, dos direitos humanos e das populações indígenas e o "apartheid" tecnológico. T udo isto dirigido contra os países do Terceiro Mundo, para a América Latina em particular.

Segundo La Rouche, o projeto do "império mundi­ al" teria recebido prioridade a partir de 1991, quando, no quadro de uma Nova Ordem Mundial, o "Establishment" começa a constatar a "bancarrota" do sistema financeiro globalizado e o agravamento da crise econômica interna­ cional, a começar pelos Estados Unidos mesmos.

Esta idéia de um império mundial anglófono tem origem possivelmente no conhecimento das concepções internacionalistas de personalidades e intelectuais fabianos, ingleses e norte-americanos.

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A existência nos Estados Unidos de organizações privadas internacionais ligadas a outras correlatas na Grã­ Bretanha proporciona sustentação às acusações de La Rouche sobre a formação de um "Establishment anglo­ americano", segundo ele, expressão de uma oligarquia financeira internacional. Estamos a nos referir às organi­ zações privadas internacionais Council on F oreign Relations, Trilateral Commission e Diálogo Interamericano nos EUA e ligadas à Fabian Society, a London School of Economics e ao Royal Institute of International Affairs na Inglaterra (Rever o texto O FABIANISMO NAS AMÉRI­ CAS).

Na década de

1970,

ao denunciar a política de controle da natalidade de Jimmy Carter, La Rouche já acusava um plano "malthusiano" de dominação dos paí­ ses do Terceiro Mundo por meio da redução das suas populações.

O Projeto Democracia da organização fabiana Di­ álogo Interamericano lhe deu motivo a interpretações que reforçam a teoria conspiratória de um império mundial. As recomendações do Projeto

(1982)

objetivamente se destinavam a forçar a abertura política nos países latino­ americanos, então sob regime militar. Recordando, as "re­ comendações" eram principalmente as seguintes:

- Submissão das forças armadas ao controle pol ítico civil;

- Mudança do pensamento militar quanto à segurança interna e ao combate à subversão; - Redução das forças armadas ou limitação de sua expansão;

- Participação das forças armadas no comba­ te ao narcotráfico;

- Criação de uma força militar interamericana para intervir em casos de conflitos regionais e de violação dos direitos humanos;

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- Direitos Humanos;

- Conceito de soberania limitada nas ques- tões de meio ambiente e direitos humanos.

La Rouche e seus seguidores agravam as inten­ ções destas recomendações ou ações, traduzindo-as em duas afirmações peremptórias:

- Extinção dos Estados nacionais soberanos e - Desmantelamento das forças armadas ibero-americanas.

Com a expressão Apartheid Tecnológico, refe­ rem-se às restrições, imposições e pressões que real­ mente o Governo dos EUA exerce sobre os países emer­ gentes para impedir que desenvolvam principalmente ar­ mas nucleares e veículos (mísseis) lançadores de armas de destruição em massa.

Para La Rouche, tudo isto faz parte da política ofi­ ciai dos EUA e as organizações privadas citadas e outras são de "fachada" e instrumentos de execução, para o que recebem recursos financeiros oficiais. Outras vezes, afir­ ma que as organizações privadas internacionais são, di­ ferentemente, instrumentos do "establishment anglo-ame­ ricano", que impõem as idéias de submissão dos países latino-americanos ao próprio governo norte-americano.

" As medidas propostas pelo Diá­ logo Interamericano em escala regional provinham do temário glo­ bal que o Establishment anglo­ americano conseguiu impor como política oficial dos Estados Unidos' (O Complô, pág

37).

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um plano para reduzir ou, mesmo abolir as Forças Armadas latino-americanas' (O Complô, pág

15).

Apesar de históricos antecedentes como o da po­ I ítica do "big stick" de Teddy Roosevelt, do intervencionismo ("diplomacia da canhoneira") e da prepotência norte-americanas e, a partir do colapso sovi­ ético

(1991),

da posição de potência hegemônica que os EUA adquiriram, não se pode afirmar que a criação de um império mundial seja objetivo nacional ou de governo daquele país. Nem que os denunciados empreendimen­ tos de desmantelamento das forças armadas do Terceiro Mundo e da subseqüente eliminação da soberania dos Estados Nacionais o sejam.

É

verdade que há "interes­ ses" e "pressões" políticas e econômicas de grupos pri­ vados que constrangem o governo norte-americano e que, direta ou indiretamente, acabam sendo incorporados à política oficial dos EUA, principalmente nos governos de políticos ligados ao fabianismo e às organizações difusoras desta linha ideológica como Jimmy Carter, Bill Clinton e George Bush (pai). (Ler o Texto AMEAÇAS E DESAFIOS).

* * *

Desde a fundação da "Nova República" no Brasil, tendo por marcos a promulgação da "Constituição Cida­

dã" de

1988

e a eleição de Tancredo Neves, a nação bra­

sileira só acumulou frustrações e perdas de autoestima. Desesperançada, não encontra, em si mesma, motiva­

ção e iniciativa; não vê em seus dirigentes, desde

1985,

capacidade para dar solução concreta para seus proble­ mas conjunturais e estruturais, mas só discurso vazio,

imobilismo, inocuidade. Principalmente não vê um

proje­

to nacional.

Na falta de uma referência, de uma expec-

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tativa concreta de reversão, anseia por mudança. Por isto, os brasileiros transformaram o medo numa aposta nas promessas eleitorais de 2002. Quem sabe se o novo Pre­ sidente não vai dar certo? Buscam também alguma com­ pensação na criação de um "bode expiatório", de prefe­ rência, identificado com uma causa exterior que absolva a nação da culpa da própria desventura. Vem a calhar a teoria conspiratória de La Rouche. Apelando para o naci­ onalismo de um segmento intelectual e sensível da na­ ção, denuncia o causador de todos os males e de todos os desencantos. Que melhor "bode" do que o "Satã do Norte"?

É

um "bode" emblemático visível e consensual. Aí estão tanto os chauvinistas quanto os esquerdistas para apontá-lo. Por paradoxal que possa parecer, as duas li­ nhas divergentes, por natureza ideológica, têm semelhan­ te opinião, identificando a potência hegemônica, os Esta­ dos Unidos da América, como uma ameaça e como res­ ponsáveis dolosos por todas as dificuldades por que pas­ sa o País. Coincidência específica das posições de agru­ pamentos contraditórios que se movem no caminho do inevitável

consenso

buscado pelas esquerdas revolucio­ nárias.

O preconceito (no sentido vernacular), o despei­ to, o rancor, o temor e outros sentimentos menores ce­ gam todos e não os deixam ver (e nem a querer ver) as próprias omissões, negligências, insensatez e traições. O nacionalismo conclamado por um internacionalista es­ trangeiro não tem relação com um

projeto nacional

e ganha a feição de um nacionalismo dogmático. Perden­ do a nitidez dos fatos e o poder de crítica pela radicalização, os patriotas passam a interpretar o momento histórico e os acontecimentos sob a ótica da alegada cons­ piração internacional que visa à destruição das soberani­ as nacionais. Curiosamente, as linhas ideológicas antiamericanas têm inspirações no exterior: as do mar­ xismo-Ieninismo nas suas três tendências mundiais

===== Sergio Augusto de Avellar Coutinho ===== (stalinismo, trotskismo e gramscismo) e as do "Iarouchismo" sincrético.

Voltando a La Rouche, podemos dizer que a sua teoria da conspiração parece ser uma interpretação pes­ soal da ideologia fabiana e dos seus projetos objetivos, particularmente os referentes à América Latina. Se, nos seus textos, livros e conferências, fossem substituídas as expressões "Establishment anglo-americano", "oligarquia financeira internacional" e "política governamental dos EUA" pela expressão "movimento fabiano internacio­ nal", com toda a certeza, o leitor ou ouvinte encontraria um discurso mais lógico, mais compreensível e mais pró­ ximo da verdade. Repetimos a indagação já feita:

-A troco de que, o senhor La Rouche se apresenta como volun­ tário paladino dos países da Amé­ rica Latina que diz ameaçados em sua existência nacional soberana, pelo seu país de nascimento?

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No documento Gel Coutinho - Cadernos Da Liberdade [Web] (páginas 86-89)