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As redes nas universidades e a política de reserva de mercado

Gráfico 1: Sistema de Convicções ou Crenças

4 DA GUERRILHA INFORMACIONAL PARA A INSTITUCIONALIZAÇÃO DA GOVERNANÇA

4.1 As redes nas universidades e a política de reserva de mercado

Desde meados da década de 1970 se tentava construir redes computacionais       nas universidades. A Associação das Universidades do Rio Grande do Sul       (ADURGS) chegou a lançar um documento inicial do que seria a Rede Sul de       Teleprocessamento (RST). A iniciativa nunca chegou a sair do papel mas pode ser       considerada o primeiro esforço de conectar universidades para compartilhar os       recursos computacionais recém chegados nos campi , com um objetivo muito similar         ao que motivou os primórdios da ARPANET (TAROUCO, 1983).   

Os computadores, nesta época, ocupavam grandes salas e seu acesso era       bastante limitado. Juntar esforços para compartilhar recursos era uma forma de       aproveitar os poucos equipamentos disponíveis para expandir a capacidade de uso       nas pesquisas.   

Na virada da década de 1970, no Rio de Janeiro, algumas universidades       discutiam fazer algo semelhante. Na PUC-RJ, quando o projeto REDPUC foi lançado,       seu slogan era “A REDPUC é feita por Nós", fazendo o trocadilho com os "nós"         (pontos) da rede, jargão da área. Era uma empreitada entre a PUC, a Telebras,       Embratel e USP. Um outro projeto chamado Rede Rio tinha a intenção de abranger       todas as universidades do Estado, o que veio a se acontecer anos depois.  

Apesar desses esforços, as redes acadêmicas no Brasil só existiam nas       intenções dos documentos. A grande questão - e também o entrave - era se as       universidades poderiam gerar tráfego comunicacional entre si e, posteriormente, se      

comunicar com redes no exterior. O que parece trivial hoje era motivo de divergência       principalmente com Governo Federal. Na visão de quem gerenciava as políticas de       telecomunicação, não fazia sentido as universidades serem sistemas autônomos de       comunicação, ou seja, gerenciar seu próprio tráfego e interconectar outros pares       (KNIGHT, 2014). Entretanto, esse era o caminho que se desenhava para diversos       modelos de rede, mais notadamente a própria Internet.  

No início do ano de 1991 a Internet chegaria de fato ao Brasil através da       iniciativa de alguns engenheiros da Fapesp. A Fundação de Amparo à Pesquisa de       São Paulo coordenava a rede ANSP (Academic Network at São Paulo), que conectava       UNESP, UNICAMP, USP e outras instituições do Estado. Em janeiro, Demi Getschko       e Joseph Moussa instalaram o software necessário para que fosse estabelecida a       comunicação com a Internet na já existente conexão com o Fermi National       Laboratory (Fermilab), um laboratório de física de alta energia em Batávia, próximo       de Chicago, nos Estados Unidos. Alberto Gomide, outro colega que trabalhava com       Demi, foi até o Fermilab posteriormente para fazer a configuração final.   

A Fapesp tinha uma lenta conexão direta - uma linha dedicada com       velocidade de 64 kb - que permitia enviar e-mails e participar dos BBS ( bulletin board           system ) desde 1989. Entretanto, a Internet já estava despontando como uma rede         abrangente nos Estados Unidos, e as conexões existentes no Brasil acompanharam a       migração por conta de suas conexões remotas.  

A façanha fazia parte de uma longa trajetória compartilhada com outros       pesquisadores de universidades diferentes. Demi Getschko estava à frente do projeto       da Fapesp, com uma imcumbência que extrapolou questões técnicas para se imbricar       em questões regulatórias e de políticas de telecomunicação. Engenheiro elétrico, com       Mestrado e Doutorado na Poli/USP, ele era um apátrida até os 16 anos. Nascido na       Itália, na cidade de Trieste, veio para o Brasil no primeiro ano de vida, em 1954.       Apesar de sua carreira acadêmica, sua dedicação foi imensamente maior no sentido       de implementar os projetos da rede ANSP e, posteriormente, a Internet. Tanto em       matérias jornalísticas ou eventos públicos, não é incomum ser chamado de "pai da      

Internet no Brasil", título que sempre faz questão de recusar, destacando que houve       muitos outros envolvidos neste esforço.  

Talvez um dos motivos que fez Demi adquirir esse título informal repouse no       fato que ocorreu dois anos antes quando, em 19 de abril de 1989, recebeu de Jon       Postel, responsável pela Internet Assigned Numbers Authority (IANA), a       administração de um bloco de endereços (IPs) e o gerenciamento do domínio       nacional de nível superior (country code top-level domain - ccTLD), o Ponto BR -       endereços com sufixos terminados em ".br", como ufrgs.br. Postel estava distribuindo       os endereçamentos dos nomes de domínio de país para o que chamava de       comunidades técnicas ao redor do mundo, sem necessariamente passar por       intermédio das burocracias estatais. Através de contatos no Brasil e nos Estados       Unidos, Demi requisitou e foi atendido, o que facilitou o trabalho de endereçamento       das máquinas que estava conectando nas universidades paulistas .  14

Gerenciar um bloco de endereços e o gerenciamento do ccTLD significava que       Demi e seus colegas poderiam numerar e dar nome aos computadores e serem       localizados dentro da rede global. É algo trivial hoje localizar um computador do       outro lado do mundo, mas isso só é possível devido às políticas de endereçamento e       nomenclatura de computadores administrados a partir de uma complexa governança       que, naquele momento, era gerenciada quase que exclusivamente por Postel.  

Assim como Demi, outros estrangeiros ou descendentes seriam figuras       centrais para conseguir finalmente conectar o país à Internet. Os expatriados , como         eram chamados, eram professores (entre mestres e doutores) que estavam no início       das suas carreiras, interessados em se conectar a uma rede diferente do que tinham       visto ou estudado até então. A rede Internet chegava no mesmo momento de       transição democrática do país e mudanças de agendas sobre telecomunicações. Em       linhas gerais, os argumentos utilizados pelos precursores da rede nos Estados Unidos       combinavam com os anseios dos entusiastas no Brasil: uma rede que nasceu no      

14    O professor Michael Stanton, na UFRJ, já havia solicitado à IANA um bloco de endereços para a                                

utilização na então denominada Rede Rio, que previa interligar várias instituições no Estado do Rio de       Janeiro. Este bloco foi reservado, mas não havia sido usado, segundo Stanton, porque eles não       dispunham de um e-mail para receber as informações. A conexão com a BITNET aconteceu alguns       meses antes da Fapesp.  

ambiente acadêmico, com padrões técnicos abertos, sem estar vinculada a um grande       fabricante de computadores, ainda que o financiamento fosse proveniente do       Departamento de Defesa norte-americano.  

A Internet era somente uma das várias redes disponíveis na época. O esforço       era para se conectar em alguma delas. As primeiras conexões internacionais foram       com a BITNET a partir de três iniciativas distintas nas universidades. A UFRJ se       interligou com a University of California at Los Angeles (UCLA). O Laboratório       Nacional de Redes de Computadores (LARC), sediado no Rio de Janeiro, que       interligava outras 20 instituições, se conectou com a Universidade de Maryland. E,       por fim, a Fapesp, através da rede ANSP, se interligou com o Fermilab. Assim, os três       nós se interligavam com pontos específicos nos Estados Unidos, mas não       necessariamente conversavam entre si. Foram necessárias artimanhas técnicas ou       burocráticas para que pudessem se adequar às exigências legais, já que não podiam       gerar tráfego entre si. A Telebras e a Embratel só autorizavam conexões individuais       com o aval da Secretaria Especial de Informática (SEI).   

A ANSP foi considerada uma única entidade jurídica e, portanto, um único       ponto de acesso. No caso do LNCC, as instituições utilizavam acesso remoto via       terminal até o servidor central no Rio de Janeiro, ou seja, as comunicações não eram       redirecionadas para cada sede. Se uma mensagem da UFMG, conectada ao LNCC,       precisasse chegar a alguém na USP, essas comunicações necessitavam passar       primeiro pelos Estados Unidos para depois chegar novamente ao Brasil.  

Havia uma demanda dos pesquisadores de Doutorado que estavam       voltando para o Brasil em se manter conectados aos seus colegas lá de fora. E       ainda havia uma questão de status. Se você mandava um e-mail para       qualquer figura no exterior era provável que ele leria e responderia, porque       poucas pessoas tinham acesso, era uma rede de pessoas muito pequena. Em       um determinado momento, nós criamos uma rotina de "envio de e-mail       manual" em que as mensagens eram enviadas por disquete para nós [nesse       caso rede ANSP] e nós enviávamos no dia seguinte. Quando chegavam as       respostas, nós copiávamos em disquete novamente e devolvíamos para a       pessoa. (DEMI GETSCHKO, entrevista realizada pelo pesquisador)  

 

Os físicos, em especial, foram os promotores da iniciativa dentro da Fapesp. O       professor Carlos Escobar, do Instituto de Física, apresentou a proposta para Oscar       Sala, presidente da Fundação, que também era físico de formação. Se conectar ao      

Fermilab também significava se conectar com pesquisadores próximos a estas       pessoas .  15

A BITNET era uma rede muito popular, principalmente nos Estados Unidos,       entre universidades que proviam, em linhas gerais, serviço de e-mail, listas de       discussão e transferência de arquivos . Apesar de não ser de fato Internet, a BITNET         16        podia trafegar mensagens com ambas. Na década de 1990, essas redes rapidamente       migraram e levaram consigo todos que estavam conectados. Foi o caso da Fapesp       que, além da BITNET, também fazia parte da UUCPNET (redes de sistemas UNIX),       da Fidonet (uma rede BBS similar) e da RENPAC da Embratel, que era a única rede       disponível pelo fornecedor de telecom da época.  

Logo em seguida, a conexão com a Fapesp seria a porta de saída para a       Internet para a Rede Nacional de Pesquisa (RNP), coordenada pelo Ministério da       Ciência e Tecnologia, criada para ser um tronco de interligação entre as       universidades brasileiras. Essa mesma conexão - pequena e lenta - seria o pontapé       inicial para que as universidades pudessem desfrutar da Internet.  

Quando mais instituições chegaram para se conectar à rede, Demi, que       administrava os nomes de domínio, começou a organizar, junto com outras pessoas,       como seriam nomeadas as máquinas aqui no Brasil. Segundo o que ele próprio       relatou em entrevista para a revista da Fapesp:   

“Todo o primeiro backbone da RNP foi projetado numa reunião na Fapesp         com a participação do Michael Stanton, do Alexandre Grojsgold, do LNCC, e       do Alberto Gomide, da Fapesp. Logo em seguida, discutiu-se a estrutura de       nomes a usar embaixo do .br. As universidades, por sua participação       histórica no processo, poderiam ficar diretamente debaixo do .br, surgindo       assim usp.br, unicamp.br, ufmg.br etc. Criamos o gov.br para o governo e,       abaixo dele, as siglas dos estados, como sp.gov.br. O com.br foi definido para       a futura área comercial, o org.br para o segmento de organizações sem fins       de lucro, o net.br, para máquinas ligadas à infraestrutura da rede”.       (OLIVEIRA, 2014, p.30)  

15  Em 1987, Philippe Gouffon estava concluindo uma bolsa de estudos de pós-Doutorado no Fermilab                            

e já sabia que a instituição norte-americana estava disposta a se conectar com a universidade brasileira       por meio de sua rede, a HEPNet (High Energy Physics Network). Ele trouxe a ideia para o professor       Carlos Escobar, do Instituto de Física, que integrava a coor denação da área de Física da Fapesp. Oscar       Sala, coordenador, era físico do mesmo instituto da USP e deu início ao projeto prospectando que a       conexão entre o Laboratório de Física de Altas Energias da USP e o Fermilab permitiria o       desenvolvimento de estudos em parceria.   

 

16  Era uma rede administrada pelo CREN (Corporation for Research and Educational Networking), em                          

Nesse momento, os nomes de domínio não eram vendidos. Sequer havia uma       organização específica para novos pedidos. Em geral, as requisições chegavam       eletronicamente para que Alberto Gomide fizesse as configurações necessárias. A       pequena comunidade da Internet começava a surgir, mas ainda sem instituições de       coordenação.  

A RNP é um capítulo da história que permitiu aproximar as iniciativas       acadêmicas dos esforços governamentais. Quem coordenava o projeto era um outro       expatriado. Tadao Takahashi era um descendente de japoneses que se graduou na       UNICAMP como engenheiro e fez sua pós-graduação no Japão. Para iniciar o que       seria o tronco de redes entre universidades, manejou os interesses e resistências do       governo, além dos anseios da nova geração de professores que almejavam por se       conectar na nascente Internet.  

A concepção de uma rede abrangente, envolvendo as universidades e       institutos, veio das mãos do LNCC e do imbróglio da UFRJ para se conectar à       BITNET em 1988. Quando Takahashi assumiu a coordenação da RNP, buscou       mobilizar os atores-chave das redes existentes, ainda que céticos com a atuação       governamental. Ele também conseguiu aglutinar as áreas do governo que apoiavam       alguns dos projetos de pesquisadores no MEC e no CNPq. As iniciativas, ainda que       provisórias, foram também o ponto de apoio para que aos poucos a RNP conseguisse       se estruturar e permitir o tráfego da Internet. De certa maneira, foram os pivôs para       abrir brechas em uma política já cambaleante no Governo Federal na virada da       década de 1990.  

Entretanto, esse arranjo ainda preservaria certas arestas. Para uma parte das       pessoas integrantes das redes acadêmicas, a RNP deveria comportar somente o       tráfego de comunicação de pesquisas oriundas das universidades e institutos. Para       Tadao Takahashi e alguns outros apoiadores, a RNP deveria ser um backbone para         servir aos futuros provedores de conexão comerciais. Essa era uma celeuma aberta       sobre o modo como a Internet chegaria para as pessoas em geral.    

Estas polêmicas perduraram por um longo tempo e a RNP, por fim, ficaria       com a imcumbência de interconectar apenas as universidades e institutos de       pesquisa. A Internet, portanto, chegou quase de maneira silenciosa nas       universidades.