Fonte: Elaboração do autor a partir das fontes disponíveis em www.cgi.br/processo-electoral
6.4 Setor Empresarial e as diferentes dinâmicas de mobilização
O desequilíbrio no número de entidades inscritas no Setor Empresarial ajuda a lançar um olhar sobre onde há mais concentração de poder econômico e político. O segmento tem quatro cadeiras, mas cada uma delas é subsegmentada.
A cadeira dedicada aos representantes do setor de telecomunicações, nomeada de Provedores de Infraestrutura de Telecomunicações, é disputada entre 10 a 15 entidades. O SindiTelebrasil, sindicato representante das grandes e principais empresas de telefonia e serviço móvel do país, tem ocupado a vaga nos últimos três pleitos. Entretanto, esteve ausente nas primeiras eleições.
Desde a privatização do setor, na década de 1990, a área de telecom é dominada por empresas multinacionais. As quatro grandes operadoras - Claro (America Movil), Telefonica (Telefónica S.A.), TIM Brasil (Telecom Itália) e Oi (antiga Telemar) - concentram mais de 80% do mercado de banda larga fixa. No mercado de telefonia móvel essa concentração chega a quase 100%, restando um mercado residual para operadoras de porte pequeno como Sercomtel, Algar e Nextel (menos de 2%). Somente em 2016, as quatro grandes operadoras tiveram um faturamento de mais de US$ 76 bilhões, traduzindo-se em um dos maiores setores econômicos do país.
A concentração em poucas entidades representativas que se habilitam a participar da eleição do CGI.br não é só reflexo de um número reduzido de empresas no mercado, também é parte de uma estratégia de divisão de poder no setor. Na eleição de 2013, por exemplo, mesmo com 14 entidades inscritas neste subsegmento, um mesmo representante legal foi indicado por quatro delas, ainda que não tenha sido o candidato eleito. No referido ano, Eduardo Levy, representante do SindiTelebrasil, foi reeleito e, em 2016, assumiu o terceiro mandato.
Levy se tornou conhecido nas disputas das principais controvérsias sobre as políticas públicas do setor de Internet e telecom. Entre 2013 e 2014, anos decisivos para a tramitação e aprovação do Marco Civil da Internet, ele foi peça-chave na tentativa de convencer os deputados e senadores a flexibilizar as regras sobre neutralidade de rede. O SindiTelebrasil tinha como principal aliado na Câmara dos Deputados o então presidente da casa, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), que se tornou um dos principais articuladores das pautas do sindicato no Legislativo. Em 2014, seu lobby foi vencido, mas sua influência em Brasília continuou reconhecida por articular várias pautas importantes do setor empresarial da área. Tem conseguido manter uma influência entre as grandes e principais entidades que advogam pelo setor. Foi com ele que o SindiTelebrasil ocupou assento no CGI.br, em um momento em que a pauta sobre a Internet começou a tomar os holofotes no meio político em Brasília. Ocupar este espaço foi estratégico.
A cadeira dos Provedores de Acesso e Conteúdo da Internet aglutina um outro campo: o dos pequenos e médios provedores regionais. O setor de conteúdo também se faz presente, embora não seja relevante - apenas poucas entidades representativas do setor de marketing e de comunicação se habilitam no colégio em certas ocasiões.
O mercado de provimento de Internet, apesar de ser concentrado na mão das grandes operadoras de telecom, possui mais de 7 mil empresas habilitadas a prestar o serviço (GOMES, 2019). A maioria são de pequeno porte, com menos de cinco mil clientes, e atuam em regiões onde as grandes operadoras não têm interesse comercial. Como o provimento de Internet não é um serviço universalizado, como é o caso da telefonia fixa, são as estratégias de mercado que desenham o mapa de acesso à banda larga.
Muitos desses provedores se organizam em associações, algumas de caráter regional, como a Associação dos Provedores de Serviços e Informações da Internet (INTERNETSUL), outras de cunho nacional, como a Associação Brasileira de Internet (ABRANET) e a Associação Brasileira de Provedores de Internet e Telecomunicações (ABRINT). É um segmento que aglutina um número um pouco maior de entidades inscritas que o de Provedores de Infraestrutura de Telecomunicações, mas não mais que duas dezenas de entidades.
Desde 2013, a agência reguladora do setor de telecomunicações, a ANATEL, instituiu mudanças no licenciamento do Serviço de Comunicação Multimídia (SCM) no qual se enquadram os provedores de Internet (ANATEL, 2013). Nesse sentido, os prestadores de serviço atuam na entrega de conexão de rede, precisam de uma licença que, em linhas gerais, tornam estas empresas em prestadoras de serviço de telecom.
Se, por um lado, o licenciamento elevou os provedores de qualquer tamanho ao mesmo patamar legal de uma grande operadora do ponto de vista burocrático, por outro, instituiu uma série de requisitos legais. Este impasse perdurou até a edição
de nova Resolução em 2017, que simplificou os processos para os provedores com até 5 mil clientes (ANATEL, 2017; 2018).
Uma série de questões afastam e aproximam esses dois subsegmentos. A questão tributária, por exemplo, é pauta comum. Os serviços de telecomunicações são tributados com o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Prestação de Serviços (ICMS), imposto estadual na faixa de 30% - um dos mais elevados. O provimento de Internet não é tributado, pois se trata de um Serviço de Valor Adicionado (SVA) que funciona sobre o serviço de telecom, incidindo outros impostos menores. Isso ajuda a explicar por que os pacotes “combo” das grandes operadoras oferecem serviços de telefonia quase de graça, pois o ICMS incide somente nesse valor. Há uma demanda setorial de longa data pela redução de impostos na área, porém essa é uma das principais fontes de renda dos Estados, que enfrentam um histórico de crises nas contas públicas, o que acaba por inviabilizar qualquer avanço nesse sentido.
A vaga dos Provedores de Acesso e Conteúdo da Internet tem sido ocupada pelo candidato indicado pela ABRANET desde 2010. Eduardo Fumes Parajo segue uma tendência no campo do setor empresarial que é a permanência dos representantes por um longo período no cargo, mobilizando praticamente o mesmo grupo de apoiadores.
A característica de permanência e reeleição contínua é ainda mais saliente para a cadeira reservada à Indústria de Bens de Informática, Telecomunicações e Software. Desde a primeira eleição, em 2004, Henrique Faulhaber ocupa a vaga, tendo sido reeleito em todas as eleições subsequentes. Na última eleição, ele foi indicado por duas entidades do subsegmento, mas não era representante legal de nenhuma delas.
A representação desse setor corresponde, majoritariamente, à indústria de software e associações do setor de informática. A Associação Brasileira das Empresas de Software (ABES) se faz presente nas eleições e é voto cativo de Henrique. Quando o CGI.br foi remodelado, em 2003, havia uma preocupação a respeito das disputas sobre a área. O Governo Federal, na época, estava iniciando uma política de incentivo de uso e desenvolvimento de software livres que batia de frente com o setor de
informática consolidado. Mario Teza, da Associação Software Livre.org, que anteriormente tinha sido indicado pelo governo como representante dos trabalhadores do setor de informática no período de transição, em 2003, se elegeu por duas vezes para uma das vagas destinadas ao Terceiro Setor, como parte da estratégia desta contraposição.
Porém, ao longo dos anos, questões de software foram sendo sobrepostas por outras discussões como, por exemplo, serviços de plataformas e aplicativos. O setor continua com relevância, mas já não é hegemônico no desenho de políticas para a Internet. O número de entidades inscritas neste subsegmento é semelhante ao de outros, ficando em, no máximo, três dezenas de entidades que efetivam o voto.
Henrique tem no seu histórico a implantação de um dos primeiros provedores brasileiros na década de 1990, no Rio de Janeiro. Ao longo de sua carreira, sua atuação se deu mais em prol do setor de TIC. No trabalho como conselheiro do CGI.br, ele coordenou o grupo que tratou de medidas para o combate às mensagens eletrônicas não solicitadas - convencionadas de SPAM -, que depois de alguns anos deu origem a uma decisão consensuada entre diversos setores (HOEPERS; FAULHABER; STEDING-JESSEN, 2015).
Por fim, o maior e mais atípico subsegmento é o do Setor Empresarial Usuário, que acumulou mais de três centenas de entidades homologadas na última eleição e sempre foi o colégio eleitoral mais numeroso ao longo dos pleitos. Por conta disso, sua dinâmica é bastante distinta dos outros pares do setor empresarial.
Em primeiro lugar, destaca-se a distribuição regional dos inscritos: apesar de todos os segmentos concentrarem a maior parte de suas bases eleitorais na região sudeste, o Setor Empresarial Usuário tem inscritos espalhados por quase todos os Estados da federação. Na eleição de 2016, houve entidades inscritas em todas as capitais, algo particular deste segmento.
Gráfico 7: Distribuição regional das entidades inscritas no