―Culturas Escolares Y Reformas‖ de autoria de Antonio Viñao, o qual
evidencia que as recentes pesquisas desenvolvidas por historiadores sobre as reformas educativas denunciam o divórcio existente entre os promotores da reforma, os reformadores da Educação e a História.
Os reformadores, em geral, acreditam na possibilidade de acontecer uma ruptura com a tradição do passado (VIÑAO, 2000, p. 1). Assim, acabam por atuar:
... ao ignorá-las, como se estas práticas e tradições não existissem, como se nada tivesse sucedido antes delas, e estivessem, portanto, em condições de construir um novo edifício a partir do zero. É justamente a construção deste acontecimento que levam a plantar a necessidade de romper essa antipatia existente entre as estratégias de reforma de currículo e os estudos e a história dos mesmos [tradução nossa] (p. 1).
Para Viñao (2000), utilizando-se politicamente da história para tomar decisões sobre o presente ou o futuro, os reformadores agem de modo explícito, mas muitas vezes, com uma ausência de perspectiva histórica fundamentada o que explica as reformas apresentarem como uma das principais características, a superficialidade.
As reformas educativas são os esforços projetados para modificar as escolas com a finalidade de resolver, tomar frente ou corrigir os problemas sociais ou educativos percebidos. Para que ocorram as mudanças necessárias, várias características interferem nesse processo, dentre as quais o cotidiano das atividades educativas e a vida dos centros educacionais, o que dá a perceber dois efeitos, o fracasso relativo dessas reformas educativas e a constatação da existência da denominada ―gramática da escola‖ (VIÑAO, 2000).
Segundo Viñao (2000):
As reformas fracassam não porque, como é sabido, todas elas produzem efeitos não previstos, não queridos e opostos aos buscados, não porque originam movimentos de resistência, não encontram os apoios necessários ou não aceitam a implicar ao
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professorado em sua realização, não porque, ao aplicar-se, se convertem em um ritual formal ou burocrático, sim porque, por sua mesma natureza a-histórica, ignoram a existência da ―gramática da escola‖.Ignoram a existência e peso desse conjunto de tradições e regularidades institucionais, sedimentadas ao longo do tempo, que governam a prática de ensino-aprendizagem [tradução nossa] (p. 2).
Para esse autor, o conceito ―gramática da escola‖ possui analogias com a cultura escolar (VIÑAO, 2000, p. 2). A análise de questões concretas pode ser útil para compreender as instituições educativas, uma mistura de tradições e inovações. As culturas produzidas no âmbito escolar oferecem aos historiadores um marco explicativo e de análises o que possibilita o entendimento de:
como se aplicam e adaptam as reformas;
como e porque, determinados aspectos destas são incorporados mais ou menos rapidamente na vida escolar;
como outros são rechaçados, modificados, reelaborados e distorcidos a partir desses modos de fazer e pensar;
como se pode gerar a troca educativa e a inovação escolar nas instituições escolares;
como são uma combinação de continuidades e mudanças. Uma combinação submetida à lógica dessas regularidades e à pressão de aspectos externos à mesma, mas configuradores dela, como a cultura própria de cada política educativa e das mudanças sociais e tecnológicas [tradução nossa] (VIÑAO, 2000, p. 3).
Ao estudar as reformas educativas, deve-se conhecer quando foram produzidas tais mudanças, a que ritmos e de que modo, porque ocorreram essas mudanças e não outras, naquele momento e não em outros e ainda qual teria sido o processo de difusão de tais reformas e como afetaram o trabalho educativo, bem como os processos de ensino e aprendizagem (VIÑAO, 2000).
Assim, nas mudanças ocorridas no ensino de Matemática em tempos do MMM podem ser apreciados diferentes aspectos externos e internos que influenciaram essas modificações, que podem estar ligadas a processos sócio- educativos e outras mudanças mais limitadas ocorridas no âmbito organizativo-curricular. Essas mudanças ocorridas interagem entre si, mas sua ocorrência ―esclarece as relações existentes entre as culturas escolares, reformas e inovações‖ (VIÑAO, p. 5).
escolares, as quais se originam nos processos sócio-educativos possuem: ... uma estreita relação com processos e mudanças sociais, cujos efeitos ou consequências só se aprecia ao longo de períodos de tempo, inclusive superiores a um século [...]. Todas elas têm determinado, e determinam [...] mudanças na organização escolar, nos currículos e nos modos de ensino - aprendizagem, ou seja, no pensar educativo e na realidade cotidiana dos centros docentes [tradução nossa] (VIÑAO, 2000, p. 5).
Ainda se desenvolvem no âmbito organizativo e curricular, outros tipos de mudanças que são consideradas ―reformas de fundo‖, as quais provocam uma diversidade de outras modificações que atingem tanto os processos educativos, quanto a vida dos centros educacionais. Assim sendo, torna-se necessário, durante a análise de uma reforma educativa, diferenciar três âmbitos:
... o da teoria proposta dos ―reformadores‖, o da legalidade em todas as suas formas e manifestações e o das práticas. Teoria, legalidade e práticas não coincidem. Mas tampouco são compartimentos herméticos ou que diferem totalmente. Determinam-se e influenciam entre si. Mas ainda, em cada um deles pode versar parte dos outros dois [tradução nossa] (VIÑAO, p. 7).
Esse contraste, acima referido, propicia observar: a lenta difusão ou não aceitação das inovações que sofreram resistências ou encontraram obstáculos; a presença de persistências, continuidades e tradições; a necessidade de distinguir e avaliar os processos de construção, consolidação e transformações das práticas cotidianas em sala de aula e fora dela (VIÑAO, 2000). Esse tipo de estudo permite apreciar as diferentes concepções existentes entre a cultura dos reformadores e gestores da educação e a cultura dos professores. Tal oposição existente entre essas culturas exige uma análise mais refinada de ambas, objetivando desvendar o jogo de relações possíveis entre as culturas escolares, as reformas e as inovações ou se preferir a natureza tradicional e talvez a troca da instituição escolar (VIÑAO, 2000, p. 8).
As reformas atingem as culturas escolares e nem sempre produzem os efeitos desejados. Muitas vezes essas reformas fracassam por não se levar em conta essas diferentes culturas escolares, especificamente a dos professores em suas diferentes categorias ou níveis de ensino. Para Viñao (2000), os modos de ser e de pensar transmitidos de geração em geração
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pelos professores, decorrentes de suas experiências como docentes, permitem-lhes planejar e exercer as atividades acadêmicas, adaptando-as e transformando-as em acordo com as exigências e pressões externas, em convivência com as sucessivas reformas educacionais que ocorrem.
Para explicitar as ideias, propostas e conceitos relativos à Matemática Moderna, produzidos nesse período, é proeminente considerar o espaço e o tempo escolar, sob o ponto de vista do conceito de cultura escolar, proposto por Viñao ―[...] a cultura escolar pode ser definida como um conjunto de ideias, princípios, critérios, normas e práticas sedimentadas ao longo do tempo das instituições educativas.‖ (2000, p. 100). Nessa direção, os sujeitos que assumem parte da vida cotidiana de uma escola, ao longo do tempo, vão definir as práticas e os modelos escolares de fazer e de pensar.
E no âmbito da cultura professoral, muitas vezes esses sujeitos alegam falta de tempo para as modificações e guiados internamente pela continuidade das práticas docentes já existentes, resistem às mudanças requeridas. Para Viñao (2000), essa cultura é uma combinação de crenças e mentalidades, hábitos e práticas e consiste nas formas de fazer as coisas assumidas pelas comunidades de professores que têm que enfrentar exigências e limitações similares no transcorrer de muitos anos. Essa cultura transmite aos novos co-participantes as soluções historicamente compartilhadas de modo coletivo na comunidade que configuram como referência para a aprendizagem. As estratégias utilizadas pelos professores facilitam enfrentar as incertezas e ansiedades geradas pelas reformas e a adaptação aos diferentes e variáveis contextos escolares.