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De acordo com Le Goff (1992), a criação da revista ―Annales d‘Histoire Économique et Sociale‖ no ano de 1929, marcou o início das mudanças ocorridas na prática do historiador. Os fatos históricos estão constituídos de traços e rastros deixados pelo passado no presente. A memória coletiva e sua forma científica e a história, considerava como semelhantes dois tipos de materiais, os monumentos12, herança do passado, e os documentos13, à escolha do historiador, sendo que o que sobrevive é uma escolha determinada pelas forças que agem no desenvolvimento temporal do mundo e da humanidade e pelos historiadores que se dedicam ao estudo do passado. Contudo, a leitura dos documentos realizada pelo historiador não pode ser feita com ideias pré-concebidas. Nessa fase, a única habilidade do historiador ―consiste em tirar dos documentos tudo o que eles contêm e em não lhes acrescentar nada do que eles não contêm, sendo o melhor historiador aquele que se mantém o mais próximo possível dos textos‖ (p. 536).

Com a escola positivista, tornou-se imprescindível o recurso do documento, admitindo que ―não há história sem documentos‖, pois se não foram registrados documentos, ou gravados ou escritos, dos fatos históricos, aqueles fatos se perderam (LE GOFF, 1992, p. 539). Com o passar do tempo a concepção de documento enriquecia-se e ampliava-se. O documento que era tido como um texto agora passava a ter sua definição alargada. Assim, passou-se a admitir outros tipos de documentos além dos textos. Onde ―faltam os escritos monumentos, deve a história demandar às

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Monumentum é uma palavra latina originada da raiz indo-européia men, que exprime uma das funções essenciais do espírito (mens), a memória (memini). O verbo moneri significa fazer recordar. O monumentum é um sinal do passado. O autor cita como exemplos, os atos escritos que podem evocar o passado e perpetuar a recordação, ou seja, são um monumento. Os monumentos são possuidores de características como o ―ligar-se ao poder de perpetuação, voluntária ou involuntária, das sociedades históricas e o reenviar a testemunhos que só numa parcela mínima são testemunhos escritos‖ (LE GOFF, 1992, p.535).

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O termo latino documentum é derivado de docere que significa ensinar, evoluiu para significado de ‗prova‘ e é amplamente usado no vocabulário legislativo. Difundiu no século XVII, na linguagem jurídica francesa. O documento que será o fundamento do fato histórico para a escola histórica positivista do fim do século XIX e do início do século XX, parece apresentar-se por si mesmo como prova histórica ainda que resulte da escolha de um historiador (LE GOFF, 1992, p.536).

línguas mortas os seus segredos [...] deve escrutar as fábulas, os mitos, os sonhos da imaginação [...]. Onde o homem passou, deixou qualquer marca da sua vida e da sua inteligência, aí está a história‖ (FUSTEL DE COULANGES apud LE GOFF, 1992, p. 539).

Em 1929, os pioneiros de uma história nova14, insistiram na necessidade de ampliação da noção de documento, nos seguintes termos:

A história faz-se com documentos escritos sem dúvida. Quando estes existem, mas pode fazer-se, deve fazer-se sem documentos escritos, quando não existem. Com o que a habilidade do historiador lhe permite utilizar [...] com tudo o que, pertencendo ao homem, depende do homem, serve o homem, exprime o homem, demonstra a presença, a atividade, os gostos e as maneiras de ser do homem (LE GOFF, 1992, p. 540).

Porém, não se pode esquecer que a cada problema histórico não corresponde um único tipo de documento especializado para esse uso, pois os documentos não surgem por acaso. A presença dos documentos nos arquivos e bibliotecas depende de causas humanas que devem ser analisadas, e os problemas que surgem em sua transmissão, remetem à vida do passado e permite a recordação perpetuar através das gerações (LE GOFF, 1992, p. 544).

Assim, o historiador deverá conceber a palavra documento de modo mais amplo, ―documento escrito, ilustrado, transmitido pelo som, a imagem, ou de qualquer outra maneira‖ (LE GOFF, 1992, p. 540). Assim, os documentos encontrados nos arquivos brasileiros e portugueses serão comparados com outros documentos, tendo os seus significados desconstruídos e reconstruídos. Serão considerados como monumentos e podem ser estabelecidas as condições de produção histórica em relação à sociedade que os produziu, visto que são frutos das épocas consecutivas durante as quais sobreviveram sendo manipulados.

Todavia, a principal tarefa está em criticá-los. Segundo Le Goff (1992), o historiador deve considerar os documentos como monumentos, levando em conta que todo o documento é ao mesmo tempo verdadeiro e falso, ou seja, um monumento é de início ―uma roupagem, uma aparência enganadora, uma montagem. É preciso começar por, demolir esta

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montagem, desestruturar esta construção e analisar as condições de produção dos documentos-monumentos‖ (p. 148). Nessa direção, os documentos dos arquivos brasileiros e portugueses, em estudo neste trabalho, serão considerados como monumentos e não vão escapar às críticas, quaisquer que sejam, pois um documento,

... não é qualquer coisa que fica por conta do passado, é um produto da sociedade que o fabricou segundo as relações de forças que aí detinham o poder. Só a análise do documento enquanto monumento permite à memória coletiva recuperá-lo e ao historiador usá-lo cientificamente, isto é, com pleno reconhecimento de causa (LE GOFF, 1992, p. 545).

A necessidade de realização de uma análise crítica dos documentos é também defendida por Michel de Foucalt (1969), que afirma que os problemas da história se resumem em questionar os documentos, pois a história é uma forma de ―uma sociedade dar estatuto e elaboração a uma massa documental de que se não separa‖. A análise dos monumentos encontrados nos arquivos brasileiros e portugueses será realizada com intuito de transformá-los em documentos. Buscar-se-á conhecer nesses documentos ―uma massa de elementos que é preciso depois isolar, reagrupar, tornar pertinentes, colocar em relação, constituir em conjunto‖ (apud LE GOFF, 1992), para edificar uma nova história do MMM.

Entretanto, uma única crítica histórica não é suficiente para fazer essa desmontagem do documento/monumento. É necessário um estudo feito em uma perspectiva cultural, econômica, social e política, e, sobretudo como instrumento de poder na sociedade. Nessa direção, para que um documento possa contribuir para a história total, implica em não isolá-lo do conjunto de monumentos do qual faz parte.