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CAPÍTULO I: ABRINDO A CAIXA PRETA

I. 1 – As regras do jogo

Para alguns autores, um novo cenário para a produção e apropriação do conhecimento começaria a se delinear especialmente a partir do final do século XX (ZIMAN, GIBBONS, CASTELFRANCHI). Um dos indicativos dessa mudança seria a imbricação mais evidente entre ciência, tecnologia e mercado, o que levaria a um novo modo de organização da pesquisa e do conhecimento, além de um novo ethos para o pesquisador, que passaria a assumir papeis diversificados, além daquele que lhe é atribuído pela comunidade acadêmica: o do produtor de conhecimento. É interessante notar que essas mudanças estão relacionadas a um contexto maior, em que a própria organização da sociedade passa por transformações.

O sociólogo espanhol Manuel Castells é um dos autores que busca traçar um diagnóstico da sociedade contemporânea a partir das transformações permitidas e produzidas pela internet (CASTELLS, 2010). Para isso, ele começa identificando uma série de mudanças recentes nas áreas econômica, política e cultural. Na área econômica, por exemplo, ele destaca uma profunda reestruturação do modo de produção capitalista, caracterizada por maior flexibilidade de gerenciamento, descentralização das empresas tornando a administração mais horizontal, incorporação das mulheres à força de trabalho remunerado (ainda que em condições desiguais com os homens), aumento da concorrência econômica global, entre outros. Na esfera política, aponta as consequências do colapso do estatismo soviético, o fim da Guerra Fria e a alteração da geopolítica global, com o aparecimento de novas potências. Individualmente, a reconfiguração

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das formas de relacionamento obrigou as pessoas a buscar novas identidades como fonte básica de significado social.

Juntas, essas transformações desembocariam em um novo tipo de organização da sociedade, diferente em sua forma de poder, de configuração e de produção do conhecimento: a sociedade em rede. Ela seria marcada por fluxos, virtualidade e centrada na comunicação e na informação. Castells acredita que a emergência das novas Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs) é um ponto chave para compreender essa nova sociedade, organizada em torno de um novo modo de desenvolvimento chamado informacional.

Nele, a fonte de produtividade acha-se na tecnologia de geração de conhecimentos, de processamento da informação e de comunicação de símbolos. Como explica, o industrialismo, etapa anterior, estaria voltado para o crescimento da economia, isto é, para a maximização da produção; o informacionalismo, por sua vez, visaria ao desenvolvimento tecnológico, ou seja, à acumulação de conhecimentos e maiores níveis de complexidade do processamento da informação (CASTELLS, 2010, p. 54).

Essa sociedade baseada na informação – e organizada em redes em todos os seus níveis – teria características próprias. O conhecimento seria a principal força produtiva e aparece, ao mesmo tempo, como recurso e produto: ele estaria incorporado em bens materiais, como em um produto diferenciado que se compra no mercado, resultado do trabalho de criação de uma equipe; mas também estaria disperso, descorporificado, com seu valor associado à troca e à difusão. Como destaca André Gorz, “o valor de troca das mercadorias, sejam ou não materiais, não é mais determinado, em última análise, pela quantidade de trabalho social gerado que elas contêm, mas, principalmente, pelo seu conteúdo de conhecimentos, informações, de inteligências gerais” (GORZ, 2005, p.29).

O regime industrial de repetição e o trabalho assalariado que até então caracterizavam o modo de produção dão lugar a uma lógica de inovação e a um tipo de trabalhador que enxerga o tempo de consumo (de serviços, de bens informáticos e culturais) e de lazer como tempos de aquisição e de produção de novos conhecimentos (COCCO et al, 2003, p. 25). Como aponta EVANGELISTA (2010, p. 22), nesse novo desenho do mundo do trabalho, as pessoas passariam a ser contratadas como empresas e precisariam administrar suas carreiras como tal, buscando parceiros, e não patrões, produzindo e divulgando sua marca e agregando valor ao seu patrimônio (no caso, sua reputação).

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Nesse novo modo de produção, a atividade cognitiva se tornaria o fator essencial da criação de valor, uma criação que passa a acontecer, de maneira preponderante, em rede e fora do espaço fabril. Sobre isso, CASTELFRANCHI aponta:

As habilidades cognitivas, comunicacionais, afetivas se tornariam, no novo paradigma, centrais para a produção, enquanto o dispêndio de força física seria cada vez menos importante. A apropriação e a acumulação de informação se tornariam objetivos centrais do trabalho, e o valor adicional do trabalho derivaria da criatividade intelectual e da inovação(CASTELFRANCHI, 2008, p. 37).

A internet e os grandes portais de comunicação são exemplos desse novo momento. O valor de sites como Wikipedia10

, Youtube11

ou Facebook12

(que hoje gira em torno de vários milhões de dólares) está justamente na capacidade de gerar informação a partir da informação. Esses sites, em outras palavras, não oferecem bens físicos ou serviços, mas sim um coletivo de ideias, pensamentos e desejos, a partir dos quais é possível lançar tendências, construir campanhas e fazer previsões, tornando-se uma ferramenta de negócios valiosa na atualidade.

Ao redor do mundo, milhões de pessoas trabalham diariamente produzindo conteúdo de forma voluntária, que é disponibilizado na rede e acessado por outros milhões. Nesse ato, elas conhecem e são conhecidas, em um movimento duplo: ao mesmo tempo em que consomem informações, também oferecem a inúmeros desconhecidos uma visão de mundo. Nessa reconfiguração do mercado de trabalho, em que as pessoas precisam divulgar sua marca e agregar valor ao seu patrimônio, as contribuições na internet poderiam ser encaradas como uma forma de investimento na carreira. Para COCCO et. al. (2003), isso não poderia ter acontecido sem a integração crescente das novas tecnologias de informação e comunicação aos processos produtivos.

A reorganização da sociedade, com consequentes mudanças no mundo do trabalho, também afetaram o território da ciência. Até meados da década de 1980, a ciência era financiada

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www.wikipedia.org - Lançado em 2001, é um projeto de enciclopédia virtual em que os usuários colaboram na construção e edição de verbetes.

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www.youtube.com - Lançado em 2005, é um site de compartilhamento de vídeos no qual os usuários podem fazer download ou upload de seu próprio material.

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www.facebook.com - Criado em 2004, é um site de interação social que reúne mais de 800 milhões de usuários em todo o mundo.

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basicamente pelos governos, que investiam fortemente em grandes projetos científicos, especialmente em pesquisa de base, e conferiam aos cientistas relativa liberdade e autonomia para as escolhas relacionadas ao empreendimento da ciência (um modelo que ficou conhecido como Big Science e tem seu exemplo máximo no projeto Manhattan, iniciativa americana que culminou no desenvolvimento das primeiras armas nucleares). Essa configuração começou a mudar a partir de uma participação crescente do setor privado no financiamento de pesquisas e de uma percepção de que o conhecimento científico poderia ser comercializado, vendido e patenteado (POLINO e CASTELFRANCHI, 2012).

Uma característica desse novo modo de produção do conhecimento seria, assim, o compartilhamento de algumas regras do mercado. Sucesso, performance e competitividade são termos que passaram a fazer parte do vocabulário de pesquisadores de diferentes campos. As universidades e centros de pesquisa precisaram incorporar à sua gestão conceitos como patentes, start-ups e parceria com o setor privado. O conhecimento-mercadoria deu origem a todo um sistema de propriedade intelectual e a um discurso de empreendedorismo que hoje é predominante no ambiente acadêmico. As instituições, e também seus pesquisadores, devem se preocupar não só com publicações, mas também em transferir o conhecimento produzido para o mercado, beneficiando a sociedade (e, ainda, em ter retorno financeiro com isso, por meio de um sistema de divisão de lucros baseado em royalties).

No campo político, a ciência passaria a ser cobrada por suas responsabilidades na aplicação dos resultados das pesquisas. A crescente visibilidade dos interesses e dos conflitos de interesses – que ficaram mais claros em casos de repercussão mundial, como o da discussão sobre a liberação ou não de organismos geneticamente modificados para consumo ou o do patenteamento de medicamentos contra Aids – forçaria a ciência a buscar legitimação fora do ambiente acadêmico. O conhecimento deve conduzir à qualidade de vida da população e a soluções para problemas colocados pela sociedade. Espera-se, ainda, que a ciência escute os feedbacks e as demandas da população e que sua produção seja realizada de forma transparente e participativa.

Para POLINO e CASTELFRANCHI (2012), isso significa que vários cientistas precisaram aprender a lidar com novas normas e com um novo ethos acadêmico, no qual a busca pela verdade e pelo lucro, a objetividade e a política, podem dividir o mesmo território. Essas mudanças institucionais, organizacionais e epistemológicas estariam no cerne de uma ciência

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pós-acadêmica, que seria orientada pelo contexto da aplicação: a sociedade, e os problemas apresentados por ela e pelo mercado, passariam a ter grande influência nas decisões sobre os rumos das pesquisas científicas (CASTELFRANCHI, 2008, p. 79). GIBBONS et al (1994), por sua vez, mencionam um novo contrato social entre ciência e sociedade, um novo paradigma da produção de conhecimento, que seria socialmente distribuído, orientado pela aplicação, transdisciplinar, sujeito a múltiplas responsabilidades e caracterizado por três tendências importantes: mudanças de prioridades na pesquisa, comercialização e responsabilidade social.

É importante notar que essas novas características – que podemos agrupar em um chamado modo 2, em comparação a um modo 1, anterior – não suplantam, mas sim complementam a ciência até então praticada. Elas não eliminam exigências intrínsecas à atividade, como a publicação de papers ou a avaliação por pares, mas colocam novos desafios para os pesquisadores, como a prestação de contas para a sociedade e a comunicação com o público em geral.

CASTELFRANCHI (2008) destaca algumas diferenças entre os modos. Para o autor, em uma fase anterior, o conhecimento era produzido em um contexto de descoberta, sendo que a pesquisa era impulsionada por interesses de comunidades acadêmicas. No modo 2, a pesquisa seria organizada em um contexto de aplicação, com a produção do conhecimento a partir de demandas e de negociações com diferentes públicos. No modo 1, a pesquisa podia ser multidisciplinar, mas raramente era interdisciplinar porque o conhecimento se baseava em normas, representações, interesses e sistemas de referência ligados a grupos disciplinares específicos. Já no modo 2, a pesquisa seria tipicamente transdisciplinar, exigindo-se do pesquisador integrar habilidades e competências diferentes e incorporar normas vindas de diferentes grupos envolvidos no processo de produção do conhecimento.

A base da produção do conhecimento, no modo 1, era a academia, com comunidades hierárquicas e homogêneas, enquanto no modo 2 o conhecimento poderia ser criado em uma multiplicidade de lugares e em variados contextos de organização. No modo 1, o conhecimento era retratado como neutro, apolítico, desinteressado – apenas sua aplicação posterior poderia ser julgada e a responsabilidade sobre isso recairia não sobre os cientistas, mas sobre aqueles que decidiram sobre seu uso. A ciência tornaria-se mais reflexiva no modo 2, interrogando-se sobre o valor do que faz, seu impacto e questões éticas relacionadas à sua produção e aplicação. Com relação ao controle de qualidade, os mecanismos de avaliação se expandem no modo 2. Ao invés

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de basear-se apenas no julgamento dos pares, como no modo anterior, também seria levada em conta a relevância social.

Consequentemente, o papel do cientista também muda. Ele precisa desenvolver novas competências e passar a atuar, cada vez mais, fora dos limites de seu laboratório. Além das atividades que se esperam dele dentro da comunidade científica – como a produção e acumulação de conhecimento, a busca pela autoridade, o reconhecimento e o prestígio –, ele também passa a assumir outras facetas: o empresário, o militante, o consultor, a celebridade. A comunicação com o público é outro componente importante. O novo cientista precisa “vender seu peixe” para a sociedade, para o mercado e para os gestores públicos a fim de legitimar e conseguir financiamento para seu trabalho – garantindo, assim, a continuidade de suas atividades científicas.