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CAPÍTULO I: ABRINDO A CAIXA PRETA

I. 2 – Como um cientista se parece

Existem alguns cientistas que personificam bem essas novas características. Um deles é o americano John Craig Venter, pesquisador e empreendedor, criador da Celera Genomics, empresa privada que assumiu o desafio de sequenciar o genoma humano e conduziu o trabalho paralelamente a um consórcio internacional formado por pesquisadores de vários países financiados por recursos públicos. Nos anos 2000, ao atingir esse objetivo, ele apareceu em notícias veiculadas em todo o mundo como o modelo ideal de cientista, o destaque no campo acadêmico e o empreendedor de sucesso. Para CASTELFRANCHI (2008), sua figura é emblemática porque reúne características até pouco tempo atrás raras de encontrar no mesmo pesquisador: o empreendedor, o comunicador, o especialista na inter-relação entre conhecimento, técnica e mercado.

No Brasil, um cientista que se encaixaria nesse novo perfil é o médico e neurocientista Miguel Angelo Laporta Nicolelis, ou apenas Miguel Nicolelis, como é mais conhecido. Pesquisador da Universidade de Duke, na Carolina do Norte (EUA), onde é diretor do laboratório de Neuroengenharia, Nicolelis foi o primeiro brasileiro a ter um artigo publicado na capa da revista Science e, em 2009, foi apontado pela revista Época como um dos 100 brasileiros mais influentes. Seu trabalho de pesquisa envolve a integração do cérebro humano a máquinas por meio de neuropróteses ou interfaces cérebro-máquina (ICM), que ajudariam na reabilitação

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de pacientes que sofrem de algum tipo de limitação de movimentos. Recentemente, o cientista chamou a atenção da mídia brasileira e internacional ao anunciar um plano ambicioso. Durante uma palestra, prometeu que, em 2014, um tetraplégico dará o pontapé inicial da Copa do Mundo no Brasil usando um exoesqueleto (veste robótica controlada por pensamentos).

Misto de cientista e ídolo, é possível encontrar em Nicolelis a associação de diferentes papeis: o pesquisador de renome internacional, referência em sua área de atuação, líder em estudos de alto impacto; o empreendedor e visionário, responsável pela criação do Instituto Internacional de Neurociências de Natal, no Rio Grande do Norte, centro de pesquisa e educação; o cientista com responsabilidades sociais, que busca com seu trabalho solucionar um problema que aflige pessoas de qualquer nível social, garantindo com isso indiscutível melhora na qualidade de vida de milhares de pessoas; e o divulgador da ciência, com livros publicados, perfis em redes sociais por onde expressa suas ideias e presença constante na mídia.

Poderíamos citar ainda outros pesquisadores brasileiros. A geneticista Mayana Zatz, a quem já nos referimos, é destaque em seu campo de atuação e também a pessoa identificada como fonte e porta voz de temas associados à genômica e a células tronco, contando com espaço considerável na grande mídia. O físico e astrônomo Marcelo Gleiser, professor do Dartmouth College, em New Hampshire (EUA), é outro exemplo. Autor de vários livros, colunista do jornal Folha de S. Paulo e autor de quadros no programa Fantástico, da Rede Globo, ele também representa um tipo de cientista cuja atuação ultrapassa os limites da academia.

Outro ponto em comum é a forma como se apresentam. Na maior parte das aparições midiáticas, eles preferem “trajes civis” ao jaleco branco, símbolo da neutralidade e superioridade da ciência. Em um busca no Google por imagens de Miguel Nicolelis, observamos que dentre as 50 primeiras fotos, três mostram o cientista de jaleco ou claramente em um ambiente de laboratório, enquanto em seis delas o vemos com camisas de futebol ou assistindo a uma partida no campo, torcendo pelo Palmeiras, seu time. Em seu perfil do Twitter, aliás, a quantidade de postagens sobre ciência é igual (e em certos momentos inferior) à quantidade de postagens sobre futebol. Abrir mão do avental branco e apresentar-se como uma pessoa “normal” nos parece uma tentativa de facilitar o diálogo e angariar simpatia, formas de legitimar o trabalho científico e conseguir apoio para projetos em desenvolvimento.

Uma iniciativa interessante que mostra essa intenção em modificar o estereótipo de cientistas é o site This is what a scientist looks like. No local, pesquisadores de todo o mundo

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publicam fotografias em que aparecem em situações fora do local de trabalho: patinando, dançando, mergulhando, dirigindo motos ou simplesmente fotos descontraídas. As legendas explicam que, além de especialista em determinado campo do conhecimento, aquela pessoa também possui outras habilidades que a definem. De acordo com o site, o projeto tem como objetivo desafiar o estereótipo de cientista e mudar a percepção de que a ciência é realizada a portas fechadas, de forma inacessível, por pesquisadores brancos e do sexo masculino. Apesar de iniciativas como essa, que buscam mudar a imagem de cientista associada a pessoas excêntricas, é importante notar que abrir mão do jaleco em determinadas ocasiões não significa abandoná-lo de todo. Especialmente quando a ciência é chamada a opinar em decisões polêmicas, o avental branco e toda a simbologia que ele carrega voltam a entrar em cena, lembrando que os cientistas são pessoas comuns, mas nem tanto.

Os exemplos citados são de pesquisadores que se encontram no auge de suas carreiras, cientistas-celebridades que utilizam a mídia e sua influência política para concretizar seus projetos científicos. Dentro dos laboratórios de centros de pesquisa e universidades, porém, existem milhares de pesquisadores ainda em busca de reconhecimento em seu campo de atuação. Eles não dispõem da abertura dos veículos de comunicação tradicionais para defenderem seus pontos de vista; também carecem de influência política e prestígio extra-acadêmico que ajudariam a legitimar e a garantir financiamento para seus projetos científicos.

Ainda assim, seria possível identificar tais características, associadas a uma ciência pós- acadêmica, em pesquisadores nos estágios iniciais da carreira? Como essas características viriam à tona em uma comunidade virtual formada por cientistas, levando-se em conta suas atitudes e escolhas? Acreditamos que, dentre esses novos campos de atuação da ciência e dos cientistas, a comunicação é um dos mais importantes. As estratégias adotadas para a divulgação de seu trabalho, especialmente aquelas que se utilizam de canais alternativos para alcançar um público mais amplo, poderiam deixar transparecer algumas dessas características, ligadas aos novos papeis desempenhados pelos cientistas.

De acordo com POLINO e CASTELFRANCHI (2012), neste novo cenário, a comunicação da ciência e tecnologia seria não apenas um dever moral dos cientistas, uma necessidade da população ou uma estratégia de instituições científicas para legitimar sua atividade e conseguir financiamento; seria também um processo espontâneo e necessário ao funcionamento da ciência. Hoje, ela é feita também na frente das câmeras, financiamentos

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públicos são decididos de acordo com a visibilidade das causas e controvérsias científicas são resolvidas dentro da internet. Assim como a ciência, a comunicação da ciência também passa por transformações em suas normas, orientações e práticas.

Por exemplo, se, há algumas décadas, a palavra de ordem era ensinar/alfabetizar, agora a preocupação estaria em envolver/engajar o cidadão (BAUER, BUCCHI, LEWENSTEIN). Essa participação seria fundamental nesse contexto em que a relevância social é um pré-requisito para definir as pesquisas a serem financiadas e as negociações com diferentes grupos podem definir os rumos dos trabalhos e sua legitimidade. A divulgação científica passaria a utilizar novos canais e a ser direcionada não só aos pares e à população, mas também ao mercado e às instituições.

Embora o slogan hegemônico retrate a divulgação e popularização da ciência e da tecnologia como práticas de democratização, a comunicação pública não serve (só) para difundir conhecimento, a comunicação interna não serve (só) para ganhar prestígio acadêmico e marcar prioridade. Não apenas “o público” precisa de divulgação, mas também o mercado, os próprios cientistas e suas instituições precisam demandar espaços e recursos, negociar suas práticas, buscar patrocinadores no mundo industrial e financeiro, apoios e simpatias na sociedade civil, garantias no mundo político, visibilidade midiática. (CASTELFRANCHI, 2008, p.13)

É possível perceber as mudanças na forma de se comunicar a ciência a partir dos modelos de divulgação científica. Tais modelos dizem respeito a formas específicas de se entender a comunicação pública da ciência, seus desafios e objetivos, e as melhores formas para se alcançá- los. Ao longo dos anos, vários autores buscaram nomear e diferenciar esses modelos, diferenciando-os pela postura assumida pelos cientistas, pela participação popular, pela interatividade com os diferentes grupos e por seus objetivos. A seguir, apresentamos uma análise baseada em leituras de autores diversos que buscaram caracterizar esses modelos.

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