2 AÇÕES POLÍTICAS E O ESPORTE
2.3 AS RELAÇÕES ENTRE OS GOVERNOS E O ESPORTE
Foi entre fins do século XIX e início do século XX que o esporte viveu sua fase de implantação e busca de consolidação de sua prática, como uma experiência corporal que representava os ideais da modernidade. Por conta disso, foi nesse período que se constituíram as primeiras iniciativas de ligação entre a atividade esportiva e a classe política, vista na figura de seus maiores representantes. Nessa parte do texto nos centraremos na figura do Prefeito Pereira Passos e também do Presidente da República Rodrigues Alves ao tratarmos o Rio de Janeiro e do Governador J.J. Seabra ao nos referirmos a Bahia.
O estabelecimento da existência ou não de uma relação entre a classe política e a prática esportiva pode ser vista no envolvimento direto dos políticos com as atividades, ou numa convivência mediada pelas entidades dirigentes. Assim, entender o papel da participação política, na constituição do esporte nas cidades pode ajudar a análise do próprio desenvolvimento esportivo do Rio de Janeiro e de Salvador.
Tanto no Rio de Janeiro quanto na Bahia era de interesse dos que detinham o poder reconhecer e afirmar que o esporte proporcionava ganhos. Assim, o esporte
poderia ser utilizado como um elemento a auxiliar a constituição de uma nova sociedade. Com isso, a atividade esportiva era um cenário possível, senão ideal, para que a classe política atuasse e fizesse reverberar seus projetos para cada uma das cidades.
Ao analisarmos as relações do poder político com o esporte, identificamos uma diferença importante entre as duas cidades. No Rio Janeiro, Pereira Passos e Rodrigues Alves viram na prática esportiva um espaço de ação; na Bahia, J.J. Seabra não atuou da mesma forma. Além da ação pessoal e do envolvimento desses dirigentes com as várias modalidades, devemos reafirmar o próprio peso político das localidades na ainda recente República brasileira.
O Rio de Janeiro, na condição de Distrito Federal, era a mais importante cidade brasileira e, portanto, palco dos principais projetos de reforma, enquanto Salvador tornava-se um local já sem tanto peso e uma capital de menor representação no caldeirão da política e da economia do período, embora no aspecto cultural sempre tenha sido uma das mais significativas cidades brasileiras.
No Rio de Janeiro, Pereira Passos e também Rodrigues Alves logo entenderam que o esporte seria um importante aliado na constituição da almejada capital moderna, de hábitos e valores europeizados. Segundo Sevcenko (2008b, p.570) Pereira Passos ―estabeleceu o nexo entre a Regeneração, a modernidade e os esportes". Ao analisar o Rio de Janeiro, Melo (2006b) afirma que:
a transição do século XIX para o XX traria para o Rio de Janeiro novas dimensões. O desenvolvimento tecnológico pronunciado, a industrialização e a urbanização crescentes, o surgimento de uma burguesia nacional e um novo ordenamento político acabaram semeando as condições para o forjar de novos parâmetros culturais a partir da idéia de construção de um ―projeto de modernidade‖ ( p.5).
Em sua gestão, desde cedo Pereira Passos compreendeu o papel dos esportes em seu projeto de modernidade e assim, buscou se relacionar com as principais práticas esportivas, chegando a ser sócio de algumas agremiações, caso do Jockey Club (MELO, 2006b). A presença de pessoas do governo nas atividades do turfe foi vista como fundamental para o desenvolvimento da modalidade, por pretensamente facilitar os desejados auxílios financeiros, além de reforçar a imagem da atividade (MELO, 2001). Além disso, o prefeito era sempre visto nas atividades e competições, não só do turfe, mas de esportes como o ciclismo e o futebol. Pereira (2000) afirma que Pereira Passos, ao ver que o futebol era também um elemento da modernidade, ajustado às transformações que fazia na cidade, prometeu interessar-se por este esporte.
Participar das cerimônias e eventos esportivos significava a incorporação de valores da pretendida modernidade e não só Pereira Passos agia assim, mas também Rodrigues Alves, já que eles
almejavam atingir a civilização por meio de mudanças concretas, de acordo com os modernos padrões europeus (ou seja, franceses). No entanto, enquanto tomavam essas medidas práticas, também compartilhavam com outros membros das elites [...] a paixão pelas mudanças simbólicas (NEEDELL 1993, p.65).
Essas mudanças simbólicas tratadas por Needell (1993) podem ser vistas no esporte, já que ele significava um novo conjunto de relações do homem com o meio e consigo mesmo. Na modernidade, vivenciar a prática esportiva como praticante ou como plateia significava assumir uma vida em espaço público, que se tornava um palco de consagração e experimentação de um novo modo de viver. Da mesma maneira, a exploração de novas formas de uso do corpo, exposto e tido como esbelto e saudável, eram também uma representação dos ideais modernizantes.
As ações de Pereira Passos na reforma da cidade ajudaram a atividade esportiva, pois, dentre outras coisas, facilitaram o deslocamento das pessoas aos espaços de prática e competição. O Prefeito também construiu equipamentos públicos específicos para os esportes, como o Pavilhão de Regatas. Além disso, vários bairros da cidade que passaram por reformas acabaram por tornar-se locais de moradia da nova burguesia urbana – notadamente a área da zonal sul carioca, local de prática do remo e de vários clubes esportivos, o que serviu para aproximar ainda mais os cariocas da prática esportiva.
Nesse sentido e por ver que Pereira Passos percebeu a dimensão do esporte, Melo (2006b) afirma que a relação estabelecida entre o Prefeito e essa ―nova‖ prática cultural pode ser vista como uma ação inicial para a construção de uma política pública esportiva. Por outro lado, os clubes cariocas de remo e a Federação Brasileira das Sociedades de Remo perceberam que se aliar aos poderes políticos dominantes era uma importante estratégia para o seu próprio projeto de poder, que passava pela organização do esporte e pelo afã de representar as elites.
Embora atuasse em relação a todos os esportes, foi no remo que Pereira Passos agiu mais firmemente, tornando-se inclusive Presidente Honorário da Federação Brasileira das Sociedades de Remo (MENDONÇA, 1909), junto com o Presidente Rodrigues Alves. A imagem abaixo demonstra a posição desses na entidade dirigente do remo.
Foto 33: quadro de presidentes honorários114
Mendonça (1909) e Melo (2006b) afirmam que Pereira Passos, através do Conselho Municipal, instituiu um auxílio financeiro anual a Federação Brasileira de Sociedades de Remo, que chegou a ser superior ao valor que fora pedido pela entidade. Além dessa ajuda financeira direta, Pereira Passos também auxiliou o remo,
interferindo na Alfândega, de forma a tornar mais acessíveis as taxas de importação de embarcações, importantes para que as agremiações trouxessem da Europa barcos mais velozes, que propiciariam um espetáculo mais emocionante. Passos foi comunicar seu entusiasmo com o remo e seus possíveis auxílios ao esporte diretamente em uma reunião da diretoria da Federação, o que animou bastante os representantes dos clubes e os remadores (MELO, 2006b, p.12).
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Foto extraída de: MENDONÇA, Alberto de. História do Sport náutico no Brazil: ligeiro esboço. RJ: FBSR, 1909. P. 51.
Com tudo isso, Mendonça (1909) afirma que Pereira Passos tornou-se o nome mais cultuado do esporte náutico no Brasil, exatamente por conta de seus serviços como Prefeito, que acabaram sendo úteis ao remo. As ações do Prefeito dialogavam com os princípios higienistas preconizados à época e representados pelo esporte. Foi com Pereira Passos que, no Rio de Janeiro, ―o traçado irregular e acanhado das vielas, largos e becos da área central cedeu ligar aos amplos e retilíneos bulevares de monumental, símbolos da modernidade capitalista‖ (JESUS, 1999, p.21). Assim se privilegiava a circulação de ares e a mobilidade urbana, evitando concentrações e aglomerações, consideradas impróprias para uma cidade moderna (BENCHIMOL, 1990).
Mesmo que sua atuação favorecesse o remo, Pereira Passos não deixou de intervir nos espaços ocupados por alguns clubes. Para dar vazão ao andamento das obras, colocou abaixo algumas sedes náuticas, fato que sem dúvida gerou dificuldades para as agremiações. Para tentar sanar isso, o Prefeito construiu garagens de barcos para o Boqueirão do Passeio, o Vasco da Gama e o Internacional (MELO, 2001).
Com tudo isso, interessa-nos perceber que, no Rio de Janeiro, o remo ligou-se aos projetos de modernização da cidade, ligou-sendo um esporte que bem representava o ideário modernista. Assim, seu alinhamento ao projeto maior de Pereira Passos acabou favorecendo-o e facilitando seu desenvolvimento e circulação na cidade. A identificação dessa modalidade com a modernidade foi mesmo um alicerce no ímpeto do Prefeito de mudar a cidade. O remo ajudou a construir uma reforma nos hábitos e comportamentos dos que viviam na cidade, ou seja,
mesmo que Pereira Passos dedicasse atenção aos clubes de remo, tal valor era concedido porque se enquadrava em seu projeto de modernização. Explicitamente se estabelecia uma relação de uso da imagem esportiva de acordo com esses fins. As reivindicações dos clubes eram atendidas se estivessem enquadradas nesse perfil e não se constituíssem obstáculos para projetos maiores (MELO, 2001, p.101).
Numa análise final das ações e do envolvimento de Pereira Passos, mas também de Rodrigues Alves com o esporte, notadamente com o remo, podemos concordar com Melo (2006b) que todo esse conjunto de atitudes e atividades foi, sem dúvida, uma embrionária política pública esportiva.
Se não houve efetivamente a instalação de uma política pública, vista como a construção de um conjunto de proposições que visem ao acesso e à democratização do fenômeno esportivo, o trabalho de Pereira Passos foi uma aproximação dos governos municipal e federal com o esporte. Tal fato ajuda-nos a compreender o potencial desenvolvimento esportivo do Rio de Janeiro, muito favorecido pelo envolvimento do poder público com a prática, haja vista a compreensão de que o esporte representava os ideários da modernidade e ajudava a educar novos corpos e novos homens, para uma nova sociedade.
Com tudo isso, procuraremos agora analisar Salvador e identificar se na capital baiana houve alguma ação política efetiva que tenha favorecido o desenvolvimento esportivo, centrando-nos no Governo de J. J Seabra.
Se, no Rio de Janeiro, foi possível até mesmo apontar um primeiro momento de políticas públicas para o esporte, em Salvador, ao contrário, o que observamos é um vazio de ações do poder público em relação as atividades esportivas.
Em todo o processo referente ao início e efetivação da prática das modalidades em Salvador, pouco ou nada se viu de participação do governo
estadual de J.J. Seabra, por mais que o Governador também estivesse executando seu projeto de modernização para a Bahia (mais fortemente em Salvador), assim como Pereira Passos fizera no Rio de Janeiro.
Se tomarmos por referência que, para a Bahia e todo o Brasil, o Rio de Janeiro foi o modelo de modernização a ser seguido, e acrescentarmos a própria experiência de J.J.Seabra em terras cariocas, onde viveu e atuou como ministro, fica ainda mais evidente a ausência de qualquer ação do Governador baiano que tenha contribuído com o esporte, ou mesmo que dele fizesse uso.
O fato de alguns clubes terem como fundadores membros da elite baiana, notadamente a pequena elite burguesa urbana de Salvador, que assim como o Governador desejava modernizar Salvador, nos leva a pensar que J.J. Seabra poderia estabelecer uma proximidade com o esporte, desenvolvendo algumas ações que colaborassem com sua prática, fato que não se deu e isso, por concordarmos com Genovez (1998)115 quando afirma que o esporte pode ser ―... como um instrumento, entre tantos outros, utilizado para inculcar certos valores e normas de comportamento através da repetição‖.
O máximo que podemos considerar acerca das iniciativas de J.J Seabra que, em algum aspecto, favoreceram o esporte foram as próprias obras de remodelamento e reforma urbana por ele empreendidas e isso, por conta do fato dos participantes das equipes esportivas locais fazerem uso de alguns desses espaços para seus treinos e/ou jogos. Ou seja, eram benefícios indiretos, já que as obras não tinham por fim o esporte, principalmente se considerarmos que esses espaços, a
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princípio, não deveriam ser usados para o esporte, e sim deveriam servir à municipalidade para fins de ocupação, mobilidade ou deleite.
Esse afastamento do Governador da Bahia do esporte aconteceu mesmo que os clubes, principalmente os de remo, operassem iniciativas de aproximação. Durante as regatas, sempre havia um páreo com seu nome. Tal fato, além de simbolizar uma homenagem, também pode ser vista como uma forma de estar próximo do poder público. Todavia, nem com isso Seabra desviou seus olhares diretamente para o esporte.
O máximo que se viu foi o Governador mandar confeccionar troféus ou medalhas para os vencedores do páreo em seu nome. Contudo, sequer comparecia ao evento, enviando sempre um representante, por mais que as regatas, à época, fossem um palco de celebração de uma modernidade onde a elite baiana, incluindo as mulheres, se fazia presente, assim como os populares.
Sendo assim, podemos considerar que os esportes na Bahia não alcançaram o mesmo nível de desenvolvimento do Rio de Janeiro. Dentre as causas, foi perceptível a falta de apoio à prática esportiva, seja com um financiamento direto, como fez Pereira Passos, seja com a ação de reformas que facilitassem as práticas. Ao contrário do Rio de Janeiro, as principais obras de J.J Seabra não aconteceram em locais da cidade próximos aos espaços esportivos. Com o tempo, a elite soteropolitana, de forma diferente da carioca, deslocou suas residências e espaços de veraneio para longe dos locais usados como praças esportivas.