1 ESPORTE NAS CIDADES: UMA ANÁLISE COMPARADA
1.2 O ESPORTE E SUAS BASES ENTRE CARIOCAS E SOTEROPOLITANOS
1.2.4 OUTROS ESPORTES QUE AS CIDADES PRATICAVAM
Cremos que vale a pena também tratar de práticas corporais que tiveram menor impacto na composição do cenário esportivo do Rio de Janeiro e de Salvador.
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Sevcenko (2008b), ao fazer uma análise dos fatores geradores e das repercussões das mudanças decorrentes do processo de modernização das cidades, em especial do Rio de Janeiro, afirma que um ―resultado dessa curiosa mutação cultural foi o desenvolvimento de uma febre esportiva que assolou o século XX desde os seus primórdios‖ (p.568).
Dessa forma, compreendemos que a instauração de todo um conjunto de mudanças nas localidades, ao mesmo tempo em que proporcionou e motivou as pessoas à prática esportiva, também foi por esta influenciado. Ou seja, a noção de que pessoas e cidades deveriam ser ativas, trabalhar por melhorias, valer-se dos avanços científicos, acelerando suas percepções e relações, significou que a modernidade e seu ideário foram encampados, seja pelas obras na nova urbe, seja pelo movimento do novo ser humano. Era preciso engajar-se em todas as mudanças e identificar-se com as novidades.
Para ser moderno, era necessário superar a imagem de um homem lento, sedentário, assim como a cidade deveria deixar de ser antiquada, colonial. O mundo da modernidade, ―era marcadamente mais rápido, caótico, fragmentado e desorientador do que as fases anteriores da cultura humana‖ (SINGER, 2004, p.96). Nesse sentido, Sevcenko nos apresenta o que chamou de ética do ativismo e afirma que:
o desenvolvimento dos esportes na passagem do século se destinava justamente a adaptar os corpos e as mentes à demanda acelerada de novas tecnologias. Como as metrópoles eram o palco por excelência para o desempenho dos novos potenciais técnicos, nada mais natural que a reforma urbana incluísse também a reforma dos corpos e das mentes (2008b, p.570)
Compreendemos que tais considerações podem ser atribuídas às cidades brasileiras que, em épocas diferentes, experimentaram um projeto de modernidade – guardadas suas especificidades, que lhes permitiram avanços maiores ou menores. Ainda assim, podemos afirmar que foram formas comuns de fazer e viver a modernidade, que para Singer (2004), ―foi concebida como um bombardeio de estímulos‖ (p.96).
Com tudo isso, esportes que traziam como experiência maior, justamente, a noção de velocidade, desafio e superação de limites foram praticados e tiveram seu espaço no cotidiano da gente do Rio de Janeiro e de Salvador, que em épocas diferentes, viveram as sensações da natação, da patinação e do ciclismo.
Esses esportes podem ser considerados como parte do que Melo (2001) classificou como o primeiro grupo das práticas esportivas, aquelas que hoje são efetivamente considerados esporte, mas que tiveram seu início de forma tímida entre fins do século XIX e início do XX. São atividades corporais que se iniciaram vinculadas à ideia de desafio e superação de limites, explorando os espaços livres das cidades, implicando uma nova relação com o ambiente. Ademais, alguns desses faziam uso de implementos e equipamentos que demarcavam uma nova tecnologia.
Para Vigarello e Holt (2008), ―nadar é ir de encontro a um meio, lutar contra um elemento, enfrentar a hostilidade‖ (p.403). Tal consideração nos permite afirmar que a natação tinha em si aspectos que eram significativos no ideário da modernidade. Além desses dados, esse esporte, em seu início, surgiu como uma prática saudável e higiênica e estava também associado a uma condição de segurança, necessária nesses novos tempos de relação com o mar, nos quais o homem se expunha ao ―risco‖.
Tanto no Rio de Janeiro como em Salvador, devido à inexistência de piscinas, as atividades de natação aconteciam no mar, quase sempre sob a forma de desafio. Em Salvador, essa modalidade aparecia por vezes como uma atração de festas, notadamente as do Rio Vermelho.
Entre os funcionários do porto88 da capital baiana existiu o Sport Club Docas89, que promoveu ―festas de natação‖ para comemorar a inauguração do novo porto. Essa associação entre um esporte e os trabalhadores de um dos espaços da cidade que passaram por reformas pode demonstrar a vinculação entre a prática esportiva e a modernidade.
Assim como no Rio de Janeiro, em Salvador, competições mais estruturadas de natação estiveram a cargo da Federação de Regatas, que as promovia entre seus sócios, mas também com espaço para não associados. No que diz respeito ao recorte temporal desse estudo, podemos asseverar que, nas duas cidades, a natação passava por uma fase de implantação; tratava-se de uma novidade – portanto, ainda demoraria a ser assimilada pela população. Só tempos depois ganharia status e estrutura, avançando acentuadamente após a construção de piscinas, mais no Distrito Federal de que na capital baiana.
Atividade conhecida desde o século XIX, a patinação teve início no Rio de Janeiro em 1820, conhecendo grande impulso a partir de 1870 como uma prática de diversão (MELO, 2007a).
Melo (2001, p.27) afirma que essa prática corporal, a princípio, não era uma ―atividade eminentemente competitiva, mas sim basicamente um espaço onde a
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O porto de Salvador constou no projeto de Seabra para melhoramentos da cidade. 89
população podia alugar patins, encontrar uma estrutura física adequada, além de dispor de instrutores dispostos a ensinar os truques da patinação‖. Contudo, no Rio de Janeiro, seu sucesso começou a decair na década de 1900, já não atraindo tantos interessados como antes.
Em Salvador é possível perceber que, na década de 1910, a patinação despertou razoável interesse. Nesse período fundaram-se clubes como o Internacional Club de Patinagem e o Sport Club Colombo de Ciclo-Patinação e foram realizados eventos, basicamente nas ruas do Bairro do Comércio ou em passeios do Centro Histórico ao Rio Vermelho. As atividades dessas agremiações, na maioria das vezes, assumiam um caráter competitivo: os participantes eram distribuídos por páreos (como no turfe), em função das distâncias a serem percorridas.
A próxima imagem demonstra a forma com que esta atividade era encarada. Vê-se que os praticantes, no instante da largada, se colocam para a foto com uma postura ―desafiadora‖, de frente, com um olhar e uma feição típicas de uma aparente segurança frente ao que enfrentarão na prova. As roupas (comuns a todos), também são uma mostra do quanto era necessário parecer elegante, segundo os parâmetros da época. Como se percebe pelos trilhos no chão, a pista não era exatamente a mais adequada, tornando-se assim mais um risco aos participantes. Foi justamente esse sentido de enfrentamento do que é diferente e de velocidade, que tornou a patinação uma prática corporal da modernidade.
Foto 20: Patinadores à espera da largada de uma prova 90 O perfil da prática da patinação foi uma diferença marcante entre o Rio de Janeiro e Salvador. Se, para os cariocas, o esporte teve um caráter maior de diversão, para Salvador, na maior parte das vezes, esse esporte foi competitivo e organizado em clubes específicos, mesmo que em lugares improvisados, tendo sido também, eventualmente, uma atividade de divertimento nas festas de clubes, que não os de patinação.
O ciclismo foi uma atividade esportiva conhecida no Rio de Janeiro desde fins do século XIX. O ciclismo e a bicicleta envolvem as noções de velocidade, risco e tecnologia. Nos anos iniciais do século XX, a cidade já contava com uma presença mais forte de clubes que se dedicavam somente a esse esporte: o ―ciclismo aumentava o seu espaço destinado às competições, e a bicicleta ganhava as ruas
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da cidade, tornando-se pouco a pouco mais presente no cotidiano da população carioca‖ (SCHETINO, 2007, p. 121).
Melo (2009c) reconhece que, no Rio de Janeiro, nesse período, provas eram organizadas e os jornais noticiavam o esporte com maior frequência. Assim como no turfe, as apostas foram importantes na valorização do ciclismo e também na posterior queda do interesse, em decorrência da proibição de sua prática. No cotidiano, as bicicletas, por causa de seus altos preços e por exigirem uma destreza motora específica e desconhecida de grande parte da população, eram ainda acessíveis a poucos.
Desde os fins do século XIX, os jornais de Salvador noticiavam a existência de ―garagens‖ e o aluguel de bicicletas, sempre importadas. Com isso, podemos entender que a prática e o equipamento já eram conhecidos. Todavia, assim como no Rio de Janeiro, não faziam parte do cotidiano da população.
Em terras baianas, o ciclismo pareceu acontecer sob a mesma estrutura dos clubes de patinação, contando ainda com clubes específicos, como o Riachuelo91. Era fato comum que houvesse atividades simultâneas das duas práticas92, desenvolvidas pelas mesmas instituições, nos mesmos espaços. As corridas eram de velocidade, sendo mais comuns no Comércio e no Centro Histórico, ou para resistência, com deslocamentos até o Rio Vermelho, também fazendo parte de festividades promovidas por agremiações esportivas.
Na imagem seguinte se vê a aproximação entre a patinação e o ciclismo em Salvador. Observa-se que o espaço de prática aparenta ser o mesmo (as ruas do
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Diário de Notícias, 27 de julho de 1914, p.3. 92
bairro do Comércio) e as vestes são bastante parecidas. Da mesma forma que na imagem da patinação, os ciclistas demonstram uma postura de segurança e força ante os desafios que virão. Eles aparecem cercados por grande número de pessoas, o que demonstra o quanto a prática e o equipamento eram atraentes para o público. Por outro lado, o menor número de praticantes é simbólico, significando o quanto a atividade ainda era pouco acessível.
Foto 21: Ciclistas à espera da largada 93 O Jornal de Notícias94 divulgou o que dizia ser a primeira corrida de bicicletas da Bahia, realizada no bairro do Canela. Nos jornais, eram comuns notas contendo as provas a serem disputadas, clubes, participantes e premiação, além do local em si. Após as provas, eram noticiados os vencedores e seus tempos. Ao contrário do Rio de Janeiro, Salvador não construiu (mesmo na atualidade) um espaço específico
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Foto extraída de: Renascença, ano I, n.VI, novembro 1916, p.16. 94
para as provas de ciclismo. Mas, assim como os cariocas, os soteropolitanos assumiram a bicicleta, por mais que a geografia e estrutura urbana da cidade, até hoje, dificultem seu uso.