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As representações do artista como tema literário

CAPÍTULO IV: RETRATOS DO ARTISTA

I. As representações do artista como tema literário

Isto é mais um dos meus temas, tudo eu transformei em temas. Judith Grossmann, Oficina Amorosa; depoimento

Nos textos de Judith Grossmann encontramos algumas cenas e imagens que são, na verdade, temas eleitos e recorrentes em sua literatura. Tais temas advêm de seus dados biográficos201, das suas leituras de obras literárias e do próprio labor artístico.

Dentre os inúmeros temas recorrentes na obra de Judith Grossmann podemos recuperar, entre os suscitados pelos elementos da biografia da escritora, os temas do desmame precoce, da relação pai- filha e o da irmã gêmea perdida.

O desmame tem uma motivação biográfica, uma vez que cedo ela deixou, muito cedo e por sua própria vontade, de alimentar-se através do seio materno. Este desmame, seguido de um aleitamento metafórico por uma figura substituta, seja ela a literatura ou a babá, representa um desligamento voluntário e decisivo em relação à figura materna. Isto será retomado, por exemplo, no conto A Adolescente, em que, após a fuga da mãe com o amante, a filha assume- lhe o lugar tomando conta das coisas da casa e do pai. Isto nos abre espaço para o outro tema, as relações entre o pai e a filha. Elas são comumente mediadas pelos sentimentos de encantamento e de sujeição. A figura paterna, por vezes, representa para a menina porto seguro, local de abrigo, como em A Adolescente e em A noite estrelada, em outros momentos, ele será o elemento castrador e dominador, restringindo liberdades e impondo suas vontades às da filha. Contudo, ainda assim, numa ambigüidade que passeia entre o ceder, o obedecer e o resistir e rebelar-se, a relação manter-se-á numa harmonia tensa. Esta relação pode ser percebida, por exemplo, em As tranças de Charlienne. Ainda de fundo biográfico, podemos citar o tema da irmã perdida, comumente gêmea que não logrou êxito em seu nascimento simbolizando, pelo seu “geminamento” a outra possibilidade, o que se perdeu. Este tema advém de suas memórias biográficas de uma maneira um tanto enviesada, uma vez que Judith não teve, realmente, uma irmã gêmea, mas esta idéia exerce sobre ela um atração muito grande, o que pode ser verificado pela reincidência da ocorrência do tema

201

Todas as referências feitas à biografia da autora são extraídas de seus depoimentos. Eles são chamados por Grossmann de memórias ficcionais, o que já coloca em questão a ficcionalidade de qualquer discurso erigido sobre o “eu”. Cf. Depoimentos anexos.

em seus depoimentos. No Fausto Mefisto Romance podemos encontrar este tema retomado através de Leda Maria, que teve uma irmã gêmea natimorta.

Da leitura de obras de outros autores, são muitos os temas retomados, aqui levantamos apenas uma amostra, uma vez que são inúmeras as obras revisitadas. A traição feminina, tendo como representante maior Emma Bovary, da Mme Bovary de Flaubert que retornará na imagem da mãe de Genoveva, personagem principal do conto A Adolescente. Emma Bovary é nome da mulher que não suporta a vida conjugal e trái o marido, Emma é também o nome da mãe de Genoveva, ela foge com um mocinho agrimensor fazendo com que se releia e se enxergue, de certa maneira, o que viria depois da fuga de Emma Bovary se esta não fosse abandonada pelo primo.

De Dom Casmurro pode-se dizer que se pinça a perspicácia e a malícia de Capitu para depositá- la em Leda Maria, esposa do Doutor Fausto de Oliveira Homem202, mulher aparentemente frágil e vulnerável, mas que, após a sua morte, revela uma face manipuladora e dissimulada inimaginável para o marido. Aqui podemos dizer que Capitu é recuperada em sua capacidade de falsear, de ludibriar, de utilizar-se do benefício da dúvida, mantendo-se sempre na sombra da desconfiança. Aqui a sombra é tão espessa que só se dilui após a sua morte através da leitura de seus diários. O próprio Fausto já recupera o mito e a literatura criada acerca dele, resgatando tanto a visão de Thomas Mann quanto à de Goethe:

Em sua caracterização própria não deixam de convergir os Faustos anteriores, seja o de Marlowe, que necessita de ajuda para o revanche de ser criatura, o de Goethe, em, busca de gozos e de realizações terrenas, o de Thomas Mann, em busca de inspiração para criar obras de arte.203

Neste caso, o pacto de Fausto é o daquele que se compromete com o outro, com a cura do outro, assume como missão dedicar-se ao outro unindo em si as faces do médico e do professor.

Os temas advindos da reflexão sobre o labor artístico estão freqüentemente presentes nas obras ficcionais de Judith Grossmann. Destacamos três temas ligados ao artista. O primeiro deles é o processo criativo da obra de arte204, o segundo o

202

Personagem de Fausto Mefisto Romance. Cf.: GROSSMANN, Judith. Fausto Mefisto Romance. Rio de Janeiro: Record, 1999.

203

GROSSMANN, Judith. Recepção ao leitor. In:____. Fausto Mefisto Romance.Rio de Janeiro; São Paulo: Record,1999.

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reconhecimento do discípulo-sucessor e as fases na vida do artista, da infância ao amadurecimento. Estes temas, na verdade, se coadunam em toda a representação do artista feita nos textos de Judith Grossmann, fazendo com que eles adquiram certa circularidade em sua ocorrência. Tomemos como exemplo o processo criativo, representado pelas figuras de Apolo e Dionísio, como correspondentes à razão e à emoção, isto já foi explorado no seu livro Outros Trópicos Romance205, representado pelos personagens Maier e Simon. Mais tarde, em Fausto Mefisto Romance, através dos irmãos Lóris e Joris o tema será retomado. Neles será representado um outro tema, o da infância do artista, discutido também no conto As Tranças de Charlienne206.O tema da adolescência do artista será discutido em Meu Amigo Marcel Proust Romance, através da personagem Sérgio, que servirá também para refletir sobre o toma do discípulo- sucessor.

Pensando sobre estas três imagens do artista trazidas freqüentemente por Grossmann em sua literatura, podemos perceber que se delineia um dado perfil de artista. Lígia Telles, em sua tese Périplo Peregrino, na qual estudou o perfil do artista nos textos de Judith Grossmann a partir de quatro romances da autora, afirma:

...é a figura do artista personagem constante da produção ficcional de Judith Grossmann, o articulador de um pensamento tornado discurso, que se concretiza em dois tipos de personagens: o artista sendo metaforizado através de uma série da máscaras, ou assumindo a máscara de modo mais explícito207.

Neste texto buscaremos, então, discutir a representação do artista em sua máscara maior quer é a do próprio artista. Um ponto comum a todas as narrativas que serão aqui discutidas é o fato de nos apresentarem o artista em dado momento de sua infância ou adolescência, mostrando como nele nasce e se desenvolve a diferença.O conceito de diferença é aqui pensado como traço distintivo que configura o artista como ser de exceção, aquele que se destaca ou se isola durante a convivência inter-pessoal, aquele que é desconforme, que não cabe ou não se encaixa nos moldes e modelos esperados de comportamento. Na verdade, o grande tema que permeia todas estas

205

GROSSMANN, Judith. Outros Trópicos Romance. Rio de Janeiro: Record,1997. 206

GROSSMANN, Judith. As tranças de Charlienne. In: TELLES, Lígia G. (Org. Sel.) Pátra de estórias; contos escolhidos de Judith Grossmann. Rio de Janeiro: Imago; Salvador: Fundação Cultural do estado da Bahia, 2000.

207

TELLES, Lígia Guimarães. Périplo Peregrino; o perfil do artista na pro dução textual de Judith Grossmann.Tese. Inédita. 2000.

representações é o tema do amadurecimento do artista, ele revelará a sua diferença e esta dará a ele um outro modo de ser e sentir o mundo em torno e que lhe oferecerá o gênio artístico.

Isto se representa em vários de seus textos, três deles serão trazidos aqui à guisa de exemplificação, são eles: As tranças de Charlienne, na imagem do artista- menina; Fausto Mefisto Romance,representado pelo jovem Joris e Meu Amigo Marcel Proust Romance, no adolescente Sérgio. Poderíamos pensar que estes três textos representam três momentos na vida do artista: a primeira infância, como momento de realização de um ritual de passagem e de tomada de consciência de uma “condição de artista”; o início da adolescência, momento em que a arte se apresentará em seu esplendor pois este será o momento da descoberta e do exercício da sede criativa e, finalmente, no fim da adolescência como momento em que a consciência das dificuldades e do desejo de exercitar a escrita se manifesta e se inicia , através da leitura, o contato com os predecessores, fazendo com que se trace uma sombra de um projeto de escrita. Estas três personagens Charlienne, Joris e Sérgio, que representam algumas faces do artista, são imagens que, reunidas, traçam um arquétipo de artista sob a visão de Judith Grossmann.

O conto intitulado As tranças de Chalienne inicia-se com um texto em tom de prefácio intitulado “modo de usar”. A preocupação em certificar-se do “bom uso”, do texto nos passa a impressão de um zelo, um cuidado com aquele que dele fruirá, tal como de um fármaco, que bem utilizado e dosado pode curar, mas que, caso contrário, pode matar. Neste prefácio a voz que se ouve é a de Judith Grossmann e ela nos instrui que, neste texto, o que se apresenta é uma infância em busca do caminho de sua vocação: a escrita. Um dos temas mais constantes na obra da autora é a idéia da escrita como uma vocação que se manifesta ainda na infância, isto se reporta a sua vida, à “mitologia pessoal” de como Judith despertou para a sua vocação de escritora. A cena, resgatada da infância no depoimento Oficina Amorosa208, encena a primeira vez em que perguntaram- na o que queria ser quando crescesse, sem conhecer a palavra escritora a menina disse “autora”, o que maculou toda a aura do momento pelo equívoco no uso da palavra. Esta marca indelével do erro, da falha na vez primeira e inaugural, dentre todas as mais importantes, é também um dos temas recorrentes na escrita grossmanniana.

208

GROSSMANN, Judith. Oficina amorosa: Depoimento. Revista Estudos lingüísticos e literários. Salvador, UFBa, nº 15, 1993. p 47-71,

Desta maneira, o rito inaugural, sagrado e totêmico será revisitado através de Charlienne em seu rito de passagem e amadurecimento para a arte:

Em síntese, um novo conto sobre um velho tema, cujo outro nome, nem tão secreto assim, poderia ser: o retrato do artista enquanto menina.

E, informados acerca do que se trata o texto, nele adentramos. Em torno desta menina há a mística do nome: Charlienne Ella Andréaz Fontanez, ele

erige o sujeito em suas relações com o mundo e já imprime nela a marca do artista. Segundo a mãe, o primeiro nome seria uma homenagem ao Barão de Charlus. Este nome recupera o nome da personagem de À la recherche dus tempus perdu, de Marcel Proust e daí nasce o segundo nome dela: Marcelle. A relação entre mãe e filha se dava não apenas pela via do amor, mas também mediado pela relação amorosa da mãe com os livros e com a arte da pintura:

Ela então se introduzia, sentava-se no banquinho e esperava até que a mãe deixasse tombar o volume e sorrisse aquele sorriso de entendimento que pontuava as suas leituras.209

Os encontros aconteciam na salinha de leitura e, admirando a mãe durante as suas incursões literárias, Charlienne espreitava os momentos em que os livros tombavam de suas mãos para colher o seu olhar, seu sorriso e suas palavras. A menina ocupa um espaço intervalar, o hiato que surge na leitura ou entre uma e outra leitura, neste instante tornava-se o centro das atenções maternas. Isto faz nascer nela a sede de sair do intervalo e passar ao centro. De ocupar olhos, mãos e mente da mãe de maneira completa e, assim, nasce uma relação clandestina com a literatura:

...Tchekhov é o único que eles jamais poderão substituir. Então ela pensava que não tinha outro jeito, um dia teria que escrever até melhor do que Tchekhov, apenas para roubar o coração da mãe.210

209

GROSSMANN, Judith. As tranças de Charlienne. In: TELLES, Lígia G. (Org. Sel.) Pátra de estórias; contos escolhidos de Judith Grossmann. Rio de Janeiro: Imago; Salvador: Fundação Cultural do estado da Bahia, 2000. p. 59

210

GROSSMANN, Judith. As tranças de Charlienne. In: TELLES, Lígia G. (Org. Sel.) Pátra de estórias; contos escolhidos de Judith Grossmann. Rio de Janeiro: Imago; Salvador: Fundação Cultural do estado da Bahia, 2000.p. 61

Não havia na menina apenas um desejo de ocupar o espaço privilegiado das atenções da progenitora, ela precisava ter também um modo de superar a mãe e tomar o seu lugar como modelo de admiração. Ela percebe, então, uma limitação nela uma vez que a criatividade materna estava ligada a uma sensibilidade estética em relação à obra de arte. A mãe não tinha, por si só, a capacidade de transformar a observação do mundo em palavras, em obra de arte literária. Apenas a Charlienne era possível ocupar o lugar do criador que toma o velho, o usado e converte-o em outro, em novo, era dela a capacidade de, através da escrita, lançar um olhar inaugural sobre o mundo:

Do armário de guardados havia reativado muitas coisas que lá estavam sem uso, na tentativa de tornar leves como plumas as grandes malas de navio trazidas pelos avós de outro lado do oceano, levara os livros para a escola na grande sacola de algodão coberta por miçangas, e das enormes toalhas de rosto retangulares bordadas nas margens com toda sorte de fios e ornatos...O resto iria confeccionando aos poucos, a mãe não tinha imaginação para isto, sua imaginação ia somente até as leituras.

Assim, enquanto a mãe era elemento passivo, mero depositário das belezas da leitura, Charlienne buscava ocupar o lugar ativo, criando o novo com restos, os fragmentos do que já existe e, neste momento, há a possibilidade de superação da mãe.211 Estes movimentos de “reciclar” e reaproveitar o já feito aplicam-se tanto a uma velha bolsa de miçangas quanto a Tchekhov.

A relação paterna dá-se pela via da regra e da proibição. Havia uma série de atitudes prescritas pelo pai e, dentre todas, a mais importante, era a que impunha a proibição de cortar os cabelos e a ordem de mantê- los sempre presos sob a forma de tranças. Todo o tempo a menina busca libertar-se das limitações paternas, principalmente quanto aos cabelos, a imagem deles presos no penteado das tranças nos remete a uma ordem aparente que se contrapõe a uma desordem íntima. Remete a todo um mundo criativo e vivo revolvendo-se dentro do indivíduo e fazendo despertar nele a sede de libertação. Representam-se aqui as relações do artista com o meio externo, num confronto de vontades. Charlienne assume uma postura de busca pela transgressão como único acesso possível à liberdade. O mundo, representado pela autoridade paterna, surge como elemento repressor. O pai invade o espaço mais privado da menina que é a sua relação de liberdade com o seu corpo, ele dispõe do corpo de Charlienne,

211

camada última de domínio do indivíduo, de maneira a suprimir- lhe a mínima liberdade individual.

O pai, chegando ao domínio hiperbólico de dispor do corpo de Charlienne como coisa sua, representa a relação do artista com o social212, podendo ser pensada a partir das relações antagônicas mantidas entre o ego e o superego.

O superego é resultante da introjeção infantil das figuras do adulto213, sobretudo do pai, como representante da lei. Ele funciona como elemento proibitivo e limitador da ação do ego dando a ele a consciência do limite. Todos estes jogos de interdição permissão são, na verdade, construídos e assimilados pela mente de maneira inconsciente, e nos servem para representar as relações estabelecidas entre o artista e o mundo castrador. O que impõe ao artista, como sujeito de exceção, o isolamento criativo, a solidão e a transgressão:

Ah,há, queria a liberdade dos seus cabelos curtos. Liberdade, liberdade. Era dada a estes e a outros rituais propiciatórios.214

O aprisionamento dos cabelos representa o aprisionamento de uma mente fértil e arguta a um certo perfil de infância ingênua e segura representada pelas tranças. São elas que afastam Charlienne da liberdade e que atrapalham o fluxo do seu pleno amadurecimento, pedra de toque para o artista que, segundo Judith, sempre amadurece cedo. A libertação se dá, obviamente, pela transgressão. Livre dos olhares cerceadores dos pais e da “ba”, a menina resolve ir passear de bicicleta e finda por ir além dos limites permitidos:

As árvores sombrias a chamavam. Entre horror e gozo penetrou no parque. Não havia ninguém. Estava sozinha ela e as árvores. Sentiu que mais de um a derrubava com violência da bicicleta. Perdeu a noção de quanto tempo permaneceu desacordada. Quando começou a despertar, soube que alguma coisa lhe faltava na cabeça. As tranças haviam sido podadas...Apalpou-se. Não estava o colete...Permaneceu sentada com as pernas ainda mais abertas para o que quer que fosse a penetrasse mais fundo, envenenando-a de uma vez por todas, no contrariamento das ordens do pai...Uma

212

Se pensarmos no sistema pai-lei-istituição-ordem-social veremos a transposição de forças entre o pai e a sociedade. Sendo pó pai aqui entendido como a força da lei.

213

Cf.LEITE, Dante Moreira. Psicologia e Literatura. São Paulo: UNESP, 2002. 214

GROSSMANN, Judith. As tranças de Charlienne. In: TELLES, Lígia G. (Org. Sel.) Pátra de estórias; contos escolhidos de Judith Grossmann. Rio de Janeiro: Imago; Salvador: Fundação Cultural do estado da Bahia, 2000.p. 63

chuva de nomes como fogos de artifício caiu-lhe na cabeça, incita, schwanger, enceinte, prenha, encita, pregnant?.215

Apenas assim, através da violência que podou as tranças e deixou-a, conforme sugere o texto, grávida, pôde vencer o pai. Podemos interpretar as palavras que sugerem tal gravidez como metafóricas para uma nova visão de mundo. Charlienne está agora prenha de vida e livre do peso da infância vulnerável. Esta prenhês pode ser lida como o início do amadurecimento do artista que, para Judith Grossmann, nunca é cedo demais.

Fausto Mefisto Romance216, mais recente obra de Judith Grossmann, é mais um de seus textos que nos serve como base para se pensar o tema do artista. Nesse romance, podemos vislumbrar não apenas a questão do processo criativo, metaforizado por razão e emoção como opostos complementares, mas também podemos observar mais uma das fases do desenvolvimento do artista: o início da adolescência, momento de furor criativo e de descoberta do mundo.

Em Fausto Mefisto Romance, conta-se a his tória do Doutor Fausto de Oliveira Homem e de seus filhos Joris e Lóris. Fausto é um médico psicanalista que tem uma clínica na serra na qual recebe apenas adolescentes que não resistiram às imposições do mundo e soçobraram. A sua grande missão é a de ajudar o homem a viver na terra e o seu Mefisto, o seu lado pactário e demoníaco é todo o contexto do século XX. Segundo a autora, este Fausto é aparentado com Prometeu, uma vez que tem como missão auxiliar o homem, oferecer a ele a possibilidade de cura, não é mais um ser individualista e sim coletivo uma vez que dedica a sua vida ao outro, o que o afasta do mito do Fausto, que é aquele indivíduo que é capaz de vender a sua alma para alcançar os seus objetivos.

Ian Watt, em seu livro Mitos do individualismo moderno217 afirma que o mito do Fausto surgiu no século XV a partir da história real de Jörg Faust. O Doutor Faust nasceu em 1480 na Alemanha e ali morreu no ano de 1540. Ele dizia ser um nigromante, praticante de magia negra, além disto era capaz de prever o futuro através de diálogo com os mortos. Isto, dentro de um contexto de tradição cristã, faz com que

215

GROSSMANN, Judith. As tranças de Charlienne. In: TELLES, Lígia G. (Org. Sel.) Pátra de estórias; contos escolhidos de Judith Grossmann. Rio de Janeiro: Imago; Salvador: Fundação Cultural do estado da Bahia, 2000.p. 64.

216 GROSSMANN, Judith. Fausto Mefisto Romance. Rio de Janeiro: Record, 1999.

217

Jörg seja constantemente hostilizado e com que sofra com o preconceito e desconfiança de seus pares:

O mito de fausto desponta no momento em que o cristianismo, no seu desenvolvimento, pensa ter polarizado os mundos do humano e do sobrenatural em um conflito entre o mal e o bem... Isto

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