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O CAMPO DA PERCEPÇÃO DE RISCO E OS CONFLITOS SOCIOAMBIENTAIS

1.5 As representações sobre a natureza e as práticas sociais

Formas diversas de conceber a natureza têm sido registradas ao longo da história da humanidade, e tem-se demonstrado, como é defendido por Lenoble (2002) e Gonçalves (2004), que não existe uma natureza dada, mas sim uma natureza pensada. À medida que a politização da questão socioambiental avança, neste século, as representações que os mais distintos grupos fazem sobre a natureza constituíram-se em um importante instrumental para a análise de suas práticas sociais e, consequentemente, dos confrontos que se estabelecem nas formas de uso e apropriação dos recursos disponibilizados pela natureza no meio ambiente.

É a coexistência e interação entre os diferentes sujeitos em um mesmo ambiente material que vai permitir com que seja considerada a existência de conflitos entre as maneiras diferentes de se apropriar do território e de seus recursos e, também, que sejam afastados os riscos de que a lógica dos agentes sociais hegemônicos seja única e exclusiva.

Espera-se, no entanto, que, diante da representação feita por um grupo, expressa em primeiro plano no discurso de seus membros, as suas práticas sociais se alinhem a esse discurso de modo que se possa encontrar coerência entre a perspectiva exposta e as ações efetivamente praticadas.

Não obstante essa empreitada, deve-se considerar também que as representações que a sociedade traz sobre a natureza estão condicionadas a um tempo histórico determinado e ao contexto em que a organização social se vê inserida, estando, portanto, passível a transformações, que conduzem, por sua vez, as mudanças nas relações por que os grupos que dela participam, eventualmente, estejam afetados e, dessa forma, exprimam novas relações com os recursos naturais acessados por aquela sociedade.

Esses elementos que conduzem as mudanças na relação sociedade/natureza são produtos da própria consciência humana e da relação social instituída que, ao se reformular, caminha para uma alteração da visão que esta tem sobre a natureza de modo que: “a definição perpetuamente ambígua do “natural”, simultaneamente ordem das coisas e hábito social, faz-nos compreender que toda mudança grave na ordem humana é, ao mesmo tempo uma alteração da Natureza” (LENOBLE, 2002:159) (Grifo do autor).

Lenoble capta, na história do ocidente, as ideias que são construídas sobre a natureza, mostrando como em diferentes épocas manifestam-se distintas relações da sociedade com a natureza: a natureza mágica, a natureza objetiva e jurídica, a natureza derivada do desejo divino e a natureza mecânica.

Segundo a sua argumentação a Natureza mágica se manifestava nos povos primitivos e chegou até o pré-clasissismo grego, período animista e antropomórfico. O homem primitivo buscava compreender a vontade dos deuses do mar, dos vulcões e dos rios (p. 28). Uma representação da natureza enquanto entidade mágica não deve ser considerada, segundo Lenoble, longe de um princípio de causalidade que orienta as relações humanas e destas com a natureza. Por sua vez, a consciência que exprime essa representação mágica da natureza

fundava-se no temor, no medo das manifestações dessa natureza que só podiam, até então, ser explicadas por sua dimensão mágica ou de descontrole.

Já no período do milagre grego, identifica-se uma visão de natureza objetiva e jurídica que condicionada ao estatuto lógico das leis da pólis; a natureza se torna assim regida por leis jurídicas e hierarquizadas. O pensamento grego submetera a natureza ao sistema de pensamento filosófico que tem nas ideias de Aristóteles a expressão mais singular desse momento como sendo uma das muitas tentativas de estabelecer um controle sobre a natureza.

Um outro período destacado pelo autor, em que uma nova ideia de natureza se constrói concerne a transição da Antiguidade para a Idade Média, e boa parte dessa fase, em que à influência que o cristianismo exerceu fez com que a natureza pudesse ser percebida enquanto uma ordem derivada do desejo divino. Enquanto reflexo de Deus, é nela que o homem deverá encontrar sua realização. Essa visão dá continuidade, em certos momentos, à lógica aristotélica de funcionamento e ordenamento da natureza. “Obra de Deus, a natureza dará o exemplo da ordem; como tende para o seu fim, ensina igualmente o homem a virar-se para o seu criador” (LENOBLE, 2002:186).

Por fim, uma ultima ideia é preconizada na Idade Moderna, A Natureza Mecânica, que, por sua vez, correspondeu a uma fase do pensamento ocidental que se estendeu do período anterior, em que a natureza foi idealizada enquanto reflexo de Deus, para uma natureza controlável. Uma razão instrumentalista tende a tornar a natureza em puro objeto da vontade humana que não mede esforços para transformá-la em detrimento de seus interesses. Para Lenoble: “O progresso científico, longe de a servir, será para ela, mas somente um século mais tarde, um princípio de decadência, como o racionalismo fora de tempo e o academismo que dela resulta”(2002:258). Ao resumir a ideia difundida nesta época, o autor lembra que, para além das divergências entre uma escola de pensamento e outra, a natureza é uma máquina e que a ciência é a técnica de exploração dessa máquina.

Cavalcanti (2003:159) acrescenta que:

Es posible afirmar que los usos modernos de la naturaleza como noción genérica de espacio o médio de producción, dejaron de reconocerla como objeto en transformación y por lo tanto pasible de depredación y agotamiento;la modernidad contribuyó a la construcción de formas insustentables de desarrollo (grifo da autora).

O esquema apresentado por Lenoble possui, em parte, seu correspondente nas ideias de Zaidán (1995) ao problematizar a relação sociedade/natureza: relação mimética, relação amorosa, relação instrumental e relação de simulacro. Para Zaidan (1995), essas passagens conduzem a uma relação em que “a natureza perde direito a si própria, só existe para a satisfação dos caprichos humanos, como substrato vazio de sentido, despojado de suas qualidades primárias e/ou secundárias” (p.128).

Outra tentativa de discutir as ideias ou representações sobre a natureza foi desenvolvida por Damatta (1993) que, com intenções mais localizadas, afirma que “investigar as representações de natureza da sociedade brasileira é um projeto vasto, fascinante e extremante complexo” (p.91). Para o autor, as representações de natureza no Brasil, são afetadas pelo paradoxo que se engendra em nosso sistema social que, de um lado, traduz “valores do individualismo igualitário e as ideias de justiça social, de progresso material e de controle sobre a natureza” e, de outro, mantém práticas “que continuam reproduzindo e governando, relacional e hierarquicamente, sua vida social” (clientelismo, nepotismo, patronagem) (p.93).

A sua tese é a de que, no caso brasileiro, a representação de natureza e sociedade submerge numa mesma estrutura de valores. Em suas palavras:

A uma representação de natureza como esfera passiva, e metaforicamente concebida como serva – uma escrava do homem que dela dispõe como bem entende – corresponde uma estrutura social igualmente fundada na passividade obrigatória do trabalhador e na sua submissão total (p.113).

Acrescenta ainda: “entre os homens e a natureza estabelece-se a mesma lógica que governa os homens entre si: a lógica da desigualdade que jamais contempla o direito do subordinado como ser social ou autônomo (p.114).

Sob outra perspectiva, Adams (2009) observa que nas discussões sobre risco os participantes advogam, com seus respectivos capitais culturais, premissas, paradigmas e visões de mundo – diferentes mitos sobre a natureza física e humana (p.73).

O autor analisa as contribuições da teoria cultural que fornece explicação sobre como as pessoas, ao se posicionarem em situações de incerteza, tendem a representar o comportamento da natureza diante dos processos decisórios tomados por estes. Adams

apresenta os três mitos sobre a natureza desenvolvidos por Holling – a natureza benigna, a efêmera e a perversa/tolerante, mais uma outra proposta por Schwarz e Thompson – a natureza caprichosa (ver ADAMS, 2009: 68 -77).

Quadro 4 – Mitos sobre a natureza

Mitos Descrição

Natureza benigna É previsível, generosa, robusta, estável e perdoa quaisquer insultos que a humanidade possa fazer a ela. A natureza é o contexto benigno da atividade

humana, não algo que precise ser manejado.

Natureza efêmera É frágil, precária e implacável. Existe o perigo de que ela, provocada pelo descuido humano, entre em colapso catastrófico.

Natureza perversa/tolerante Combina as versões anteriores, modificando-as. Dentro de certos limites, pode-se confiar que a natureza se comportará de forma previsível. Ela perdoa

choque moderados ao sistema. É preciso haver regulamentação para evitar maiores excessos

Natureza caprichosa A natureza imprevisível. O futuro pode ser bom ou ruim, mas, de qualquer forma, está fora de controle.

Fonte: Adams (2009:69-70).

Consideramos relevante utilizar neste estudo a tipologia proposta pelo autor que compreende uma relação entre as crenças na natureza e as práticas sociais dos agentes em sua relação com a natureza. Dessa forma, o autor afirma que “os quatro mitos da natureza são todos antropocêntricos: representam crenças não apenas sobre a natureza, mas também sobre o lugar da humanidade na natureza” (p.70) (grifo do autor).

É assim que, associada à proposta acima, é criada uma outra tipologia que busca definir os padrões sociais que orientam as decisões de risco pautadas nas crenças anteriormente analisadas, que esse autores consideram como natureza humana.

Quadro 5 – Tipologia da natureza humana proposta por Schwarz e Thompson.

Tipologia Descrição

Individualistas Tendem a ver a natureza como estável, robusta e benigna, capaz de minimizar os insultos do homem e raramente vingativa.

Igualitários Apegam-se a visão de natureza frágil e, portanto, gostariam que todos pisassem com cuidado na terra e, em caso de dúvida científica, invocam o

princípio da precaução.

Hierárquicos Membros de grandes empresas, governos e burocracias, acreditam que a natureza será benéfica se manejada de forma adequada.Eles respeitam a

autoridade tanto científica quanto administrativa.

Fatalistas Acreditam que a natureza é caprichosa e imprevisível. Eles esperam o melhor e temem o pior: a vida é uma loteria sobre cujos resultados não se tem

controle.

Fonte: Adams (2009:76-77).

Para Guivant (1998) e Adams (2009), a constituição de racionalidades plurais denota que tanto as “pessoas comuns” quanto os cientistas confrontam o mundo utilizando-se de suas

visões sobre a natureza. A interseção entre os mitos da natureza e seus correspondentes na prática social dos agentes (tipologia grade/grupo), em termos de tomadas de decisão, tem se mostrado eficiente para a compreensão de como essas racionalidades se manifestam e não para acentuar a oposição entre ações racionais e irracionais.

No estabelecimento de um conflito socioambiental, porém, as posições em que os agentes se situam no contexto do litígio têm efetivo valor para o entendimento das práticas que estes desenvolvem a respeito da natureza em disputa.