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O CAMPO DA PERCEPÇÃO DE RISCO E OS CONFLITOS SOCIOAMBIENTAIS

1.6 Os conflitos socioambientais no contexto do “campo” ambiental

Como já dissemos, conflitos socioambientais, na perspectiva da justiça ambiental, externalizam desacordos no âmbito da disputa pelo meio ambiente; no entanto eles não são a expressão máxima de como este processo se desenvolve, dado que nem sempre os vitimizados (pobres, etnias, etc.) se rebelam quando identificam situações de risco, principalmente se seus efeitos só puderem ser visíveis a longo prazo. A eclosão dos conflitos representa, pois, um momento em que parte dos agentes, movidos por um “estranhamento” e “desconfiança”, questionam o porquê das coisas e promovem situações de enfrentamento tanto no plano material quanto no discursivo.

Em se tratando deste último, os discursos enunciados sobre a natureza divergem dos mais diferentes tipos de grupos, conformando assim uma “polissemia”. De fato, são as diferentes posições ocupadas por esses grupos no espaço social que determinam os discursos construídos sobre a natureza, de maneira a conferir às suas práticas legitimidade diante da disputa pela apropriação do território.

É utilizando a ideia de campo de Bourdieu (2005) que é possível se pensar a constituição de um campo ambiental (CARVALHO, 2002; OLIVEIRA, 2004; GERHARDT e ALMEIDA 2005) em que o valor atribuído à natureza resulta de um espaço de relações sociais produzidas no tempo e no espaço e que definem os interesses imediatos, sobre ela, pelos grupos que ocupam um mesmo território. Para Bourdieu (2005:11): “as diferentes classes e frações de classes estão envolvidas numa luta propriamente simbólica para imporem

a definição do mundo social mais conforme aos seus interesses, e imporem o campo das tomadas de posições ideológicas reproduzindo de forma transfigurada o campo das posições sociais”.

Sem negar a existência das classe social, e a “diferenciação social que pode gerar antagonismos individuais e, às vezes, enfrentamentos coletivos entre os agentes situados em posições diferentes no espaço social” (BOURDIEU, 1996:49), que a noção de campo é construída. Ela é reveladora das manifestações de poder que se desenvolvem em torno do espaço social, diferenciando-se conforme os vários tipos de capital (social, econômico, cultural, etc).

O espaço social é assim composto de diversos campos, e “cada campo tem uma certa autonomia e possui suas próprias regras de organização e de hierarquia social. A noção de campo representa, para Bourdieu, um espaço social de dominação e de conflitos” (VASCONSELOS, 2002:83).

É nesse sentido, embora Bourdieu tenha apenas tratado de alguns campos específicos (jurídico, político, por exemplo), que podemos também pensar em um campo ambiental que tem origem na ideia de campo concebido por ele como um espaço de disputa em que os grupos nele situados numa relação de força sobrepõem-se um ao outro de forma desigual. Tal perspectiva é tomada do ponto de vista relacional em que se requer pensar a diferenciação social e de poder dentro de um espaço social.

Para Oliveira (2004:05):

No campo ambiental, tal como os campos jurídicos e político definidos por Bourdieu, se constitui também um espaço social de diferenciações, onde são travadas lutas de poder e lutas simbólicas, no bojo das quais os agentes se esforçam para manter ou para transformar a estrutura das relações existentes no campo, legitimando ou deslegitimando práticas sociais e culturais.

Campo ambiental, se constitui, na disputa pelo poder simbólico de nomear e atribuir sentido ao que seria a conduta humana desejável e um meio ambiente ideal. Em torno desta problemática fundamental, o campo ambiental vai produzir visões de mundo, um circuito de produção de conhecimento, um espaço de comunicação, e uma arena de ação política.

Gerhardt e Almeida (2005), por outro lado, consideram que o campo ambiental ainda está em formação25 e, sendo assim, muitas diferenças separam este campo dos demais, tendo em vista estarem eles há muito tempo estruturados em termos de “produção de significados, lógica de pensamento e estratégias de ação” (p.23). Mesmo com os avanços e a centralidade da questão ambiental de nossa época, o campo ambiental, a sua pertinência e os conflitos neste campo podem facilmente ser obscurecidos pelas demandas e manifestações de outros campos.

A assertiva dessa formulação é que:

Em termos práticos, esta peculiaridade reversa da problemática ambiental faz com que, apesar dos agentes manifestarem suas posições e atuarem discursivamente com base na oposição preservar/utilizar, muito facilmente eles serão levados a atuar mais segundo motivações propostas por outros campos (o que subentende a intervenção alienígena de modos de pensamento e de ação diferenciados), do que propriamente aquelas vinculadas às disposições estruturadas em torno do campo ambiental. (GERHARDT e ALMEIDA 2005:23) (Grifos dos autores).

A estruturação do campo ambiental, enquanto possibilidade de reverter tal situação apresentada acima, não desfigura o sentido de que os possuidores de um tipo específico de capital (material, cultural...) venham a exercer uma influência maior sobre os demais agentes envolvidos neste campo. É conveniente pensar que, mesmo que a concentração de capital material por um determinado agente seja um indicador da distribuição de poder, dentro do campo, não significa que as demais formas de capital e seus agentes também não exerçam suas influências.

25 Carvalho (2002, 09-10) também considera que várias dimensões (movimentos sociais, associações, corpo de

especialista, publicações, ação política, etc.) da constituição do ambiental podem ser consideradas como formas de estruturação do campo que, para se afirmar enquanto um sistema simbólico eficaz e estruturante de sentidos na sociedade, necessita estar estruturado.

O fato é que diferentes percepções e significados dão o teor da dinâmica dos embates e enfrentamentos dentro de um mesmo campo, o que configura variadas formas culturais de apreensão do mundo material. É justamente essa dinâmica que está na origem dos conflitos no campo ambiental, ou seja, “lutas em torno de formas diferenciadas de apropriação e usos de recursos materiais territorializados, ancorados em significados também diversos atribuídos a estes mesmos recursos” (OLIVEIRA, 2004:05).

Por certo, os conflitos se desenvolvem tanto no plano material quanto no simbólico do campo ambiental, estando o aspecto simbólico externalizado diante das representações, percepções, crenças e significados que configuram esquemas classificatórios, normativos e valorativos do objeto de disputa. A maneira como o espaço social se relaciona com a natureza e é nomeado pelos agentes é reflexo desse processo, de forma que isso passa a ser relativizado no debate público corrente. A relativização do discurso leigo e mais precisamente, sua despolitização por outros agentes constituem-se em estratégias discursivas que, no processo de luta simbólica, são correntemente utilizadas por detentores de um capital cultural acadêmico.

Bourdieu (2004), ao discutir as lutas simbólicas da percepção do mundo social, observa que estas podem adquirir duas formas distintas26: o lado objetivo e o subjetivo. No primeiro, diz ele:

Pode-se agir através de ações de representação, individuais ou coletivas, destinadas a mostrar e a fazer valerem determinadas realidades: penso, por exemplo, nas manifestações que têm como objetivo tornar manifesto um grupo, seu número, sua força, sua coesão, fazê-lo existir visivelmente; e , ao nível individual, em todas as estratégias de apresentação de si [...] de sua posição no espaço social (p.162).

Já no segundo:

Pode-se agir tentando mudar as categorias de percepção e apreciação do mundo social, as estruturas cognitivas e avaliativas: as categorias de percepção, os sistemas de classificação, isto é, em essência, as palavras, os nomes que constroem a realidade social tanto quanto a exprimem, constituem o alvo por excelência da luta política, pela imposição do princípio de visão e divisão, ou seja, pelo exercício legítimo da teoria (IDEM).

Esta última estruturação, aplicada ao campo ambiental na relação entre peritos e leigos, se orienta por um discurso de autoridade que, via de regra, busca deslegitimar as representações e percepções dos demais agentes legitimando uma linguagem própria dos detentores de um saber acadêmico, político e técnico. Por sua vez, ao serem desconsideradas as múltiplas percepções sobre a dinâmica presente na questão ambiental, segue-se a prevalência do discurso único com vistas a neutralizar os agentes que, ao perceberem os riscos e ameaças que se constroem nos espaços, seja de trabalho ou moradia, se mobilizam e contestam as cargas que são impostas às suas vidas.

Pensando assim, diferentes percepções de risco, como referência de conflitos no campo ambiental, estão em constantes confrontos, de maneira que o meio ambiente se torna uma arena de disputa, pois:

[...] na luta pela imposição da visão legítima do mundo social, em que a própria ciência está inevitavelmente envolvida, os agentes detêm um poder proporcional ao do seu capital, quer dizer, proporcional ao reconhecimento que recebem de um grupo. A autoridade que fundamenta a eficácia performática do discurso sobre o mundo social, a força simbólica das visões e das previsões que têm em vista impor princípios de visão e de divisão desse mundo[...] (BOURDIEU, 2005:145).

Ao término deste capítulo, gostaríamos de enfatizar alguns aspectos que são norteadores do trabalho e dos demais elementos que serão discutidos posteriormente. A ideia de risco aqui apresentada parte de uma perspectiva de que, mesmo havendo riscos objetivos, a sua noção será sempre subjetiva. O pressuposto subjacente a esta ideia é o de que os agentes tendem a selecionar os riscos a serem enfrentados, tendo por base todo processo que envolve suas experiências passadas, os valores socializados no grupo, suas crenças, ou seja, um conjunto de determinantes que variam da posição dos agentes nos contextos em que vivem à sua visão de mundo.

Dos riscos destacados neste trabalho, optamos por enfatizar a noção de risco ambiental pela capacidade que tem o conceito de dar conta das multiplicidades de risco que se manifestam a partir da ideia de campo ambiental. Nesse sentido, buscamos, a partir da teoria de Beck e Giddens extrair a discussão sobre o conflito entre os sistemas peritos e a população leiga, tão amplamente debatido na teoria da sociedade de risco e na modernização reflexiva. Nosso esforço foi então partir da perspectiva de Giddens sobre a reflexividade para pensar os

agentes enquanto sujeitos que são detentores de uma capacidade de reflexão sobre o que fazem, como o fazem e por que o fazem, rompendo com as determinações da estrutura.

A abordagem na qual queremos tratar os conflitos provenientes da percepção de riscos ambientais respalda-se na compreensão de que os riscos da alta modernidade (GIDDENS, 1991) não são, ao contrário do que advoga Beck (2006), tão democráticos assim. Embora o autor refira-se, neste caso, aos riscos globais, nosso entendimento é o de que, no que diz respeito aos riscos mais localizados, uma lógica desigual tende a atingir de maneira mais redundante parcelas da população mais pobre ou aquelas que, dentro da estrutura de poder, possuem menos força para poderem ser ouvidas. É neste ponto que acreditamos ser o conceito de justiça ambiental o que melhor explica o fenômeno de distribuição desigual dos riscos e perigos.

Por fim, utilizamos a noção de campo de Bourdieu para discutir a construção de um campo ambiental e, dentro dele, analisar os conflitos socioambientais enquanto problematização das distintas perspectivas que estão em jogo na apropriação do meio ambiente. Reforça-se, desse modo, que a posição dos agentes dentro de um espaço social tende a determinar sua perspectiva e representação de um território e de seus recursos. O capital material pode ser um indicador importante na análise desses conflitos, todavia a luta simbólica tende também a colocar em xeque, por vias discursivas, a legitimidade, a representação e a percepção do campo ambiental feitas por outros agentes, principalmente daqueles que não são detentores de um capital cultural que não é valorizado, sobretudo na análise de risco.

No capítulo a seguir, apresentaremos o ambiente do conflito partindo da luta inicial pela terra no assentamento, da identificação do risco ambiental feita pelos assentados e do consequente conflito socioambiental.

CAPÍTULO II

DA LUTA PELA TERRA AO COMBATE AO “BICHO”: A MEMÓRIA