1. INTRODUÇÃO
1.6. EMPODERAMENTO NA SAÚDE
3.4.6. AS REPRESENTAÇÕES SOCIAIS
Referencial Teórico
À luz da teoria de Serge Moscovici (1978), a representação social pode ser compreendida como uma forma singular do conhecimento do cotidiano atrelado ao senso comum, à interação social e ao exercício da socialização. É uma forma dinâmica e constante do conhecimento socialmente partilhado, em suas realidades relativas aos indivíduos que a compõem. O senso comum é compreendido pelo autor como o pensamento natural e espontâneo que dista do pensamento científico, mas que é capaz de evidenciar uma realidade lógica da interação dos indivíduos em dado contexto social. Em outras palavras, é a forma prática do pensamento que busca compreender o domínio do ambiente social, material e ideal, capaz de não apenas exprimir as relações sociais como também de constituí-las (Mazzotti, 2008, p. 27).
As Representações Sociais são argumentações claras dos processos das mudanças sociais e de seus comportamentos. Através das RS, é possível aos indivíduos construir teorias sobre os seus objetos sociais e que comuniquem, de forma clara e compreensível para a sua realidade, as diversas organizações de comportamentos em que se inserem. Esta teoria instiga a uma compreensão das diversas formas de pensamento e teorias elaboradas na vida cotidiana, buscando explicação para a mudança de atitudes nos sistemas dos relacionamentos sociais. A teoria da RS investiga o que um grupo de pessoas pensam sobre determinado tema; como interpretam os acontecimentos cotidianos; como formam uma opinião sobre eles e como se comportam nesta realidade. Sua influência “confere à ciência de que provém as dimensões de um importante fato social e implanta-a na vida cotidiana da sociedade” (MOSCOVICI, 1978, p. 20).
A escolha pela teoria Moscoviana se deu pela possibilidade de interpretar uma dada realidade a partir da organização de suas relações múltiplas e repletas de significados, interiorizando tais representações na dinâmica do cuidado e do significado do ato de maternar, pelo que as mães se apropriam deste objeto agora socializado, resultando em comportamentos práticos a partir destas relações sociais. Tal dinâmica é capaz de favorecer a construção social da realidade destas mães, o que o autor definiu de como objetivação – isto é, o resultado da materialização das ideias, como uma forma de conhecimento elaborado que contribui para a construção desta realidade comum a elas (ARRUDA, 2002). A objetivação proposta por Moscovici funciona como uma operação que dá corpo aos esquemas conceituais das relações sociais, como resultado do fluxo constante das comunicações entre os seus sujeitos.
Uma vez que se deseja saber, por meio de pesquisa empírica, as opiniões e pensamentos de um dado grupo de indivíduos, suas crenças, saberes e vivências coletivas que interferem diretamente na tomada de decisões dos seus membros e mudança de comportamentos, faz-se necessário o uso da teoria das representações sociais, objeto da presente investigação científica. Podemos dizer que na RS não faz sentido dizer que sua constatação é um erro, pois se trata de uma forma de determinado pensamento social cuja especificidade se origina das diversas situações do pensamento e das normas que lhe dão forma. O seu fundamento qualitativo coloca em evidência as opiniões presentes na consciência das mães pesquisadas em relação à sua visão da atuação do profissional de saúde, o pediatra.
Para Moscovici, cada universo das representações sociais compreende três dimensões: atitude, informação e campo de representação ou imagem (MAZZOTTI, 2008, p. 25), sendo possível caracterizar os grupos através de suas representações distintas, seu objeto social e as relações entre a sua teoria própria, definida pela coletividade dos indivíduos que os compõem. Sua perspectiva é dialética, uma vez que é necessário conciliar a quantidade e a qualidade tanto do discurso individual quanto do coletivo, e trabalhar metodologicamente, categorizando as opiniões para se obter um pensamento coletivo que respeite os matizes individuais dos sujeitos participantes.
Embora seja fundamentalmente voltado para a psicanálise, Moscovici (1978)aponta que sua teoria coloca em evidência uma disciplina científica quando esta passa do domínio dos especialistas para o domínio comum. Essa abordagem atua no campo das observações, dando sentido ao comportamento social tornando estas relações estáveis e úteis para os diversos
processos dinâmicos de tais observações. À medida que o discurso coletivo evolui, as expressões se tornam mais precisas. Para Moscovici, “a representação social é uma modalidade de conhecimento particular que tem por função a elaboração de comportamentos e a comunicação entre indivíduos” (MOSCOVICI, 1978, p. 26).
O Paradigma de Moscovici é capaz de representar qualidades de domínios sensoriais dos indivíduos, representando o mundo como ele é ou, como deve ser, provocando o encontro de diversas visões e expressões de sentido: reúne experiências, conceitos e vocabulários que surgem de várias origens, reduzindo a variabilidade dos sistemas práticos e intelectuais.
“Por um lado, a representação toma o lugar da ciência, e por outro, a constituiu (ou a reconstitui) a partir das relações sociais envolvidas” (MOSCOVICI, 1978, p. 78). Seu objetivo, portanto, é absorver um número de significações e materializá-las. Pode ser compreendida também como um modo autônomo de conhecimento e talvez o grande desafio de se optar por este método, seja a comprovação clara e precisa de separar a ideia do mito da representação social, traçando um limite do aspecto essencial da realidade através desta pesquisa, pois “toda ciência é uma forma de opinião” (MOSCOVICI, 1978, p. 248).
A objetivação nas representações sociais designa a passagem de conceitos e ideias para os esquemas concretos de uma realidade social e a amarração, é a constituição de uma rede de significação em torno do tema pesquisado. Sobre o sentido das pesquisas científicas que envolvem abordagem dos sujeitos por meio de questionários o autor afirma que “uma pessoa que responde a um questionário nada mais faz do que escolher uma categoria de respostas; ela transmite-nos uma mensagem particular. Transmite-nos seu desejo de ver as coisas evoluírem num sentido ou noutro” (MOSCOVICI, 1978, p. 49).
Como conclusão, a teoria das representações sociais se propõe a gerar o formalismo espontâneo da ciência com base nos estudos das falas dos sujeitos, contribuindo para a pluralidade de raciocínios, reunidos nos diversos discursos dos sujeitos coletivos através da excelência de uma pesquisa baseada na subjetividade do discurso coletivo. As Representações Sociais mostram que o que está ausente pode ser adicionado e o que está presente pode ser modificado, de modo a que as diversas interpretações de dados científicos revelem a essência concreta dos seres humanos envolvidos.
A notável contribuição científica da teoria da representação social está no fato de que é capaz de provocar o encontro de visões entre o saber científico e o saber comum, que, em um certo sentido, tais visões procuram (MOSCOVICI, 1978, p. 61).