Raimundo Leontino Leite Gondim Filho
“Meu único modo de ser é a in sinuosidade e a in
sinuação.
Não é possível pensar a verdade
exceto como veneno.”
(Sebastião Uchoa Leite)
Das palavras
Quando as quero, do jeito que as quero, escrevo-as, domando-as e sendo por elas domado: leão com o chicote de domador entre os dentes, fera que não se deixa domar, palavras que a noite açoita sem escrúpulos, que o dia sorve sem malícias e que a tarde, bem, a tarde, tudo cai na normalidade das coisas da tarde, ainda assim, nunca é tarde para se querer aquilo que as estações estão sempre sonegando às próximas penitências da carne, e toda carne é palavra lavrada em submersa vontade da alma, essa espécie de corpo desossado pelas horas pretéritas que o futuro, em insana fúria, soterrou. Palavras, quantas andam por aí, de boca em boca, de mão em mão, de folha em folha, árvore esculpida em brancas páginas de longas quimeras. Quantas ainda quero, se mal elas chegam, já pensam em partir, dominá-las, quem ousaria, se na amplitude do desejo arrebentam as comportas de tudo quanto se pode agüentar: palavras, sei, convicto, que as quero em cada momento do dia, seja tarde seja noite, são sempre palavras desejadas, como verbo, elemento ancestral do muito querer.
Do verbo
E assim continua a insinuante vírgula dos descaminhos portentosos de um ponto travesso que, descuidadamente, atravessa a vereda apaixonada das reticências, tal um amor descontínuo, imagem de estrábicas tataranas todas perfiladas em Riobaldo, ser curvado no rio afogueado da hora mais longa de todas as esperas, o verbo Diadorim, que de semente em semente sente a chegada das eternas primaveras do delírio. Perigoso, sim, conjugar é sempre muito perigoso, ainda mais, quando as inclinações soam múltiplas, e são ar de ir a verdades ora em er ora em or de primeiras, segundas e terceiras águas. O verbo na encruzilhada do paraíso. Quem bate na porta do purgatório esbarra e sobrevive aos infinitos infernos do silêncio, grandes verbos são aventuras de férteis silêncios: uma hora em ar outra hora em ir, o ser que beira-rio e lambe estrelas cadenciadas pelo ritmo dos olhos amojados de ternura. Na arcaizante flor do verbo, campos gerais incendeiam cantigas de outras paragens. Cada verbo, dito ou silenciado, é imagem travestida em volúpia, olhar de Riobaldo trespassando o corpo de Diadorim – rio de sonhos na tempestade ausente da cópula: o verbo que de alma faz-se corpo em combustão.
Do corpo
Ainda que alma, corpo. Ruas que alargam palavras, palavras que alongam verbos, verbos que dinamitam segredos: do sótão ao porão, tudo finda em começos. Outros modos de dizer a mesma coisa. Quando o tempo é insuficiente para traduzir a espera, subtrai-se de si mesmo, outras possibilidades de recambiar credos. O corpo é a órbita sentenciosa da alma. De sua tumultuária expressão, nascem os estilhaços bastardos da metáfora: tudo no tempo do corpo são pequenos nadas. Riso farto dos excessos, enchimento de fendas que na dissonância do espaço-tempo procura fundar os signos da maquinaria romantizada do eu-desaforado: aconchego estridente de vastas aliterações, tísicas metonímias, encharcados oxímoros tudo isso transliterado nas sinédoques e catacreses que parem simulacros de verdades. Um corpo, na lindeza de suas mentiras, é sempre uma tentativa de
intervenção. Vale pelo vôo, nunca pelo planejamento do vôo: Ícaro com os seus sonhos descalços, com o seu olhar exausto de tanta terra – perante os esboços, nem sempre vale a pena tentar. Pedir indulgência, esmagalhar as intimidades, esplender em excessos, até alcançar, quem sabe, a cerração dos amores que, não satisfeitos, depõem suas armas nos fiapos triviais de alheios desejos. Um corpo, solto no tempo, é insubsistente, foge para bem ou para mal, das questões percutidas em mera acomodação de imagens – essa explosão de fantasmas.
Do olhar
Libertar-se da ordem e de suas inseparáveis extravagâncias. Como dói a certeza das coisas incertas; como machuca a validade das coisas inválidas; como entedia a urgência do que não nos interessa; como fere (corpo-alma, verbo-palavra) a utilidade do que é inútil; como mente a lógica fundante das questões periféricas; como são porosas as pessoas que se dizem essenciais; como reluzem aqueles que, ocos por dentro, desfilam suas mediocridades a torto e a direito; como são insignificantes os amores que se bastam a si mesmos; como são vazios os credos que dinamitam a solidão alheia; como é desértica a fé que se reduz ao tilintar das moedas; como é vã a pressa dos impacientes e a indulgência dos lerdos. Libertar-se dos cataclismos da ordem com suas flechas certeiras e suas extravagantes desculpas – mire, veja, repare, é tudo para o seu bem. Cruz credo! Arrenegue a bondade exasperante dos certinhos, a orientação miraculosa das bem-intencionadas criaturas plantonistas de alguma ordem. Poder a quem serve, servo servil de olhar medroso. Como é doloroso o poder que se locupleta em infinitas trapaças e, de soslaio, medra penosas condições ao povo; como é ridícula (coitada das cartas) a imprestabilidade do público a serviço do privado: a cumplicidade dos néscios e a boçalidade dos poderosos fazem a festa aqui e alhures, o resto que se dane ou se preferir entre noutra história. Da ordem e pela desordem do olhar, o caos delineia, em timbre impróprio, o seu caminho em linha torta, feito verso, poesia que se entrega sem pudores a um continuum poético de reiteradas reentrâncias, a despeito da mera ordem do dizer, segue.
Da poesia
Como me doem as estorinhas bem delineadas, sofregamente comportadas, plenas de heróis, anti-heróis, de heroínas e vilãs; de vilas, vilarejos, de urbanidades, sertões; de palácios, palafitas; de sofrimentos, sofreguidões; de universos, regiões; de belezas, feiúras, de esplendor, horrores; de explicativas, conexões; de hipóteses, sem sínteses; de mensagens e morais; de anacrônicos, lúdicos causos; de cores, rosas-do- mundo; de sorrisos, bobices sociais; de travessas travessuras, que importa; de cronologias, limites; de ambientes, vãos; de psicologias, mistérios; de segredos, por desvendar; de tramas, tramóias, de becos, barcos, velas, epifanias; de triângulos, traidoras tentações; de nome, insinuações; de males, bens, de bons e maus, um bocado de coisas; de inconfessáveis, confissões; de destinos, carta; de remetentes, receptáculos; de meios e fins; de vera voraz, semelhança; de negativa, aflição, ambígua. Doem essas prosas prosaicas contadas e descontadas em cada canto distraído dos outros, que de tudo falam quando nada dizem; essas aventuras aprumadas que buscam desentortar o mundo – felizmente, vasto em seu hiperbólico delírio. Mas, como doem as histórias, sempre as mesmas, dos que vencem mesmo quando a vitória é o troféu obsoleto da vileza. De algum modo ou de todas as maneiras, importa, para que valha a pena, poetizar o texto efabulado entre rimas, repetições, aliterações, neologismos, exacerbando a trama fabular com hipérbatos, altissonâncias, pontuações e eufonias; este texto-rio desemboca no mar da poesia feito verbo-corpo repertoriado no olhar das palavras que formam a materialidade sígnica do que advém com os pecados, as virtudes, os desejos, as paixões, o amor, a esperança, o medo, a morte e a vida. Driblar a chatura das frases iguais e fugir do lugar comum, alcançar, porventura, a virgindade dos vocábulos e instalar-se na poesia, pois, poesia é sem porquê. Evoé.
TECENDO ALGUMAS CONSIDERAÇÕES ACERCA DO CONJUNTO