O ANALFABETISMO NA VELHICE COMO UM PROBLEMA SOCIAL INVISÍVEL
III. O Elitismo das Universidades da Terceira Idade
Mas qual a validade de se criar “universidades para idosos” num país que necessita urgentemente de políticas de Educação Fundamental para todas as faixas etárias? Por que o Estado, por um lado, incentiva a criação das UNATIs e, por outro, ignora a necessidade de se investir em políticas educacionais destinadas a todas as faixas de idade e que tenham como prioridade erradicar o analfabetismo, que acomete – também e principalmente – a população com mais de 60 anos? Bem, provavelmente para se livrar da responsabilidade de investir em políticas públicas de Educação Básica.
Na verdade, a criação de universidades para idosos, as chamadas “universidades da Terceira Idade” (UNATI) é bastante contraditória, haja vista a alta taxa de analfabetismo existente entre os maiores de 60 anos no Brasil (de quase 35%). As UNATIs geralmente destinam-se a um público de idosos de classe média e alta, não tendo a função de minimizar – e nem ao menos denunciar – o problema do analfabetismo que atinge grande parte dos idosos, principalmente os mais carentes.
É necessário lembrar, contudo, que há diversas formas de “analfabetismo”, que vão além da incapacidade de ler e escrever, como o funcional, o político, o científico e o desconhecimento acerca do cuidado com a saúde e com o corpo, dentre outras (PERES, 2007).
Sendo assim, as leis referentes à educação contidas no Estatuto do Idoso têm um caráter essencialmente paliativo, uma vez que priorizam aspectos elitistas e desprezam problemas sociais urgentes. Assim, a maioria dos idosos não é beneficiada pelas “conquistas” promovidas pelo Estatuto do Idoso na esfera da educação. O mesmo podemos dizer da LDB, que ignora completamente a velhice em seu Estatuto e não reserva atenção especial ao alto índice de analfabetismo que acomete a população dessa faixa de idade.
Se, para Foucault (1997), saber e poder estão relacionados, podemos afirmar que não ter acesso ao conhecimento escolar implica ser excluído também de todo um conjunto de relações sociais fundadas na cultura escrita, tais como a inserção no mercado de trabalho em funções que exigem uma maior qualificação formal, a possibilidade de ampliação do conhecimento e da
capacidade reflexiva através da leitura, dentre outras. Em síntese, podemos dizer que o analfabetismo impede, acima de tudo, a autonomia dos indivíduos.
Assim, é necessário e urgente que o Estado, a Universidade e a Sociedade atentem para essa situação de exclusão vivida por muitos idosos não-alfabetizados, que é cruel e desumana.
IV. Considerações Finais
Os altos índices de analfabetismo verificados entre a população idosa no Brasil são prova de que o nosso sistema educacional está bem longe de contribuir com qualquer forma de emancipação social humana. Ter autonomia é, essencialmente, ter poder sobre si. Para o analfabeto isso não é possível. Ademais, com um tipo de educação caracterizada por estruturas curriculares rígidas e técnicas disciplinadoras, e com uma pedagogia restrita à formação de mão-de-obra qualificada (e adestrada) para o mercado de trabalho, torna-se realmente impossível praticar o que Paulo Freire (2001) chama de “pedagogia da autonomia”, que significa educar para a liberdade e a emancipação.
Contudo, o que a nossa educação pedagógica faz com maestria é educar com a finalidade de oprimir, pois a opressão é coerente com o sistema capitalista. Paulo Freire sabia disso. Para ele, somente uma educação que fosse capaz de romper com a funcionalidade em relação ao Capitalismo poderia contribuir para a formação de indivíduos verdadeiramente livres e autônomos. Infelizmente, a nossa educação escolar só tem servido até hoje para dificultar a emancipação humana, adestrando e disciplinando os cidadãos (FREIRE, 2003).
A educação pedagógica tem nos ensinado a respeitar a ordem (injusta) da sociedade capitalista, a cumprir corretamente nossos deveres políticos e profissionais (para a manutenção da “normalidade” da vida cotidiana marcada pelo trabalho alienado) e a pensar de forma racional e tecnicista. Não podemos esquecer que a ciência iluminista (cartesiana e ideológica) teve um papel fundamental na inovação tecnológica e na reestruturação produtiva do capital, processos que possibilitaram a rápida expansão da produção industrial. Assim,
qualquer ação que vise a levar à emancipação real dos indivíduos deve necessariamente passar pelo sistema educacional, transformando-o.
A educação, como a principal criadora de subjetividade individual, precisa formar indivíduos autônomos, que saibam criticar, criar e transformar com liberdade. Sendo assim, não pode, em hipótese alguma, se restringir à Infância e à Juventude, excluindo outras fases da vida, como a Fase Adulta e a Velhice, realidade esta observada no atual modelo de educação pedagógica.
Por isso, uma educação realmente emancipadora deve ser abrangente (e não restrita e excludente) e andragógica (e não somente pedagógica), incluindo os idosos e adultos mais velhos nas ações educativas. Não só uma educação de jovens e adultos é necessária, ma principalmente uma educação que dê conta das diferenças e particularidades entre jovens, adultos e idosos no processo educacional.
REFERÊNCIAS
ARIÈS, Philippe. História social da criança e da família. Rio de Janeiro: Guanabara, 1981.
ESTATUTO DO IDOSO – Lei n. 10.741, de 2003.
FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir. Petrópolis: Vozes, 1997.
FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2003. ____________. Pedagogia da autonomia. São Paulo: Paz e Terra, 2001. IBGE. Censo 2000: Estatísticas sobre as taxas de analfabetismo entre idosos na região do Alto Oeste do Estado do Rio Grande do Norte.
____. Síntese dos Indicadores Sociais do Ano de 2007.
LDB: Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – Lei n. 9394, de 1996. PERES, Marcos. Velhice, trabalho e cidadania: as políticas da terceira idade e a resistência dos trabalhadores idosos à exclusão social. Tese de doutorado. Faculdade de Educação da USP, 2007.
RAMOS, Marise. A pedagogia das competências: autonomia ou adaptação? São Paulo: Cortez, 2001.
REPRESENTAÇÕES SOCIAIS E IMAGINÁRIO DE PROFESSORES SOBRE