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As ruas: nuvem de discursos e nuances sociais

CONTEMPORÂNEA: MILITANTE E/OU ATIVISTA, EIS A QUESTÃO (?)

1 AO BRASIL NAÇÃO, JUNHO DE

1.1 PODERES OBLÍQUOS: ENFRENTAMENTO E VIOLÊNCIA

1.1.2 As ruas: nuvem de discursos e nuances sociais

Na sequência das manifestações, no dia 20 de junho as marchas se espalharam por mais de 100 cidades, com mais de 1,2 milhões de pessoas. Dois dias antes (18/6) um pronunciamento, em cadeia nacional, da presidente Dilma Roussef, onde reconheceu a legitimidade dos protestos e propôs a realização de reforma política, pareceu ter incentivado o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad (PT-SP), a admitir pela primeira vez a possibilidade de revisão do valor da tarifa dos ônibus, o que de fato se concretiza um dia depois (19/6), descarrilhando sucessivas revogações no Rio de Janeiro, Aracaju e Belo Horizonte, seguidas de Curitiba e Campina Grande (20/6). Contudo, neste ínterim, episódios de violência generalizada faz o MPL-SP

reconhecer o descontrole da situação e declarar que não mais convocará atos. Todavia, esta declaração não impede que tais eventos continuem se alastrando, embora a partir daí se revelasse uma ausência de centralidade na estratégia, que podia ser observada na pluralidade de pautas, no discurso “apartidário” e pluripolítico – dada a adesão de outros grupos sociais, que a despeito de um suposto universo homogêneo de manifestantes e de ação juvenil, encobre a expressão heterogênea da realidade social, política e econômica da nossa sociedade (CHAUÍ, 2013). Tal ausência de centralidade e a consequente fragmentação destes eventos é perfeitamente previsível se pensarmos na perspectiva de novos movimentos sociais, ou mesmo, em redes de mobilização social (GOHN, 2010; SCHERER-WARREN, 2014), na medida em que são uma realidade recente onde se acomodam uma série de pequenos grupos, sendo isso inerente à natureza ideológica destas ações coletivas, que operam nos interstícios da diversidade e do pluralismo cultural.

Em 24 de junho, a presidente Dilma Roussef realizou duas reuniões para pensar conjuntamente as reivindicações trazidas pelos protestos: uma com representantes do MPL, onde foram chamados para apresentar a pauta de reinvindicações do movimento e discutir a problemática do transporte público, bem como a viabilização de propostas para implantar gratuidade; a outra se deu com governadores e prefeitos das capitais para discutir a extensão das manifestações. Na oportunidade, Roussef propõe cinco pactos nacionais: (1) pela responsabilidade fiscal e controle da inflação, como garantia de controle econômico; (2) pela instalação de um plebiscito para formação de constituinte sobre a reforma política; (3) pela melhoria na qualidade do transporte público; (4) pela qualidade da prestação dos serviços públicos de saúde, com a proposta de ampliação da contratação de médicos até 2015; e (5) pela melhoria da educação pública. Concomitantemente, o Congresso Nacional, na mesma intenção de responder às “vozes da rua” deu início a votação e aprovação de pautas antes engavetadas: a qualificação de corrupção como crime hediondo (PLS 204/2011); inclusão do transporte público como direito social (PEC 90/2011); redução de exigências para apresentação de Projetos de Iniciativa Popular (PEC 03/2011 e PEC 45/2011); veto à PEC 37 e garantia para que o Ministério Público continuasse a conduzir investigações criminais (PUJOL; ROCHA; SAMPAIO, 2014).

Ao se pensar nas nuvens de discursos que pairavam sobre as ruas, podemos notar um certo clamor esquizofrênico que se fazia por dois vieses: de um lado, vozes progressistas ensurdeciam os ouvidos do Estado ao gritar por mais direitos; de outro, uma forma de expressão conservadora resumia tudo à corrupção e rechaçavam partidos políticos, numa explícita rejeição

à sua legitimidade como instituições republicanas e democráticas, portanto negando as possibilidades de mediação institucional, função a eles imanente (CHAUÍ, 2013). Ora, quando notamos um discurso essencialmente fundado na corrupção, lembramos que essa sempre foi a mensagem ideológica transmitida a se perder de vista pelos meios de comunicação, sendo todos os partidos políticos corruptos por natureza. Assim, apesar do uso das redes enquanto via alternativa aos meios de comunicação outrora criticados, boa parte dos manifestantes aderiu à mensagem ideológica propagada por aqueles, de modo que, em vias paralelas, seguiam em marcha o discurso reacionário adotado por uma classe média conservadora e o discurso progressista das classes populares que exigia mais direitos.

Nesse sentido ao esquadrinhar dados dos principais institutos de pesquisa, Singer (2013) aponta para um perfil majoritário dos manifestantes em todo país: compunham a massa 80% de jovens, entre 12 e 25 anos, ou jovens adultos, entre 26 e 39 anos, sobretudo quando se observa o dia 20 de junho, quando as manifestações se espalham pelo país. Destes, cerca de 50% possuíam renda familiar abaixo de cinco salários mínimos; mais de 70% estavam no mercado de trabalho. Em contrapartida, comparando a média nacional de nível escolar estimada pelo Ministério da Educação em 2011, que diz ser de apenas 15% a presença de jovens na universidade, o autor observa que mais de 70% dos manifestantes cursavam o nível superior16. Desse contingente, a maioria (62%) tomou conhecimento das manifestações pelo Facebook e 75% convidou amigos pelas redes sociais. Em vista disso, o autor levanta a hipótese de que

[a composição social das manifestações de junho foi] tanto expressão de uma classe média tradicional inconformada com diferentes aspectos da realidade nacional quanto um reflexo daquilo que prefiro denominar de novo proletariado (...): trata‑se dos trabalhadores, em geral jovens, que conseguiram emprego com carteira assinada na década lulista (2003‑2013), mas que padecem com baixa remuneração, alta rotatividade e más condições de trabalho (SINGER, 2013, p. 27)

Ao que parece e em certa medida, do ponto de vista político, foi possível notar uma apropriação do discurso reacionário pelos grupos populares, capitaneada pela grande mídia e disseminada pela classe média tradicional. Ao negar a legitimidade dos partidos enquanto mediadores institucionais, vê-se estabelecida a brecha através da qual o discurso midiático se aproveita para reacender a centelha do rechaço aos governos populares, neste caso o PT e a figura da presidente Dilma Roussef. Afinal de contas, numa pertinente reflexão sobre o papel dos meios de comunicação no Brasil em comparação com sua atuação nos países

16 Para André Singer, esse contraste entre renda familiar baixa e alta escolaridade, pode estar relacionada a políticas

públicas voltadas para a educação nas últimas décadas, como o PROUNI, a ampliação de vagas nas universidades públicas, inserção de cotas para afrodescendentes e indígenas, bem como a explosão do ensino superior privado. Tais fatos fizeram a quantidade de ingressantes nas universidades saltar de 1 para 2,3 milhões, ao ano, de 2001 à 2011.

industrializados, Santos (1989) sugere que aqui “(...) não trabalham com a hipótese de uma sociedade onde predominam as noções de igualdade, de universalidade (...)” (p.56), visto que, a partir da problematização das noções de indivíduo e pessoa, e da hierarquização e desigualdade social sugeridas por uma possível posição superior que este último ocupa na sociedade, os governos populares nada mais são que uma composição de insurgentes que não se colocam em seus devidos lugares e que buscam uma equidade a que não têm direito. Como já é sabido, tal posição ideológica assumida pelos meios de comunicação tem menos interesse em veicular a criação de uma prática inovadora que coíba estruturas públicas de cometer a corrupção, que garantam participação, representação e controle de interesses públicos e direitos cidadãos, do que trazer para si o monopólio das funções do espaço público em favor dos seus interesses privados, capitalistas que são.

Nesse sentido, ao tratar de um “pensamento mágico” que emana da participação nas redes sociais, e que foi às ruas, Marilena Chauí (2013), problematiza entre outras questões, essa recusa às mediações institucionais ao lembrar que a democracia sem representação partidária assemelha-se aos governos ditatoriais, onde se concentra na figura de uma pessoa o poder ilimitado e absoluto. Talvez nisto se explique o fato de, não raro, vermos nas manifestações que se sucederam após o segundo mandado de Dilma Roussef, uma frequente invocação da ditadura militar, enquanto seus simpáticos, enrolados na bandeira nacional - que já figuravam nos eventos de junho -, vociferavam: “minha bandeira é o meu país”.

Em termos econômicos, a carestia que já avançava sobre os setores médios em meses que precederam as manifestações poderia explicar, de certo modo, as insatisfações postas às ruas em junho. Contudo, para Singer (2013),

Sozinha a inflação não teria [...] potencial para fornecer o combustível dos protestos, mas ela pode ter potencializado as inúmeras críticas que os setores médios, tanto à esquerda quanto à direita, faziam ao lulismo, já aguçadas pelas difíceis condições de vida urbana, em particular nos quesitos mobilidade e segurança. (SINGER, 2013, p.34)

Retomando a proposta de perfil social das manifestações de Singer (2013), flutuante entre uma classe média tradicional e o “novo proletariado”, ao utilizar dados do Datafolha, constata-se que no dia 20 de junho de 2013, manifestantes de São Paulo apresentavam a seguinte orientação política: 22% eram de esquerda; 14% centro-esquerda; 31% centro; 11% centro-direita; 10% direita; 13% não tinham orientação. Para o autor, prevalece a posição de centro, capaz de abrigar tanto as demandas da esquerda – gastos públicos em favor do capitalismo, mazelas da vida urbana -, quanto as da direita, expressas no discurso anticorrupção relacionado às carências sociais, rejeição aos partidos políticos e ilegitimidade de mediação

institucional. Bem verdade é que, como no caso espanhol com o movimento dos Indignados, a esquerda no Brasil não perde adesão para direita, mas para as posições de centro, o que provoca a partir daí uma disputa institucional entre PT e PSDB, e posteriormente, o próprio PMDB.