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Sentidos e tendências das Jornadas de Junho

CONTEMPORÂNEA: MILITANTE E/OU ATIVISTA, EIS A QUESTÃO (?)

1 AO BRASIL NAÇÃO, JUNHO DE

1.3 SUJEITO-MOVIMENTO (PASSE LIVRE): TESSITURAS DE UM NOVO AGIR POLÍTICO/SOCIAL

1.4.3 Sentidos e tendências das Jornadas de Junho

Em torno das dificuldades de interpretação e análise de processos de atuação política marcados por uma emergência transitória, cuja continuidade se verifica até os dias de hoje, procuro neste ponto, relacionar algumas mudanças e sentidos, que inegavelmente brotaram destes acontecimentos. Nesse sentido, é imprescindível fugir de uma análise comum aos sentidos hegemônicos, que revela uma dificuldade de dar o devido lugar de destaque a tudo que foge da perspectiva vertical e centralizadora e que imputa a movimentos horizontais e descentralizados em busca de autonomia e democracia participativa, a mesmice de enquadramentos únicos e homogêneos do social e das pessoas. Assim, para além da revolta e indignação inicial causada pelo aumento das passagens, as manifestações reverberaram no país em torno de uma pauta plural, traduzindo os anseios da população pela revisão das bases democráticas existentes, tal qual de uma classe governamental de postura fisiológica, que prioriza interesses da classe empresarial, em detrimento da população, negando-lhes o direito a qualidade de vida. Sobre a necessidade de que o povo reivindique seu direito à participação nas decisões que envolvem a vida pública, Milton Santos apud Tendler (2001) declara

Nunca a humanidade experimentou condições técnicas e científicas tão adequadas a produzir um mundo da dignidade humana. Apenas essas condições foram expropriadas por um punhado de empresas que decidiram construir um mundo perverso. Cabe a nós fazermos dessas condições materiais, a condição material de uma outra política (SANTOS apud TENDLER, 2001).

A esperança da “condição material de uma outra política”, começa com pequenas manifestações, a partir de pequenos pontos focais já nos primeiros meses de 2013. Num piscar de olhos, reverberaram por todo o território nacional, com a ajuda das redes sociais, que entre nós e hubs, se constituíram em novas arenas de discussão democrática e articulação das lutas, transcenderam os espaços de fluxos e alcançaram os espaços públicos. Longe de enxergá-los como novos mitos fundadores, dos quais a nossa história sempre foi permeada, procuro me precaver da falta de memória histórica ao desconsiderar lutas de igual importância social travadas em períodos anteriores, inclusive, pelas mesmas causas. Neste ponto a primeira urgência é fugir de uma espontaneidade das manifestações, como se elas tivessem brotado subitamente a partir de fatores pontuais e externos – aumento das passagens, articulações nas redes sociais ou mesmo a repressão policial – e de pautas descentralizadas. Não se pode esquecer que o MPL, personagem fundamental nas Jornadas de Junho, tem uma trajetória de dez anos de lutas pelo transporte público e pela mobilidade urbana, contribuindo ao longo dos anos para a difusão de debates acerca das reais possibilidades da tarifa zero. Sobretudo, não se

pode prescindir da historicidade de trajetórias e sentidos de revoltas relacionadas ao sistema de transporte coletivo, já mencionadas anteriormente, que ocorrem muito antes da década de 30, uma vez que “percorrer os caminhos dos fluxos de inspiração que cada mobilização produz sobre as outras nos fornece elementos para irmos além da face visível das manifestações” (LACERDA; PERES, 2013).

Ao tratar as recentes manifestações sob a perspectiva de “movimentos iniciadores” e “movimentos derivados” (BRINGEL, 2013), fica evidente que as Jornadas de Junho de 2013 se beneficiaram de um acúmulo produzido por manifestações anteriores que, definitivamente, entre convergências e afastamentos, produziram um nova cultura política ao introduzir novas formas de lutas e de organização que desvelaram o descompasso e a incapacidade, por parte das instancias representativas vigentes, de responder aos desafios impostos por uma nova ordem social. Assim, ao assumir uma direção coletiva em detrimento da individual, ao destacarem a horizontalidade, ao rechaçar categoricamente uma cultura organizacional burocrática, ao priorizar o consenso para que maiorias não fossem consolidadas e ao impor sua autonomia frente ao Estado e aos partidos políticos, promovem um momento de abertura societária no país e com ela uma nova proposta de ativismo social, em que outros atores se uniram para trazer suas próprias reivindicações sem, contudo, manter laços, repetir formas, referências ideológicas ou repertórios de ação com aqueles que iniciaram as mobilizações (ZIBECHI, 2013; BRINGEL; PLEYERS, 2015). Inaugura-se uma nova gramatica social e histórica, interpretada pela sociedade e por grupos sociais. Essa produção muito tem a ver com os imbricamentos entre militantes de esquerda e direita, bem como uma polarização destas ideologias que destacam um aprofundamento do experimentalismo cultural e político. Em meio a tensões e contradições, surgem novos horizontes de rasuras no sistema dominante onde “(...) nenhum tipo de narrativa unificada se colocou de saída como modelo para a formação de um movimento” (NOBRE, 2013, p.4).

Um segundo ponto que gostaria de abordar aqui está relacionado com as especificidades do caso brasileiro no que diz respeito as relações que se estabelecem entre o local e o global. Dessa forma, a despeito das manifestações no Brasil insurgirem-se no esteio dos movimentos multitudinários que se capilarizavam ao redor do mundo desde os finais de 2010 – como a Primavera Árabe, o Ocuppy Wall Street, nos Estados Unidos e os Indignados, na Espanha, por exemplo – é importante considerarmos as dinâmicas de manifestação no Brasil observando suas especificidades, sobretudo considerando as diferenças regionais. À época das manifestações ainda não havia a incidência de crises políticas e econômicas, que logo vimos irromper nos anos

seguintes, depois das eleições de 2014. Após a corrida progressista, marcada por um primeiro momento de redemocratização do país em busca da superação dos anos ditatoriais, e uma suposta estabilidade econômica e política alcançada no governo Lula e continuado na primeira gestão da presidente Dilma Roussef, parecia não haver “problemas no paraíso” (ZIZEK, 2013). Dessa forma, no Brasil, as manifestações surgem com um caráter proativo, em contraposição a situação de outros países:

Enquanto na Europa e nos Estados Unidos a indignação recente esteve relacionada a um “repertório reativo” (TILLY, 1978) de ações coletivas – defesa de direitos conquistados historicamente –, aqui estamos diante de um repertório proativo” de ações coletivas – reivindicação de novos direitos (ou simplesmente execução de direitos já reconhecidos, como muitos dos contemplados na Constituição de 1988) (BRINGEL, 2013).

A internacionalização no Brasil de modos contestatórios internacionais se deu sob a perspectiva dos atores políticos, de forma individual e coletiva: priorizou-se uma conexão efêmera em detrimento do intercâmbio constante e dialógico de práticas em ações contestatórias. Ao manter os velhos discursos de direita, avivados por algumas posições nacionalistas que tiveram espaço na manifestações tivemos bloqueadas as possibilidades de engendrar algo além de marcadores discursivos nacionais sobre o Estado-Nação e da utopia nacional de um “Brasil melhor”, que ao fim e ao cabo, quer dizer: continuemos demarcando as diferenças entre pessoas e indivíduos, colocando todos em seus devidos lugares; continuemos garantido as desigualdades abissais, promovendo para uns a proliferação de seus bens e sua capacidade de consumo, e lançando ladeira abaixo toda possibilidade de inflexão social que possibilite indivíduos a prescindirem da condição de “restos humanos” e acenderem na pirâmide social, como vinha acontecendo. Afinal, quem eles pensam que são? Melhor assim para prosseguir com a naturalização do Estado-Nação, do ponto de vista de estado hegemônico, que perpassa a economia e a política brasileiras, e garantir o reforço do capital-imperialismo.

Por outro lado, ao se considerar as especificidades dos locais onde as manifestações se deram, percebíamos diferenças de demandas e críticas específicas à política local e regional – em Salvador, por exemplo, existia um latente questionamento sobre a entrega do metrô, que embora estivesse relacionada a questões da mobilidade urbana, trazia o desgaste ocasionado por 13 anos de obras atrasadas e escândalos envolvendo desvios de verbas à ele destinadas. Bringel (2013) nos chama atenção para a importância de apreender os impactos diferenciados das mobilizações em cidades que possuem uma maior capacidade de influência na delimitação de cenários, ao recordar que apesar das manifestações estarem ocorrendo no Brasil desde o início de 2013, foi em São Paulo se deu o estopim para o levante de junho. De igual modo, as

manifestações em Salvador ocorreram, num primeiro momento, em solidariedade as manifestações de São Paulo, para depois adquirir o fôlego necessário para as imposições de demandas locais. Contudo, ao cessar as manifestações paulistas sobre a batuta do MPL SP, o movimento soteropolitano começa a perder força, culminando na desocupação da câmara com algumas pautas atendidas, mas sem a revogação do aumento.

Para além da política de resultados, é necessário olhar os acontecimentos de junho de 2013 ultrapassando os limites dos campos político-institucional e eleitoral, uma vez que mais que resultados aparentes, gerou importantes impactos sociais e culturais (BRINGEL; PLEYERS;2015). A reconfiguração dos grupos sociais e a geração de novos enquadramentos sociopolíticos, permitiu abalos nas posições, visões e correlações de forças entre partidos, ONGs, sindicatos, movimentos sociais e coletividades; ocorre um realinhamento, uma revisão de valores e trajetos políticos buscando um (re) posicionamento ante uma nova conjuntura. Novas nuances vão se delineando na tela da vida social de modo que um (re) pensar, tanto individual, quanto coletivo, direciona atenções à qualidade de vida nas cidades, à interferência e manipulação midiáticas, à violência social e estatal - que coloca na corda bamba da desesperança, jovens negros, mulheres e todo um contingente social que vive às margens -, à homofobia, à misoginia. Estão instituídos novos devires quanto à vivência social que conduzem a uma reconversão do viver em comum, do (bem) estar comum, permitindo uma crescente politização da vida cotidiana:

São processos de reelaboração da vivência social que produzem, paulatinamente, res- significações das constelações semânticas da sociedade a partir de experiências diversas de politização da vida cotidiana, a maioria delas invisíveis à mídia e aos intelectuais de escritório (BRINGEL; PLEYERS, 2015, p. 11).

Ao tomar as redes como fonte de informação diversa e produtora alternativa de notícias, que possibilita e amplia a arena de discussão com outros, vimos nascer um ator político que expõe suas opiniões de forma aberta, compartilhada e alternativa. Essa constatação nos leva a outra igualmente importante: a quebra do monopólio das mídias tradicionais. O contrapoder que brotou das ruas força uma mudança de situação: a credibilidade da mídia hegemônica necessita da legitimação da base da pirâmide social. A reação ao menor sinal da ameaça, generaliza manifestantes e os transforma em “vândalos”. Impossível encobrir a aurora de novos tempos, marcados por deslocamentos nas dinâmicas de mobilização e ressignificação de processos relacionais e interativos. Em meio a conflitos, pluralidade, viralização de ideias, ideais e ações, identidades multirreferenciais insurgem-se e manipulam a política pelo viés da

cultura nos processos de engajamento político. Muitas interferências artístico-culturais58

independentes permearam os dias de protesto. Castells (2013, p. 85) nos aponta alguns efeitos importantes presentes nos movimentos sociais da Sociedade da Informação, que nos apresenta um viés de uma cultura política de debate e ativismo, fomento ao pensamento crítico e mudança de atitude cívica, dentre eles a criatividade político-artística. O poder de tais narrativas produz novos contextos de arte e significado, fazendo da cultura instrumento de mudança política pela via de condução da estética. Assim, os impactos culturais oriundos de movimentos como este propõem uma ruptura com uma cultura política da apatia e possibilita uma crescente de participação popular.

Ao olhar as manifestações pela perspectiva do ator político, notamos mudanças biográficas relacionadas à trajetória de ativismo; uma introspecção, que de um lado resultou em uma estreia no engajamento e participação política, e de outro, a reavaliação das variantes e dos marcadores de um envolvimento político já maduro (BRINGEL; PLEYERS, 2015; NOBRE, 2014). Esse ator político, que se movimenta e se articula nas ruas, apresenta uma nova maneira de viver a democracia, para o qual ela deixa de ser um regime político e se converte em forma de vida. Nesta perspectiva, a sociedade pergunta para a sociedade: como faremos para transformar a nós mesmos de modo que, a partir daí, possamos transformar o sistema político? Como transformar a nossa vida cotidiana em uma vida mais democrática e participativa? As respostas ainda pairam no curso continuado dos acontecimentos. O que se sabe é que a experiência das “Jornadas de Junho” representou o marco dos primeiros contatos com um mover político de jovens que tiveram presença maçante nas mobilizações, e que, a despeito da fluidez e transitoriedade dos acontecimentos, produzirá maior propensão em engajamentos futuros, o que modifica a médio ou longo prazo a perspectiva de suas identidades sociais e de seus valores políticos. Talvez aqui esteja o grande legado dessas manifestações.

Chegando ao final deste capítulo, me deparei com a seguinte questão: Como seguir adiante tendo em vista que o corpus desta pesquisa sofreu ao longo do percurso das manifestações fragmentações que resultaram na existência de quatro novos coletivos? A proposta desta pesquisa nasce a partir das implicações de uma nova perspectiva de ator político em meio as manifestações de Junho de 2013, tendo como pano de fundo o MPL Salvador, sobretudo levando em consideração as novas configurações de movimento social na

58 Leituras de poemas, canto, performances de dança e a troca de nome do Monumento Luís Eduardo Magalhães

para Monumento Carlos Mariguella, são exemplos de algumas intervenções ocorridas nos protestos que se seguiam na capital baiana.

contemporaneidade, marcadamente horizontais, autônomos (sem liderança estabelecida) e multitudinários. Como verificamos no decorrer dos protestos e reuniões em assembleias a grande questão era o afastamento dos princípios que regem a atuação do MPL Nacional e seus federados já discutidos ao longo deste capítulo. Embora o coletivo MPL Salvador permaneça com o uso do nome, apesar de ter protagonizado a celeuma do sequestro da sigla, o mesmo segue em desacordo com os princípios do movimento, congregando membros partidários, apoiando candidatos destas instituições, comumente da esquerda tradicional, e agindo por vias parlamentares, ainda que essa atuação relacione os temas da mobilidade urbana. Desta forma, a pesquisa segue tendo como pano de fundo o Coletivo Tarifa Zero Salvador (CTZ Salvador), que congrega alguns dos membros mais antigos do MPL Salvador em sua primeira formação (2005-2008), e único representante regional aceito formalmente pelo MPL Nacional, permanecendo federado até o momento.

No próximo item, discorremos sobre possíveis ressignificações de identidades a partir de enquadramentos semânticos, considerando novos contextos em relação as trajetórias de participação política na liquidez contemporânea.

2 NOTAS SOBRE O SER OU NÃO SER NA LIQUIDEZ CONTEMPORÂNEA: